philip roth

Semana cento e cinquenta e sete

Os lançamentos desta semana são:

13 palavras, de Lemony Snicket (Trad. Érico Assis)
A partir de 13 palavras aparentemente aleatórias, Lemony Snicket e Maira Kalman criaram esta história peculiar e irreverente, sobre uma passarinha melancólica e um cão que tenta alegrá-la a todo custo, oferecendo, por exemplo, bolos e chapéus. As crianças vão se surpreender com este livro extravagante e lindamente ilustrado.

Amanhã para sempre, de Jorge G. Castañeda (Trad. Luiz A. de Araújo)
O intelectual, diplomata e político Jorge G. Castañeda é um dos intérpretes mais respeitados do México. Além de diversos livros sobre o tema, o autor de Amanhã para sempre tem se dedicado a investigar as singularidades do caráter nacional e da formação histórica de seu país, forjados basicamente pela submissão do substrato racial, linguístico e cultural das civilizações indígenas preexistentes à conquista e às contribuições impostas pelo colonizador ibérico. Neste ensaio ambicioso e abrangente, que contém capítulos especiais para a edição brasileira, Castañeda investiga as origens do México moderno nos momentos decisivos dos cinco séculos desde a chegada dos espanhóis, recuando até a era pré-colombiana para rastrear os traços primordiais da nacionalidade. Para Castañeda, o México e os mexicanos conquistarão um futuro radioso se conseguirem superar o isolacionismo e o individualismo engendrados em sua longa história de espoliação colonial, violência política e injustiças sociais.

México, de Erico Verissimo
Na primavera de 1955, esgotado pela rotina burocrática de seu cargo na sede da OEA em Washington, Erico Verissimo sai de férias com a mulher, Mafalda, para viajar pelo México. O autor de O tempo e o vento e sua companheira de viagem, sufocados pelo cotidiano asséptico nos Estados Unidos, ansiavam reencontrar-se com o universo mágico da cultura latino-americana. Seguindo um roteiro que incluiu a capital federal, Oaxaca, Puebla, Taxco e outras cidades da Meseta Central, os Verissimo se surpreenderam com a natureza ao mesmo tempo exótica e familiar da mexicanidad. O bloqueio criativo que afetava o escritor e os vulcões que espreitam a milenar história do país. Permeado de argutas reflexões estéticas e antropológicas, este livro é o saboroso relato de Verissimo na pátria de Diego RIvera, José Vasconcelos e Octavio Paz.

Malcolm X, de Manning Marable (Trad. Berilo Vargas)
“Até agora só os negros sangraram, e isso não é visto pelos brancos como derramamento de sangue. Para que o homem branco considere um conflito sangrento, é preciso que sangue branco seja derramado.” Nada mais distinto da mensagem de paz propagada por Malcolm X (1925-1965) em seus últimos meses de vida que o ódio racial que até o início de 1964 lhe impregnava as palavras como ministro da Nação do Islã. Essa transformação radical foi apenas uma das metamorfoses sofridas pelo inspirador do movimento Black Power ao longo de uma existência curta mas plena e tumultuada como poucas. Da pobreza da infância órfã à conversão ao Islã, dos crimes inconsequentes da juventude à longa pena cumprida por assalto armado, dos períodos como gigolô e traficante de drogas à defesa veemente dos direitos civis dos negros americanos, este ambicioso relato biográfico reconstitui o heterodoxo percurso de um dos ativistas políticos mais influentes do século XX, símbolo trágico de uma época de profundas transformações na sociedade norte-americana.

Pastoral americana, de Philip Roth (Trad. Rubens Figueiredo)
No estilo impetuoso de Philip Roth, Pastoral americana narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta em vão comunicar um legado moral à terceira geração da família. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdidalhe confere um caráter ao mesmo tempo de heroísmo e desatino. Para contar a história, Philip Roth ressuscita seu famoso alter ego, o romancista Nathan Zuckerman, herói e narrador dos romances Casei com um comunista e A marca humana. Na voz de Zuckerman, Seymour Levov assume a dimensão patética de um Adão obediente que um dia, sem entender por quê, se vê expulso do paraíso.

O amor de uma boa mulher, de Alice Munro (Trad. Jorio Dauster)
Vencedor no National Book Critis Circle Award (1998), O amor de uma boa mulher reúne oito contos da canadense Alice Munro, uma das mais prestigiadas escritoras de língua inglesa da atualidade. Suas histórias – que podem ser lidas como pequenos romances – revelam a complexidade de personagens à deriva, cujos turbilhões se formam sob a aparente normalidade dos eventos cotidianos.

O império de Hitler, de Mark Mazower (Trad. Claudio Carina e Lucia Boldrini)
O império de Hitler foi a maior, mais brutal e ambiciosa tentativa de reformulação das fronteiras europeias na era moderna. Inspirado no legado de potências imperiais como Roma ou a Grã-Bretanha, o Terceiro Reich impôs sua sombra maldita das ilhas do Canal (a poucos quilômetros por mar da grande nêmesis da Alemanha na Segunda Guerra, a Inglaterra) ao Cáucaso, reunindo milhões de súditos das mais diversas etnias, culturas e religiões. Neste trabalho de fôlego – que apresenta uma tese inovadora e surpreendente sobre a derrocada alemã -, o historiador Mark Mazower mostra, no entanto, que os domínios do Reich tinham por base um castelo de cartas. Uma aliança nefasta entre incompetência administrativa e ausência de racionalidade tática levou não só ao colapso da ordem nazista como à decadência de todo um continente.

Histórias do pai da História, de Ilan Brenman
Muita gente acha que a “História”, aquela disciplina que aprendemos na escola, cheia de nomes e datas, não tem nada a ver com as histórias inventadas que lemos nos livros. Mas você sabia que, quando a matéria da História surgiu, ela era uma mistura de fatos reais com um tanto de imaginação? Quando voltavam para casa, os viajantes contavam aos outros tudo o que tinham visto – e um pouquinho do que não tinham visto -, e essa era a única forma de saber o que acontecia pelo mundo. Isso até Heródoto, um historiador e geógrafo grego nascido em 484 A.C., reunir aquilo que presenciou e ouviu falar em suas andanças num grande livro chamado Histórias. E é por isso que ele ficou conhecido como “O pai da História”: criou um documento que permitiu que todos tivessem acesso às mais vaiadas informações sobre o resto do mundo sempre que quisessem, e se tornou o inventor da ciência mais antiga do mundo ocidental. Neste livro, outro grande narrador apresenta alguns dos escritos mais interessantes que Heródoto nos deixou. Depois de lê-los, você verá que a realidade também pode ser uma bela história!

Do catálogo: Operação Shylock (Philip Roth)

Por Leandro Sarmatz

No próximo dia 19 Philip Roth comemora oitenta anos. Recentemente o escritor declarou que abandonara a literatura. Uma lástima. Ainda que perfeitamente compreensível: com oito décadas pesando nas costas, a pauleira (física, mental, emocional) que é escrever um livro deve mesmo desencorajar até um escritor de cojones como Roth. É da vida. Ele deixa para trás uma obra bastante viva e que ainda tem muito a dizer aos leitores.

É o caso de Operação Shylock, que saiu por aqui em 1994. É um romance cômico, sim, mas também uma reflexão — à americana, sem filosofices e papo arcano — sobre as implicações da existência do Estado de Israel na vida judaica da diáspora. Vale quase tanto quanto um ensaio de Hannah Arendt (uma glória, diga-se), mas tem todo aquele tempero característico do autor de Newark: sátira, sexo, literatura.

Um pilantra fingindo ser o próprio Roth desembarca em Israel para militar em favor de uma causa que, bem, não pode mesmo ser lá muito simpática a muitos judeus: retornar ao antigo solo europeu, abandonando a ideia de um estado judaico. Sim, pense em multidões de sabras desembarcando na terra de seus pais ou avós, em lugares como Lodz, Vilna, Berlim. Como se não houvesse ocorrido a Noite dos Cristais, Hitler, o Holocausto. Ou mesmo antes, abjeções como os pogroms. Um despautério completo, claro, mas que abre toda uma porta para Roth conduzir a narrativa de um modo que somente ele consegue: controle absoluto, sim, mas também muita convulsão.

Roth himself parte então para Israel com o objetivo de desmascarar o seu William Wilson (apud Edgar Allan Poe). Logo resvala numa trama em que toma contato com palestinos, um grupo que se autodenomina “antissemitas anônimos” e o próprio Mossad, o serviço secreto israelense. O que se lê é vintage Roth: muitas vozes, notas apócrifas (verdade ou mentira?), supostas gravações, anedotas. Tudo isso sem que a narrativa deixe de prender o leitor nessa espécie bastante bizarra de thriller político.

De certo modo a doideira que foi Operação Shylock liberou forças criativas dentro de Roth. Pois é ao longo da década de 90 que aparecem alguns de seus romances mais poderosos, como Teatro de Sabbath (a melhor resposta que um autor na maturidade poderia dar a Complexo de Portnoy), Pastoral americana e A marca humana. Romances que têm um ponto de vista brilhante sobre o nosso tempo, sobre a (então) pax americana, nossas ladeiras interiores. Happy Birthday, Mr. Roth.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Semana cento e quarenta e dois

Os lançamentos desta semana são:

O escolhido foi você, de Miranda July (Trad. Celina Portocarrero)
Enquanto sofria para acabar o roteiro de seu segundo longa-metragem, O futuro, a escritora, performer e cineasta Miranda July resolveu recorrer a um jornalzinho de anúncios. De início era só mais uma atividade procrastinadora, mas a consulta ao PennySaver revelou-se uma solução para o bloqueio criativo. Miranda se deparou com estranhos itens à venda, como grinos e bonecos dos Ursinhos Carinhosos, e, sem saber direito o que procurava — além de inspiração, histórias e motivos para continuar o filme —, decidiu se encontrar com os anunciantes daqueles objetos. A transcrição de dez entrevistas com pessoas comuns e bastante peculiares de Los Angeles, ilustradas por fotografias feitas durante as conversas, resultou neste livro. Dessa atividade aleatória para passar o tempo, emergem reflexões delicadas da artista, que compõe uma espécie de híbrido de literatura, making of e relato íntimo.

O que é arte contemporânea?, de Jacky Klein e Suzy Klein (Trad. André Czarnobai)
Quadros pintados com esterco de elefante, esculturas montadas com peças de carros quebrados, cheeseburgers gigantes no meio do museu… Os artistas estão sempre inventando formas diferentes de fazer arte. Usando técnicas e materiais cada vez mais inusitados, eles recriam o mundo e propõem novas maneiras de enxergá-lo. Neste livro, você vai conhecer obras de mais de 70 artistas contemporâneos do mundo inteiro, com informações a respeito de cada um deles, explicações de como os trabalhos foram feitos, esclarecimentos sobre o significado de termos importantes, além de indicações de museus e sites relacionados ao tema. Venha observar, explorar, questionar e aprender a partir do universo divertido e encantador da arte contemporânea.

O complexo de Portnoy, de Philip Roth (Trad. Paulo Henriques Britto)
Quando lançado, em 1969, O complexo de Portnoy se tornou best-seller e foi saudado como a consagração do talento de Philip Roth. A crítica, porém, teve certa dificuldade em classificá-lo. Seria “literatura séria” ou apenas humor? Também era inegável o desconforto causado pela centralidade do autoerotismo: masturbação não era matéria apropriada para um romance com pretensões artísticas. Nos últimos quarenta anos caíram não apenas os tabus sexuais como também as barreiras entre “arte elevada” e “arte de consumo”. Escritores como Thomas Pynchon e John Barth demonstraram que é possível utilizar as linguagens pouco nobres para fazer literatura de primeira grandeza. Relendo o livro agora, constatamos que o humor, a ferocidade e o virtuosismo de Roth permanecem intactos, e podemos mais do que nunca fazer justiça a esta pequena joia literária.

Em cima daquela serra, de Eucanaã Ferraz
“Por detrás daquele morro,/ passa boi, passa boiada/ também passa moreninha/ de cabelo cacheado”, diz a parlenda tão conhecida pelas crianças, que lembra bastante a história deste livro. Mas no morro criado por Eucanaã Ferraz e ilustrado por Yara Kono, além de passar boi e passar boiada, muitos outros bichos e outras coisas andam ali por cima: uma égua pintada, goiaba e goiabada, carro e caminhão, balão colorido e avião… E às vezes até não passa nada!

Sombrinhas, de Jean Galvão
Sabe quando surge aquela ideia genial de repente? Aquela lampadazinha logo acima da cabeça? Pois um menino e seu gato tiveram uma dessas ideias, e bem no meio da noite. Com uma lanterna, mais as mãos e o rabo, inventaram um jogo de sombras. Eles só não lembraram que a pilha poderia acabar — a pilha, mas não a brincadeira.

Semana cento e trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

As agruras do verdadeiro tira, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Aos cinquenta anos, Amalfitano — professor universitário de literatura latino-americana que será familiar ao leitor de 2666 — descobre-se homossexual ao se envolver com um aluno, o talentoso poeta marginal Padilla. A relação acaba se tornando um escândalo na universidade de Barcelona onde leciona, e o docente se vê obrigado a transferir-se para a violenta cidade de Santa Teresa, no México. Rodeado por um ambiente estranho e muitas vezes sinistro, o protagonista reflete sobre sua homossexualidade tardia, enquanto se relaciona com outro homem, o falsificador de arte Castillo.
Reconstruído a partir de arquivos que Bolaño deixou em seu computador e de algumas páginas datilografadas, este romance póstumo passeia pelos vários estilos e temas explorados pelo escritor chileno, alternando entre um registro cerebral, herdado de Borges, e uma sensibilidade poética despudorada.

A morte do inimigo, de Hans Keilson (Tradução de Luiz A. de Araújo)
Alemanha, 1930. Um jovem judeu fica fascinado por um “inimigo” que aos poucos ascende ao poder: B., líder populista cuja propaganda política cria uma atmosfera cada vez mais ameaçadora, opressiva e profundamente antissemita. Diante da barbárie, o protagonista decide assumir uma neutralidade moral, defendendo que, até num duelo de vida ou morte, é preciso levar em conta as razões do inimigo. Assim, distancia-se cada vez mais de seu povo, enquanto se vê progressivamente absorvido pela figura carismática de um ditador. Sem nomear a realidade, lançando mão de um recurso original e desafiador — palavras como “Hitler”, “judeu”, “nazista” e “Alemanha” não aparecem uma só vez ao longo do livro —, o autor de Comédia em tom menor demonstra total domínio da construção narrativa, fazendo valer sua alcunha de gênio, concedida em 2010 pelo New York Times. Embora o contexto de A morte do inimigo logo fique claro ao leitor, Keilson cria uma parábola universal, capaz de abarcar qualquer regime totalitário. Mais do que isso, ao revelar os limites da razão diante do Mal, o autor evidencia sua compreensão sensível e aguçada da natureza humana.

O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett (Tradução de Sonia Moreira)
Mary Lennox é uma menina profundamente solitária. Depois de perder os pais na Índia, é levada para morar na mansão de um tio na Inglaterra. Ali, ela conhece o primo Colin, também com dez anos de idade, que vive isolado do mundo por ter uma saúde frágil. A amizade improvável entre essas duas crianças coincide com a aventura de descobrir e explorar um jardim proibido nos arredores da casa. O espaço, mantido fechado há dez anos em decorrência de um acidente grave, funciona como uma metáfora para a descoberta do mundo e também para o autoconhecimento dos jovens protagonistas.
Adaptado para o cinema, este clássico juvenil da literatura inglesa ganha nesta edição uma introdução e notas da romancista e crítica literária Alison Lurie, e um posfácio de Marise Soares Hansen, mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Em seu texto, ela traça paralelos do romance com autores importantes de literatura de língua portuguesa como Eça de Queirós e Clarice Lispector.

Memorial do amor & Vacina de sapo, de Zélia Gattai
Dois livros em um? Ou um único livro que se desdobra em dois? A reunião de Memorial do amor, de 2004, e Vacina de sapo, de 2006, de Zélia Gattai, oferece ao leitor um delicioso problema a respeito do caráter das recordações. Fluidos e marcados por uma noção desgovernada do tempo, os exercícios da memória quebram nossos parâmetros diurnos e se assemelham mais aos sonhos. Como os sonhos, a memória é incoerente, repleta de buracos e desinteressada pela ordem. Assim como o leitor agora pode saltar de um livro para outro sem medo de se perder, também Zélia dá longos saltos entre a juventude e a velhice, a intimidade do amor e a explosão da amizade, o carinho pelas pequenas coisas e a aspereza da política, sem nunca se perder. O caráter circular torna sua escrita sinuosa e envolvente. Em uma palavra: sedutora. É sempre da sedução pela vida e seus encantos que Zélia trata. Relatos simples, sem floreios, sem impostação. Como em uma boa conversa à mesa de café, eles se deixam guiar por uma única regra: o desejo de aproximar e de acolher.

O professor do desejo, de Philip Roth (Tradução de Jorio Dauster)
Quando estava na faculdade, David Kepesh se considerava “um libertino entre os doutos, um douto entre libertinos”. Mal ele podia imaginar o quanto esse lema seria profético — ou fatídico. Pois à medida que Philip Roth segue Kepesh da domesticidade da infância à selvageria da possibilidade erótica, de um ménage à trois em Londres às agonias da solidão em Nova York, ele cria um romance de extrema inteligência, pungência e humor sobre os dilemas do prazer: onde o procuramos, por que fugimos dele e como lutamos para obter uma trégua entre dignidade e desejo.

Editora Seguinte:

O menino negro, de Camara Laye (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
O menino negro narra a infância e adolescência de um garoto comum mas, ao mesmo tempo, muito diferente. Como todos nós, ele se diverte no quintal de casa, vai à escola, brinca e briga com os amigos. No entanto, ele também vivencia um dia a dia totalmente distinto: teme e respeita as cobras que insistem em compartilhar o terreno de seus pais, passa por um ritual coletivo de circuncisão aprendendo a lidar com seu corpo, estuda numa escola corânica e recebe uma formação muçulmana a seiscentos quilômetros de sua terra natal. Seu destino final é Paris, cidade iluminada que o converte em escritor.
O livro que o leitor tem nas mãos traz o ambiente único da Alta Guiné, mas é também uma homenagem a um continente durante muito tempo esquecido. São muitas as Áfricas que hoje começamos a conhecer, e esta, contada com tanta sensibilidade por Camara Laye, é daquelas que não se esquece jamais.

Da arte da narrativa

Por Tony Bellotto


Vítimas da epidemia de poliomielite.

Se você é como eu, e não gosta de saber nada sobre um livro de Philip Roth antes de lê-lo — nem sequer um parágrafo da orelha, uma frase da resenha ou o comentário informal de um conhecido —, e se você ainda não leu, mas pretende ler, Nêmesis, o mais recente romance do autor norte-americano, melhor largar minha crônica exatamente aqui: até já, depois de ler Nêmesis você volta (o romance, ou seria uma novela?, é curto).

Para aqueles que não se importam com isso, ou que já leram o romance — ou que nem pretendiam ler mas talvez tenham ficado curiosos —, quero discorrer um pouco sobre aspectos da técnica narrativa empregada por Philip Roth, mas garanto que não vou revelar muito da trama nem estragar o prazer de quem ainda vai ler o livro.

Logo na primeira página, quando o narrador começa a descrever os primeiros casos de poliomielite em Newark no verão de 1944, e que prenunciam uma epidemia devastadora, nos deparamos com a seguinte frase, a segunda do primeiro parágrafo: “Ali onde morávamos, numa área do sudoeste chamada Weequahic e ocupada por judeus, nada soubemos sobre isso nem sobre os outros doze casos espalhados por quase toda Newark e mais distantes da nossa vizinhança”. A frase configura uma narrativa clássica em primeira pessoa, o que nos faz imaginar que o livro está sendo narrado por um personagem inserido na trama, de quem logo teremos informações mais detalhadas, como nome, idade, profissão, sexo etc. O que ocorre entretanto é que a partir daí o narrador passa a contar a história de Bucky Cantor — o atlético fiscal de pátio e professor de educação física do colégio do bairro — com tal distanciamento, impessoalidade e precisão que, poucas páginas depois, nos esquecemos que se trata de uma narrativa em primeira pessoa e somos levados a crer que a história é narrada na terceira pessoa, por um tradicional narrador onipresente e distanciado da ação.

Quando chegamos à página 80 do livro é com um verdadeiro (e perturbador) susto que lemos a abertura do parágrafo no alto da página: “A manhã seguinte foi a pior até então. Mais três meninos diagnosticados com pólio — Leo Feinswog, Paul Lippman e eu, Arnie Mesnikoff”. Arnie Mesnikoff é um personagem de quem nada sabemos até ali, e continuamos sem saber depois, já que a narrativa prossegue sem referências a esse estranho “eu” que contraiu pólio quando criança e é quem nos narra tudo!

A partir daí continuamos lendo a história de Bucky Cantor, mas sabendo que Arnie Mesnikoff, seja ele quem for — um menino com poliomielite em 1944 —, nos espreita de algum lugar invisível no fundo do livro.  O efeito é aterrador. Somente na página 166, na abertura do capítulo final, o terceiro, a narrativa em primeira pessoa é plenamente retomada (“Nunca mais vimos o senhor Cantor no bairro.”) e podemos finalmente conhecer quem é o intrigante Arnie Mesnikoff e como consegue nos contar com tanta precisão uma história que não é a sua.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.