paulo francis

Os dois Francis

Por Luiz Schwarcz


Paulo Francis (Foto por Bob Wolfenson)

O garçom trouxe os pratos e tive que disfarçar meu susto. Na minha frente, no centro da porcelana azul, elegante como o local onde jantávamos, estava o cérebro branco de um animal, intacto, com suas ranhuras, como se eu fosse um aluno de anatomia, ou um neurocientista pronto para mais uma experiência no laboratório. A culpa era toda minha. Com meu parco francês e um pouco nervoso com o desempenho no jantar, confundi cerf com cerveau, e em vez de pedir um delicioso prato de caça, escolhi o cérebro de uma pobre vitela, que ainda por cima vinha assim, em versão integral, sem cortes. Para piorar a situação, eu tinha que enfrentar o prato, pois ficava mal reconhecer o erro, logo em meu primeiro encontro com Paulo Francis, poucos meses depois que a Companhia das Letras publicara o seu primeiro título — Rumo à estação Finlândia e ele, o mais badalado e temido jornalista brasileiro, escrevera uma matéria de página inteira na Folha de S. Paulo saudando a edição.

Eu não conhecia pessoalmente Paulo Francis até essa ocasião, se o conhecesse teria devolvido o esdrúxulo prato — afinal, seu francês era ainda pior que o meu. Sabia, no entanto, que o livro de Edmund Wilson era dos seus ensaios prediletos, e que ele engrossava o coro dos inconformados com o ineditismo de Rumo à estação Finlândia no Brasil (essa certeza pesara na minha determinação em ter o famoso ensaio sobre o socialismo entre os primeiros livros da editora).

Depois de comentar o livro do crítico literário americano, Francis escreveu sobre as outras publicações da editora, mas mesmo assim eu me surpreendi quando Jorge Zahar, com quem eu falava constantemente, disse que Francis queria me encontrar quando eu estivesse em Nova York.

Apesar do sacrifício com o prato insosso — não me importo com exotismos gastronômicos, mas aquele era desprovido de qualquer sabor, valia talvez para antropófagos frustrados —, o jantar fluiu bem e a conversa foi deliciosa. A partir daquele dia fiquei amigo de Francis, o que não era difícil — ao contrário da imagem que fazia, de jornalista agressivo e raivoso, ele era um ser humano doce, frágil e extremamente carente. Francis não tinha filhos, adotava todos os trainees da Folha em Nova York e tratava seus gatos com um carinho mais que paternal. Jorge era o seu melhor amigo, para quem telefonava todos os dias. “É o Roberto Marinho quem paga a conta”, Francis não se cansava de dizer, e gargalhar.

Passamos a nos falar regularmente desde então, e quando Francis estava em São Paulo eu ficava incumbido de cuidar dele:  buscava no aeroporto, levava-o para o Ca D’oro, seu hotel favorito, organizava jantares para os amigos, chegando a arrumar sua mala antes de entregá-lo de volta no balcão de check-in da companhia aérea.

Com ele passei momentos hilários, que contarei em outras ocasiões. Sua morte, acontecida pouco após uma estada minha em Nova York, em que tive uma das mais comoventes provas de amizade da minha vida, deixou-me profundamente abalado.

É difícil medir ou descrever uma amizade. Com Francis, no entanto, aprendi muita coisa, e nossa relação pessoal foi uma lição sobre a complexidade do ser humano, e um importante exercício de tolerância. O contraste entre a pessoa Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn e sua persona Paulo Francis não podia ser maior. Como falei, o primeiro era doce, paternal e extremamente solidário. Depois de ter assistido o debate que elegeu Collor em minha casa, e vibrado a cada lance, causando-me profundo mal estar, Francis não tardou a se posicionar frontalmente contra o Plano Collor. Preocupado com a situação da editora após o congelamento de 80% dos nossos recursos, ligava-me todas as tardes, para saber como estávamos lidando com a situação.

Apesar de argumentar como alguém de extrema direita em seus artigos, num desses telefonemas soltou a seguinte frase: “Luiz, porque nós de esquerda…”. A confusão entre os dois Francis para ele era imperceptível, mas para quem o conhecia patente, e para os seus leitores, era provavelmente inacreditável. Difícil entender que por trás do jornalista duro, agressivo e reacionário, morava um ser humano delicado, atencioso e que defendia seus amigos a qualquer custo.

Ler sua coluna era muitas vezes uma experiência complexa. Eu discordava politicamente do que estava escrito, e os ataques de Francis a autores e amigos pessoais me deixavam bastante contrariado. Muitas vezes tentei defender os intelectuais que Francis criticava injustamente, mas ele mal ouvia, era como se a pessoa com quem eu conversava fosse outra, como se não se interessasse mais pelo que havia dito.

Numa visita minha a Nova York, levei comigo alguns textos de Caetano Veloso que, por escolha dele,  acabaram entrando apenas parcialmente em seu livro de memórias — entre eles uma dura polêmica com o correspondente da Folha em Nova York. Lia Caetano em seu debate imaginário com Francis à noite e almoçava com este no dia seguinte, obviamente sem nada dizer. Discrição e tolerância são algumas das coisas que aprendi a exercer na minha vida de editor. Decidi que não publicaria livros que agredissem amigos de forma pessoal, deixava isso para os jornais; na minha editora, somente a polêmica intelectual teria vez.

Gostar de pessoas das quais discordamos e apoiá-las mantendo a dignidade nem sempre é tarefa simples. Na vida de um editor chega a ser fundamental, pois desprezar o pluralismo na difusão de conhecimento é erro grave, gravíssimo. Ao adotar essa postura com Francis, e em ocasiões parecidas, eu repetia, sem saber, um conflito vivido de maneira mais aguda por meu pai, nos momentos finais de sua epopeia de sobrevivente da Segunda Guerra Mundial — ele que fugiu do trem que o levava para o campo de concentração deixando para trás meu avô, de quem herdei o nome, e que acabou morrendo em Bergen Belsen. Mas esse é o assunto do meu próximo texto. Até lá.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.