pedro meira monteiro

80 anos de Raízes do Brasil

Na última segunda-feira, dia 8 de agosto, aconteceu em São Paulo o lançamento da edição crítica de Raízes do Brasil, que comemora dos 80 anos de publicação da obra de Sérgio Buarque de Holanda e também os 30 anos da Companhia das Letras. No Teatro Eva Herz na Livraria Cultura, os organizadores Lilia Moritz Schwarcz (USP, Princeton e autora de Brasil: uma biografia) e Pedro Meira Monteiro (Princeton) conversaram com  Mauricio Acunã (doutorando USP, Princeton) e Marcelo Diego (doutorando Princeton), responsáveis pelo estabelecimento de texto e notas desta nova edição.

Por meio de notas e variantes, a nova edição de Raízes do Brasil mostra que, entre a primeira edição e as seguintes, durante mais de três décadas, Sérgio Buarque de Holanda fez alterações importantes no texto, revisitando hipóteses e mudando, às vezes radicalmente, os argumentos e o tom. O livro acompanha posfácios de nove especialistas que trazem leituras originais deste que é, para jogar com as palavras de Antonio Candido, um “clássico” que se constrói pouco a pouco.

No vídeo, confira o encontro completo que discutiu a importância de Raízes do Brasil.

Clarior: Ruffato e a auréola das cartas

Por Pedro Meira Monteiro

1136361287_0097cb9dd3

O interior das casas humildes, o que guarda?

Terminei de ler, muito tocado, De mim já nem se lembra, de Luiz Ruffato. Romance epistolar sobre a perda do irmão mais velho, há nele uma delicadeza que provém da elegância e da essencialidade das coisas simples.

O leitor de classe média afasta de si, nervoso pela proximidade, aquele universo de paredes mal caiadas, de apetrechos de inox guardados para ocasião especial, da toalhinha plástica que cobre a mesa, dos retratos pobres que mal lembram o retratado.

“Pudor” é palavra-chave, que se lê quando o narrador entra, reverente, na casa familiar agora abandonada: “aprumado no mármore da mesinha-de-centro, um solitário exibe uma rosa-de-plástico; sobre o guarda-louça, três porta-retratos alardeiam os netos; inúteis, o sofá e as poltronas descansam, a televisão repousa — um filó de poeira lubrina tudo.”

As cartas são do irmão, José Célio, enviadas de São Paulo para a mãe, que é confidente, conselheira, tutora e guardiã de valores intocáveis. Estendendo-se de 1971 a 1978, no tom limpo e direto do filho apenas letrado que se justifica perante a mãe, a correspondência deixa ver a corrente de vida que de repente atravessa as entranhas da grande cidade. É um pouco a história do Brasil urbano que se estampa ali, singela, evocando os milhares de Josés Célios que se equilibram entre a tradição e a metrópole. O tom às vezes moralista, nunca agressivo, mas firme, é contrastado pelas descobertas do amor e pela paixão da política, que parecem querer formar um único par, impossível, ardorosamente buscado pelo jovem operário. No entanto, a pulsão de vida que o toma não chega jamais a desatar o fio que o prende à família em Cataguases, aos seus pequenos e grandes dramas vividos à distância, tudo envolto no inexprimível desejo de voltar, contrabalançado pela certeza de que já não se pertence a nenhum dos dois lugares: exilado, aqui e lá.

A moldura que o narrador — o “Luizinho”, que sabemos ser Ruffato — carinhosamente põe sobre as cartas é fina, discreta e perfeita: poética sem ser exagerada, sincera sem sombra de arrebatamento, feita com esmero e sem qualquer preciosismo. O quadro me faz pensar nos móveis das casas simples, nos lares humildes que o olhar curioso invade, entre fascinado e pudico. Lá dentro, cada objeto está no seu lugar, como que esperando o momento infinitamente próximo em que tudo, paradoxalmente, continuará sendo o mesmo, mas agora pleno de sentido, perfeito o círculo das coisas.

Em A comunidade que vem, Giorgio Agamben discorre sobre a auréola, que foi um grande tema para a teologia medieval. Tomás tem um tratado em que enfrenta a questão: se os santos são beatíficos, se eles têm em si todos os bens necessários à perfeita operação da natureza humana, então nada de essencial poderia ser-lhes acrescentado. Mas se assim é, por que algo mais deve se juntar a eles? O que é a auréola que os cinge?

A resposta: a auréola nada acrescenta, nem é necessária à beatitude, tampouco a altera, mas a torna simplesmente mais esplendente (clarior, segundo a expressão tomista). A auréola, aprendemos com o filósofo italiano, é “esse suplemento que se acrescenta à perfeição — algo como um vibrar do que é perfeito, apenas um irisar-se dos seus limites”.

Como as asas dos anjos, eu diria.

Como aquilo que se revela amiúde nos contos de João Anzanello Carrascoza.

Como a moldura das cartas do irmão perdido para sempre, em Luiz Ruffato.

Como se algo pudesse, digamos assim, esplender discretamente.

Pedro Meira Monteiro é doutor em teoria literária pela Unicamp e professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton. Editou a correspondência de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda e recentemente traduziu e organizou A memória rota — Ensaios de cultura e política de Arcadio Díaz-Quiñones, publicados pela Companhia das Letras.

Semana cento e vinte e cinco

Os lançamentos desta semana são:

A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti
Com a ajuda de polias, roldanas, gatos buliçosos, botas e parafusos, as máquinas de Goldberg cumprem uma função neste mundo: dificultar as tarefas mais simples. Pra que acionar uma descarga apertando o botão quando se pode arquitetar uma engenhoca complexa com sete fases em que uma corda liga um abajur que ofusca um jabuti que bate num flamingo de plástico, acionando uma mola de metal que desce uma escada em caracol, caindo sobre  o pedal da latrina? Nesta história de revanche e invenções mirabolantes, o garoto Getúlio, um adolescente punk e asmático, cumpre pena num acampamento de férias por ser antissocial na escola. Em meio à perversidade dos colegas à temida hora da ginástica, ele conhece o zelador Leopoldo, um velho melancólico com uma obsessão: construir geringonças. Juntos, arquitetam uma ambiciosa vingança que une as fugas de Bach às variações de Rube Goldberg, numa engenharia absurda que vai se expandindo até instaurar o terror no coração da Montanha Feliz.

O que resta, de Lorenzo Mammì
Lorenzo Mammì reúne pela primeira vez uma amostra representativa de sua produção, forjada ao longo dos últimos trinta anos. Os ensaios apresentam as linhas de força de seu pensamento, tais como a questão da autonomia da obra de arte, e as põem à prova em poéticas individuais – de Nuno Ramos a Paulo Pasta até a obra do crítico italiano Giulio Carlo Argan. Com clareza, densidade e erudição, Mammì mostra neste livro por que pertence à linha de frente do ensaísmo cultural brasileiro.

A verdadeira história do alfabeto, de Noemi Jaffe
Tendo como ponto de partida uma releitura ficcional da origem das letras do alfabeto e de algumas palavras da língua portuguesa, A verdadeira história do alfabeto é um apaixonante itinerário que vai de A a Z, de AArdvark a Zearalenona. Entre as numerosas alusões que transparecem dos verbetes que compõem este volume, Jorge Luis Borges e as narrativas bíblicas são pontos de referência inescapáveis. Do mesmo modo, autores como Guimarães Rosa e Vladimir Nabokov são postos em diálogo com a mitologia indígena e os sonetos de Luís de Camões. Inserindo-se numa tradição que inclui Giovanni Battista Piranesi, Italo Calvino, Alberto Manguel e outros inventores de lugares imaginários, a autora de Quando nada está acontecendo constrói em seu novo livro um antológico mosaico de ficções. Indiferente às limitações de enciclopédias, dicionários e manuais de retórica e amparada por numerosos idiomas, sejam eles reais ou inventados, Noemi Jaffe revela as metamorfoses de que a língua portuguesa, liberta das fórmulas do cotidiano, ainda é capaz.

Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência, de Pedro Meira Monteiro (org.)
Não se sabe ao certo, mas é provável que Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda tenham se conhecido em 1921, em São Paulo, durante uma das reuniões que antecederam a Semana de Arte Moderna, que se realizaria em fevereiro de 1922. Quase dez anos mais velho e já considerado um dos líderes do grupo, Mário designou o futuro autor de Raízes do Brasil embaixador  oficial da nova estética do Rio de Janeiro. Pouco antes da eclosão da Semana, Sérgio havia se mudado com a família para a antiga capital federal, onde também seria o responsável pela venda de assinaturas da revista Klaxon. Ainda que de modo intermitente, ao sabor dos afastamentos e reaproximações entre os dois amigos paulistanos, sua correspondência se estenderia entre o Rio e São Paulo por mais de duas décadas. Atento ao contexto intelectual do diálogo travado por Sérgio e Mário, o organizador Pedro Meira Monteiro, por meio de notas afirmativas e de um ensaio crítico que contextualizam as questões discutidas na correspondência, evidencia nestas cartas as principais linhas de força do modernismo brasileiro.

Química em questão, de Alfredo Luis Mateus
O que palavras exóticas como isômero, dipolo e epoxidação têm a ver com a nossa qualidade de vida? Segundo Alfredo Luis Mateus, simplesmente tudo. neste livro, ele nos mostra que a ciência das substâncias e suas metamorfoses está presente nos aspectos mais essenciais de nossa existência – alimentos, bebidas, remédios, roupas, combustíveis e objetos domésticos são apenas uma pequena amostra dos itens produzidos direta ou indiretamente por meio das transformações da matéria. Através desses elementos – e de assuntos como a radioatividade, o universo mágico da farmacologia e da engenharia molecular, o designs molecular e os produtos industrializados – entendemos os fundamentos da química e como ela pode proporcionar maior sustentabilidade à sociedade de consumo e nos ajudar a ter uma vida mais saudável.

A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso (Trad. Joana Angélica d’Avila Melo)
Com a erudição e o talento narrativo que o consagraram como um dos mais importantes escritores e intelectuais contemporâneos, o italiano Roberto Calasso disseca, em A Folie Baudelaire, od efeitos da obra de Charles Baudelaire sobre as mais diversas correntes artísticas. A força do poeta – uma encruzilhada incontornável para se entender na literatura moderna – não deixou imunes nomes como Chateaubriand, Stendhal, Ingres, Delacroix, Sainte-Beuve, Nietzsche, Flaubert, Manet, Degas, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Laforgue, Proust e tantos outros, “como se tivessem sido acometidos pela onda e submergidos por alguns momentos.” Calasso mostra que essa atraente, inconsolável e perigosa “loucura” teve, depois de Baudelaire, muitos outros visitantes, uma vez que, por fim, revelou-se coincidir com o território da literatura absoluta.

João e o bicho-papão, de Sinval Medina e Renata Bueno
João quer virar um caçador conhecido e, para isso, nada melhor do que encontrar o horripilante bicho-papão! Assim, cheio de coragem, mas sem muita certeza de que o monstro existe de verdade, o garoto começa a sua jornada. Pelo caminho, cruza com índios, macacos, cegos e outros seres, que o ajudam – ou o atrapalham – a chegar mais perto do bichano misterioso. Será que ele vai conseguir? O final da história é surpreendente… Escrito em versos, o livro reproduz a estética do cordel, assim como as ilustrações de Renata Bueno, que mostram os mapas que o garoto desenha ao longo de sua viagem. Ao final da história, um texto explica as origens da literatura de cordel.

Editora Seguinte

Cósmico, de Frank Cottrell Boyce (Trad. Antônio Xerxenesky)
Não muito tempo atrás, em uma galáxia pertinho de Liverpool… Liam Digby era um garoto comum de doze anos. Um garoto comum de doze anos muito, muito alto. Algumas pessoas até achavam que ele era adulto. Esta é a incrível história de como Liam contou algumas mentirinhas, quase roubou um Porsche, visitou um parque de diversões e meio que acidentalmente foi parar no espaço.

Quem poderia ser a uma hora dessas?, de Lemony Snicket (Trad. André Czarnobai)
Em uma cidade decadente, onde se criam polvos para a produção de tinta, onde há uma floresta de algas marinhas e onde um dia funcionou uma redação de jornal em um farol, um jovem Lemony Snicket começa o seu aprendizado em uma organização misteriosa. Ele vai atender seu primeiro cliente e tentar solucionar o seu primeiro crime, aos comandos de uma tutora que chama carro de “esportivo” e assina bilhetes secretos. Lá, ele vai cair na árvore errada, vai entrar no portão errado, destruir a biblioteca errada, e encontrar as respostas erradas para as perguntas erradas – que nunca deveriam ter passado pela cabeça dele. Ele escreveu um relato sobre tudo o que se passou, que não deveria ser publicado, em quatro volumes que não deveriam ser lidos. Este é o primeiro deles.