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Dos cadernos de Paulo Mendes Campos

Por Elvia Bezerra

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Caderno de Paulo Mendes Campos, do acervo do IMS.

Em junho, chegou às livrarias mais uma obra de Paulo Mendes Campos pela Companhia das Letras, De um caderno cinzentoNeste exemplar, a pesquisadora Elvia Bezerra reúne 53 textos que permaneceram inéditos em livro até agora. São crônicas, aforismos, poemas e pequenos textos de observação social publicados em jornais e revistas durante décadas. Para você conhecer um pouco mais sobre a obra do autor, republicamos aqui no blog um texto de Elvia Bezerra escrito em abril de 2013 para o Blog do IMS, que mantém em seu acervo os cadernos de Paulo Mendes Campos, pelo lançamento das reedições de O amor acaba O mais estranho dos países. Leia a seguir.

* * *

O momento é de festejar a prosa de Paulo Mendes Campos, de volta às prateleiras nas edições de O amor acaba e O mais estranho dos países (o último reúne Brasil, brasileiro e Murais de Vinicius e outros perfis). Os dois livros que a Companhia das Letras reeditou mantêm a organização temática concebida por Flávio Pinheiro, lançada pela Civilização Brasileira na década de 2000.

Não é por se louvar a prosa do cronista mineiro que se pode esquecer o poeta que ele é. Tampouco subestimar o tradutor que emerge dos 55 cadernos conservados em seu arquivo, no Instituto Moreira Salles. “Traduzir é o meu jeito de descansar carregando pedras”, escreveu ele em um desses cadernos. É só folhear um outro, o caderno 20, e vê-se o quanto ele trabalhou ao passar para o português os famosos versos da “Chanson d’automne”, de Verlaine, poeta a que se dedicou mais de uma vez. São algumas páginas em que se observam muitas idas e vindas, muitas rasuras, até que a composição, cujos primeiros versos,

             Les sanglots longs
             Des violons
             De l'automne
             Blessent mon coeur
             D'une langueur
                      Monotone

em português, ficassem assim:

             Os longos trinos
             dos violinos
                      do outono
             ferem minh'alma
             com uma calma
                      que dá sono.

Muito diferente da opção de Onestaldo de Pennafort, que preferiu manter o efeito de assonância do original:

             Os longos sons
             dos violões,
                      pelo outono, 
              me enchem de dor 
             e de um langor 
                      de abandono.

Primeiramente Paulo publicou o poema na Manchete de 28 de março de 1964, com mais dois, um de Paul Eluard e outro de Jacques Prévert, sob o título “Três poemas franceses”. A revista errou quando estampou a “Canção” sob o título de “Arieta”, também de Verlaine, igualmente traduzido por Paulo e reproduzido no mesmo periódico, em outra data. Quando lançou Trinca de copas, em 1984, ele incluiu a “Canção”, dessa vez com o título correto e na versão definitiva.

Não se pretende aqui comparar traduções, e sim mostrar, a partir de páginas dos cadernos que se reproduzem a seguir, como Paulo Mendes Campos carregava pedras durante o processo de verter para o português os versos de um de seus poetas mais amados. Descansava? O que se vê nas incontáveis formas que ele experimentava é um esforço disciplinado em busca da expressão que o contentasse. E esta podia ser muito diferente, como já se mostrou, da de seu colega de ofício. Assim como difere das soluções encontradas por Guilherme de Almeida, mais um dos que não resistiram ao desafio de traduzir o popular poema de Verlaine.

Outro poema que mereceu pacientes estudos de Paulo Mendes Campos foi “Walcourt”, publicado depois na seção “Poeta do Dia” do Diário da Tarde. O exercício de tradução para chegar à forma final ocupa outras tantas páginas do caderno. “Walcourt” integra a seção “Paysages belgiques” e não “Paysages tristes”, como a “Chanson d’Automne”, ambas dos Poèmes saturniens.

Sem ter como objetivo comparar traduções, não é possível ignorar a inocência e uma certa distância que emanam dos versos de “Walcourt”, na tradução de Pennafort:

             Telhas, ladrilhos,
             que encantadores
             esconderilhos
             para uns amores!

Paulo tornou-os mais ardentes e objetivos quando optou por:

             Tijolos, telhas,
             ó fascinantes
             esconderijos
             para os amantes!

Como é próprio do ofício, não eram poucas nem leves as pedras que o tradutor carregava. É o que revelam as páginas a seguir:

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Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do Instituto Moreira Salles e organizadora do livro De um caderno cinzento, de Paulo Mendes Campos.

Virginia Woolf por Paulo Mendes Campos

Por Paulo Mendes Campos



À esquerda: Vita Sackville-West e Virginia Woolf. À direita: capa por Alceu Chiesorin Nunes.

[Orlando, de Virginia Woolf, será publicado pela Penguin-Companhia este mês. Leia abaixo um trecho do ensaio de Paulo Mendes Campos sobre o livro, presente na íntegra como posfácio desta nova edição do clássico.]

Quem tem medo de Virginia Woolf? Todo mundo. Seria capaz de apostar que o autor da peça teatral leu a autobiografia de Osbert Sitwell, na qual este conta que jamais entendeu por que as pessoas tinham medo dela — mas tinham. A romancista inglesa foi um tipo acabado de onésima. Onésima, segundo a classificação de Jaime Ovalle, é a pessoa que duvida, sorri, desaponta, gela, com um senso de humor que aterroriza as pessoas de fácil ebulição emocional. Alexander Pope foi ainda mais puramente onésimo e, para verificar isso, é consultar a descrição que a própria Virginia Woolf faz do poeta numa passagem de delicioso virtuosismo do livro (romance? poema?) chamado Orlando.

Em contrapartida, todos se apaixonavam por Virginia Woolf. Varões e varoas. Moços e velhos. Mágicos e lógicos. Bravos e covardes. Homossexuais e tradicionalistas. Não é bastante racionalizável a fascinação de Virginia, the Goat, como diziam os íntimos. Não se discute o magnetismo de uma chama. Arrisco apenas a pensar que ela possuía em alto teor todas as nossas fraquezas e todas as qualidades que também gostaríamos de possuir.

Além disso era linda. Não de uma beleza caída do céu por descuido, mas de uma beleza conquistada através da solidão, da contemplação, do ritmo, uma beleza que se desenvolve de dentro para fora e se estampa em ossos angulares e linhas inesperadas. Uma beleza apesar dos outros. Contraditória e quase irritante. Uma beleza feita de imaginação em movimento, não de reflexão, uma beleza de água. Tão rápida que os amigos jamais chegaram a um acordo sobre os olhos de Virginia, a não ser que eram belos. Olhos acinzentados, diz o poeta Stephen Spender. Cor de hematita, negros e azuis, diz o pintor Jacques Émile Blanche. Verdes para David Garnett. Com esses olhos indefinidamente irisados, Virginia viu um mundo em perpétua mutação de cores e formas. A visão, no sentido físico e simbólico, é o seu signo. Anda justa Monique Nathan ao falar que, sem o contexto histórico, a obra de VW perde a articulação concreta. Podemos ir mais longe: obra ou personalidade, ela está sempre articulada ao contexto, como a ostra à concha; é sempre Virginia mais o contexto, seja este histórico, familiar, urbano, campestre, praieiro. Era uma alma situada no instante, presente portanto na infinitude das experiências, mas sem residência certa ou endereço conhecido.

[…]

Tinha 36 anos quando publicou Orlando. Estava casada, castamente casada (quem deseja informações sob VW só deve esperar pelo inesperado) com um homem paciente, inteligente, correto, devotado: Leonard Woolf. Publicara até então seis livros. Orlando foi escrito a grande velocidade. É uma torrente ritmada que se estende por três séculos da história da Inglaterra. Surpresa: o mesmo personagem cobre esses trezentos anos de existência. Maior surpresa ainda: Orlando é alternadamente homem e mulher. A androginia andava no ar que os poetas farejam. Uns seis anos antes, Katherine Mansfield anotava no diário: “não somos nem machos nem fêmeas. Escolhi o homem que desenvolverá e ampliará em mim o que há de masculino; ele me escolheu para engrandecer nele o que há de feminino”. A figura mais importante do mais famoso poema da época (The Waste Land — T.S. Eliot) é Tirésias, o velho andrógino da antiguidade, o vidente cego. Coleridge já divisara uma androginia espiritual em todos os grandes criadores. Shakespeare seria para VW o máximo da potencialidade masculina-feminina. Contudo, as intuições dos escritores ingleses estavam em atraso. Já em 1898 Freud manifestava para um amigo sua crença na bissexualidade fundamental do ser humano: “Estou me habituando a considerar todo ato sexual como um acontecimento implicando quatro pessoas”. Jung, por sua vez, pretende identificar no psiquismo a tendência de reconstituir um estado de coexistência do masculino e do feminino. Desses dois postulados partiram os poetas da ciência psicológica. Hoje se fala em mito confirmado pela biologia; sobre a teoria dos hormônios estaria o fundamento da bissexualidade, com um tríplice campo de pesquisas: bissexualidade biológica em diversos animais; traços de bissexualidade anatômica no ser humano; bissexualidade permanente e flutuante através das secreções de hormônios masculino e feminino. (Cf. Suzanne Lilar, Planète, n. 12).

Assim, partindo da poesia/mito, a ciência retorna aos emboléus ao estado primitivo: o amor seria a tentativa de reconstituir uma indistinção sexual perdida. Mas Orlando não é uma fantasia científica sobre a androginia. Nem mesmo chega a ser propriamente uma fantasia poética ou mítica sobre a androginia. De toda a especulação moderna, o que mais interessaria a VW seria decerto a hipótese de que o psiquismo humano é estreitamente tributário da oscilação permanente do equilíbrio hormonal. Pois, com Orlando, VW se fez uma espécie de Diana Caçadora: a peça procurada no bosque intrincado é a identidade humana, o ser contínuo, a personalidade íntegra. A caçada serve para mostrar que a caça não existe: em vez de um eu integral, encontramos o esmiuçamento da personalidade, Orlando é um poema sobre o tempo, melhor, sobre a fugacidade do ser e das projeções do ser dentro do tempo. O tempo é o personagem. Orlando é um indivíduo-dividido, ilogicidade insolúvel. Esse indivíduo é inerme dentro do tempo, e é o tempo que corrige a passibilidade da pessoa, repetindo-a através das sucessivas eras, em uma fantasia musical libérrima, mas que recorre indefinidamente aos mesmos motivos: beleza, sexo, amor, natureza, solidão, sofrimento e morte. É como se algo todo-poderoso — o deus Tempo — assoviasse a música do destino humano, o fatum, o fado. É um scherzo, uma brincadeira musical do tempo. Este, o autor, compõe, supremo virtuosismo, através de cada homem/motivo a sonata completa de toda a Humanidade.

Outro personagem concorrente é o Espírito da Época, a submissão ao efêmero, às ilusões em vigência. O Espírito da Época é a nossa limitação e por isso é importante. É a moeda corrente: quem usar outra pode ser apanhado como falsário. Com pespontos bem femininos anota VW: “a transação entre um escritor e o espírito da época é de infinita delicadeza, e a fortuna de suas obras depende de um bom arranjo entre os dois”. A vida interior é inenarrável: “Orlando estava tão quieta que se ouviria a queda de um alfinete. Quem dera que houvesse caído um alfinete. Sempre teria sido um pouco de vida”.

O livro brotou da contemplação meditativa de um retrato de Vita Sackville-West. Uma paródia aos mais acurados estudos biográficos da época. Contudo, é também autobiográfico, indisfarçavelmente nas páginas finais, até certo ponto autocomplacentes, mas dramáticas: “Se a heroína de nossa biografia não se decide nem a matar nem a querer, mas só a pensar e imaginar, podemos deduzir que não se trata de outra coisa além de um corpo morto e abandoná-la”.

Aqui se pode talvez detectar um dos veios neuróticos que levaram VW ao suicídio; se a pessoa simples luta contra a rejeição afetiva dos outros, a sensibilidade complexa costuma provocá-la ou inventá-la. Virginia amplificava eletronicamente as menores contrariedades. Mas Orlan­do deve ter sido também uma tentativa de recuperação da normalidade (?) feminina de VW, condenada a um encadeamento de raciocínios que a afastavam da espontaneidade a que, por ter nascido mulher, tinha direito.

Pode-se ainda dizer que o personagem de Orlando é o próprio ritmo do livro. Ritmo de água. Na água encontraríamos as conotações mais sensíveis do simbolismo woolfiano. Um crítico chega a afirmar que a água é a substância do romance de VW e não um elemento decorativo. O trágico apelo das águas… Quem buscou a morte nas águas de um rio conquistou o direito de ter deixado em uma obra sutil essa frase banal. Orlando pode ser ainda um romance sobre a vida. Agora sou eu que me arrisco no foco da banalidade. Que é a vida? “A vida não é uma série de lanternas dispostas simetricamente, a vida é um halo luminoso, um invólucro meio transparente onde somos encerrados desde o nascimento de nossa consciência até a morte.” A tarefa do romancista — ela pergunta — não será exprimir esse espírito mutável, desconhecido e ilimitado, sejam quais forem as aberrações e complexidades que ele possa apresentar? Jamais conheci qualquer pessoa — diz Osbert Sitwell — com uma percepção mais sensível das menores sombras atiradas em torno dela. Depois de túneis e mais túneis, de crises e mais crises, depois de ter escrito nove romances, sete volumes de ensaios, duas biografas e 26 cadernos de um diário, em 1941 as sombras estreitam-se espessas em torno de Virginia Woolf. No mês de abril, dois meses depois da morte de Joyce, seu bastão e seu chapéu foram achados à margem de um rio. O corpo só foi encontrado semanas mais tarde. Deixou para o marido este bilhete: ‘‘Tenho a impressão de que vou ficar louca. Ouço vozes e não posso concentrar-me em meu trabalho. Lutei contra isso, mas não posso continuar lutando. Devote toda a felicidade de minha vida. Foste impecavelmente bom para mim. Não posso continuar estragando tua vida”.

[Texto publicado inicialmente em Diário da Tarde (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Massao Ohno, 1981), a ser lançado pela Companhia das Letras.]

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Mineiro de Belo Horizonte nascido em 1922 e falecido em 1991, Paulo Mendes Campos viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Livros como O domingo azul do mar fizeram dele um dos melhores poetas de sua geração. Como cronista, foi, ao lado de Fernando Sabino e Rubem Braga, um dos responsáveis pelo enorme prestígio que o gênero ganhou no país nos anos 1950-60. Marcada pelo humor e pelo lirismo, sua obra, em que se incluem livros como O cego de IpanemaHomenzinho na ventaniaO colunista do morro, permaneceu esgotada durante anos antes de ser reorganizada pelo jornalista Flávio Pinheiro e ganhar novos títulos, entre eles O amor acabaCisne de feltroO gol é necessárioArtigo indefinido.

Semana cento e quarenta e oito

Os lançamentos desta semana são:

O mais estranho dos países, de Paulo Mendes Campos
Paulo Mendes Campos tinha extrema precisão ao perfilar personagens de sua época dourada — aquele Brasil eufórico das décadas posteriores à Segunda Guerra. Para falar de Vinicius de Moraes, cita um encontro do poeta com uma ex: “Você continua no Jardim Botânico?”, ele pergunta. A mulher informa: “Não, estou há muito tempo no São João Batista.” Vinicius não se aguenta: “E qual é o número de sua sepultura?” Para falar de Drummond, lembra um episódio surpreendente: “Entro no seu gabinete pela manhã e encontro o poeta desalinhado, procurando os óculos: embolara-se com um funcionário malcriado que o ofendera. E estava bem feliz com o resultado do round”. Para lembrar o místico Jayme Ovalle: “Andando às vezes pela Lapa, de madrugada, costumava-se agarrar a um poste, transtornado com a beleza da aurora: ‘Meu Deus, eu morro…'”. E para retratar o grande amigo Rubem Braga: “Deitado na rede, armada no gabinete de trabalho, falava de mulheres, da raridade de um cotovelo bonito, de paixões, arrasadoras ou frívolas, mas a conversa acabava quase sempre no mato, onde ele gostaria de viver”.

O amor acaba, de Paulo Mendes Campos
Deixai para trás toda desesperança, ó leitor: o bem-aventurado que aqui vier em busca de motivos para amar a beleza da mulher, enaltecer a virtude do ócio, maldizer o tédio e rezar no altar da boemia encontrará motivos de sobra nas crônicas de Paulo Mendes Campos. Exímio na ciência de aproximar a prosa da poesia em textos elegantes, leves e bem-humorados, nas crônicas de O amor acaba o mineiro radicado no Rio de Janeiro é menos o contador de causos do que o apóstolo da boa vida. Publicados quase sempre em jornais, são antes ensaios sobre a efemeridade do êxtase achado no cotidiano mais áspero do que narrativas sobre o Brasil dos anos 1950 e 60 — ambiente que fomentou a bossa nova, o cinema novo, o futebol-arte e a arte da conversa fiada, expressa na geração que gerou, entre outros, Rubem Braga, Fernando Sabino, Antônio Maria e Drummond como luminares deste gêneto tão preciso quanto fugidio: a crônica.

Morte em Pemberley, de P.D. James (Trad. Sonia Moreira)
O ano é 1803. Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy já estão casados, tiveram dois filhos e sua felicidade na imponente propriedade rural de Pemberley parece inabalável. Mas a paz do lugar é ameaçada quando, na noite da véspera do baile anual de Pemberley, Lydia, uma das irmãs Bennet, chega à mansão gritando que o marido, George Wickham, foi assassinado na floresta. Com este ponto de partida, P.D. James retoma o universo do clássico Orgulho e preconceito, de Jane Austen, numa trama de assassinato em que nada é o que parece. Morte em Pemberley segue a tradição dos grandes romances de mistério sobre a aristocracia inglesa. P.D. James, criadora do detetive Adam Dalgliesh, estrela da maioria de seus livros, combina sua paixão pela obra de Austen a um suspense eletrizante, em que nem o grande casal da literatura inglesa está acima de qualquer suspeita.

Editora Seguinte

Infinity Ring: Um motim no tempo, de James Dashner (Trad. Alexandre Boide)
Quando os amigos Dak Smyth e Sera Froste descobrem o segredo da viagem no tempo — um dispositivo portátil conhecido como Anel do Infinito — eles não têm nem ideia da guerra oculta e milenar em que estão entrando; e muito menos de que a partir daquele momento embarcarão numa jornada cheia de perigos e serão responsáveis por salvar a humanidade. Neste volume, os garotos são apresentados aos Guardiões da História, uma sociedade secreta que remonta aos tempos de Aristóteles, e descobrem que fatos históricos importantíssimos estão sendo misteriosamente modificados, gerando Grandes Fraturas na Terra. Com a ajuda do Anel, Dak e Sera vão viajar até a Espanha de 1492 para tentar impedir a primeira catástrofe: um navegador chamado Cristóvão Colombo está sofrendo um motim terrível e será lançado ao mar antes de conseguir chegar na América! Eles precisam ser rápidos…

O fantasma do Lido

Por Sérgio Rodrigues

[Para comemorar as reedições de O amor acabaO mais estranho dos países, pedimos a alguns autores contemporâneos que escrevessem crônicas no estilo de Paulo Mendes Campos. Leia também os textos enviados por Vanessa Barbara e João Paulo Cuenca.]

Passando outro dia pela praia do Flamengo, de volta do centro (onde se ganha a vida) para a beira-mar (onde logo tratamos de perdê-la), vi um fantasma nítido, irrevogável. Não tinha a cara lívida do que apareceu para Hamlet. Não era feito de neblina como os que assombram causos interioranos à beira do fogo. Tampouco era aterrador como aquele que Henry James me aparafusou para sempre no flanco mais tenro da alma. Era um fantasma comercial, cotidiano, sensato, quase alegre. Tinha um vendedor de pipoca na frente e um letreiro iluminado que anunciava Blade Runner — O caçador de androides. O mais espantoso é que o filme não era velho. Fantasmas são assim mesmo, fantasmáticos, e têm o condão de rir do tempo que passa como de uma piada excelente. Saltei do ônibus e para ele me dirigi com meus passos de mortal.

O cinema Lido era dois. Como partidas de futebol, lados de um long-play, nádegas, certos casais unidos demais, havia duas metades dele, chamadas Lido I e Lido II. Na língua da gente era sempre um, como no mistério da Santíssima Dualidade: “Vamos ao Lido?”. Ao Lido fui, eu que sempre o achei um cinema meio ordinário no conforto e na limpeza. Era como se tivesse acabado de chegar de Minas e o visse pela primeira vez, mais intrigado pela homonímia com o bas-fond de Copacabana — e de ambos com o cabaré parisiense e a ilha veneziana onde Aschenbach se apaixonou pelo jovem Tadzio — do que por encontrá-lo vivo tantos anos depois de morto.

Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, dizia o letreiro sob o letreiro. Era o fantasma dum fantasma, e inventei, então, a teoria do contraponto das janelas cósmicas: lá estava um tempo de devoção íntima e cinefilia de massa descortinado do parapeito de um tempo de devoção de massa e cinefilia íntima. Na calçada, o homem da carrocinha de pipoca exibia uma barba inverossímil de Tolstoi ou Conselheiro. Achei que me cumprimentava com um leve cabeceio, mas talvez tivesse apenas sono. O movimento era fraco naquele início de noite.

Tirando proveito da fila invisível, comprei sem demora um ingresso invisível na bilheteria invisível e entrei. No púlpito technicolor, um homem de terno cinza, olhos verdes e gravata vinho perorava com língua roxa e veias azuis saltadas no pescoço branquíssimo: “Neste momento, irmãos, enquanto aqui nos reunimos, o pastor Feliciano é acuado pelos cães ímpios! Morram os cães ímpios!”. A plateia do cinema repetia em coro: “Morram! Morram! Aleluia!”.

Isso me fez lembrar que nada tenho contra religião alguma. Só com boa dose de canalhice se pode negar que todo homem nasce com o direito divino de crer, descrer, beber, drogar-se; adoecer de poesia em excesso ou poesia nenhuma; alistar-se em missões humanitárias e dilapidar heranças vultosas na roleta; sacrificar a vida por amor, por besteira; abraçar uma causa política ou o corpo flácido de uma ex-atriz de pornochanchada. Tudo isso são tabuinhas neste vórtice que nos traga a todos em direção ao fundo: náufragos merecem respeito.

O que me indispôs com o auditório do Lido foi aquele amor viscoso à morte. “Morram! Morram! Aleluia!” A vida dos replicantes estava por um fio, Rick Deckard recarregando com ar assustado sua pistola futurista. O pregador de terno vinho e olhos branquíssimos, mas talvez fosse o contrário, voltou-se para mim. “Qual é o seu nome, irmão?”, inquiriu. “Paulo”, balbuciei, como se fosse lógico. Harrison Ford assestou a arma contra a plateia e puxou o gatilho três vezes. “Morram! Morram! Aleluia!”

Desabei com três esguichos de molho de tomate no peito. Só então compreendi, em rápida sucessão, que era eu o replicante que Deckard caçava; que o Lido não havia mais; que na remota capital do país um homem minúsculo se agarrava à sua grande sinecura; que meu nome não era Paulo. Pus-me de pé com a pressa de um boneco de mola e saí para a rua à caça do fantasma de um ônibus — ou biga, cabriolé, Mustang, espaçonave — que me levasse para casa a tempo do jantar. O pipoqueiro e sua barba tinham evaporado meticulosamente na maresia.

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Sérgio Rodrigues é autor de Elza, a garota e Sobrescritos, entre outros. Ele mantém a coluna Todoprosa na Veja.com, e seu próximo livro será lançado pela Companhia das Letras em agosto.

A última madrugada

Por João Paulo Cuenca

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[Para comemorar as reedições de O amor acabaO mais estranho dos países, pedimos a alguns autores contemporâneos que escrevessem crônicas no estilo de Paulo Mendes Campos. Leia também os textos enviados por Vanessa Barbara e Sérgio Rodrigues.]

Na última madrugada, nos encontraremos sob um pirulito de esquina marcando o cruzamento de duas ruas que não se encontram (Rio Branco com Vinícius, Barata Ribeiro com Paissandu), e ali você apertará minha mão antes da nossa correria pelas avenidas desocupadas, entrando e saindo de jardins e parques imaginários, nossos corpos iluminados por uma lua minguante e fria, vigiados por umas poucas janelas acesas no topo dos prédios.

Por trás delas, cortinas vermelhas guardarão o sono de sabe-se lá quem, e nós dois perderemos horas sentados numa pedra de calçada, despindo as paredes num jogo de adivinhação sobre o que aconteceria por trás da fachada dos últimos andares, na penumbra dos quartos calados (uma luz de cabeceira desenha um círculo no teto, um vulto se mexe) e nos grandes salões vazios da avenida Atlântica (quadros azuis na parede, o movimento interrompido dos bibelôs).

Suas histórias sobre os apartamentos e seus moradores de ficção serão sempre melhores do que as minhas, e com essa doce derrota será inaugurada nossa última noite. Sem alarde ou desejo de estar em algum lugar em especial e, ao mesmo tempo, estando em todos os lugares, nos esparramando pela cidade aberta, asfaltando o chão com os nossos pés, erguendo a paisagem com os nossos olhares de criança.

Após esses jogos de imaginação na calçada, entraremos, sob a proteção de toda a cavalaria de Jorge da Capadócia, num subsolo qualquer em Copacabana, onde você esquecerá meu nome depois de duas batidas de abacaxi e eu enlaçarei seu corpo num passo desastrado, enquanto todos do lado de fora de nós dois desbotarão, perdidos em outro fuso. Abafados pela fumaça, dois andares abaixo das pedras portuguesas, riscaremos com os pés o traço de fronteiras entre países desconhecidos: eu perdido num cabaré da Europa Oriental, você escondida num beco em Damasco, vestindo um véu nos ombros sob a marcação de um surdo desafinado e o fim do terceiro refrão.

Lá fora, abandonando o tempo do mundo, espreguiçaremos nossos tentáculos um para dentro do outro, dançando o último samba da última madrugada, que será entoado no meio da rua, na passagem dos carros ausentes, por um grupo de malandros cabisbaixos, daqueles que, como nós, varam a noite batucando tamborins até o início do dia.

Depois, e recorrentemente, teremos sono na última madrugada. Deitaremos na praia, você pousada nas minhas coxas, eu perdido nas suas órbitas, e veremos o oceano riscar elipses na areia. Sobre o mar, a ponte prateada derramada pela lua se esticará do abismo (o horizonte, atrás das ilhas Cagarras) até a ponta dos nossos dedos descalços e sujos (os seus num movimento constante, os meus calados e embrutecidos). Na nossa última madrugada, seremos como os galhos de duas árvores que não se veem, mas que se tocam quando venta.

Teremos fome, e comeremos numa confeitaria no Leblon, num hotel na Presidente Vargas, num bingo no Catete, no Capela da Lapa. Depois, numa calçada da Mem de Sá, você vai me empurrar num balcão iluminado onde comprará uma ficha de videokê para cantar, trôpega, a última de amor. Longe, carros vão frear, alguém vai quebrar uma janela. Haverá também o miado dos gatos, as baratas e ratos inaugurando bueiros. Um grito abafado de mulher. E a multidão silenciosa, deitada em milhões de camas, encolhida sob as marquises, flutuando sobre nós e a cidade.

Antes de voltar para casa, no ponto de um ônibus que nunca chegará, você vai me perguntar se eu posso ouvir, por trás do silêncio, os sonhos de todos os que dormem: “São milhões sonhando enquanto estamos acordados”. E eu vou te contar mentiras e dizer que sim. Que posso ouvir todos os sonhos do mundo. Que, na verdade, eu e você somos sonhados por outros, que agora dormem. Que a nossa última madrugada jamais amanhecerá.

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João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Publicou O dia Mastroianni e O único final feliz para uma história de amor é um acidente, entre outros, e foi um dos autores selecionados para a edição “Os melhores jovens escritores brasileiros” da revista Granta. Seu próximo romance será lançado pela Companhia das Letras no 2º semestre de 2013.

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