pedro henrique neschling

Semana duzentos e setenta e um

A resistência, de Julián Fuks
O leitor se descobre de partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante. Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam buscar o exílio no Brasil, o menino cresce, ganha irmãos, e as relações familiares se tornam complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescritura do próprio enredo familiar. Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.

Lugar nenhum – Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura, Lucas Figueiredo
Entre os incontáveis mistérios que cercam o período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-85), a ocultação dos arquivos secretos da repressão é um dos mais controversos. Desde a volta da democracia, em 1985, sucessivas tentativas de abrir os arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foram feitas pelo Ministério Público e pela Justiça. Mas a resposta dos militares era sempre a mesma: foram destruídos e não há vestígio deles em nenhum setor das Forças Armadas. Nesta brilhante reportagem investigativa que inaugura a coleção Arquivos da Repressão no Brasil, Lucas Figueiredo mostra que não é bem assim. O jornalista teve acesso a um conjunto de microfilmes do Cenimar – o temido Centro de Informações da Marinha. O material foi examinado por peritos da Biblioteca Nacional, que atestaram sua autenticidade, e analisado por historiadores renomados, que foram unânimes quanto a sua importância. Os documentos não deixam dúvida: os militares sempre souberam mais do que revelaram. Desde o início, tinham registros precisos sobre o destino de presos políticos tidos como “desaparecidos”, mas na realidade mortos pela repressão. Ainda existem registros desconhecidos sobre o período? Por que os militares insistem em ocultar seus arquivos, mesmo passados trinta anos do fim do regime ditatorial? Por que, de Sarney a Dilma, nenhum presidente civil do pós-ditadura obrigou a Marinha, a Aeronáutica e o Exército a abrir seus arquivos secretos? O que esse impasse diz sobre o poder das Forças Armadas e a democracia no Brasil de hoje?

O frango ensopado da minha mãe – Crônicas de comida, Nina Horta
O frango ensopado da minha mãe faz uma nova reunião de textos inéditos em livro – também originalmente publicados na Folha de S.Paulo -, selecionados com a colaboração de Rita Lobo, discípula confessa de Nina Horta. Eles consolidam a presença da autora não apenas como referência na bibliografia gastronômica, o que já seria muito, mas também como lídima continuadora do melhor da tradição da crônica literária brasileira. Os textos de Nina pretendem falar sobre comida, mas falam de vida. De uma vida simples, rica em experiências e repetições que levam à sabedoria – do jeito que ela prefere a culinária: sem esnobaria e afetação. Família, amigos, cozinheiros, livros, filmes, lugares, nomes de pratos, modismos gastronômicos, dietas e cuidados alimentares contemporâneos – tudo serve para mobilizar a escrita afetuosa em tom de troca de receitas, a glosa sagaz de quem conhece muita coisa e as escolhas de quem chegou à plena liberdade. Como essa, por exemplo: “Deixem em paz o porco, esse poema”. Uma sábia, essa Nina Horta.

Alfaguara

Um mapa todo seu, Ana Maria Machado
Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Paralela

Gigantes, Pedro Henrique Neschling
Tudo começa numa festa de formatura de ensino médio. Cinco amigos comemoram juntos o tão aguardado fim da vida escolar. Apesar de bem diferentes entre si, têm algo em comum: enxergam o futuro como um mar de possibilidades a ser descoberto e explorado. Sonham em ser gigantes, tão grandes quanto suas ambições. Mas para nenhum deles o futuro será conforme o previsto. À medida que os anos passam, os jovens deparam com as complexidades trazidas pelo chamado da vida adulta. Desilusões amorosas, questões familiares, conflitos na carreira, dúvidas e mais dúvidas… É inevitável: ao chegar perto dos trinta, todos nos tornamos um pouco mais desencantados e – por que não? – sábios. Mas e os sonhos da juventude, onde vão parar?

Suma de Letras

Revival, Stephen King (Tradução de Michel Teixeira)
Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade. Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra  o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

Objetiva

As mentiras que as mulheres contam, Luis Fernando Veríssimo
Tudo começa com a mãe, com o “Olha o aviãozinho!” à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que vai se desdobrando em outras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social. Na coletânea de crônicas As mentiras que as mulheres contamaparecem, por exemplo, a senhora que tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente a idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

Seguinte

Felizes para sempre, Kiera Cass (Tradução de Sandra Suy)
Esta coletânea traz os contos A rainha, O príncipe, O guarda e A favorita ilustrados e com introduções de Kiera Cass. Conheça o príncipe Maxon antes de ele se apaixonar por America, e a rainha Amberly antes de ser escolhida por Clarkson. Veja a Seleção através dos olhos de um guarda que perdeu seu primeiro amor e de uma Selecionada que se apaixonou pelo garoto errado. Você encontrará, ainda, cenas inéditas da série narradas pelos pontos de vista de Celeste e Lucy, um texto contando o que aconteceu com as outras Selecionadas depois do fim da competição e um trecho exclusivo de A sereia, o novo romance de Kiera Cass. Este é um livro essencial para os fãs de A Seleção, que poderão mergulhar mais nesse universo tão apaixonante.

Hornby, o rei do pop

Por Pedro Henrique Neschling 

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Todo artista tem um certo prazer egoico quando se depara com uma obra criada por outro que gosta muito. Uma sensação instintiva que o faz pensar “nossa, queria eu ter feito esse negócio!”. É incontrolável. Toda vez que leio um texto do Nick Hornby passo por isso.

Já nem me lembro qual foi o primeiro romance que li dele. Provavelmente Alta fidelidade, esse clássico instantâneo sobre (e d)a cultura pop contemporânea, talvez tenha sido Febre de bola. Não importa. O fato é que cada vez que seguro um novo trabalho do Hornby nas mãos sinto um comichão. Um desejo de virar logo para a próxima página que só diminui à medida que a história vai acabando e começo a sofrer antecipadamente com a ideia de me separar daqueles personagens que sempre me parecem tão próximos, mesmo já sabendo que eles nunca mais me abandonarão ao fim da leitura. Até hoje queria ser amigo do Rob Fleming e sua turma e comprar discos na Championship Vinyl. Me envergonho com algumas desconfortáveis semelhanças com o fanático Duncan, de Juliet, nua e crua, no dia a dia. E toda vez que entro numa conversa sobre arte contemporânea morro de ternura pelo segurança Dave, protagonista do delicioso conto “JesusMamilo”, parte da coletânea Falando com o anjo, que Hornby organizou em prol da Tree House, uma escola especializada em crianças autistas, como o seu filho.

A crítica do The New York Times Book Review ao seu mais recente romance, Funny girl, lançado pela Companhia das Letras aqui no Brasil, diz que “Hornby é um escritor que ousa ser, ao mesmo tempo, engraçado, inteligente e generoso com as emoções”. E é exatamente isso. Uma ousadia. Porque lidar com o universo pop sem abrir mão de profundidade dos assuntos retratados e ainda abusar do humor e da possibilidade de tocar o leitor sem jamais resvalar na pieguice é proporcionalmente uma tarefa tão complicada para o escritor quanto deve resultar imperceptível para quem lê o resultado final. E ele acerta na mosca.

Funny girl é uma leitura leve e deliciosa que faz as quatrocentas e tantas páginas passarem voando. Você se encanta com o furacão Sophie Straw, a carismática protagonista que sai de Blackpool em 1964 para conquistar a Inglaterra, ri do aparvalhado galã Clive, torce pelo correto produtor Dennis, se envolve com as idiossincrasias dos roteiristas Bill e Tony (que dupla!), e, assim, perpassa toda a vida dessa trupe num piscar de olhos.

Entretanto, o grande trunfo de Hornby aqui — como em toda a sua obra — é conseguir em meio a uma estrutura bastante técnica (e previsível até, no caso de Funny girl), além de aprofundar os sentimentos dos seus personagens, destilar uma crítica cruel ao universo que retrata através de camadas sutis de sarcasmo pinceladas em seu texto. É isso que o diferencia. Hornby sempre diz mais do que está na cara num primeiro momento, sem jamais soar pretensioso ou desacelerar o ritmo da história para isso. No fim, te apresenta seus personagens de forma tão carinhosa em suas complexidades (e excentricidades) que invariavelmente soa como aquele cara com quem você gostaria de sentar num bar para conversar sobre a vida — e sobre música! — sem medo de expor suas fragilidades. E é assim que eu acredito que a literatura pop deve ser.

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Pedro Henrique Neschling é ator, diretor, e em setembro lança seu primeiro livro pela Editora Paralela. Fã de Nick Hornby, no livro ele constrói um retrato deliciosamente carioca de uma geração passando pela zona cinzenta do fim da adolescência ao começo da maturidade, usando como pano de fundo a cultura pop do Rio de Janeiro.