paulo leminski

Semana trezentos

Diários da Presidência 1997-1998, de Fernando Henrique Cardoso
Os bastidores da emenda da reeleição, crises internacionais e pressões especulativas contra a moeda brasileira, indecisões de fundo quanto à política cambial, a morte de dois fiéis escudeiros, supostos “escândalos” e chantagens. Neste volume de seus diários (1997-1998), Fernando Henrique Cardoso registra alguns dos maiores desafios — tanto políticos quanto macroeconômicos — de seus anos no poder e transmite ao leitor a sensação palpável do áspero cotidiano presidencial. Em meio à tenaz batalha para a implementação de reformas modernizadoras, tendo por aliados setores arcaicos do país ante a impossibilidade de acordo com a esquerda tradicional, o então presidente encontra tempo para reflexões premonitórias sobre o jogo de forças da política brasileira. Leitura indispensável para a compreensão do país hoje.

A memória rota, de Arcadio Díaz-Quiñones (Tradução de Pedro Meira Monteiro)
Em 1993, Arcadio Diaz-Quinones, um dos maiores intelectuais de Porto Rico, publicou La memoria rota, livro de ensaios sobre a polarização do mundo durante a Guerra Fria e a situação porto-riquenha. Mais de duas décadas depois, chega ao Brasil esta edição que reúne reflexões sobre o Caribe e um extenso caderno de fotos. Antologia inédita, traduzida e selecionada pelo professor da Universidade de Princeton Pedro Meira Monteiro, A memória rota reflete sobre as relações entre literatura e história, o poder das palavras e da cultura nas ilhas caribenhas. Um trabalho profundo e contundente sobre a história de um lugar que, embora geográfica, política e culturalmente distinto, dialoga muito com a realidade brasileira.

Histórias Naturais, de Marcílio França Castro
Exibindo um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa, Marcílio França Castro se debruça sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana. Um dublê de mãos em filmes sobre escritores explora a relação entre o ritmo do dedilhado e o estilo de seus escritos. O assistente de um velho ator nota que este já não diferencia sua vida e as peças em que atuou. A partir de situações aparentemente corriqueiras, um mundo de extravagâncias absorve o leitor, fazendo-o desconfiar das armadilhas que construímos para nós mesmos e para os outros. Tudo isso sem que se perca de vista o prazer das melhores histórias.

A teus pés, de Ana Cristina Cesar
A teus pés é o primeiro e único livro de poemas que Ana Cristina Cesar lançou em vida por uma editora, em 1982. Além de material inédito, a obra reunia os três breves volumes que a autora havia publicado entre 1979 e 1980 em edições caseiras: Cenas de abril, Correspondência completa e Luvas de pelica. Desafiando o conceito de “literatura feminina” e dissolvendo as fronteiras entre prosa, poesia e ensaio, o eu lírico e o eu biográfico, Ana logo chamou a atenção de críticos como Heloisa Buarque de Hollanda e Silviano Santiago.

Caprichos & relaxos, de Paulo Leminski
Em 1983 Paulo Leminski lançava um livro que se tornaria best-seller na época e um clássico para as futuras gerações. Ali estavam os principais poemas que o curitibano tinha escrito até então, muitos inéditos e outros publicados em edições independentes ou na revista de arte e vanguarda Invenção, encabeçada pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari. Os pais da poesia concreta no Brasil haviam adotado aquele jovem poeta ilustrado, audacioso e contundente. No mesmo ano, a crítica Leyla Perrone-Moisés cunharia o célebre epíteto “samurai malandro”, reconhecendo no autor o pacto entre a precisão oriental e o jogo de cintura tipicamente tropical.

Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Salomão
Em 1970, Waly Salomão esteve preso no Carandiru por portar, nas palavras do próprio poeta, “uma bagana de fumo”, e ali começou a escrever seu primeiro livro, Me segura qu’eu vou dar um troço, publicado dois anos mais tarde. Entre a prosa, a poesia e o ensaio, esta obra visceral e revolucionária se tornou determinante para o movimento de contracultura que floresceu no Brasil naquela década, tendo inspirado a apreciação crítica de leitores como Antonio Candido, Heloisa Buarque de Hollanda e Antonio Cicero. Incluído em Poesia total, este clássico contemporâneo capaz de nocautear o leitor por sua densidade e potência volta às livrarias em sua forma avulsa, com cronologia inédita do autor.

Suma de Letras

A guerra dos mundos, de H.G. Wells (Tradução de Thelma Médici Nóbrega)
Publicado pela primeira vez em 1898, A guerra dos mundos aterrorizou e divertiu muitas gerações de leitores. Esta edição especial contém as ilustrações originais criadas em 1906 por Henrique Alvim Corrêa, brasileiro radicado na Bélgica. Conta também com um prefácio escrito por Braulio Tavares, uma introdução de Brian Aldiss, membro da H. G. Wells Society, e uma entrevista com H. G. Wells e o famoso cineasta Orson Welles — responsável pelo sucesso radiofônico de A guerra dos mundos em 1938 —, que fazem desta a edição definitiva para fãs de Wells.

Paralela

52 mitos pop, de Pablo Miyazawa
O cenário pode variar: o recreio da escola, a mesa de um bar, o cafezinho do trabalho. Mas quem nunca se viu numa discussão sobre temas como “Han Solo atirou primeiro” (no “Episódio IV” de Guerra nas estrelas) ou “a máfia matou Bruce Lee” ou “Os Simpsons são capazes de prever o futuro”? Se esse tipo de conversa era comum no passado, a internet, esse terreno fértil para espalhar lendas urbanas, fez que ficasse cada vez mais frequente. Ele mesmo um habitué desse tipo de discussão, Pablo Miyazawa decidiu usar seus conhecimentos como um dos jornalistas de cultura pop mais respeitados do país para tentar separar o que é fato do que é ficção. O resultado é um livro divertido e fácil de ler, repleto de anedotas e histórias de bastidores. Informativo sem nunca ficar restrito somente aos fãs de cada tema. Indispensável para viciados em cultura pop (e não somos todos hoje em dia?) ou simplesmente para quem tem um fraco por teorias da conspiração da internet (de novo, todos nós).

Semana cento e noventa e cinco

O silêncio do algoz, de François Bizot
O etnólogo francês François Bizot foi o único ocidental a sair com vida de uma das temidas prisões do Khmer Vermelho. Sua sentença de morte foi suspensa graças à relação que desenvolveu com o homem que foi seu carcereiro durante os três meses em que esteve detido, em 1971. Anos mais tarde, Bizot descobriria que seu libertador fora responsável pela tortura e morte de dezenas de milhares de cambojanos considerados inimigos da revolução de Pol Pot. Neste relato perturbador, preciso  e de trágica intensidade, o autor busca pistas para decifrar como homens comuns podem se transformar em algozes cruéis.

Boca do inferno, de Otto Lara Resende
Ecoam ainda nos dias de hoje as consequências de histórias como as de Boca do inferno, publicado originalmente em 1957. Talvez naquele tempo o escritor e jornalista Otto Lara Resende não imaginasse o quão preciso poderia ser este compacto exemplar. O mais provável é que soubesse. Em um contexto em que a religião dita as regras, o autor traz à superfície os mais bem guardados baús dos porões da família mineira. Não por acaso, as sete narrativas aqui reunidas têm como protagonistas meninos e meninas que, no fim da infância, são lançados de um momento para outro no conhecimento tenebroso das coisas. É sempre aí – na gruta sob a laje, no porão cheirando a mofo, no quarto quieto no meio da noite, no moinho solitário e monótono – que se dá a improvável revelação. Com o peso do que foi longamente gestado, com a força de uma límpida poesia da dor. Boca do inferno permaneceu durante décadas fora do comércio, não por falta de pedidos, mas porque seu autor – exigente – vivia a reescrevê-lo, adiando continuamente as novas edições. De fato, só a exigência literária extremada poderia lograr uma escrita como esta. Escrita que flui, mas, súbito, se interrompe, deixando à mostra profundidades insondáveis da existência.

Beco dos mortos, de Ian Rankin
Um imigrante ilegal é encontrado morto em um cortiço de Edimburgo. Se a primeira suspeita é de um ataque racista, logo a situação se prova mais complicada. É o que o departamento de polícia precisa para arrastar o inspetor John Rebus para o caso. Não que a vida no trabalho ande fácil, com seus novos chefes em campanha por uma aposentadoria precoce do investigador. Mas o teimoso e obstinado Rebus seguirá novamente a trilha de um morto, numa viagem que o levará a centros de detenção, a comunidades de imigrantes políticos e ao coração do submundo de Edimburgo. Enquanto isso, sua amiga e pupila Siobhan precisará lidar sozinha com os próprios problemas. O desaparecimento de uma adolescente a deixará perigosamente próxima às armadilhas de um maníaco sexual, conforme ela também tenta resolver o assassinato de um jornalista curdo. E há a história dos dois esqueletos encontrados debaixo de um movimentado beco da cidade. No encontro desses casos aparentemente sem conexão, Rebus e Siobhan logo serão atraídos para uma teia de ganância, traições e violência.
O bicho alfabeto, – poemas de Paulo Leminski e ilustrações de Ziraldo
O bicho alfabeto tem vinte e três patas, ou quase. Por onde ele passa, nascem palavras e frases. Quando ele e o Paulo Leminski se encontram, das palavras nascem versos e poemas, que falam sobre o mar, o vento, a chuva, as estrelas, uma pedra, um cachorro, uma formiga… Coisas que todo mundo conhece, mas que se transformam em outras quando aparecem dentro dos versos do Leminski. Nesta reunião inédita de poemas para os pequenos, Ziraldo também colaborou com a transformação: o bicho alfabeto ganhou cores e formas que ninguém poderia imaginar. Foi assim que o mundo ficou totalmente de cabeça pra baixo, pronto pra quem quiser virar a página e se aventurar a ler a vida de um jeito diferente.

Semana cento e setenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Vida, de Paulo Leminski
Nessa reunião de biografias sui generis (Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski), lançadas na Coleção Encanto Radical ao longo da década de 1980, Paulo Leminski presta homenagem a quatro de seus heróis de lírica e de luta, revelando lados inusitados de figuras aparentemente desconexas que, sob o olhar apaixonado de um mesmo admirador, se aproximam e enriquecem. Ao fim destas quatro minibiografias heterodoxas e aliciantes,  o que emerge é o retrato apurado de um Leminski múltiplo, como seus biografados, e uma gênese das principais influências do poeta que segue como referência para as novas gerações.

Poemas, de W.H. Auden (Tradução de João Moura Jr. e José Paulo Paes)
Esta edição bilíngue traz cinquenta dos principais poemas de Wynstan Hugh Auden, reconhecido como um dos mais importantes autores ingleses do século XX. O amor, a guerra, os acontecimentos sociais e o poder encantatório da literatura ganham ressonância nesse conjunto de textos fundamentais de lírica moderna. Criteriosamente selecionados e traduzidos, há desde poemas escritos em 1927, quando o autor definiu publicamente suas posições estéticas no que ficou conhecido como “O Manifesto de Oxford Poetry”, até aqueles que datam de 1973, ano de sua morte. O volume “abarca, na medida do possível, as várias fases da obra poética de W. H. Auden, que foi um poeta prolífero”, conforme declara João Moura Jr., o responsável pela seleção dos textos e que divide a tradução com o poeta José Paulo Paes.

Eu me pergunto, de Jostein Gaarder (Ilustrações de Akin Duzakin, Tradução de Mell Brites)
Enquanto caminha para longe de casa, um garoto pensa e repensa: “de onde vem o mundo?”, “será que tudo surgiu do nada?”. A cada nova paisagem que conhece, relembra histórias de seu passado e descobre novas questões: “os fantasmas existem?”, “o que tenho mais medo de perder?”. Cheio de indagações mas sem respostas imediatas, ele anda sem rumo — e se aproxima cada vez mais de seu próprio entendimento do mundo.

Histórias de Xingu, de Cláudio e Orlando Villas Bôas
Cláudio e Orlando Villas Bôas dedicaram suas vidas aos índios brasileiros. Em 1943 abandonaram a cidade grande para participar de uma grande aventura: se juntaram à Expedição Roncador-Xingu, que tinha como objetivo desbravar parte da Amazônia, e entraram em contato com indígenas que viviam isolados até então. Depois desse primeiro encontro, resolveram lutar pela preservação dessas populações, de suas terras e costumes. Criaram laços de amizade com mais de vinte povos, e em 1961 ajudaram a fundar o Parque Nacional do Xingu. Cláudio e Orlando conheceram mais do que ninguém a cultura dos xinguanos, e narram aqui nove histórias assim como as ouviram. São contos que falam do imaginário desses grupos e de suas crenças; que nos apresentam a Mavutsinin, o criador dos índios; ao Kuarup, cerimônia de homenagem aos mortos; e ao Morená, lugar mítico onde três rios se encontram para formar o Xingu.

Saudade, de Claudio Hochman
Algumas palavras são difíceis de definir — principalmente aquelas que são fáceis de sentir. Como explicar, por exemplo, a saudade, palavra que nem mesmo existe em muitas línguas? É o que vai tentar fazer o Rei desta história, o mais sábio que já habitou a terra.

A bela e a fera – ao redor do globo (Tradução de Eduardo Brandão)
As narrativas populares viajam misteriosamente através do tempo e do espaço, sofrendo transformações a cada lugar por onde passam. O caso de A Bela e a Fera não é diferente: essa história sobre um pai, uma filha e um pretendente quase repulsivo possui algumas versões conhecidas e outras tão antigas que nem sabemos precisar sua origem. Aqui, além da versão mais difundida no Ocidente, estão reunidas as interpretações chinesa e chilena, tão semelhantes quanto diferentes entre si.

Editora Seguinte

O histórico infame de Frankie Landau-Banks, de E. Lockhart (Tradução de André Czarnobai)
Frankie Landau-Banks, aos 14 anos: a princesinha da família. Gosta de ler e participar do Clube de Debates. Uma garota comum frequentando uma escola tradicional.
Frankie Landau-Banks, aos 15 anos: Um corpo cheio de curvas. Uma língua afiada. Namorada de Matthew Livingston, o cara mais popular do colégio.
A transformação física de Frankie Landau-Banks veio acompanhada de uma mudança de atitude: ela já não aceita um “não” como resposta. Principalmente quando esse “não” significa que ela não pode participar da sociedade secreta da qual seu namorado faz parte só porque é menina. Usando todas as suas habilidades (e alguns conhecimentos adquiridos nas aulas), Frankie criará artimanhas para provar que pode ser ainda mais genial que os membros da Leal Ordem dos Bassês. E a escola logo se tornará palco de pegadinhas até então inimagináveis.

Resultado do concurso de haikais

Obrigada a todos que participaram do concurso de haikais, recebemos mais de mil poemas!

Nunca tivemos um concurso tão concorrido aqui no blog. Chamaram nossa atenção as homenagens a Leminski, os trocadilhos com bashô (“Bashô Leminski/ Mas meu haicai/ Não sai”) e os que mostravam o desejo de ganhar o livro (“Não sei escrever/ Mas o livro eu quero/ To sendo sincero”).

Alice Ruiz, Sofia Mariutti e Leandro Sarmatz avaliaram todos os haikais, e os 5 vencedores são:

Dois cães na rua
O solto faz festa
O preso protesta
— Luiz Andrioli

Flor de maio
presa ao vestido
trancado no armário
— Ana Clara Noronha

a pipa
se alinha
ao voo da andorinha
— Amyr

à meia-luz
água apitando no bule
gaita de blues
— Lucas Puntel Carrasco

Faro de breu
Farol do vaga-lume
Acendeu
— Márcio Januário Pereira

Parabéns a todos, entraremos em contato por email!

Sargento Leminski & os Garotos Perdidos a meio-oeste de Lugar Nenhum

Por Joca Reiners Terron

A edição laranja-choque de Toda poesia do Leminski me leva a lembrar dele, de quando o conheci, nos anos 70. Ambos tínhamos perdido o último navio que partiria de Saigon de volta a nossa pátria, uma cidadezinha chamada Terra do Nunca no meio-oeste de Lugar Nenhum. Leváramos uns balaços dos vietcongues (ele os chamava de “charlies”), porém nossos fígados ainda estavam intactos, apesar da noitada num antro de jogatina e prostituição da zona vermelha da cidade. Lemmy era um sargento tipo monumento rochoso, um herói de nossa gente. Os Garotos Perdidos o idolatravam, e eu, mero frangote, um recruta zero, achava-o simplesmente o máximo. Por sua causa, nos tornamos poetas.

Então não era difícil entender nossa identificação com o sargento Lemmy. Na tropa, havia um capitão chamado Cabral que dizia que não gostava de ser identificado como “poeta” (embora o capitão Cabral fosse um dos grandes, e sua metralhadora cuspisse versos durões e ele próprio fosse uma pedra dura de roer no meio de nosso caminho de jovens versejadores inábeis), pois era a mesma coisa que ser chamado de “efeminado”. E com o sarja Leminski não tinha essa noia, ele era o cara do bigodão e do pelo no peito que usava camiseta mamãe-quero-ser-gay e punha uma margarida no capacete, mas também era o cara que quebrava os adversários com golpes de judô e haicais matadores — ou seja, usava da brevidade oriental como antídoto para a chatice antipoética da guerra cotidiana.

Depois do Vietnã, nos encontramos nas barricadas da comuna de Paris, onde lembramos com toda eloquência da enfermeira Ana C., uma mina que plantou coquetéis molotov em nossos corações. Ana C. rindo pra gente seu riso solar do banco da frente do fusca, nós dois tornados bebês diante de sua sensualidade móvel fixada no retrato: por onde andaria Ana C. naqueles dias de mil oitocentos e muitos, estaria explorando a gaveta do vício de Rimbaud junto com o cabo Reinaldão? Nunca saberemos, e a enfermeira Ana C. nunca passou da punheta de nossas saudades. Então, o sarja Lemmy andava escrevendo ficções, e publicara um romance chamado Agora é que são elas que tinha espanado o cabeçote dos Garotos Perdidos e desfeito nossas tênues convicções do que poderia ser um romance. “Ficção, re-ficção, uma história que desvenda o processo de todas as histórias, uma novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, claro). Um romance pra tocar no rádio”, dizia o Leminski. Aquele livro nos viciou para sempre no pop metaliterário e na literatura escrita como se fala. Por sua causa, nos tornamos romancistas.

Uns séculos depois, reencontrei o sarja Lemmy em Bauru, na república na qual eu morava com o Beto, a Fábia, o Serjão e a Patrícia. Enquanto os Garotos Perdidos envelhecíamos, ele permanecia jovem, na verdade parecia ainda mais novo do que era antes. Paradoxalmente, falava como um sábio, e nos ensinou antiguidades sobre gregos, egípcios e samurais poetas; sobre profetas judeus e negros brancos; agora escrevia biografias mínimas e publicara um livro de ensaios chamado Anseios crípticos. Esses textos nos ensinaram que não dá pra vir a este planeta curtir literatura e não tentar entendê-la; que é impossível escrever ficção, poesia ou o que seja atualmente sem ter uma visão crítica do que se está fazendo, uma abertura para pensar o novo frente ao clássico e repensar o clássico transformado pela novidade. Afinal, se falta algo ao sistema literário brasileiro contemporâneo, é justamente a compreensão de que não basta ser artista, tem de participar na difusão e na reflexão. É uma militância, e temos de ser meio Trótskis, totalmente Leminskis. Tem de vestir a farda da literatura e encarar o Vietnã da linguagem todo santo dia. E por causa de Leminski, nos tornamos críticos literários.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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