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O inconformismo e a cesta de legumes

Por Noemi Jaffe

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Amós Oz por Piet van den Boog.

Como curar um fanático, livro recentemente reeditado de Amós Oz, tem um título bem-humorado, pois trata o fanatismo como se fosse uma doença passível de cura. Talvez não o seja, porque, na verdade, deve ser um tipo de patologia dessas irremediáveis.

Mas, se houver possibilidade de reversão, Amós Oz propõe, no mínimo, duas receitas: o humor e a curiosidade.

Sua ideia sobre como utilizá-los para curar fanáticos está no livro.

Gostaria de desenvolvê-las, aqui, sob o ponto de vista mais específico da literatura. Claro que nem ousaria chegar a seus pés, mas, ultimamente, nós brasileiros temos tido uma experiência de convivência com o fanatismo que nenhum de nós esperava ter. Então, talvez, esse ponto de vista também possa entrar no rol das prescrições curativas.

Em primeiro lugar, a curiosidade.

Para alguém ser escritor, ou mesmo um leitor, a curiosidade e o inconformismo são imprescindíveis. É preciso perguntar-se: “por que as coisas são ou não são assim?” e, também, “como elas seriam se assim não o fossem?”. Ao tentar responder essas perguntas, o que o escritor faz é criar uma nova vida. Um novo objeto vivente: a história que se conta. Ela é ficcional, mas está viva e fala da e na vida, mesmo quando inverossímil, absurda ou surreal.

Em função dessa dinâmica, digamos assim, metabólica e sanguínea, os romances e contos são muito mais concretos do que abstratos, da mesma forma como a vida sensível o é. O leitor de um romance vive o medo, a dor, as preocupações, a dificuldade de pagar a conta de água, o preconceito, a dor de corno, a velhice e a coceira na orelha que sentem os personagens. Ele vê e ouve a paisagem, o confinamento da prisão, a mulher e o homem desejados, os ruídos do caminhão de gás na China, as montanhas andinas e a sujeira de uma rua no Paquistão. E é essa vivência vicária, a vivência da vida do outro, que faz com que o horizonte interno do leitor e do escritor se ampliem, com que ele, efetivamente, conheça concretamente a compaixão, a “co-pathos”, a dor do outro, não de forma teórica, mas concreta e viva.

Ora, se concordarmos que o fanatismo é uma prática quase religiosa, derivada da incapacidade de reconhecer o outro ou a perspectiva de quem pensa diferente de si, a literatura seria, ainda que involuntariamente, uma forma, a partir da curiosidade, de “curar” essa obtusidade, esse estreitamento do olhar. Se sinto em minha pele a dor por que passa um negro nos Estados Unidos de década de 50 — se não sei “sobre” a dor, mas sei “a” dor —, tenho mais chance de compreendê-la e de ajudar a combatê-la.

Em segundo lugar, o humor.

Na Grécia Antiga, mais especificamente na Poética, de Aristóteles, a comédia é considerada um gênero inferior à tragédia. A segunda teria a função catártica, purgativa, de expulsar as paixões negativas dos espectadores, por meio do modelo punitivo. Quem desafia o destino é duramente punido. Portanto, aceite o que determinam os deuses. Já à comédia restava um papel de entretenimento, saudável, mas menos elevado.

Entretanto, pode-se também dizer, agora passados mais de dois mil anos, que a comédia tem, em certa medida, um lugar, digamos assim, mais “maduro” em relação à tragédia. É como se na comédia o texto e os personagens compreendessem que o destino de todos, irremediavelmente, é fatal: a morte. Estamos todos condenados ao mesmo pó indistinto e, por isso, podemos rir da solenidade e austeridade da vida e de suas determinações fixas. Abre-se um espaço relativista, uma brecha perspectivista, porque cai por terra a bandeira do absoluto, da totalidade que paira sobre nossas cabeças. É possível rir da vida e da morte.

Rir de si mesmo pode ser um remédio para o fanatismo também. O fanático, segundo Amóz Oz, não ri. Está “tomado” pela seriedade de sua causa. Como ele se leva a sério demais, acaba por não levar o outro em consideração, porque o outro existe somente para ser descartado.

Finalmente, se o fanatismo adota a ideia de que os fins justificam os meios, e se comporta nesse sentido, em que valem quaisquer práticas para justificar uma causa última, a literatura está convencida de que são, ao contrário, os meios que justificam os fins. Ou seja, é pela prática dos caminhos, daquilo que se constrói enquanto se está construindo, que se saberá, se é que se saberá, quais são os fins. O fim é determinado pelo itinerário que se toma, sempre aberto a novas possibilidades. Ou seja, o fim e o meio acabam sempre por coincidir, como na vida, como em cada momento.

Vá até a rua. Olhe cem metros à frente. Quem você vê? É um desconhecido? O que ele está fazendo, sentindo, pensando, desejando? Tente responder essas perguntas. Se ainda assim você considerar que sua “causa” é mais importante do que essas perguntas, parabéns, você está no caminho para se tornar um fanático. Mas, se você considerar que as respostas a essas questões valem mais do que mil totalidades absolutas, que uma cesta de legumes vale mais do que o socialismo ou o capitalismo juntos, parabéns também, talvez você esteja no caminho de escrever um romance.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela USP e crítica literária, é autora de A verdadeira história do alfabeto, vencedor do Prêmio Brasília de Literatura, O que os cegos estão sonhando? e Írisz: as orquídeaslançado em 2015 pela Companhia das Letras.
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Infinitude do real

Por Noemi Jaffe

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Ilustração: Tereza Bettinardi

No mesmo dia em que se concluía a revisão de Írisz: as orquídeas, romance meu que será lançado em maio, fiquei sabendo da morte de Armênio Guedes, que eu entrevistei um ano atrás justamente para compreender melhor o personagem Martim — brasileiro e, como Armênio, comunista dissidente.

Eu precisava entender o que significou, para a militância de esquerda brasileira, a invasão soviética na Hungria em 1956, um dos temas centrais da narrativa do romance. Sabia, em teoria, da ruptura que essa entrada dos russos em Budapeste tinha provocado. Mas queria conhecer a subjetividade dessa frustração, o alcance pessoal e concreto da dissidência.

Armênio me recebeu em sua casa, em São Paulo, onde passava os dias ouvindo música clássica, lendo e recebendo amigos e a família. Estava com 96 anos, reclamando muito de uma intervenção médica malsucedida e culpava o médico por sua audição deficitária e alguns outros problemas de saúde. Mas não era mau humorado. Tampouco carinhoso em excesso. Altivamente generoso, talvez. E isso, para mim, foi o mais importante, porque me ajudou a compor melhor a personalidade de Martim, que, como Armênio, é um homem rigoroso, mas não rígido; fraterno, mas não sentimental; simples, mas não simplista.

A dissidência de Guedes com relação a Prestes (de quem foi amigo e assistente) nunca representou renúncia a seus ideais de esquerda. Disse que, aos poucos, foi se tornando cada vez mais um gramsciano e me explicou, cuidadosa e dignamente, o que isso queria dizer, ao menos em seu caso. Me falou de todas as dificuldades por que passou o partido comunista no Brasil, seu período áureo e os tempos de censura e repressão. Me falou de seu irmão que, preso pela ditadura e com pavor da tortura, ameaçou estrangular quem o interrogava para poder ser morto a tiros e, assim, evitar ser torturado. Mas falava tudo isso com calma; sem nostalgia nem pesar, como cabe a uma consciência política que, mesmo depois dos 90 anos, continuava ativa e confiante. Gostava muito de Dilma, de Lula e de Fernando Henrique e dizia que o país nunca esteve tão bem, mesmo acompanhando todos os problemas que vinham acontecendo. Admirava muito Juscelino, que dizia ter sido um presidente verdadeiramente democrático, durante cujo mandato Armênio e o comunismo tiveram total liberdade de expressão.

Meu objetivo, ao encontrá-lo, além de estudar a história do comunismo no Brasil, suas divisões internas e sua continuidade, era, sobretudo, o de dar consistência particularizada a Martim, na medida de uma vida em ato e gesto e não em pensamento ou especulação. Armênio Guedes achava que o comunismo gramsciano levaria o país a um socialismo maduro e democrático. Foi nisso que ele acreditou e achava, quando eu o encontrei, que a evolução dos atuais governos estaria nos levando a esse caminho.

Como todo bom socialista, Armênio era um otimista. E, nesse otimismo, na dignidade simultaneamente orgulhosa e humilde de quem ajudou a construir a história da esquerda no Brasil, eu conheci um homem íntegro.

Espero que Martim também seja assim e que a memória de Armênio Guedes resista e seja honrada num personagem que é ficcional mas que, por isso mesmo, pode nos remeter à infinitude de detalhes do real.

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irisz2ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS
Sinopse: Com a entrada da União Soviética na Hungria, em 1956, Írisz foge de Budapeste, deixando para trás a mãe doente e um passado cheio de lacunas. Quando chega a São Paulo para estudar as orquídeas, essa mulher singular e indecifrável logo encanta Martim, diretor do Jardim Botânico. Agora que Írisz desapareceu, ele terá de preencher seu vazio com os relatórios nada ortodoxos deixados por ela, que transitam entre as particularidades da língua húngara, a crise da utopia comunista, memórias pessoais e algumas observações — bastante inusitadas — sobre as orquídeas. Com o trabalho meticuloso da palavra que lhe é característico, Noemi Jaffe oferece uma trama rica e envolvente, que investiga os limites da ideologia e as agruras do amor.

Írisz: as orquídeas será lançado em maio.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela USP e crítica literária, é autora de A verdadeira história do alfabeto, vencedor do Prêmio Brasília de Literatura, e O que os cegos estão sonhando?, entre outros.
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O ciúme, a janela e o zelo

Por Noemi Jaffe


Grafitti de Banksy

Dizem que a etimologia é uma ciência (pseudo-ciência? prática? saber?) conveniente para aqueles que, como eu, não têm muito apego à precisão. Em caso de dúvida sobre a origem de alguma palavra, encontre uma etimologia provável — e isso não é muito difícil — e tudo se encaixa. Assim, a origem da palavra “instante” pode ser, por exemplo, “aquele que insta” e, nesse sentido, o instante seria a mais urgente das unidades temporais. É poético e persuasivo, mas deve ser bobagem.

Agora, ninguém me convence que fantasio quando percebo uma estreita relação etimológica e, por tabela, também filosófica e/ou psicanalítica, entre as três palavras que dão título a este texto.

“Ciúme”, em português, vem do latim “zelumen” e, mais tardiamente, “zelus”, que é quase como a palavra para ciúme em espanhol: “celo”. Celo, celume, ciúme. Ao mesmo tempo, a sonoridade de “celo” se aproxima de “jealous”, do inglês, “gialosia”, do italiano, “jaloux”, do francês, todos provenientes de “zelus”, que também significa cuidado, posse, avareza. É fácil reconhecer esse zelus que também derivou, no português, no conhecido “zelo”. Daí, por exemplo, “zelador”. O zelador seria, na verdade, um cuidador ciumento, possessivo e avaro de alguma propriedade, que, do ponto de vista etimológico, são a mesma coisa, já que aquele que zela, ou cuida, é também aquele que controla de forma avara e egoísta.

Dizemos admirar o atributo do zelo, mas o que queremos é que os zelosos nos protejam do mundo lá fora, pois, sob sua guarda, nós e nossas coisas passamos a ter um proprietário, com todas as vantagens e desvantagens do inquilinato. A preocupação e a responsabilidade, assim, são problemas deles. Mas o zeloso seria, pela etimologia, um egoísta disfarçado de altruísta cuidadoso. Ora, não seria essa a definição de “ciumento”?

E a janela?

“Janela”, em italiano e também em português antigo, é “gelosia”. E qual seria a relação, além daquela estritamente sonora, entre “gialosia” e “gelosia”? Fácil. Vejamos a definição de gelosia no dicionário: “Grade de fasquias de madeira que se coloca no vão de janelas ou portas, para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto”. Qualquer semelhança com ciúme ou com zelo não é mera coincidência.

Dizem que a “gelosia” como “janela” vem do árabe. Era um tipo de proteção que os maridos árabes utilizavam para que suas mulheres não fossem vistas por quem passava do lado de fora, sem precisar fechar a janela. A etimologia, como acaba de ser demonstrado, está muito mais próxima da psicanálise do que poderíamos imaginar. Afinal, quem senão um ciumento, disfarçado de zeloso, pede para instalar em sua casa, onde mora uma linda mulher, uma gelosia?

Isso tudo porque, na origem, as palavras estão mais ligadas ao mundo concreto do que na atualidade, em que as abstrações acabam gerando distâncias maiores entre as palavras e as coisas. É só procurar duas palavras aparentemente desconexas e ver que na origem elas eram iguais, para descobrir uma relação oculta entre elas.

Dado e azar, por exemplo. Em árabe…

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutorou-se em literatura brasileira pela USP e atualmente é professora da PUC-SP. Seu livro mais recente, A verdadeira história do alfabeto, foi lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2012.
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A verdadeira história da letra O

Por Noemi Jaffe

Alfabetos dibujados

Em A verdadeira história do alfabeto, Noemi Jaffe mistura ficção e história, verdade e imaginação, para narrar o surgimento de todas as letras e alguns verbetes do dicionário. O texto a seguir é um extra criado pela autora especialmente para o blog.

A palavra alfabeto — isso muita gente sabe — vem das letras gregas alfa e beta. O que não é tão sabido é que essas mesmas letras gregas vêm do hebraico, aleph e bet. Essas duas letras, por sua vez, no hebraico, antes de serem representações fonéticas e, portanto, abstratas, foram espécies de pictogramas das ideias de chifre — ou, metonimicamente, de boi — e de casa, que, em hebraico, se dizem alef e bait, respectivamente. Boi e casa eram os bens mais significativos da antiguidade — e talvez ainda sejam —, além de serem os mais tematizados, naquela época, durante a prática da comunicação. Uma comunicação que era bastante restrita e contextualizada, dada a pouca quantidade de sinais e a dificuldade, segundo dizem (embora pessoalmente duvide), de criar grandes abstrações, conceitos e categorias antes da invenção do alfabeto fonológico. Duvido da ideia de que os antigos eram menos capazes do que nós, modernos, de pensar abstratamente, quando me dou conta de que cada letra de cada alfabeto já contém, em si mesma, uma história. E acho que a ausência de correspondência fonológica acaba por favorecer a invenção de múltiplas possibilidades e interpretações fabulares, mitológicas, pessoais. Como é possível olhar para a letra O, por exemplo, e pensar, como dizem os linguistas, que ela é somente um sinal arbitrário, convencional? Não é óbvio (ÓbviO) que ela corresponde, completamente, à representação do globo, da unidade e, por extensão, do ovo? Como alguém pode achar que é à toa que a palavra ovo seja um palíndromo perfeito, composto justamente por dois Os, no começo e no fim? É por isso que a história de Yeba Buro é a verdadeira história da letra O e da palavra ovo, que na verdade são uma e a mesma coisa. Antes que o mundo existisse, Yeba Buro era a avó do mundo, assim como todas as avós o são antes que sequer se pense na ideia de netos. Acontece que Yeba Buro era a avó do mundo, mas o mundo, o mundo mesmo, esse ainda não existia. Como ela era sua avó e todas as avós querem cuidar de seus netos, ela precisava criá-lo. Para ajudá-la nessa tarefa sumamente difícil, ela convocou os trovões Dihiputiro-Porã, Baaribó, Goamu, Yugupó e o último, Uiawu, que ficou com o encargo mais complexo de todos: criar a humanidade. Uiawu, temeroso diante da enormidade da tarefa que lhe cabia, e sendo ele o mais inocente dos trovões, assustou-se e não conseguiu executá-la. Não era esperto o suficiente. Mas teve uma ideia — e as ideias, como todos sabemos até hoje, muitas vezes valem mais do que uma magia, uma invenção, um truque, um malabarismo, uma máquina, uma coisa. Sua ideia foi criar um objeto elíptico, de casca branca e fina, de onde sairiam os bisnetos Yeba Goamu e Umukomashu Boreka. Saindo de lá, os bisnetos seriam capazes, por sua juventude e frescor, de criar a humanidade, aqueles que enfim seriam os netos de Yeba Buro. Yeba Buro regozijou-se diante da ideia de Uiawu, abraçou-o e, juntos, os dois criaram a letra O e a palavra ovo — que, naquela época, era a mesma coisa que inventar a coisa ovo —, e de lá surgiu o que hoje se conhece como os homens e as mulheres, as crianças e os velhos e todas as raças, tipos e modos de pessoas. Com a mesma letra, mais tarde, essas mesmas pessoas criaram outras palavras quase tão importantes como ovo. Por exemplo, ontem, osso e ouro. E essa, sem dúvida, é só mais uma prova de que, na antiguidade, os humanos criaram, além de mitos e histórias, também as letras e as palavras que utilizamos até os dias de hoje, iludidos de termos sido nós os seus inventores.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutorou-se em literatura brasileira pela USP e atualmente é professora da PUC-SP. Seu livro mais recente, A verdadeira história do alfabeto, foi lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2012.
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Bate-papo com Noemi Jaffe no Rio de Janeiro
Quinta-feira, 21 de Março, às 19h
Bate-papo com Noemi Jaffe e Antonio Cícero, seguido de sessão de autógrafos dos livros A verdadeira história do alfabeto e O que os cegos estão sonhando?, de Noemi Jaffe.
19h – Bate papo e leituras
20h30 – Sessão de autógrafos
Local: Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Rio de Janeiro, RJ

Semana cento e vinte e cinco

Os lançamentos desta semana são:

A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti
Com a ajuda de polias, roldanas, gatos buliçosos, botas e parafusos, as máquinas de Goldberg cumprem uma função neste mundo: dificultar as tarefas mais simples. Pra que acionar uma descarga apertando o botão quando se pode arquitetar uma engenhoca complexa com sete fases em que uma corda liga um abajur que ofusca um jabuti que bate num flamingo de plástico, acionando uma mola de metal que desce uma escada em caracol, caindo sobre  o pedal da latrina? Nesta história de revanche e invenções mirabolantes, o garoto Getúlio, um adolescente punk e asmático, cumpre pena num acampamento de férias por ser antissocial na escola. Em meio à perversidade dos colegas à temida hora da ginástica, ele conhece o zelador Leopoldo, um velho melancólico com uma obsessão: construir geringonças. Juntos, arquitetam uma ambiciosa vingança que une as fugas de Bach às variações de Rube Goldberg, numa engenharia absurda que vai se expandindo até instaurar o terror no coração da Montanha Feliz.

O que resta, de Lorenzo Mammì
Lorenzo Mammì reúne pela primeira vez uma amostra representativa de sua produção, forjada ao longo dos últimos trinta anos. Os ensaios apresentam as linhas de força de seu pensamento, tais como a questão da autonomia da obra de arte, e as põem à prova em poéticas individuais – de Nuno Ramos a Paulo Pasta até a obra do crítico italiano Giulio Carlo Argan. Com clareza, densidade e erudição, Mammì mostra neste livro por que pertence à linha de frente do ensaísmo cultural brasileiro.

A verdadeira história do alfabeto, de Noemi Jaffe
Tendo como ponto de partida uma releitura ficcional da origem das letras do alfabeto e de algumas palavras da língua portuguesa, A verdadeira história do alfabeto é um apaixonante itinerário que vai de A a Z, de AArdvark a Zearalenona. Entre as numerosas alusões que transparecem dos verbetes que compõem este volume, Jorge Luis Borges e as narrativas bíblicas são pontos de referência inescapáveis. Do mesmo modo, autores como Guimarães Rosa e Vladimir Nabokov são postos em diálogo com a mitologia indígena e os sonetos de Luís de Camões. Inserindo-se numa tradição que inclui Giovanni Battista Piranesi, Italo Calvino, Alberto Manguel e outros inventores de lugares imaginários, a autora de Quando nada está acontecendo constrói em seu novo livro um antológico mosaico de ficções. Indiferente às limitações de enciclopédias, dicionários e manuais de retórica e amparada por numerosos idiomas, sejam eles reais ou inventados, Noemi Jaffe revela as metamorfoses de que a língua portuguesa, liberta das fórmulas do cotidiano, ainda é capaz.

Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência, de Pedro Meira Monteiro (org.)
Não se sabe ao certo, mas é provável que Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda tenham se conhecido em 1921, em São Paulo, durante uma das reuniões que antecederam a Semana de Arte Moderna, que se realizaria em fevereiro de 1922. Quase dez anos mais velho e já considerado um dos líderes do grupo, Mário designou o futuro autor de Raízes do Brasil embaixador  oficial da nova estética do Rio de Janeiro. Pouco antes da eclosão da Semana, Sérgio havia se mudado com a família para a antiga capital federal, onde também seria o responsável pela venda de assinaturas da revista Klaxon. Ainda que de modo intermitente, ao sabor dos afastamentos e reaproximações entre os dois amigos paulistanos, sua correspondência se estenderia entre o Rio e São Paulo por mais de duas décadas. Atento ao contexto intelectual do diálogo travado por Sérgio e Mário, o organizador Pedro Meira Monteiro, por meio de notas afirmativas e de um ensaio crítico que contextualizam as questões discutidas na correspondência, evidencia nestas cartas as principais linhas de força do modernismo brasileiro.

Química em questão, de Alfredo Luis Mateus
O que palavras exóticas como isômero, dipolo e epoxidação têm a ver com a nossa qualidade de vida? Segundo Alfredo Luis Mateus, simplesmente tudo. neste livro, ele nos mostra que a ciência das substâncias e suas metamorfoses está presente nos aspectos mais essenciais de nossa existência – alimentos, bebidas, remédios, roupas, combustíveis e objetos domésticos são apenas uma pequena amostra dos itens produzidos direta ou indiretamente por meio das transformações da matéria. Através desses elementos – e de assuntos como a radioatividade, o universo mágico da farmacologia e da engenharia molecular, o designs molecular e os produtos industrializados – entendemos os fundamentos da química e como ela pode proporcionar maior sustentabilidade à sociedade de consumo e nos ajudar a ter uma vida mais saudável.

A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso (Trad. Joana Angélica d’Avila Melo)
Com a erudição e o talento narrativo que o consagraram como um dos mais importantes escritores e intelectuais contemporâneos, o italiano Roberto Calasso disseca, em A Folie Baudelaire, od efeitos da obra de Charles Baudelaire sobre as mais diversas correntes artísticas. A força do poeta – uma encruzilhada incontornável para se entender na literatura moderna – não deixou imunes nomes como Chateaubriand, Stendhal, Ingres, Delacroix, Sainte-Beuve, Nietzsche, Flaubert, Manet, Degas, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Laforgue, Proust e tantos outros, “como se tivessem sido acometidos pela onda e submergidos por alguns momentos.” Calasso mostra que essa atraente, inconsolável e perigosa “loucura” teve, depois de Baudelaire, muitos outros visitantes, uma vez que, por fim, revelou-se coincidir com o território da literatura absoluta.

João e o bicho-papão, de Sinval Medina e Renata Bueno
João quer virar um caçador conhecido e, para isso, nada melhor do que encontrar o horripilante bicho-papão! Assim, cheio de coragem, mas sem muita certeza de que o monstro existe de verdade, o garoto começa a sua jornada. Pelo caminho, cruza com índios, macacos, cegos e outros seres, que o ajudam – ou o atrapalham – a chegar mais perto do bichano misterioso. Será que ele vai conseguir? O final da história é surpreendente… Escrito em versos, o livro reproduz a estética do cordel, assim como as ilustrações de Renata Bueno, que mostram os mapas que o garoto desenha ao longo de sua viagem. Ao final da história, um texto explica as origens da literatura de cordel.

Editora Seguinte

Cósmico, de Frank Cottrell Boyce (Trad. Antônio Xerxenesky)
Não muito tempo atrás, em uma galáxia pertinho de Liverpool… Liam Digby era um garoto comum de doze anos. Um garoto comum de doze anos muito, muito alto. Algumas pessoas até achavam que ele era adulto. Esta é a incrível história de como Liam contou algumas mentirinhas, quase roubou um Porsche, visitou um parque de diversões e meio que acidentalmente foi parar no espaço.

Quem poderia ser a uma hora dessas?, de Lemony Snicket (Trad. André Czarnobai)
Em uma cidade decadente, onde se criam polvos para a produção de tinta, onde há uma floresta de algas marinhas e onde um dia funcionou uma redação de jornal em um farol, um jovem Lemony Snicket começa o seu aprendizado em uma organização misteriosa. Ele vai atender seu primeiro cliente e tentar solucionar o seu primeiro crime, aos comandos de uma tutora que chama carro de “esportivo” e assina bilhetes secretos. Lá, ele vai cair na árvore errada, vai entrar no portão errado, destruir a biblioteca errada, e encontrar as respostas erradas para as perguntas erradas – que nunca deveriam ter passado pela cabeça dele. Ele escreveu um relato sobre tudo o que se passou, que não deveria ser publicado, em quatro volumes que não deveriam ser lidos. Este é o primeiro deles.

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