patricia highsmith

Semana cento e setenta e quatro

Os lançamentos desta semana são:

Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon
Cora e Julia não se falam há alguns anos. A intensa relação do tempo da faculdade acabou de uma maneira estranha, com a partida repentina de Julia para Montreal. Cora, pouco depois, matricula-se em um curso de moda em Paris. Em uma noite de inverno do hemisfério norte, as duas retomam contato e decidem se reencontrar em sua terra natal, o extremo sul do Brasil, para enfim realizarem uma viagem de carro há muito planejada. Nas colônias italianas da serra, na paisagem desolada do pampa, em uma cidade-fantasma no coração do Rio Grande do Sul, o convívio das duas garotas vai se enredando a seu passado em comum e seus conflitos particulares: enquanto Cora precisa lidar com o fato de que seu pai, casado com uma mulher muito mais jovem, vai ter um segundo filho, Julia anda às voltas com um ex-namorado americano e um trauma de infância. Todos nós adorávamos caubóis é uma road novel de um tipo peculiar; as personagens vagam como forasteiras na própria terra onde nasceram, tentando compreender sua identidade.

O continente, vols. 1 e 2 (O tempo e o vento, parte 1), de Erico Verissimo
O Continente abre a mais famosa saga da literatura brasileira, O tempo e o vento. A trilogia — formada por O ContinenteO retratoO arquipélago — percorre um século e meio da história do Rio Grande do Sul e do Brasil, acompanhando a formação da família Terra Cambará. Num constante ir e vir entre o passado — as Missões, a fundação do povoado de Santa Fé — e o tempo do Sobrado sitiado pelas forças federalistas, em 1895, desfilam personagens fascinantes, eternamente vivos na imaginação dos leitores de Erico Verissimo: o enigmático Pedro Missioneiro, a corajosa Ana Terra, o intrépido e sedutor Capitão Rodrigo, a tenaz Bibiana.

Ripley debaixo d’água, de Patricia Highsmith (Tradução de Isa Mara Lando)
Tom Ripley viveu um período de calmaria e refinamento, desfrutando os ganhos de sua vocação de falsário. Até que uma expedição pelos canais de Fontainebleau descobre um corpo no leito de um rio. A pesca do cadáver ameaça comprometer Ripley. O ardiloso personagem terá de interromper suas férias em Tânger, no Marrocos. Ele viaja a Londres, onde irá encontrar uma dupla de marchands que, assim como ele, tem pouco interesse na volta de certo passado sanguinolento. Mais uma vez somos convidados a compactuar com os planos incomuns de Tom Ripley. Nessa aventura, o leitor é seduzido por uma trama amoral e, enredado por uma narrativa eletrizante, saberá reconhecer a inteligência traiçoeira deste herói de caráter duvidoso e elegância inabalável.

Ser criança, de Tatiana Belinky (Ilustrações de Leda Catunda)
Ser criança no Brasil não é muito diferente do que ser criança na Rússia. É isso que nos conta Tatiana Belinky, que veio de Riga com dez anos de idade e por aqui virou uma referência na literatura infantojuvenil. Jogar bola de gude, pular corda, brincar na chuva — neste longo poema Tatiana fala tudo o que significa, para ela, ser criança, e de quebra nos dá uma grande lição de vida. Ilustrado com obras da artista Leda Catunda feitas especialmente para este livro, Ser criança é também uma homenagem para essa grande escritora, que, além de conhecer profundamente a alma infantil, foi uma eterna menina.

Editora Seguinte

Lições de amor (Garota <3 Garoto, vol. 4), de Ali Cronin (Tradução de Rita Sussekind)
Ashley ama Dylan. Ollie ama Sarah. Jack ama Hannah. Mas e Donna? A atriz da turma nunca viveu uma história de amor fora dos palcos. Só entregou seu coração uma única vez, e acabou muito machucada. Então, quando seu professor particular lindo e atencioso se apaixona por ela, Donna se vê num impasse. Será que ela irá superar seus medos e dar mais uma chance ao amor? Acompanhe o emocionante último ano na escola de quatro garotas e três garotos.

Uma noite em Frankfurt


Corredor do pavilhão de editoras internacionais (Foto por: Frankfurter Buchmesse/ Alexander Heimann)

Divido com vocês como será minha noite de hoje, quinta–feira, 7 de outubro de 2010, em Frankfurt:

19h00: Coquetel com Rafaella de Angelis, agente da William Morris, de quem compramos os direitos de autores como Alice Munro, Simon Winchester, Bill Clegg e Suketu Mehta, entre outros.
Rafaella é uma velha amiga, adora o Brasil. Vou encontrá-la no Hessischer Hof, hotel que fica em frente ao Pavilhão da Feira.

19h30: Coquetel da Shangai 99, uma das editoras literárias mais importantes da China. O editor é um extraordinário mecenas das artes, e é cego. Tenho um encontro com ele, em nosso estande, no dia seguinte. Coisa para não esquecer por toda a vida. O coquetel será no hotel Frankfurter Hof, onde acontece o maior agito social da Feira. Antigamente eu me hospedava neste hotel, mas decidi trocar pelo Hessischer Hof, um pouco menor, mas com menos hype social. Nos saguões destes dois hotéis, os editores se encontram antes da Feira começar, em reuniões disputadíssimas. A ideia é saber antes dos outros o que há para comprar. Caí fora dessa disputa maluca e este ano chego a Frankfurt um dia depois do evento começar. A terça-feira nos saguões desses dois hotéis é o que há de mais deprimente na semana. Editores se amontoando nas salas e se degladiando por mesas. Cheiro de cigarro, muito barulho. É comum esbarrar com alguma estrela literária hospedada nos melhores endereços da cidade.

Nunca me esquecerei de quando dividi o elevador do Frankfurter Hof, onde cabem no máximo cinco pessoas, com Umberto Eco e Tom Wolfe. O primeiro com sua barba e barriga inconfundíveis, e o segundo de terno bege, chapéu… Os dois conseguiram se ignorar. Eu não sabia bem para onde olhava, se olhava. Mirava o chão e torcia o olhar para os lados, alternadamente, disfarçando.

Em outra ocasião segui meu falecido amigo, o escritor e editor Severo Sarduy, para um coquetel em homenagem a Patricia Highsmith nesse mesmo hotel. Ao chegar no enorme salão, vi nossa autora favorita andando sozinha de um lado para o outro, sem ninguém por perto. Aproximei-me e me apresentei como seu editor brasileiro. Levei um chega pra lá enfático, com direito a braços no ar, resmungos e xingamentos. Não foi difícil entender por que tanta solidão cercava a grande autora de romances policiais.

19h30: Nesse mesmo horário tenho que estar no restaurante Orfeo’s Erben para um coquetel em homenagem a Jonathan Franzen, que acaba de publicar Freedom, o romance de maior repercussão nos EUA nas últimas décadas. Estou lendo o livro e adorando. Quero convidar Franzen mais uma vez para vir ao Brasil, até agora ele sempre recusou. Coquetel obrigatório.

19h30: Coquetel da editora Seuil, uma das mais prestigiosas da França. A festa sempre ocorre na suíte do publisher da editora. Não poderei comparecer, mas a Lili (editora) e a Ana (responsável pelo departamento de direitos estrangeiros da Companhia) estarão lá.

20h00: Jantar oferecido por Andrew Wylie, em homenagem a Alaa Al Aswany, autor egípcio de quem publicamos O edifício Yacubian e vamos publicar Friendly fire. Andrew é um dos agentes literários mais importantes da atualidade, e que representa vários de nossos autores. Avisei que darei um pulo. Local: hotel Hessischer Hof. Talvez não consiga.

20h00: Jantar da Hanser Verlag em homenagem a seus autores presentes na Feira. Este é o evento social mais disputado da feira. Para o jantar, tradicionalíssimo, são convidados poucos ou apenas um editor de cada país. O seating era sempre delicado para mim. Bastante tímido nesses momentos, apesar de conhecer a todos e ser amigo próximo de vários editores presentes, sempre me torturo pensando “com quem vou sentar, será que vão me convidar?”. Fiquei mais tranquilo quando há alguns anos formamos um grupo fechado que passou a sentar-se sempre junto, com Carol Janeway da Knopf, Roberto Calasso da Adelphi, e Ravi Mirchandani da Atlantic UK. Ano passado, no entanto, o Calasso, que era editado por Carol nos Estados Unidos, mudou de editora. E, claro, mudou de mesa no tal jantar. Fiquei dividido: seguia com Roberto, ou ficava com Carol e Ravi? Fiquei. Este ano o problema já está resolvido: um dos homenageados da noite será David Grossman, o autor israelense que também receberá na Feira o importante prêmio da Paz, concedido todo ano pelos livreiros alemães. Como não teremos outra oportunidade de botar a conversa em dia, combinamos que sentaríamos na mesma mesa.

22h00: Encontro com Patrizia da Shangai 99 após os respectivos jantares. Não havia horário comum em nossas agendas para falarmos de livros a não ser este. Terei que enfrentar o maldito saguão do Frankfurter Hof, antes de ir para o meu hotel. Lá terei comigo planos de livros e trechos de romances, que os agentes esperarão que eu leia para discutir no dia seguinte — o que é pouco provável que farei.

Essa será a minha noite. Que passe logo.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.