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Dois livros para Muhammad Ali

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O tricampeão mundial de boxe Muhammad Ali, falecido na última sexta-feira, foi um lutador que cativou quase todos os grandes jornalistas americanos de sua época. Dois dos mais importantes livros sobre o lutador foram publicados pela Companhia das Letras na coleção Jornalismo Literário. Um deles, A luta, de Norman Mailer, se tornou um clássico da reportagem autoral: em 1974, Mailer acompanhou Ali na sua viagem ao Zaire para o famoso combate contra George Foreman. Um documentário sobre essa disputa pelo título mundial, Quando éramos reis, ganhou o Oscar em 1996. O outro livro, O rei do mundo, escrito pelo editor da revista New Yorker, David Remnick, é uma biografia centrada na primeira fase da carreira de Ali, na primeira metade da década de 1960, a última grande era dourada dos lutadores pesos-pesados. Cassius Marcellus Clay Jr., seu nome de batismo que ele renegou, foi odiado e amado pela imprensa americana quando despontou como o maior lutador de todos os tempos. Abaixo, trechos dos dois livros.

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“Sim a loucura era fértil na África, e naquela loucura africana dois lutadores ganhariam, cada qual, cinco milhões de dólares; e enquanto mil e quinhentos quilômetros adiante, na beira do mundo famélico, negros morriam de inanição, dois lutadores, cada qual ganhando acima de cem mil dólares por minuto se a luta durasse todos os quarenta, mais se terminasse antes. Era natural, naquela sandice, que um dos lutadores fosse revolucionário e conservador, em outras palavras, um Muçulmano Negro, cujo objetivo final era que os Estados Unidos cedessem um grande pedaço dos Estados Unidos para a formação de um país negro, e que aquele rico revolucionário conservador (campeão de bolinhas de gude aos dez anos de idade) enfrentasse um defensor do sistema capitalista cuja mãe havia sido cozinheira e barbeira e chefe de uma família de sete até que entrasse em colapso e fosse recolhida a um hospital mental e seu filho confessasse “bebedeira, vagabundagem, vandalismo e roubo pela força”, se tornasse batedor de carteira e nisso — para citar Leonard Gardner — ‘fosse um fracasso total; movido pelos pedidos de socorro a Deus de suas vítimas, sentia-se compelido a retroceder e devolver todas as carteiras’. Isso tinha sido aos catorze anos, aos quinze, aos dezesseis. O resto da história, conhecemos. Foreman junta-se ao Job Corps e vence o título olímpico dos Pesos Pesados antes de completar vinte e um anos. Dança pelo ringue com uma bandeirinha. ‘Não falem mal do sistema norte-americano na minha presença’, diz sob a investidura total da bandeira, ‘suas recompensas estão lá para qualquer um que decida, dobre as costas, dê duro no que faz e se recuse a permitir que qualquer coisa o derrote. Vou agitar esta bandeira em todos os lugares públicos que puder’, ao que, seis anos mais tarde, durante um jantar de comentaristas de boxe, Ali gritou de volta: ‘Vou dar uma surra nessa bunda cristã, sua puta branca de bandeirinha’. Engalfinharam-se no palco e Ali agarrou a camisa de Foreman, deixou-o de smoking, mas sem camisa. Por sua vez, Foreman abriu o paletó de Ali pelas costas. No dia seguinte houve desculpas, e Ali declarou que ‘jamais insultaria a religião de alguém’, mas os resultados psicológicos foram tão inconclusivos quanto o confronto entre Ali buma iê e Foreman buma iê; decerto aquilo servira de paralelo à tarde na TV em que Ali ficou repetindo que Frazier era ignorante até que Frazier o atacou fisicamente.”.

(A luta, Norman Mailer, coleção Jornalismo Literário, Companhia das Letras. Tradução de Cláudio Weber Abramo).

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“’Ali era um guerreiro magnífico e simbolizava a nova postura do negro’, disse Toni Morrison. ‘Não gosto de boxe, mas ele era algo à parte. Sua graça era incrível.’ Patterson, contudo, não compreendera Ali. Pagaria por isso.

“A luta seria dura de assistir, e o primeiro assalto foi o pior de todos. Como um peso-mosca genial, Ali passeou pelo ringue. Parecia uma libélula sobrevoando as lonas e as cordas. Por três minutos inteiros ele não soltou nem sequer um golpe de verdade. Sua intenção era humilhar, atlética, psicológica, política e religiosamente. O que poderia desmoralizar Patterson com mais intensidade? Ali dançava, esquivando-se facilmente das patéticas tentativas de Patterson de atacar, e provocava o desafiante: ‘Vamos americano! Lute, americano branco’.

“Ali era tão ágil e queria tanto atormentar Patterson que circulava pelo ringue fingindo desferir golpes, fintando, pulando, ameaçando, mexendo os ombros, forçando Patterson a reagir e revelar seu medo.”

(O rei do mundo, David Remnick, coleção Jornalismo Literário, Companhia das Letras. Tradução de Celso Nogueira.)