pedro franz

Por que quadrinhos? (5)

Por Érico Assis


Imagens da HQ Monstros!, de Gustavo Duarte.

Perguntei a vários quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu quatro colunas: esta, esta, esta e esta. Seguem inéditas abaixo:

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“Li sua [primeira] coluna quando saiu.

E concordo.

Mas vejo dois universos diferentes na discussão.

Se pensarmos no Brasil, é quase impossível ganhar algum dinheiro decente comparável com o quanto se trabalha.

Em resumo, se trabalha muito e se ganha quase nada.

Tanto é que ninguém vive exclusivamente de quadrinhos no mercado brasileiro.

Talvez seja uma das piores áreas (financeiramente falando) para se trabalhar dentro do mercado da cultura no país.

É muito pouco valorizada, poucos entendem como profissão e a maioria das empresas que trabalha diretamente com quadrinhos no Brasil ainda é muito amadora ou não consegue enxergar o potencial tanto cultural quanto financeiro da área.

Pra mim, tanto os quadrinhos quanto a área de desenho de humor (quase extinta no país) sofrem do mesmo mal.

E por coincidência são as duas áreas em que atuo…

Entendo o que o Gerard disse.

Não é fácil virar um popstar como ele por meio dos quadrinhos.

Concordo.

Para ser famoso é muito mais fácil montar uma banda, virar ator ou fazer stand-up.

Mas, fora do Brasil, no país dele, ser um profissional da área não é tão difícil assim.

A carreira de quadrinista/cartunista existe nos USA.

Dá sim para viver disso. E ter uma vida legal.

É claro que não é uma carreira fácil. Depende de muita dedicação, estudo e persistência, assim como várias outras áreas também dependem.

Porém, se você quer ser uma estrela, reconhecida e comentada por todos, os quadrinhos não são o caminho mais rápido e muito menos o mais fácil.

A minha opção pela área é a mesma de todos que partiram para essa carreira.

Nunca pensei em ser milionário fazendo quadrinhos ou cartum.

Mas também nunca quis me ver contando dinheiro para pagar as contas no final do mês.

Gosto e acredito no que faço. Por isso continuo.”

Gustavo Duarte é o autor de Monstros! — que vai ganhar edição norte-americana (com histórias extras) pela editora Dark Horse no ano que vem. Ele também escreveu e desenhou Chico Bento: Pavor Espaciar, que sai este mês no Brasil.

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“Acho que nunca me perguntei sobre isso… Desde que me lembro, sempre quis ser quadrinista. Já fiz de tudo um pouco no campo do desenho: charge, cartum, storyboard, anúncios, ilustração, capa de disco, livros, embalagens, games e tantas outras que nem me lembro. A maioria paga bem mais do que quadrinhos, mas nenhuma me dá tanta satisfação. Talvez o que me atraia na arte, além de suas qualidades literárias e artísticas óbvias, é o fato de que eu posso fazer tudo sozinho, se assim quiser. Posso criar universos fantásticos e ter os atores que desejar, sem precisar de orçamento gigantesco ou da aprovação de patrocinadores e produtores. Não sei… só sei que o que me levou aos quadrinhos foi a influência de meu pai, mas o que me mantém é o amor à arte.”

Mike Deodato é o pseudônimo que o paraibano Deodato Taumaturgo Borges Filho utiliza há mais de vinte anos quando desenha Mulher-Maravilha, Homem-Aranha, Wolverine, Vingadores e outros super-heróis. Sem sair da Paraíba.

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“Por que quadrinhos?

Acho que um pouco vem da vontade de querer contar histórias.

O legal é poder olhar lá para trás, para o meu passado, eu ainda bem criança e ver que eu ainda sou aquele.

Aquele pensamento que eu tinha e estava em desenvolvimento ainda continua, está aqui hoje. Todo aquele contato com os gibis, aquele ritual de ir todos os domingos de manhã com meu pai na banca. Ir na casa de meus avós, e descobrir que meu pai tinha velharias empilhadas por lá, talvez esquecidas. A primeira vez que peguei uma publicação do Zéfiro e fui mostrar para meus amigos. A primeira vez que folhei uma Piratas do Tietê. Todas estas lembranças ficaram marcadas e foram responsáveis por esta escolha. E são as respostas para este por quê.

O que faço hoje com meus amigos, quando sentamos para fazer quadrinhos juntos, é uma resposta e continuação do que eu fazia com meus amigos quando tinha meus 10 anos.

No lugar onde eu cresci, infelizmente as escolas e até mesmo meus pais não estavam preparados para me mostrar este caminho. Por alguns anos eu tomei um caminho bem diferente. Mas isto apenas atrasou o processo. Não me impediu de chegar aqui. Eu acabava voltando, esbarrando com algum gibi que me atraía.

E talvez estas escolhas do passado venham a aparecer ou influenciar de alguma forma meu trabalho agora ou mais para frente.

Então por que quadrinhos? Acho que a grande maioria, como eu, deve responder olhando para nosso passado.”

Tiago Lacerda — que às vezes assina Elcerdo para não confundirem com o ator global (que é Thiago com agá) — é agitador de vários coletivos de quadrinhos, um dos editores da maravilhosa Beleléu e está devendo mais trabalhos solo.

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“Acho que faço quadrinhos um pouco por obsessão, por acreditar que posso, por desejar fazê-los, por achar um lugar bonito para se estar e por Alberto Breccia, que em um momento importante me fez enxergar sentido nisso tudo. E também porque, desde muito novo, tenho uma relação muito presente com o desenho, com imagens e com narrativas. Porque sempre fui um pouco leitor e gosto de leitores e porque acho que, nos quadrinhos, se pode ter liberdade e fazer muito com pouco. E porque me interessa essa relação entre o desejo e o possível, que encontro quando faço quadrinhos.”

Pedro Franz é o melhor ilustrador a surgir no Brasil em muitos anos e gosta de intitular suas HQs megalomaniacamente — Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, Cavalos mortos permanecem no acostamento — ou comedidamente — Suburbia, Bukkake, Vermelho.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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