otávio marques da costa

Passo a passo: Getúlio, vol. 2

Recebido o tão aguardado original, Otávio Marques da Costa leu esta semana o volume 2 de Getúlio. Nesta etapa, o editor tem o primeiro contato com o texto: é a oportunidade para fazer sugestões estruturais, discutir opções do autor, apontar eventuais cortes (um velho vício da profissão…), indicar passagens que requerem esclarecimento, elucidar dúvidas. Aqui começa, enfim, um dos momentos chave no processo de produção do livro, aquele da interlocução frequente entre autor e editor a respeito do texto.

Neste caso, vale dizer que além de grande escritor e biógrafo, Lira Neto é também célebre por ser atento aos mínimos detalhes, o que facilita muito a vida do editor! Em seu texto não há arestas a aparar, e mesmo na forma o material vem um primor: Lira procura adotar todos os nossos padrões editoriais, notas de fim vêm quase irretocáveis, e ele chega ao ponto de usar a fonte de nossos livros nos arquivos que entrega.

Hoje autor e editor se reuniram para conversar sobre o material iconográfico para o volume e sobre a versão eletrônica, com a presença do Fabio Uehara, responsável pela área digital da editora. Parte das imagens escolhidas por Lira, que voltam do birô de fotografia na segunda-feira que vem, deve ilustrar o post da próxima semana, que tratará ainda do processo burocrático (e por vezes penoso) de liberação de uso de imagens. Aguardem!

2013

Por Otávio Marques da Costa

Fechamos 2012 com a alegria de ver a grande repercussão crítica e o ótimo desempenho comercial de Barba ensopada de sangue (Daniel Galera). De quebra, os direitos de publicação vendidos para oito países. Ainda melhor, parece que o livrou entrou num circuito mais amplo — notei isso quando amigos que não são exatamente leitores assíduos falaram a respeito —, o que faz lembrar um tempo no qual a boa literatura tinha outro impacto, e os grandes lançamentos viravam assunto não só em algumas rodas.

O momento não poderia ser mais oportuno (e alvissareiro!). 2013, além de ter o Brasil como país convidado da Feira de Frankfurt, promete ser um dos melhores anos para a ficção nacional na editora. Pesos-pesados da casa, como Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Milton Hatoum, Tony Bellotto e possivelmente Chico Buarque, terão livros novos. E uma bela safra da nova, da nem tão nova e da novíssima gerações de ficcionistas virá lhes fazer companhia: Amilcar Bettega Barbosa, Andrea del Fuego, Carlos de Brito e Mello, Daniel Pellizzari, J.P. Cuenca, Joca Reiners Terron, Juliana Frank, Luiz Ruffato, Marcelo Backes, Michel Laub, Paulo Scott, Rodrigo Lacerda e Simone Campos. Não deve parar por aí: dia sim, dia não o colega André Conti, que entre outras missões é encarregado de encontrar o melhor da ficção contemporânea, vem contar, entusiasmado, sobre originais que não podemos deixar de publicar. Pois é, para o terror dos amigos do departamento de produção, com tanta coisa boa chegando será difícil fechar a programação do ano que vem na data combinada.

Nossa seleção brasileira terá também seus destaques na não ficção, como, entre tantos outros, o aguardado segundo volume da biografia de Getúlio Vargas, por Lira Neto, que trará novas luzes sobre a Revolução de 30 e o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra; um estudo da influência do político, diplomata e megaempresário Nelson Rockefeller por essas plagas e suas receitas para o desenvolvimento do capitalismo brasileiro, com o título provisório O amigo americano, de Antonio Pedro Tota; a crônica dos anos Lula por Fernando Morais; uma história das guerras desconhecidas do Brasil, resultado de reportagem premiada de Leonencio Nossa; o relato da jornalista Adriana Carranca sobre a luta de Malala Yousufzai, a menina paquistanesa que denunciou atrocidades cometidas pelos Talibãs por meio de seu blog; e até uma história do CERN, o maior acelerador de partículas do mundo (e talvez o experimento mais ambicioso de todos os tempos), que confirmou a existência da partícula elementar, o bóson de Higgs, escrita pelo físico Rogério Rosenfeld.

Enfim, um 2013 com muitos e bons livros brasileiros para todos!

* * * * *

Otávio Marques da Costa é publisher dos selos Companhia das Letras e Penguin-Companhia.

Antigas cicatrizes

Não é de hoje que o antissemitismo na França é tabu. Assunto ainda mais controverso é a colaboração com os ocupantes nazistas (a maior vergonha nacional francesa no século XX talvez tenha sido a rápida tomada do país pelos alemães em maio de 1940, e a instalação do governo fantoche em Vichy). Passados quase setenta anos do fim da Segunda Guerra, acusar algum figurão de collabo continua a fazer a terra tremer.

O frisson que o assunto pode causar entre a opinião pública foi bem ilustrado pela polêmica em torno da mais recente biografia de Chanel (Dormindo com o inimigo, com lançamento pela Companhia das Letras previsto para meados de setembro), na qual o jornalista americano Hal Vaughan sustenta que a grande dama da haute couture teria sido agente da Abwehr, a inteligência alemã, nos anos em que viveu com um certo Spatz (“pardal”, em alemão) em uma suíte do Ritz.

Nos comentários de leitores às críticas do Le Monde e do Libération, as defesas calorosas da inventora do “pretinho básico” e da fragrância feminina mais popular de todos os tempos são muitas vezes risíveis. Além de um belo aperitivo à leitura, são retrato das marcas da ocupação nazista (e da colaboração) no imaginário francês.

* * * * *

Otávio Marques da Costa é editor assistente da Companhia das Letras.