penguin 80 anos

Duas ilhas num oceano de papel

Por Ana Maria Bahiana

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Foto: Alberto Bahiana

A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Às vezes eu acho que passei a minha vida toda lendo. Antes de saber ler eu “lia”, esforçando os olhos para ver em que aqueles rabiscos pretos correspondiam às figuras. Eu adorava aquela coleção de história infantis musicadas pelo Braguinha, porque eu podia ouvir a história e acompanhar o texto — e às vezes, que milagre!, os rabiscos faziam sentido.

Quando eu tinha 8 anos e o sarampo quase me matou (coisa que só fui saber depois), passei semanas me recuperando na nossa casa da serra fluminense, em Teresópolis, tomando sol e lendo. Para mim, foi o paraíso. As memórias da doença — que ainda tenho — tiveram a contrapartida perfeita, as horas e horas passadas em outros mundos, em outros tempos, com outras pessoas.

Foram tantos os livros da Penguin Classics que passaram por mim (e ainda passam — acabei de comprar uma edição recente de On The Road) que não consegui escolher só um para este post. São dezenas de títulos que marcaram minha vida, em tradução ou no original, cada um trazendo uma carga específica de memória, emoção, informação. Acabei pescando dois desse mar de papel, porque cada um deles balizou um marco da minha vida.

Contos de Andersen foi uma das minhas primeiras leituras de “menina grande”. Sempre me senti atraída por fábulas e contos de fada, e acho que, de Perrault aos irmãos Grimm, eu devo ter lido todos. Mas Andersen sempre foi meu favorito, o que falava mais profundamente comigo, o que mais me passava algo que, muito tempo depois, eu iria a compreender como a capacidade de usar a experiência mágica como uma metáfora para as limitações e anseios humanos. Alguma coisa na mistura de delicadeza, empatia e profunda tristeza dos Contos faziam completo sentido para mim, e abriam a possibilidade que os bons contos de fada possuem: pensar o mundo além do banal.

Como toda boa história de fadas, Andersen constantemente me dava medo. A menina que pisou num pão e A pequena sereia, meus favoritos, sempre me davam um frio na barriga. Um frio bom, que não mudava quando eu lia de novo e de novo e de novo, sempre, talvez, na esperança de que a menina não pisasse no pão, ou a sereia não se apaixonasse pelo moço terrestre, mas sabendo que elas jamais escapariam de suas sinas, porque esse é o poder de quem conta a história.

Acho que foi aí que se expressou claro, em mim, o desejo de ser alguém com esse poder, o de contar a história.

A adolescência trouxe Julio Verne, livros de aventura e os modernos norte-americanos. Ah, como eu amava a poesia brasileira e a ficção moderna norte-americana! Principalmente A leste do Éden, de John Steinbeck. Olhando em retrospectiva, é absolutamente fascinante que, aos 14 anos, eu tenha me apaixonado à distância por uma paisagem que eu nem conseguia localizar inteiramente, só para, um quarto de século depois, me apaixonar por ela de novo, ao vivo: a Califórnia.

Éden para mim teve o mesmo impacto de O Tempo e o Vento, de Veríssimo, ou Capitães da areia, de Amado (que li na mesma época), mas com a força extra de me apresentar algo que, ao contrário da Bahia ou dos pampas, eu ainda não conseguia imaginar por inteiro: uma outra terra, uma outra paisagem geográfica, humana, emocional e simbólica. Nem as aventuras de Jack London nem a imaginação de Julio Verne (para citar dois favoritos) me levaram tão longe quanto Steinbeck — e no entanto tudo o que ele queria era poder dizer a seus filhos e leitores como era o seu mundo ali perto, no vale de Salinas, no centro da Califórnia.

Creio que o impacto de Éden e de Steinbeck, para mim, foi essa integração do ser humano na paisagem, da paisagem no universo das ideias, do universo das ideias de volta ao ser humano, um círculo perfeito expressando o sonho do Oeste como liberdade, oportunidade, abundância, justiça, novos horizontes.

O vale de Salinas é lindo, as serras de Gabilan e Santa Lucia de um lado, as baías e despenhadeiros de Monterey e Big Sur do outro. É uma terra de imigrantes e migrantes, de trabalho duro, sol a sol, de terra boa e fértil e gente de muitos idiomas, culturas e tons de pele, unidos ainda pelo mesmo sonho que moveu as famílias de Steinbeck em Éden. Quando estive lá pela primeira vez, ouvindo viras portugueses na rádio local e com o aroma de alcachofras e laranjas no ar, eu deixei um beijo escondido ao pé de um  carvalho do canyon, numa curva de uma estradinha de terra, por entre as videiras, as ovelhas e os açudes — para John Steinbeck, que me levou até lá.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Em Tradução (Pinguins)

Por Caetano Galindo

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Então me pediram pra escrever alguma coisa em referência a um título clássico do acervo da Penguin por causa do aniversário da editora.

(Logo, aguardem pra próxima coluna mais divagações sobre City on Fire… A tradução vai indo, chegando a 700 páginas.)

Meu!

Chega a ser difícil pensar em escolher. Os pinguins pra mim são quase o símbolo da leitura de ficção de qualidade. Porque o acervo é imenso e imensamente incrível, porque os preços são bacanas, os projetos gráficos são DEMENTES e o acabamento dos livrinhos, ah… Que felicidade e que durabilidade!

Todos: os modernos, os clássicos, os “vintage” de capinha em tom pastel… Talvez acima de tudo os “black spines”, claro, com aquele “retanglinho” preto no terço inferior da capa e a tarjinha branca com o pinguim. A cara de um dia feliz de leitura.

Tenho vários, tive muitos mais. Sou quase devoto.

Quando eu soube que a minha tradução do Ulysses não só ia sair pela Companhia das Letras, mas ia ter pinguim e black spine!

Pô, eu tenho uma blusa que eu comprei só porque era duma marca que estampa um pinguim no peito! Eu tenho uma camiseta Penguin-Companhia que eu roubei da minha mulher! (Fica LINDA moldando meu physique de rolo…) Isso porque a minha, original, eu tive que dar pra um joyceano inglês num congresso!

Mas na hora que me pediram pra falar de UM clássico (e logo depois de me sugerirem muy amavelmente que de repente eu já falei demais do Ulysses aqui), eu de imediato lembrei de uma ediçãozinha pequenininha que eu achei numa loja que nem existe mais em Curitiba, exatos vinte anos atrás.

Por que eu sei que era 95? Porque o volume era parte da coleção Penguin 60s, de volumes baratíssimos feitos pra celebrar o aniversário de 60 anos da editora.

Qual livro?

A morte de Ivan Ilyich.

Que eu sempre quis ler porque o Dalton Trevisan, maior dos maiores, uma vez escreveu que todo homem morre duas vezes, sendo a primeira a leitura do Ivan Ilyich.

Li numa sentada.

Morri mil vezes.

Tolstói, digamos com todas as puras palavrinhas, simplesmente sabia tudo de narração. Ele é um monstro.

Hoje, ainda cedo, eu falava com os alunos que é estranho ver o quanto o cinema e a televisão demoraram pra desenvolver uma gramática narrativa que, no fundo, estava inteirinha em Guerra e Paz. Em Anna Kariênina.

Era só ter ido ler…

Mas o Ivan Ilyich ainda é uma pancada tão grande em termos simplesmente humanos. E num texto tãããão breve.

Aquilo é uma aula de coisas que você nem sabia que podiam ser ensinadas.

É uma humilhação.

E eu nunca, nunca mesmo, devo esquecer da total felicidade de encontrar naquela loja já morta aquele livro (já perdido), que seria capaz de mudar a minha vida (e a minha morte), num voluminho lindo por um preço que eu podia pagar com a grana da bolsa monitoria da universidade…

Tudo por causa do pinguim.

Obrigado.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Lolita

Por Carol Bensimon

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Quando li Lolita pela primeira vez, ainda não entendia o que me fazia gostar ou não de um livro. Eu tinha uns 18 anos e aquele romance só tinha me caído nas mãos porque era o primeiro volume dessas coleções que às vezes os jornais lançam (ou lançavam): pelo valor da assinatura mais tantos reais, você ganha uma incrível biblioteca de clássicos da literatura universal. A versão intelectualizada dos utensílios de cozinha de Caras. Lolita era o primeiro livro, mandaram-no como amostra grátis. Meu avô não se interessou em pagar pelo resto.

Li Lolita assim, por acaso. Foi como conhecer uma grande banda porque ela está tocando nos corredores de um supermercado.

O que havia lá? Naquela idade, eu não sabia dizer direito (a diferença para hoje é que talvez eu me esforce mais tentando explicar, mas continuo ignorando a maior parte da origem e dos caminhos malucos que fazem os arrebatamentos). Lolita me fisgou. Me deixou colada no sofá com a sensação de que eu esperava sempre uma coisa, a próxima coisa, a próxima coisa incrível. Senti asco, desejo, culpa, empatia, e a mistura de tudo isso me deixou tonta, empolgada, na ponta dos pés, na corda bamba da imoralidade.

Lolita foi o terceiro livro escrito em inglês que Nabokov, um russo, publicou depois de emigrar para os Estados Unidos. Me perdoem os fãs de Nabokov, mas acredito que nenhum outro de seus romances chega aos pés desse, escrito aos 56 anos. Ele passou cinco anos escrevendo-o e dizem que tinha fichas extremamente organizadas, e dizem também que andava em ônibus com pré-adolescentes para anotar num caderno a cadência de suas falas e as gírias que usavam. Durante aquele período, todos os modos, o kitsch, o consumismo da cultura americana dos anos cinquenta eram uma fonte de inspiração para o imigrante europeu que sobrevivia na América dando aulas de literatura em escolas de pouco prestígio. No livro The Annotated Lolita, Alfred Appel Jr. nos apresenta a reprodução de um anúncio de época — o anúncio de um roupão — que teria servido a Nabokov como referência para o físico de Humbert Humbert.

A publicidade também parece ter ajudado na criação da dona-de-casa suburbana Charlotte Haze. Havia um anúncio em particular que Nabokov adorava mostrar aos seus alunos e que envolvia colheres de prata e uma mulher com as mãos entrelaçadas. Ambos anúncios — o do roupão e o das colheres — podem ser vistos nesse artigo da New Yorker. Curiosamente, Nabokov não deixou para trás nenhuma referência visual da menina Lolita, essa personagem que a cultura pop e as adaptações cinematográficas transformaram numa garota de cerca de 16 anos, mas que de fato tinha apenas 12. Vender Lolita como uma figura sexualizada, aliás, era uma ideia que seu criador desaprovava; Nabokov não queria que as capas das edições de Lolita fizessem qualquer referência à personagem principal, algo que teve dificuldade em controlar sobretudo depois do lançamento do filme de Stanley Kubrick.

A primeira edição do livro data de 1955 e foi publicada, em inglês, na França. O livro apareceria somente três anos depois nos Estados Unidos, e teve imediatamente um sucesso estrondoso; foi o primeiro livro, depois de E o vento levou, que vendeu 100.000 cópias em três semanas. Bons tempos.

Lolita seria publicado hoje? Não podemos saber. Se não há uma censura declarada a obras literárias, há sem dúvida uma onda moralizante e politicamente correta que condena os personagens cujos valores são distorcidos ou diferentes dos nossos. É sintomático também que nosso tempo coloque na lista dos mais vendidos uma saga em que a perversão (sado-masoquismo) passou por uma limpeza enorme, uma adequação social e comercial, deixando tudo com o aspecto de uma longuíssima propaganda de perfume.

Cinquenta tons de cinza não faz mal a ninguém. Enquanto isso, Lolita mantém intacto seu potencial de choque e de desestabilização, mesmo depois de passados sessenta anos. Tanto é que o romance foi recentemente censurado na universidade de Columbia.

Mas o que seria da literatura sem os maus e sem os loucos?

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma

Por José Luiz Passos

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

No bairro de Salvador onde eu costumava alugar um apartamento há um busto em bronze, de costas para o mar, perto do ponto em que, dizem, nasceu o Brasil. Mas não é o busto de nenhum brasileiro. É Stefan Zweig, sereno, de olhos abertos, com o bigode polido pelo afago dos passantes. Zweig é famoso por ali; muita gente tira foto com ele. De manhãzinha, quando eu passava correndo, tinha sempre alguém dormindo ao pé do escritor. O busto fica ao lado de um banheiro público, de frente para dois bares e um grande centro hospitalar. Também divide a calçada com carrocinhas de água de coco. Então, matando a sede, as pessoas de vez em quando se escoram em Stefan Zweig.

Os “clássicos” ou homenageados têm, em geral, a sorte de uma companhia tão tranquila que se confunde com a insensibilidade. Duvido que Lima Barreto quisesse ter essa sorte. A lógica da vassalagem literária obedece a vários reis. Há a sanção popular, claramente evidente em leitores de ônibus, bancos de praça e fã-clubes; há o juízo da crítica, que se expressa em dissertações, teses e na contagem de artigos; e há o amor carnal de agentes e editores, cuja prova deveria ser a sequência ininterrupta das reedições de um autor. Sob qualquer um desses critérios, alguém ainda duvida que Lima Barreto mereça estar entre os principais da língua?

Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. A cara do Brasil tem muitas cores. Seus escritores, muitas manias. A esse respeito, certa vez surgiu num encontro literário um debate curioso: que o Brasil deveria homenagear um escritor com a cara do Brasil; que tudo era político e o escritor que falasse a verdade, falaria politicamente. Não disputo a crença de que um diagnóstico crítico, a respeito das molas do poder de sua época, faça parte da relevância do escritor Lima Barreto. Tampouco ponho em questão a complexidade que a sua escrita deriva de uma trajetória praticamente ignorada pela literatura do período: os riscos de uma vida como autor negro, pobre, enfrentando-se a questões sexuais e problemas psiquiátricos, na pugna com o alcoolismo. Não é que essas variáveis outorguem à escrita mérito automático. É, mais ou menos, o contrário. A urgência de uma escrita que busque o registro de experiências inconformadas é índice da força e da variedade de um autor. E a literatura é o campo em que essas experiências deveriam contar para todos, não apenas para aqueles que passaram por elas. É precisamente aí que falar de uma política dos clássicos, ou da graça da dita literatura “séria”, alcança seu sentido maior.

— Sabes o que estou fazendo, Anastácio?

— Não “sinhô”.

— Estou vendo se choveu muito.

— Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco…

Policarpo Quaresma precisa medir a chuva; a mesma chuva que seu ajudante Anastácio considera constatada a partir de um mero golpe de vista. O momento verdadeiramente político de um tributo a qualquer escritor é semelhante ao gesto de Policarpo: levar aquilo que parece opaco, pela sua imensa naturalidade, ao reino do visível; tornar a escrita que realiza tal operação nossa bem-vinda vizinha. Escrever bem não é escrever sério, nem tampouco levar-se a sério. Como me disse uma professora querida, literatura é leitura e leitores; os clássicos se fazem a partir do embate — também político — dessas leituras, refeitas a cada geração.

Entre as contribuições de Triste fim de Policarpo Quaresma está sua capacidade de tornar a vida de gente pequena um complexo de tramas desconfiadas; de usar o simplório como pedra no sapato dos grandes ideais; de lançar mão do ridículo na denúncia do nosso proselitismo; de enxergar a majestade do drama em detalhes comuns e, sobretudo, dar ao eu confundido uma dignidade que ele antes carecia, quando era tomado de cima para baixo, sob a ótica de instituições bem-nascidas. Para além do chavão, a leitura que se fizer de Lima Barreto só lhe fará justiça se incluir nossa carência dele: ver-nos na cara do autor é pensar com ele um Brasil que, de certa forma, o negou.

Qualquer homenagem deveria transformar a opacidade do óbvio em algo palpável, que passe a fazer parte da paisagem de todos. E não é óbvio que Lima Barreto é a nossa cara? Ele sabe mais do Brasil do que o Brasil quis saber dele. A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati. Até no delírio patriótico, a pátria que lhe surge é inimiga e se denuncia.

Certa vez, a caminho de uma aula, cruzei novamente com o busto de Zweig. Quem olhe dali para longe, talvez buscando no outro lado do Atlântico uma ponta da África, dá de cara com o bronze nos olhando de volta, como quem diz que já sabia que o Brasil seria o país do futuro… Colei por cima da plaqueta, com o nome do escritor, um papelzinho avisando aos passantes: Lima Barreto nos representa. No final da vida, tal qual um Policarpo, Zweig teve a mania de entender o Brasil. Por outro lado, o sublime Lima, na sua singela grandeza, lá de trás, já havia entendido o esforço extravagante do próprio Stefan Zweig. Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma ainda nos revela — e muito. Ora, me parece que isto vale bem mais do que um busto.

Texto publicado originalmente no Suplemento Pernambuco.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O melhor dos mundos possíveis

Por Juan Pablo Villalobos

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

1. Na sexta-feira passada, eu estava no melhor dos mundos possíveis: tinha dedicado a semana a ler, escrever e a rabiscar ideias e frases soltas para meu novo livro. No final da tarde, fui caminhando até uma livraria para comprar uma nova edição de um dos meus livros favoritos, Cândido, ou o otimismo, de Voltaire. Tinha prometido escrever sobre esse livro para este blog e meu plano era levá-lo comigo para a praia, onde eu passaria o fim de semana com a família e uns amigos.

2. O melhor dos mundos possíveis continuou no sábado: passei o dia na praia e na piscina, lendo devagarinho oCândido. Eu devo ter lido esse livro pela primeira vez há pelo menos uns 25 anos, em algum momento entre os meus 15 e 17, e voltei a lê-lo duas ou três vezes nestes anos. De novo, como em cada releitura, as aventuras de Cândido, nas quais Voltaire reflete sobre os temas mais caros aos filósofos do Século das Luzes – religião, fanatismo, liberdade, opressão, obscurantismo, felicidade, infortúnio –, me encantaram.

3. Cândido é um jovem “reto de juízo e simples de espírito” que mora no castelo de um barão na Vestfália. Apaixonado pela filha dos barões, chamada Cunegundes, de dezessete anos, “corada, fresca, rechonchuda, apetitosa”, tem um preceptor, Pangloss, que ensina “metafísico-teólogo-cosmolonigologia” e acha que “este é o melhor dos mundos possíveis” e que “as coisas não podem ser de outra maneira”. Pangloss é um otimista que afirma o tempo todo que tudo está bem, que tudo está da melhor maneira possível e que não poderia ser de outra maneira. No decorrer do livro, Cândido, depois de ser expulso do castelo e sofrer inúmeras desgraças, irá conhecer o pessimismo e terminar acreditando que o otimismo é a mania de garantir que tudo está bem quando tudo está errado.

4. Acordei o domingo no melhor dos mundos possíveis e o projeto para o dia era ler mais Cândidona praia e na piscina. Porém, apareceu uma trinca no melhor dos mundos possíveis: notícias do México. Li a reportagem no celular, na beira do mar. O jornalista Rubén Espinosa, que tinha fugido de Veracruz ameaçado de morte, acabava de ser assassinado na Cidade do México. O corpo dele e de quatro mulheres foram encontrados com sinais de tortura e tiro de misericórdia num endereço da Colonia Narvarte.

5. Pensei, com raiva e tristeza, na descoberta de Cândido dos horrores do mundo – assassinatos, estupros, o terremoto de Lisboa, que inspirou Voltaire a escrever o Cândido– e na decepção que o leva a repudiar os ensinamentos do seu preceptor: “Ó Pangloss. Não tinhas imaginado esta abominação; não há remédio, acabo renegando o teu otimismo”.

6. Uma das mulheres assassinadas era uma amiga do Rubén, Nadia Vera, 32 anos, ativista que defendia a liberdade de expressão, antropóloga formada na Universidade Veracruzana, na mesma Faculdade de Humanas onde eu estudei Letras Espanholas. Fui procurá-la no Facebook: tínhamos dois amigos em comum.

7. Continuei a ler o Cândido durante o domingo, mas tudo tinha mudado: eu voltei a ser aquele leitor adolescente ansioso que exigia dos livros uma resposta ou, pelo menos, uma esperança. Também, de certo modo, me sentia culpado pela frivolidade da minha vidinha cheia de livros enquanto o meu país afunda.

8. Voltaire escreveu contra o otimismo porque queria atacar as ideias de Leibniz, que ele achava simplórias, mas também não se identificava com o pessimismo porque ele leva à inação. Uma das contribuições mais importantes do Iluminismo foi, justamente, a proposta de que temos que procurar a felicidade neste mundo e não, como propunha a religião, no além. O mundo, diz Voltaire noCândido, é horrível e o único lugar perfeito é o Eldorado, uma região tão rica e maravilhosa que se torna inacreditável. Não devemos procurar o Eldorado. O Eldorado não existe.

9. Ou, para ser exato, o Eldorado só existe como manipulação: é aquele lugar perfeito que só existe na mente dos governos corruptos e assassinos que falam que tudo está maravilhosamente bem quando está terrivelmente errado.

10. Entre o otimismo e o pessimismo, oCândidopropõe a ação modesta do trabalho pessoal e comunitário, resumido na frase final do livro, que já virou um lema famoso: “devemos cultivar nosso jardim”.

Devemos cultivar nosso jardim.

Cada um na sua própria trincheira.

Os livros e a escrita são também uma trincheira.

Não devemos nos render.

Descansem em paz Rubén, Nadia, Yesenia, Alejandra e Nicole.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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