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A doença do insignificantismo

Por Paulo Scott

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1.
Lendo as respostas dadas pela escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís ao jornalista Carlos Vaz Marques — na seleção de entrevistas As palavras não se afogam ao atravessar o oceano (Rio de Janeiro: Editora Tinta da China Brasil, 2015) —, quando a autora falava da protagonista de um dos seus romances, eu me deparei com este trecho:

“(…) Ela só quer sobreviver e, enfim, afastar tudo o que seja um grande destino. Aquilo para que hoje todos os jovens são criados: um grande destino. (…)”.

Por certo, as expectativas jogadas sobre os ombros dos jovens portugueses, hoje e nas décadas recentes, não são as projetadas sobre os jovens brasileiros nestes meados de 2015, de qualquer modo me parece oportuna a menção ao tal grande destino.

Na pergunta seguinte à resposta na qual estava o trecho reproduzido acima, a autora contou:

“(…) Dizia um médico famoso que, dentro de alguns anos, se irá ao médico para tratar a doença do insignificantismo”.

2.
No Dicionário Houaiss, insignificante é aquele que não tem importância, seja profissionalmente, seja pela riqueza, seja pela beleza, seja por algum talento especial. O sufixo ismo designaria intoxicação de um agente, como no caso do alcoolismo, ou movimentos sociais ou ideológicos — os exemplos que o dicionário dá são o calvinismo, o feminismo e o tropicalismo.

3.
Pôr-se doente porque não se é especial, precipitar-se nesse ânimo (em uma espécie de fobia em relação à normalidade), deixar-se soterrar por não conseguir vencer a maré; bem, para a minha geração, nada há de novo nisso. A segunda metade do século XX chegou a nos retribuir com hit cujo refrão é:

I can’t get no satisfaction

I can’t get no satisfaction

Cause I try and I try and I try and I try

I can’t get no, I can’t get no

4.
A literatura, seja sob ângulo terapêutico ou não, também é maneira de se lutar contra a insignificância.

Entre alguns amigos da minha adolescência, a leitura e a escrita de um poema e outro — mentíamos se tratar de letra de música para não ficar tão vergonhoso, já que, naqueles dias de autoafirmação, ser poeta, só poeta, era um pouco vergonhoso — eram dois modos fortes de se lutar contra a insignificância.

As fitinhas Sony ou TDK nas quais eu gravava minhas seleções de músicas nas casas e nos aparelhos 3 em 1 National, Gradiente ou CCE dos que tinham mais dinheiro e podiam comprar os vinis que eu não podia, as idas ao teatro e ao cinema, aos shows no Salão de Atos da UFRGS ou no Parque Marinha do Brasil ou, às vezes, na Redenção, as histórias em quadrinho americanas, espanholas, portuguesas, compradas na banca da Praça da Matriz e mais um monte de coisas também eram modos de se lutar contra a insignificância, mas a literatura — o livro do Paulo Leminski que um dia me chegou às mãos —, insisto, era mais forte do que tudo.

5.
A doença do insignificantismo depende do modo de olhar.

Como toda doença, ela pode até ser romanticamente querida — lembrando que o querer é sempre mais do que o desejar e que o romanticamente, em eventual erro de digitação, pode resultar em romanicamente.

Dependendo com que tipo de manifestação artística se compara a literatura, a literatura poderá ser o próprio insignificantismo.

A literatura escrita originalmente em português sofre de um insignificantismo maior do que a literatura escrita originalmente em inglês, mas seria uma simplificação grotesca desconsiderar (em relação ao, circunstancialmente, melhor favorecido lado inglês) a diversidade entre os lugares onde se escreve textos literários originalmente em inglês.

Às vezes o exótico aos olhos do mercado onde se escreve originalmente em inglês, quando se trata de um livro que não foi escrito originalmente em inglês, é um atalho — mas, como você sabe muito bem, nada é garantido.

6.
No ótimo livro A voz do escritor (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006 — tradução de Luiz Antonio Aguiar), de A. Alvarez, tem este trecho:

“Nesse ponto, a própria arte se transforma num espetáculo secundário sem qualquer valor intrínseco. O que importa é a perturbação da qual a arte pode emergir, devido ao talento correto e perturbado e às circunstâncias corretas, ou seja, trágicas. Em outras palavras, os artistas que o público dos anos 60 achavam mais excitantes eram aqueles que contribuíam intencionalmente para a sua própria destruição. Tendo criado mitos de si mesmos, como um subproduto da criação de arte, acabavam se sacrificando por esses mitos essencialmente triviais.

Talvez esse desespero fosse uma reação a alguma coisa no ambiente político: (…) O extremismo foi o estertor do movimento modernista, a experimentação levada até sua conclusão lógica e decorrente, e só poderia ter ocorrido num período de extrema ansiedade. As respostas agora são menores e a poesia, mais mitigada, menos aventureira. Eu não desejaria a volta de todos os problemas que vinham junto, mas o trabalho que resultou disso foi ótimo enquanto durou.” 

7.
A resposta, em português, para a música “(I Can’t Get No) Satisfaction” é a música “Leonor”, do Mundo Livre S/A, cujo ápice — embora este ápice seja a parte que menos tenha a ver com uma possível antítese da música dos Rolling Stones — transcrevo a seguir:

“Eu sei que me vês como amigo

Não sabes o quanto me dói

Mas o céu foi feito pros anjos

Juntemos o nossos lençóis

Que os anjos não querem saber de nós”

8.
No romance Viagem ao fim da noite, Céline escreveu que o doente se precipita na cura — se não foi exatamente isso foi algo parecido.

Em uma dimensão paralela, um Céline jovem e ativo nas redes sociais seria uma estrela das redes sociais.

Céline foi genial quando, na sua literatura, tratou da insignificância — talvez, já que era médico, até do insignificantismo —, tratou também da covardia.

9.
Coloquei rede social em um poema e depois me arrependi, mas daí já era tarde.

10.
Na sua linguagem de rede social, a rede social diz: Você terá um grande destino. Essa frase, repetida todos os dias, subliminar e propositalmente imperfeita, se torna o novo início do “Parabéns pra você…”.

Vem a palavra redismo e, em seguida, provocada, a palavra arredismo — antagonismo é bom sinal.

No arco geral, no propósito do autor, o conflito é só o material transitivo de um truque.

11.
Para Agustina Bessa-Luís a insignificância não é um mal, é o que nutre a sociedade.

Ainda assim, em alguma selva, por serem todos personagens, todos lutam pela própria significância, e o autor luta também – mesmo que resista e jamais escreva: não quero ser invisível, não quero ser esquecido, não quero morrer, não quero morrer.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Tietagem literária (1)

Por Paulo Scott

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1.

Na quinta-feira da semana da Flip, na órbita de roda de amigos, quase todos escritores, que se formou ao acaso em frente a um dos vários restaurantes do Centro Histórico de Paraty, alguém, um sujeito que eu não conhecia, parou para dar um olá a um deles e depois se aproximou de mim e — tão logo se certificou de que eu era de fato eu — fez questão de me contar que tinha lido o Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Agradeci. Em seguida listou alguns dos poemas do livro dos quais tinha gostado. Agradeci de novo. Então me disse que tinha ficado incomodado com uma coisa: o texto que, na visão dele, não era poesia, era crônica confessional, um texto que, lá pelas tantas, falava de enfileirar tietagem literária.

O texto que ele referiu é o “Seja macho”.

É bastante pertinente o questionamento sobre se tratar de poema ou prosa — entretanto, do meu ponto de vista, o que importa é: escrevi o texto como poema e na minha cabeça é poema, por isso figura lá como poema. E, ainda, penso ser bem razoável isso de alguém detectar ruído, desconforto, num trecho do poema que diz: “Vou enfileirar tietagem literária segundo nossa disposição sincera de abrir bem as pernas e noivar e depois forjar seu aleijamento (…)”. É o que pude lhe dizer.

Não é minha intenção explicar aqui o que pretendi com esse trecho e menos ainda o que busquei com esse poema — tudo perderia a razão de ser se eu fizesse isso. Minha intenção neste momento é unicamente pinçar o termo tietagem literária.

2.

O significado de uma locução pode variar, pode ganhar sentido negativo ou positivo. Ainda me abstendo de analisar a tal tietagem literária no contexto do poema “Seja macho”, imagino que valha a pena avançar na direção da explicitação do seu sentido negativo.

Tietar pode ser admirar incondicionalmente, colocar-se num espaço de (a partir de uma convicção) aceitação completa de tudo que advenha da identidade objeto do nosso admirar, tende a ser a admissão de um esvaziamento crítico absoluto e até, a partir desse esvaziamento, a sedimentação natural e o estaqueamento de posição subalterna. Essa perspectiva — que acaba mesmo circunscrevendo um lugar que se poderia chamar, em termos ainda mais pragmáticos, o lugar do bobo — não seria (em seu acontecimento) demais se fosse apenas oca, fruto da convicção de quem, à certa altura, e em determinada experiência real/concreta, identificou elementos reais/concretos na obra, na produção, nas consequências geradas pela identidade admirada, se não fosse — aqui está o detalhe importante — farsa e combustível nocivo de algo que nada tem a ver com literatura, se não fosse nada além de mero deslumbramento.

Lembro, por conta disso, da situação aquela do sujeito que se aproxima do autor em alguma festividade literária e, descuidado, projeta um empolgadíssimo (e inusitado) “sou seu fã desde sempre, fã número um”, recebendo como resposta um “obrigado, mas, então, me diga aí: qual dos meus livros você leu?” e replicando, o dito fã, despeja um “eu te sigo no Twitter, leio o que você posta” ou “leio os seus textões no Facebook” ou “leio a sua coluna” ou até um “leio de vez em quando o seu blog”.

Não me agrada tietagem literária, tietagem vazia, casuística, a que adquire o livro, mas não lê o livro (e não se abala ao lidar com o fato de que jamais lerá o livro). Não vou entrar em detalhes, sobretudo por saber que estamos longe, eternamente longe, dos mundos ideais, apenas vou registrar: o universo literário brasileiro contemporâneo precisa de leitores, leitores de verdade, não de tietes. E isso, até onde eu sei, se consegue com educação fundamental de qualidade, educação de verdade.

Sem pânico. Não vou panfletar.

3.

Conversando, tempos atrás, com jornalista estrangeiro sobre literatura brasileira e sendo questionado por esse jornalista sobre quais jovens autores brasileiros conseguem de fato apresentar um corte atualizado do comportamento brasileiro de maneira a dar pistas para uma eventual composição de perfil geral do brasileiro contemporâneo, me vieram à cabeça muitos nomes, mas em primeiro lugar veio o nome da escritora mineira Cidinha da Silva. Não pelo seu engajamento sociopolítico (o que fica evidente, por exemplo, no livro de ensaios acadêmicos Africanidade e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, coordenado por ela), não pela sua capacidade de levantar elementos históricos e reflexões críticas, inserindo-as com habilidade nas suas crônicas, nos seus estudos, mas pelo fato de, sendo escritora, ter escrito narrativas curtas, cheias de vivacidade que venho acompanhando há alguns anos e que sempre chamam muito a minha atenção, como o conto “Ônibus especial” — um conto que está no livro de bolso Oh, margem! Reinventa os rios, da coleção “Selo do povo”, idealizada pelo escritor Ferréz —, que demonstra bem o olhar e a dicção que são exclusivamente dela.

Transcrevo o trecho inicial do conto:

Foi em Goiânia, na Praça da Bíblia, que eu vi. Ônibus exclusivo para empregadas domésticas. Foi uma boa sacada da empresa. O primeiro sai às 5h00, o segundo às 5h30 e o último às 5h45. No retorno do condomínio sai um às 20h00.

Empregada não tem carro para chegar naquele fim de mundo. Mas elas ainda reclamam, queriam ônibus de quinze em quinze minuto. Alegam que o de 5h45 vai muito cheio. Vai cheio porque as dondocas não querem saber de acordar cedo, entram às 7h00 e ainda reclamam. Não pensam nos filhos dos patrões que têm de sair cedo para a escola e não têm ninguém para preparar um café fresquinho.

Sem cair na armadilha da análise do panorama literário nacional a partir do que alguns chamam de o corte de classes, é preciso reconhecer a presença de certa repetição nas escolhas do que ocupará posição de destaque nas eleições do que de mais relevante haveria na produção literária brasileira contemporânea — e não falo aqui de verdadeiros personagens brasileiros, falo de conflitos com peculiaridades relacionadas às singularidades brasileiras. Nessa perspectiva, tenho que o impacto da literatura estrangeira, que é sempre positivo, às vezes acomoda nossa maneira de fazer, de elaborar, de almejar, e só a pluralidade (que precisa ser ampliada e precisa vencer a inércia) e o diálogo com a pluralidade (e com o inusitado) e com a diversidade e com o que não busca conforto desmancharão um resto de medo, um resto de timidez que ainda existe na maneira de escrever dessa geração, dessa nossa grande geração (sem exatidão de idades), educada sob a sombra do regime militar que assaltou o poder no golpe de 1964 produzindo estragos enormes, sobretudo na área das humanas e na capacidade de questionar e de nos olharmos no espelho. Sei que preciso elaborar isso, mas acho importante que tal leitura seja externada.

Cidinha da Silva está na minha lista de autores que — na mesma linha do que afirmou recentemente Silviano Santiago a respeito de Michel Laub em ótima entrevista dada ao jornalista Álvaro Costa e Silva — podem surpreender, nomes cuja produção pode ficar.

Não sou candidato a profeta e sequer tenho autoridade para apresentar, com um mínimo de tranquilidade, minhas apostas, mas sou leitor da produção literária brasileira atual, um do tipo que se esforça para não buscar só o que lhe traz conforto ou o que é melhor projetado (nunca perco de vista o que, nesse sentido, César Aira falou sobre livro best-seller na coleção de textos Pequeno manual de procedimentos), um que, eventualmente, também sucumbe — independentemente das gangorras, das instáveis alturas no altar geral das eleições (e depurações) — à tietagem literária, achando, contudo, que o faz (e cede à euforia) pela obra, pelo conhecimento da obra, e pela leitura nunca suficiente da obra, muito menos do que o faz pelo deslumbramento.

Um poema não resolve dilemas pessoais em relação ao mundo porque — além de outras implicâncias ou assentamentos — é, antes, experiência estética — um espaço, às vezes hermético, aguardando a reforma (e, com sorte, o sentimento de alegria que referiu Roland Barthes no seu A preparação do romance), mas os aproveita, digere-os; se ecoa, não é problema do poeta.

O debate não termina aqui.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Ao teu lado

Por Paulo Scott

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1.

Muitas vezes a pessoa com quem você divide a sua vida é a primeira a ler seus textos, a primeira a opinar, o primeiro agente de um processo de exposição que vai se ampliando, porque, afinal de contas, você é um escritor e um escritor, não importa o veículo, escreve para ser publicado.

A condição excêntrica dessa possibilidade está no fato de existir um leitor com o qual você divide a sua intimidade.

Aviso que estou longe de escrutinar aqui a mecânica da intimidade. Como anotou o escritor português Miguel Esteves Cardoso no romance O amor é fodido, as coisas da intimidade “não têm graça quando são contadas porque foram feitas para não poderem ter graça fora de nós” — no mesmo parágrafo ainda afirma: “a verdadeira intimidade tem de ser ou inexplicável ou desinteressante”.

2.

A minha rotina de escritor se preenche (e é órbita dela) na presença de Morgana. Nós dois trabalhamos em casa. E quando leio em voz alta dentro do quarto que uso para escrever, porque a porta sempre fica entreaberta, sei que ela escuta da sala, que é onde fica a mesa de trabalho dela, ou do nosso quarto, que, por causa da melhor acústica, é onde ela ensaia quando precisa passar texto em casa.

Boa parte da minha disciplina, hoje em dia, está associada à presença dela e até ao seu olhar surpreso nas vezes em que levanto e vou até onde está só para perguntar se uma ideia qualquer que tenha me passado pela cabeça não é louca demais ou inverossímil demais. Faço isso já sabendo que a resposta dela será “como tu mesmo diz, faz o que tu acha que tem que fazer”, mas faço, é parte de nossa cadeia de rituais não planejados, inexplicáveis e até desinteressantes aos olhos de quem está de fora.

3.

No início deste mês, o site Homo Literatus publicou declarações de dez jovens escritores brasileiros (Ana Cristina Rodrigues, Antônio Xerxenesky, Eric Novello, Jéferson Tenório, Luis Eduardo Matta, Luisa Geisler, Marcos Peres, Rafael Gallo, Sérgio Tavares e Simone Campos) formuladas a partir da pergunta: o que é ser escritor brasileiro em pleno ano de dois mil e quinze?

As declarações são bem legais, maduras. Dentre elas me chamou atenção a do Sérgio Tavares, talvez a mais lúdica, porque ele falou sobre acordar cedo e ajeitar a casa enquanto a esposa se ocupa com as coisas da filha ainda criança, sobre preparar o almoço que será servido ao meio-dia em ponto depois de dar banho na filha e vestir o uniforme da escolinha, sobre tentar encontrar, depois das onze da noite, o tempo para encarar a tela do computador e crer que escreverá algo de relevante.

Um relacionamento que envolva alguém disposto a se tornar escritor (e, sendo escritor — considerado escritor, como observou Jéferson Tenório, numa das dez declarações que referi acima, o que assuma publicamente a tarefa de expor uma experiência estética ao mundo —, permanecer escritor) pode chegar ao estado encantado, à simplicidade poderosa das rotinas, como o que foi narrado pelo Sérgio Tavares — nunca se sabe, não há mapa, não há bussola e para quem olha de fora pode parecer apenas inexplicável e desinteressante.

4.

Então: feliz dia dos enamorados, Morgana, e feliz dia dos enamorados para os que acham que intimidade ainda é coisa que vale a pena, é algo que vale buscar.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Rasuras

Por Paulo Scott

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Imagino que, neste meado de segunda década do século XXI, ainda se poderia dividir o mundo entre pessoas que toleram rasuras e as que não toleram. Um documento rasurado é, em tese, um documento sem valor. Não é, entretanto, de documentos incapazes de produzir efeitos específicos para isto ou aquilo que pretendo tratar – embora desse contexto dos acordos surjam sempre intrigantes a noção de vínculo e a possibilidade de vontades, que externadas, produzam vínculos que poderão ser cobrados, inclusive pelo uso da força, para permanecerem: vínculos.

Um bom poema, um poema bem resolvido, assentado sob um punhado de rasuras não perde o seu valor – a rasura não o impede. Um roteiro de cinema não ganha alma se não tiver rasuras. Um esboço, mesmo sem rasuras, é o jardim das rasuras. Rasura é risco e é raspagem. A ação, não importa a técnica, é incapaz de eliminar a letra (a letra está lá, restando com sua própria unificação; mina enterrada, armada). Rasura é litura, e litura é letra que se tentou eliminar, letra não desejada que, no máximo, desfragmentou.

Não desejar, paradoxalmente, é uma forma de proteger; tirar dos olhares alheios, dos olhares que não entenderem o código, a implosão, o mapa da mina – quando essa mina for outra, mineral, quando for um tipo de capelinha da memória.

Quando reviro os poemas que escrevi à mão, perco minutos tentando refazer o que escondi sobre as rasuras; duvido que alguém se aflija diante desses (meus) resquícios tanto quanto eu.

No mundo dos sonhos, aquele do qual tratam os horizontes cênicos – o das projeções e molduras desobedientes que expõem a carne da existência, começando justo pelo que a existência tem de menos prático –, as rasuras podem ser caprichos e podem ser a quebra que concertará.

O computador acabou com a rasura, reduziu minhas chances de me reencontrar no futuro nisso que faço de melhor: errar. Mesmo as máquinas elétricas da IBM, a seu tempo suntuosas, nos davam a chance de rasurar e elas próprias rasuravam, se não estivessem bem reguladas. Talvez um dia alguém invente um aplicativo para rasurar digitalmente/eletronicamente – e até ganhe muito dinheiro durante algum tempo com isso.

Às vezes os poetas fingem rasuras nos seus textos publicados usando aquela ferramenta do Word que coloca uma linha ou duas no trecho selecionado. Nunca será a mesma coisa.

Acho mais grave quando, num romance, se prossegue com personagens rasuradas. Como se sabe: personagens jamais serão pessoas reais. Pessoas reais, e a vida, elas sim, são rasuradas; pecinhas de sonho viciadinhas da silva em reinvenção. Já falei sobre isso aqui nesta coluna, só que de outra forma. Essa é, portanto, a prova, regra de todas as brincadeiras (logo eu que estava inclinado a falar hoje sobre personagens planas e personagens modeladas), resistente, mudar de rumo, igual cidade, rasura.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Obrigado, Spock

Por Paulo Scott

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1.
Há muitos critérios para se apontar a presença de uma grande personagem — a aptidão que essa personagem (uma personagem de consequências irrecusáveis) tem de desfazer toda e qualquer convenção que, por ventura, sustente a realidade que a recepciona e a defina é um desses critérios.

Essa significância pode se tornar ainda mais intrigante quando decorrer de uma personagem concebida para coadjuvar, adjuvar, ajudar. No Dicionário Houaiss, na rubrica literatura, a palavra adjuvante se relaciona à função desempenhada, numa narrativa, por personagem ou força cuja atuação ajuda a realizar o desejo do herói.

2.
Talvez não haja resumo melhor para definir a infância do que a palavra procura — uma procura que será o centro, ao menos daquela existência específica, um centro que muito provavelmente não corresponderá à graça da competição (e do sentir-se confortável na competição) e da vitória (a vitória que deveria ser a decorrência óbvia da competição). É magia pura o conjunto de equipamentos, e a sua desenvoltura animal, embutidos na condição infância. Milagrosa é a efetividade desses equipamentos contra os processos de frustração, produzindo (na infância) uma espécie de imunidade contra o caos, contra a loucura causada pela avalanche de novidades e agressões.

A posição de herói é o começo de tudo, não importando o acaso, o imponderável; a criança é o altar (a singularidade) desatinado que a herdou. Valendo-me (e em seguida subvertendo-a) de uma imagem do James Wood, no Como funciona a ficção, poderia se dizer que só com a maturidade o herói é liberado da tirania de uma inevitável eloquência.

As fabulações e as leituras sentimentais que fazemos dessas fabulações podem facilitar ou dificultar o distanciamento daquela tirania.

3.
Não pretendo aqui cometer um milímetro sequer de inovação diante de tudo que já foi dito após a morte do ator Leonard Nimoy. E pouco importa que em algum momento da sua jornada esse ator, esse grande artista, tenha escrito que não era Spock (e tempo depois que era, era sim, Spock). Minha intenção é, provavelmente de uma forma muito desajeitada, dizer, dizer de novo, o quão necessárias são as fabulações e as personagens que as movimentam, não só as que protagonizam.

Metade terráqueo, metade alienígena, Spock — como foi bem destacado pela Alessandra Stanley quando escreveu sobre o ator e a personagem ao The New York Times, aqui em tradução capenga e levemente adulterada deste colunista — era insensível, insensível até mesmo em relação ao amor, mas sua mãe era humana, e isso significava que nem sempre ele conseguia evitar (suprimir) seus sentimentos. E isso foi justamente o que fez dele o mais inacessível e romântico herói imaginável.

4.
Essa figura e o seu não lugar (a condenação à procura), não tenho direito de esconder, foram alívio em diversos momentos de insegurança extrema da minha adolescência, foram minha banda de Heavy Metal, meus versos de Baudelaire, um modo de encarar que também ecoou nos primeiros anos da minha fase adulta.

Uma personagem marcante, inserida em um grupo de personagens muito marcantes, que aniquilou (não importa se metaforicamente ou não; não dá para perder tempo com isso, né?) todas as convenções que eu conhecia quando assisti à série, nas telas das tevês preto & branco, naqueles anos mil novecentos e setenta.

O mundo obrigando que fossemos Capitães Kirk, James Tiberius Kirk, e aparece Spock. A sobriedade possível, a contenção possível, a bondade que advinha do simples fato de aceitar o não lugar, da solidão e da estranheza que eram só suas e não eram motivos para lamentação.

Sem dúvida, uma nova dimensão ao processo de formação da palavra adjuvante na cabeça de uma criança, de um adolescente – um caminho que, naquele tempo de curtos-circuitos constantes de afirmação da identidade, tempo de precariedades, reforçou a importância da palavra colaboração.

5.
Escritores têm a capacidade de mitificar o que esteja ao seu redor. Escritores adoram mitificar a própria estranheza, a própria solidão. Penso que a solidão é um universo que nunca para de se expandir, penso que um escritor precisa mesmo ser capaz de suportar essa expansão.

6.

No livro Ithaca Road tem essa personagem Anna, uma garota com Síndrome de Asperger, que é um tipo de dupla-face de Narelle, esta sim a protagonista absoluta da história, que, no final das contas, também foi minha forma de homenagear o vulcano/terráqueo. Anna não compreende o trem-bala de sentimentos que é Narelle e não compreende quase nada desse campo, mas é justamente Anna, com toda sua insensibilidade, que guia Narelle à sua redenção possível. (Anna presta um pequeno tributo a Han Solo, outro coadjuvante genial, talvez ela quisesse ser Han Solo, porque era Spock.) As duas, a protagonista e a coadjuvante-primeiro-oficial-da-ponte-de-comando, são solidão, embora só Anna, deflagrada, ocupe a nave da estranheza. O segredo foi descoberto?; tenho convicção de não ter dado spoiler – o afeto entre as duas não é tão óbvio assim.

7.
O mundo de hoje é muito mais Spock do que era na minha adolescência; se você não fosse Kirk você não era nada. Não estou reclamando. Talvez tudo continue igual e eu não tenha notado.

8.
Antes de me dar conta da solidão, eu me dei conta da estranheza. São inúmeros os ínfimos detalhes que fazem de uma criança uma criança estranha. Mas chega um momento em que toda a narrativa dá um salto. Na adolescência, acabei compreendendo (ou me autoconvencendo) que todo mundo é estranho. Compreendi também que a estranheza não estava no ser uma pessoa estranha, mas no se sentir estranho.

Na sétima série, teve uma manhã, aqueles abomináveis sete e vinte e poucos da manhã, em que entrei na sala de aula do colégio marista onde estudava e tinha essa lista de nomes no alto do canto direito do quadro-negro. No topo dessa lista — até onde eu me lembro, não tinha mais do que dez nomes nela, era uma turma de cinquenta e poucos alunos — estava escrito: NERDS DA 7ª-A. E o meu nome estava entre eles. Era para ser ofensivo, era para inspirar o minicirco e o riso categoria minicirco de todos os que não estivessem arrolados na lista — naquela passagem da década de mil novecentos e setenta para a de mil novecentos e oitenta, ser chamado de nerd era receber na testa o carimbo oficial de socialmente desajustado, em caixa alta e com todas as letras —, mas eu me senti tranquilo, nem sequer cogitei algum tipo de vingança futura, o que até teria sido divertido do ponto de vista narrativo ficcional (mas vingança é sempre um troço fraco; como era bem fraca aquela turma dos que sofriam bullying sistematicamente e, para se vingarem da vida que não ajudou o titereiro a pregar em seus peitos a medalha de “Eu sou Capitão Kirk”, praticavam bullying contra os, em tese, mais fracos e expostos do que eles). Eu era um nerd — Que tal, Senhor Spock? Obrigado, Senhor Spock — e para mim estava tudo bem.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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