pedro nava

Semana cento e quarenta e quatro

Os lançamentos desta semana são:

Corpos estranhos, de Cynthia Ozick (Trad. Sonia Moreira)
Beatrice Nightingale é uma professora escolar de meia-idade que leva a vida estagnada há anos, desde que seu breve casamento acabou. Mas quando o irmão com quem mantinha pouquíssimo contato lhe pede que viaje de Nova York para Paris com a missão de resgatar um sobrinho rebelde, Bea acaba por se envolver completamente com as pessoas da família que durante muito tempo lhe foi alheia. Essa é a primeira de algumas viagens que a levam a repensar suas escolhas e possibilitam escapar das amarras de seu passado. Nas pegadas do romance Os embaixadores, do mestre Henry James, Cynthia Ozick nos conta a história desse resgate que se transforma, aos poucos, na história de uma desilusão. Ela transpõe com maestria a trama de James para os anos 1950, em que seus heróis terão de enfrentar um mundo complexo e brutal, recém destroçado por duas guerras mundiais.

Beira-mar, de Pedro Nava
“Vinte anos nos anos 1920”. Essa sentença mágica poderia servir de lema à brilhante geração intelectual integrada por Pedro Nava na Belo Horizonte da última década da República Velha. Carlos Dummond de Andrade, Aníbal Machado, Abgar Renault, Juscelino Kubitschek, Milton Campos e Gustavo Capanema, entre outros escritores, intelectuais e políticos seminais do século XX brasileiro, compõem o notável elenco de seus amigos da rua da Bahia, do Diário de Minas Gerais e da Faculdade de Medicina. Neste quarto volume de suas memórias, unanimemente consideradas o mais importante momento do gênero na literatura brasileira, Nava confere à Amizade – com alegórica inicial maiúscula – um papel de destacada protagonista. Contra o pano de fundo de calorosa cumplicidade entre seus jovens companheiros de vida e literatura, Nava rememora os penosos esforços da formação médica e as metamorfoses sofridas por uma cidade, um estado e um país prestes a serem tragados pelo torvelinho inexorável da modernidade.

A conquista social da Terra, de Edward O. Wilson (Trad. Ivo Korytovski)
De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Essas perguntas fundamentais são o ponto de partida deste livro. Em busca das respostas, o autor se concentra na complexa vida social atingida por insetos como formigas, abelhas e cupins, e por pouquíssimos mamíferos – entre eles os seres humanos. Em comum, esses organismos têm um pré-requisito essencial à formação de sociedades avançadas: a necessidade de se fixar em um ninho e defendê-lo de inimigos. No caso dos seres humanos, esses ninhos são acampamentos, aldeias, cidades. O que nos permitiu chegar a uma organização social ainda mais complexa é um corpo avantajado com um cérebro grande e desenvolvido, características que possibilitaram ao homem pré-histórico dominar o fogo e se embrenhar por caminhos tecnológicos. A grande preocupação do pai da sociobiologia neste livro é elucidar os mecanismos evolutivos por trás do surgimento das gigantescas sociedades de formigas e da cultura de nossa espécie. Está aí, para ele, o cerne da natureza humana.

O jantar errado, de Ismail Kadaré (Trad. Bernardo Joffily)
Em sua primeira noite sob ocupação do Exército nazista, em 1943, Girokastra assiste a um jantar que intriga os moradores da pequena cidade no sul da Albânia, onde as lendas milenares competem com as últimas fofocas. O dono da casa é o doutor Gurameto Grande, uma instituição local; o convidado, o coronel Fritz von Schwabe, comandante da tropa invasora. Ao som do gramofone, em meio a valsas e brindes com champanhe, o médico convence o alemão a libertar oitenta reféns em vez de fuzilá-los. Mas desde o início os moradores quebram a cabeça em busca de explicações para os intrigantes detalhes daquela noite. Dez anos depois, a história terá seu desfecho, que se mistura ao “Complô das Batatas Brancas” e à ação dos serviços secretos no campo comunista.

O humano mais humano, de Brian Christian (Trad. Laura Teixeira Motta)
Todo ano, cientistas e entusiastas da inteligência artificial se reúnem em um evento onde é aplicado o famoso teste de Turing, no qual programas sofisticados enfrentam humanos para determinar se computadores podem pensar. A máquina que se sai melhor é consagrada como o Computador Mais Humano. Resta ao membro mais convincente da nossa espécie a distinção de Humano Mais Humano. É esse prêmio que o filósofo e poeta Brian Christian vai buscar. Usando um relato da competição como ponto de partida para uma investigação abrangente e fascinante, Christian repensa: o que significa ser humano?

Um encontro, de Milan Kundera (Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca)
Por meio de uma singular seleção de artistas – de Beethoven a Fellini, de Francis Bacon a Gabriel García Márquez -, Milan Kundera revisita em Um encontro, seus vários interesses estéticos: música, cinema, literatura e artes visuiais. Os bastidores da criação literária intercalam-se com reflexões sobre o ofício de outros autores, entre contemporâneos como Philip Roth e antecessores consagrados como Dostoiévski. Neste mosaico de impressões, lembranças e textos críticos, a sensibilidade humanista tão característica do autor de A insustentável leveza do ser transparece, sobretudo nas agudas observações acerca da República Tcheca, seu país natal. Ao longo destes encontros com obras, mulheres e homens notáveis, Kundera procura apreender o que neles há de mais essencial, isto é, “aquilo que o próprio artista, só ele, pode dizer”.

Editora Seguinte

O cavaleiro fantasma, de Cornelia Funke (Trad. Laura Rivas Gagliardi)
Jon Whitcroft não estava nada feliz naquele internato. Tinha saudade de casa e não via a hora de provocar algum acidente envolvendo o Barba, o novo – e insuportável – namorado de sua mãe. Até que, na sexta noite em Salisbury, Jon encontra um motivo ainda maior para sair correndo dali: ele passa a ser perseguido por um bando de fantasmas, que desejavam nada mais, nada menos que a sua morte! Mas, em vez de pedir ajuda para a mãe, ele recorre a outro protetor: Sir William Longspee, um cavaleiro fantasma que, depois de ser assassinado, jurou zelar pelos fracos e inocentes. Air William cumpre sua promessa e, ao lado de Jon, percorre cemitérios, duela contra zumbis e vai em busca de seu próprio destino – revelando aos poucos sua história repleta de mistérios.

Editora Paralela

Adeus, por enquanto, de Laurie Frankel (Trad. Maria Alice Stock)
E se o amor continuasse além da vida? Laurie Frankel, a talentosa autora de O atlas do amor, inova em seu segundo romance, no qual conta a história do jovem casal que estendeu seu amor para além dos limites da vida. Não é milagre e nem magia, é pura ciência da computação! Graças ao software que Sam Elling, um divertido programador do MIT, desenvolve, torna-se possível conversar com projeções perfeitas de pessoas queridas que morreram. Assim, ele ajuda sua namorada a superar a perda recente da avó, mas não esperava que um dia fosse precisar se tornar usuário de seu próprio programa… Esta é uma história de amor do século XXI, encantadora e original, que nos faz pensar na vida (real e virtual) e na morte, nas paixões e nas perdas. Se de fato nada dura para sempre, talvez o amor desafie a ordem natural, e dizer adeus pode ser apenas um começo.

Semana cento e vinte e um

Os lançamentos desta semana são:

Candinho e o projeto guerra e paz, de Sávia Dumont
O menino Candinho nasceu em uma cidade pequena do interior, onde brincava entre as mangueiras, na rua de terra batida. À noite, participava da ciranda na praça, das festas em que o pai tocava na banda e das procissões. Era um menino observador. Quando cresceu, Candinho contou muito do que viu durante a infância. Em vez de palavras, ele usou tintas: pintou, pintou, pintou. O trabalho no campo, as plantações de café em flor, o trem de ferro, as estripulias das crianças, a luz da lua. Pintou também a guerra que conheceu e toda a tristeza que traz. Para lutar contra ela, Candinho se armou com seus pincéis e fez dois grandes murais, mostrando a todo mundo que a paz é necessária. Deu a ele o nome de Guerra e Paz. Conheça a história de Candinho — ou Portinari, como passou a ser conhecido – a partir de lindos bordados que recriam os estudos do pintor para esses dois quadros.

Chapeuzinho vermelho, de Christian Guibbaud (Trad. Júlia Moritz Schwarcz)
Junte uma Chapeuzinho Vermelho, uma vovó e um lobo faminto. O que temos? A história mais famosa de todos os tempos, em que uma garotinha, no caminho rumo a casa de sua avó, encontra um lobo esfomeado que resolve papá-la de almoço. Para isso, ele vai até a casa da avó da menina, tranca a senhora no armário e se disfarça de velhinha. Quando a Chapeuzinho chega, depois do famoso diálogo entre o lobo e a Chapeuzinho, ele tenta comê-la, mas ela é salva por um corajoso caçador. Ufa! O mais legal desta versão é que as crianças podem sentir o pelo do lobo, abrir a porta da casa da vovó e ver o bocão dos bocões (com os dentões dos dentões), em páginas cheias de surpresas.

Chão de ferro, de Pedro Nava
Em abril de 1916, o aluno 129 acabava de ser apresentado aos colegas, professores e funcionários com quem conviveria durante os cinco anos seguintes no internato do Colégio Pedro II. Pedro Nava iniciava as metamorfoses da puberdade em meio aos rigores da formação intelectual proporcionada pelo educandário do Campo de São Cristóvão. Neste terceiro volume de suas memórias, que se estende da permanência no internato carioca ao ingresso na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, em 1921, Nava fornece um rico testemunho sobre a vida cotidiana no Brasil do início do século XX. Na árdua rotina das aulas, nas férias em Minas e no Ceará, nas casas de parentes na zona norte do Rio — enquanto se prepara para aprender a profissão de seu pai, o futuro autor de Baú de ossos descobre as primeiras paixões políticas, os ídolos literários e o fascínio das raparigas em flor. As delícias e os desassossegos da adolescência compõem o núcleo central deste ato decisivo do drama autobiográfico de Nava.

Murundum, de Chacal
Murundum: (s.m.) Uma quantidade qualquer de coisa; porção, monte. Coisas (papéis, canetas, blocos, objetos) desordenadamente colocadas ou guardadas em qualquer lugar. Bagunça. Confusão. Neste murundum de poemas, há lugares reais, mundos virtuais, figuras imaginárias e outros instantâneos do dia a dia. Poesia é e não é. Não é só desabafo, dor de cotovelo, atitude. Ela pode ser uma conversa que você tem com o mundo. Ela afina o espírito para você tocar a vida. Poesia é sempre outra coisa. Experimente. Poesia é feita para se usar. ouça as palavras. Elas pedem para serem escritas. Depois junte a turma, solte a voz e viva a vida.

Os três porquinhos, de Xavier Deneux (Trad. Júlia Moritz Schwarcz)
Era uma vez três porquinhos, que construíram cada um a sua casinha. Mas havia um lobo mau que estava de olho em tudo! O resto da história todo mundo já conhece: o lobo estava com muita vontade de atacar aqueles bichinhos rosados e, com todo o seu fôlego, soprou muito forte e conseguiu destruir a casa de dois deles, que se refugiaram na morada do terceiro porquinho. E, como a casa desse porquinho tinha sido construída com tijolos, por mais que o lobo mau usasse todo o ar do seu pulmão, a construção nem se mexia. Quando o bichano desistiu de soprar e resolveu entrar pela chaminé, os três porquinhos pra lá de espertos já tinham bolado um plano infalível, e o lobo, ao descer o duto, foi parar num grande caldeirão de água fervendo. Nesta versão, as crianças interagem com a história sentindo o material da casa de cada um dos porquinhos e podem até ajudá-los jogando o lobo no enorme caldeirão.

Picasso e seus mestres, de Mila Boutan (Trad. Marcela Vieira)
Todo mundo já ouviu falar de Picasso e de sua maneira particular — e muitas vezes engraçada — de retratar a vida. Mas alguém sabe quais foram os artistas que o inspiraram? Neste livro, você vai conhecer os mestres de Picasso e descobrir como ele desmontava grandes obras-primas para recriá-las. Como no caso de As meninas de Velázquez, que ganhou novas e surpreendentes versões; das naturezas-mortas de Zurbarán, Chardin e Cézanne, que se transformaram em quadrados, retêngulos e triângulos nada convencionais; do Almoço sobre a relva de Manet, que ganhou 27 recriações do nosso pintor, e muito mais. Um verdadeiro passeio pela história da arte através dos olhos e das pinceladas de um dos artistas mais talentosos de todos os tempos.

Vanguardas em retrocesso, de Sergio Miceli
Em formulação famosa, Pierre Bourdieu definiu a sociologia como um “esporte de combate”. Continuador do trabalho do sociólogo francês, de quem foi aluno e interlocutor, Sergio Miceli confere concretude à expressão neste livro. Em ensaios sobre Jorge Luis Borges, Mário de Andrade, Lasar Segall, Xul Solar e Florestan Fernandes, Miceli compara a emergência do modernismo no Brasil e na Argentina munido de instrumental capaz de golpear certezas constituídas. Ao examinar as inclinações ideológicas, a história social dos autores e a moldura institucional em que se inserem, recupera o espaço variado de surgimento de um conjunto de artistas e ideais, tornando obras e trajetórias tão mais inteligíveis quanto menos idealizadas e triunfantes.

Editora Seguinte

É o primeiro dia de aula… Sempre!, de R.L. Stine (Trad. André Czarnobai)
O que você acharia de viver o pior dia da sua vida de novo? E de novo… e de novo… e de novo… Esta é a história de Artie, um garoto de onze anos inteligente e engraçado (mas inexplicavelmente pouco popular). Ele acabou de mudar de escola, e o primeiro dia de aula é um desastre completo. Até aí, normal. Só que, toda vez que Artie acorda, é o primeiro dia de aula de novo. E de novo. E de novo.

Editora Paralela

Sua vida em movimento, de Marcio Atalla
É inegável que a maior parte da população brasileira passa o dia todo fora de casa trabalhando — ou dentro de casa trabalhando — e à noite não tem disposição para nada que não seja ver televisão, navegar na internet ou comer. Mas, em Sua vida em movimento, o educador físico Marcio Atalla derruba um mito: não há desculpa para não se exercitar. Em Sua vida em movimento, Atalla apresenta alternativas para que homens, mulheres, crianças e idosos cuidem da saúde sem desculpas. Por meio de casos reais de alunos, ele dá dicas de como se alimentar bem, incluir o movimento no cotidiano e associar o lazer à atividade física, transformando completamente a atitude em relação ao corpo. Em um nível mais avançado, também ensina a traçar metas pessoais e a organizar e pôr em prática um programa de exercícios.

A perigosa aventura dos oitenta anos

Por José Mario Pereira (Entrevista publicada reeditada na revista Rio Capital em dezembro de 1992)

Autor de Baú dos ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978) e Galo das trevas (1981), o mineiro Pedro Nava (1903-1984) é considerado o nosso maior memorialista.

Natural de Juiz de Fora, companheiro, entre outros, de Afonso Arinos e Prudente de Moraes Neto no internato do Colégio Pedro II, Nava formou-se em medicina em 1927. Autor do poema “O defunto”, que impressionou até mesmo Pablo Neruda, incluído por Manuel Bandeira em sua Antologia dos poetas bissextos, Pedro Nava foi também pintor e desenhista.

Quando de sua estreia, em 1972, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Minha geração, a que ele pertence, tem orgulho de oferecer às mais novas um livro com a beleza, a pungência e o encanto da obra excepcional que Pedro Nava realiza com estes primeiros volumes de memórias, dignos de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”.

Poucos dias antes de sua trágica morte, que surpreendeu muitos amigos, conversei com ele por um bom tempo na sede da editora Nova Fronteira, então na Rua Joana Angélica, onde ia com frequência. Ele estava animado, comentou com simpatia a participação de Luiza Brunet num programa de entrevistas na televisão, então dirigido por Danuza Leão, e disse, com ironia, que estava pensando em mudar o título de seu próximo livro, O círio perfeito, porque se sentia cansado de responder que não se tratava propriamente de uma biografia de Paulo Maluf.

Pedro Nava era dono de uma voz poderosa, pleno de vida e saúde, um homem afável, amigo, cuja ausência dá saudade. Estranhamente não se tem falado nele, o que é uma pena. Esta entrevista, publicada originalmente na Última Hora na passagem dos seus 80 anos, diz muito sobre suas preferências e hábitos literários. Que ela seja um convite a reler e relembrar Nava é o motivo maior de sua republicação aqui.

* * * * *

Quando o senhor decidiu escrever suas memórias?

PN: Pertenço a uma família de guardadores de lembranças, de curiosidades. Sou filho de um tempo em que se guardavam cartas. A minha família preparou o terreno para mim. As tias paternas, cearenses, anotavam tudo. Meu declínio natural, o afastamento da medicina, facilitou a coisa. Escrevi sempre. Tenho quase 200 trabalhos publicados sobre temas médicos. Quando comecei a escrever as minhas memórias muitos parentes estavam vivos. Pude assim perguntar, confirmar, documentar situações. Em determinado momento eu deixei de ler, notadamente memórias. Lia muito Saint-Simon, Guimarães Rosa. Parei. São autores poderosíssimos, quase feiticeiros. Sentimos por demais a vontade de imitá-los. Comecei a pensar em colocar no papel minhas lembranças em 1968.

Qual o seu método de escrever?

PN: Escrevo sempre à máquina. Sete a oito páginas por dia, no horário de 1 às 5 da tarde. Sou vagotônico, funciono menos, sou menos vivo pela manhã. Reservo a manhã para a correspondência, o fichamento dos arquivos, meus, dos amigos, da minha família. Para isso estudei numerologia, que me é bastante útil. No momento trabalho no arquivo e na correspondência de Elisabeth Raja Gabaglia Leão, mulher de Epitácio Pessoa. Meus leitores me escrevem com freqüência. Quando ele é inteligente, eu respondo com longas cartas, eu me explico, dou esclarecimentos. O livro é como a carta de um náufrago, o leitor recebe o recado, lê e vem me salvar.

Para a descrição dos tipos eu procuro desenhar primeiro. Fazer o retrato. Se o nariz é grande eu faço maior, caricaturo. Uso plantas de cidades e de casas. Consulto muito o registro funerário. Ali encontro nomes para substituir os reais que não podem aparecer. Sempre coloco o papel na máquina dobrado em dois. Isso ajuda a fazer as correções. Uma impressão, um fato qualquer, tomo nota num caderno. Escrevo só de um lado da página: quando preciso é só cortar e a ficha está pronta.

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Semana noventa e um

Os lançamentos da semana são:

Baú de ossos, de Pedro Nava
A caixinha de música da sinhá recém-desperta recobrindo os lamentos dos escravos açoitados no porão. As penosas viagens das tropas de burros através das sertanias da serra da Mantiqueira. O modo tradicional de preparar quentão, angu e feijão tropeiro. As saborosas crendices e anedotas familiares, transmitidas de geração em geração como os dotes, as mobílias e as heranças. A genealogia dos antepassados confundida com as montanhas de Minas Gerais, as praias do Ceará, os burgos da Lombardia, as ruas de Juiz de Fora e do Rio de janeiro. No prodigioso baú de Pedro Nava, os ínfimos detalhes de um mundo extinto pelo trabalho incessante da morte convertem-se em marcos miliários do mapa da memória. Desbravador dos territórios perdidos da infância e da ancestralidade, tão intrincados quanto as rendas de bilro de suas avós nordestinas, Nava conduz o leitor pelos labirintos da lembrança com uma prosa aliciante, cuja opulência é alusiva ao fascínio inesgotável dos afloramentos do passado.

Balão cativo, de Pedro Nava
Neste segundo volume de sua monumental saga memorialística, Pedro Nava aborda o período delimitado pelo retorno a Minas após a morte do pai e os estudos no Colégio Pedro II, no Rio – marcos do fim da primeira infância e do início da idade adulta. Nava apresenta um abrangente panorama da cultura e da sociedade brasileiras na segunda década do século XX, alternando entre a Juiz de Fora de fechadas famílias tradicionais, a Belo Horizonte dos palácios recém-inaugurados e as ruas apinhadas da antiga capital federal. Dos sobrados da rua Direita às esquinas da jovem capital mineira, do luxurioso pomar da avó materna ao cotidiano do internato carioca, sua escrita magistral, repleta de termos de raro sabor arcaizante, viaja aferrado ao passado agrário. Muito além da mera crônica autobiográfica, as memórias da adolescência de Nava reconstroem a poesia do passado por meio de uma comovente homenagem aos amigos, professores e familiares mais decisivos em sua formação humana e intelectual.

Avenida Paulista, de Luiz Gê
Apesar de praticamente desconhecida do público em geral, a graphic novel Avenida paulista é um clássico dos quadrinhos nacionais. Concebida originalmente com o título Fragmentos completos, foi publicada em 1992 em uma edição especial da Revista Goodyear, de circulação restrita. Ao longo dos últimos vinte anos, tornou-se objeto cultuado e cobiçado entre colecionadores e marcou o início de um longo período de afastamento das HQs de um dos maiores quadrinistas brasileiros. Mesclando pesquisa histórica e iconográfica e o cenário de delírio e fantasia característico dos trabalhos de Luiz Ge, este livro narra cem anos de transformações ocorridas na avenida que simboliza como nenhum outro lugar o desenvolvimento acelerado e caótico de São Paulo.

Città di Roma, de Zélia Gattai
Neste livro da maturidade, Zélia recua no tempo e nos conta a história de sua família italiana no período anterior ao retratado em Anarquistas, graças a Deus. Com a escrita amorosa e sem afetação de sempre, ela passeia pelas lembranças que começam no navio batizado Città di Roma, no qual imigraram suas famílias materna e paterna. Velhas tias, vizinhos gentis, aulas de piano, rusgas com a polícia, rápidas confissões, os passeios de domingo: tudo se mistura na mesma tinta, pintada com o simpático tom intimista da autora.

Cozinha da Dona Nininha, de Lená Loureiro (Ilustrações de Cecilia Afonso Esteves)
Em uma casinha azul, Nininha cozinhava pra chuchu. Fazia receitas deliciosas, sopas maravilhosas. Mas nos doces, uma decepção, ela não acertava a mão! Depois de muito estudar, nas sobremesas passou a arrasar. Seu reinado apenas começava: pedidos e mais pedidos, a cozinha não parava. Eram recheios, pastas, fondants e pavês, enfeitados com flores, frutas, laços e glacês. Você não vai acreditar: a casa não aguentou, e o teto…voou! Quer conhecer essa história saborosa do começo ao fim? Então se prepare…pois neste livro tem muita farinha, “atchim”!

Pedro Nava, memorialista do Brasil

Por André Botelho


Pedro Nava com Carlos Drummond de Andrade — almoço de 80º aniversário de Nava, Rio de Janeiro, Churrascaria Porcão, 4 de junho de 1983. (Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa/ Arquivo Museu de Literatura Brasileira.)

A escrita de Pedro Nava surpreende em vários sentidos. Nas suas Memórias (inauguradas por Baú de ossos), escritas entre o dia 1 de fevereiro de 1968 (como fez questão de anotar na primeira página dos originais da sua futura obra, quando contava com quase 65 anos) e o seu suicídio ocorrido em 13 de maio de 1984, o leitor encontra um pouco de tudo. Um misto de memórias, autobiografia, biografia, relato histórico. E também de romance e ficção.

Memória ou imaginação? Documento ou Ficção? No lugar de uma resposta exclusiva, a força e o alcance próprios dessas Memórias parecem estar antes na heterogeneidade e ambiguidade que lhes são constitutivas. Elas são, em verdade, compostas por elementos das mais variadas procedências: da tradição oral dos contadores anônimos de casos e da cultura popular (valorizada pelo modernismo de que Nava foi expoente em sua juventude em Belo Horizonte junto a Carlos Drummond de Andrade e outros) e também das rodas familiares e de amigos ― de que foi proeminente conversador; a um incomum e consistente saber erudito devido a muitas leituras, passando pela prática cotidiana da medicina, que o consagrou como reumatologista.

O baralhamento entre ficção e confissão é um dos motivos que têm suscitado tanto interesse, e também controvérsia entre especialistas nos livros de Pedro Nava. Para todos os leitores, porém, seu encanto parece estar justamente no jogo envolvente entre documento e ficção, entre memória e narrativa. Talvez por isso, cada um dos seis volumes das Memórias publicados em vida pelo autor tenha figurado nas listas dos livros mais vendidos, quando da sua publicação original. Para dar um exemplo, Baú de ossos (1972), o primeiro deles, esgotou rapidamente duas edições, vendendo cerca de 20 mil exemplares em menos de dois anos.

A meu ver, essa arte complexa de Nava exigiu antes de tudo a recusa da cronologia mais imediata ― tudo em nome dessa escrita desenvolvida a partir da rememoração. Recusa que, ao fim e ao cabo, é o que permite manter viva em seus livros a tensão criadora entre passado e presente, mortos e vivos, subjetivo e objetivo, individual e coletivo, particular e geral, o Brasil e o mundo. Por isso, em minhas pesquisas e cursos, venho procurando aproximar as Memórias de Pedro Nava, de um lado, à categoria de auto-retrato. Esse é um tipo de representação que não se deixa aprisionar inteiramente por uma noção de “eu” altamente individualizada, mas que, dividido e multiplicado nos outros, se permite surpreender também como parte de experiências e coletividades sociais mais vastas, transcendendo a biografia. De outro, o relato de Nava configura uma interpretação do Brasil, já que não é apenas resultante de uma visão determinada da sociedade, mas também forja maneiras ativas de sentir e de pensar o Brasil e de nele atuar.

Outro ponto que vale destacar é que embora elas sejam monumentais, nossa identificação aos livros de Nava parece sempre favorecida mais no detalhe do que no conjunto todo da narrativa. Detalhe, esse recurso fundamental para enfocar, registrar uma impressão, fazer lembrar, e que, em Nava, está diretamente ligado aos sentidos: olhar, audição, olfato, tato, meios através dos quais percebemos e reconhecemos os outros, o ambiente em que nos encontramos e, assim, a nós mesmos. E esse é apenas um dos recursos textuais próprios à ficção tão bem mobilizados na narrativa de Nava, e que, em conjunto, ajudam a imprimir força ao relato e um sentido de grande generalidade.

Essas questões de ordem geral são retomadas nas apresentações que estou escrevendo para cada um dos sete volumes das Memórias a serem publicados pela Companhia das Letras, buscando contribuir para situar o leitor face aos diferentes temas que elas apresentam e suscitam. A nova edição é apoiada também por pesquisa documental realizada no arquivo Pedro Nava da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, que contém cerca de 6.100 documentos manuscritos e datilografados datados de 1836 a 1993, além de pesquisa sobre sua recepção nos jornais de época  realizada na Biblioteca Nacional. São muitos e variados os materiais de que o autor se serviu na elaboração das Memórias: livros, diários, recortes de jornais, genealogias, receitas de cozinha, bulas de remédio, fotografias, postais, álbuns de retratos, reproduções de pinturas e esculturas, desenhos, caricaturas, croquis, mapas, além dos seus originais. Esse material colecionado ao longo da vida foi cuidadosamente acondicionado por Nava em pastas, fichários e cadernos de anotações que depois serviam de suporte aos planos de trabalho dos capítulos dos seus livros, a que chamava de “bonecos” ou “esqueletos”. Após traçar esses planos de trabalho, Nava passava propriamente à escrita: escrevia à máquina no lado esquerdo de uma folha dupla de papel almaço sem pauta, deixando o lado direito para correções, enxertos e diversas observações, bem como para colagens e desenhos que reforçam a memória visual do autor e da obra que ia criando (seus originais datiloscritos compreendem cerca de 10.800 folhas).

Alguns desses materiais são reproduzidos nesta nova edição, sendo que cada volume traz os relativos a seus próprios originais ou às suas pastas e arquivos correspondentes. São páginas dos originais, fotografias, cartas, anotações e, sobretudo, mapas, retratos, caricaturas, colagens e outros desenhos feitos por Nava que atestam sua grande qualidade como artista plástico. Mas elas não figuram nos cadernos de imagens apenas como ilustração. Além do deleite, as belas imagens selecionadas visam proporcionar ao leitor uma perspectiva para acompanhar, tal como nos parece ser o seu papel nos originais da obra, a educação do olhar e a importância capital das imagens para a definição do memorialista que Pedro Nava se tornou.

Por fim, aproveito para agradecer especialmente à Casa de Rui Barbosa e aos seus funcionários e a André Bittencourt e Luna Campos, meus orientandos no PPGSA/IFCS/UFRJ, pelo auxílio na pesquisa documental. Ao André devo ainda a parceria na pesquisa e seleção iconográfica da edição.

[Baú de ossos e Balão cativo têm lançamento previsto para 2 de março.]

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André Botelho é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor editorial das obras de Pedro Nava na Companhia das Letras.