policial

Semana noventa e oito

Os lançamentos da semana são:

Uma morte em família, de James Agee (Tradução de Caetano Galindo)
Uma morte. Em pleno vigor, um homem é tirado de sua família. Uma notícia que poderia ser dada em qualquer momento, em qualquer romance. Para James Agee, que já havia demonstrado seu imenso talento e seu amor prodigioso pelo estudo detalhado das personalidades e dos fatos no clássico livro de reportagem Elogiemos os homens ilustres, trata-se da oportunidade de escrever um romance dedicado quase integralmente a investigar o impacto dessa morte nos membros daquele grupo. Da pequena Catherine, que ainda mal consegue compreender a vida, ao agnóstico Joel, passando pelo torturado Andrew e, talvez principalmente, pelo desorientado Rufus, o filho mais velho, Agee se debruça sobre cada um de seus personagens com uma dedicação e um detalhismo plenamente amorosos, empregando os mais sofisticados recursos da prosa de ficção para retratar essas pessoas e revelar a percepção que têm da realidade.

O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (Tradução de Paulo Schiller)
Publicado em sua versão final em 1891, O retrato de Dorian Gray foi o primeiro sucesso literário de Oscar Wilde e, algo que se tornaria frequente durante a curta carreira do autor, motivo de grande escândalo. Exemplo extremo de um indivíduo que leva uma vida dupla, seu protagonista comete todo tipo de atrocidade enquanto mantém uma aparência  intocada de beleza e virtude. Seu segredo, porém, está materializado em um retrato guardado em uma sala trancada, que reflete fisicamente as deformações de seu caráter. Ao longo da década em que Wilde conviveria com doses idênticas de fama e infâmia, seu único romance foi usado como parâmetro tanto de sua capacidade artística como de sua total inadequação à sociedade em que vivia. E, se mais de cem anos depois ainda consegue fascinar leitores de todo o mundo, é porque revela muito mais sobre a condição humana do que inicialmente se imaginava.

Paris: A festa continuou – A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-4, de Alan Riding (Tradução Celso Nogueira e Rejane Rubino)
Poucos momentos da história foram mais trágicos e complexos do que a ocupação de Paris pelos nazistas, entre 1940 e 44. Mas o que aconteceu nesses anos sombrios com a efervescente vida cultural da Cidade Luz? Como era o dia a dia dos parisienses obrigados a conviver com a caça aos judeus, a presença opressiva da Gestapo e a escassez de víveres? Neste amplo e vívido painel da vida no período, Alan Riding mostra que, surpreendentemente, “a festa continuou”, ou seja, cabarés, teatros e cinemas continuaram lotados, assim como os salões da elite, e o mercado de arte viveu até um aquecimento. Mas revela também uma trama complexa de relações perigosas dos intelectuais com os ocupantes e seus órgãos de propaganda e controle. Entre o heroísmo da resistência, muitas vezes pago com a vida, e a franca adesão ao nazismo, o autor demonstra que foram inúmeras as atitudes intermediárias, não raro ambíguas e até paradoxais, de artistas e escritores como  Sartre, Picasso, Malraux e Colette.

O diabo & Sherlock Holmes – histórias reais de assassinato, loucura e obsessão, de David Grann (Tradução Álvaro Hattnher)
O líder do principal grupo paramilitar de extermínio do Haiti se torna corretor de imóveis numa pacata cidade dos Estados Unidos. O maior especialista mundial em Sherlock Holmes morre em circunstâncias tão misteriosas quanto as de uma aventura do detetive. Um mestre francês do disfarce assume sucessivas identidades de adolescentes órfãos de diferentes países. Um escritor polonês comete um crime quase perfeito para pôr em prática suas mal digeridas leituras de Nietzsche e Foucault e espalha pistas autoincriminadoras num romance. Essas são algumas das dozes histórias extraordinárias narradas neste livro pelo jornalista norte-americano David Grann. Unindo rigor investigativo e talento literário, o autor que escreveu também o elogiado Z, a cidade perdida, explora com maestria os territórios em que a realidade é tão inverossímil que parece ficção.

Navegação de cabotagem – Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado
Poucos indivíduos viveram com tanta intensidade as turbulências do século XX. Nestas memórias escritas com a verve, o humor e a sensualidade que caracterizam sua melhor ficção, Jorge Amado passa em revista sua trajetória singular. Da convivência com personalidades da cultura mundial – como Pablo Picasso, Oscar Niemeyer, Pablo Neruda, Dorival Caymmi e Glauber Rocha – ao aprendizado em bordéis, botequins e terreiros de candomblé, os episódios se sucedem como cenas de um filme. Os cenários podem ser o Kremlin de Moscou, um palácio na Suíça, uma redação de jornal carioca, as margens do Sena ou uma ladeira de Salvador. Por trás de tudo, dois grandes temas perpassam estas páginas: o amor, de todas as formas, e o trauma da política.

O fardo da nobreza, de Donna Leon (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume o imóvel e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho e o cadáver encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana e a uma família que ainda sobre com o desaparecimento do filho.

A mulher calada, de Janet Malcolm (Tradução de Sergio Flaskman)
Considerada uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou numa madrugada de inverno, em 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou definitivamente, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que por muito tempo opôs não só os vivos aos mortos, como todos aqueles que sobreviveram à tragédia. Neste livro, Janet Malcolm – um dos maiores nomes do jornalismo americano, autora de O jornalista e o assassino – se debruçou sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath e sobre as entrevistas com os Hughes, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Assim pôde demonstrar, a cada linha, como é tênue o limite que demarca fato e ficção, trafegando o tempo inteiro entre as várias versões do mito. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.

Martinha versus Lucrécia, de Roberto Schwarz
Internacionalmente reconhecido pelos livros Um mestre na periferia do capitalismo e Ao vencedor as batatas, que revelaram aspectos ocultos – e notáveis – da arte literária de Machado de Assis, Roberto Schwarz reúne em Martinha versus Lucrécia momentos recentes de sua produção crítica. No livro estão algumas das melhores peças da crítica literária do autor, que, além de Machado de Assis, contempla nomes como Caetano Veloso – com um ensaio inédito sobre a autobiografiaVerdade tropical -, Chico Buarque, o poeta Francisco Alvim e o filósofo Theodor Adorno.

Divinas travessuras – Mais histórias da mitologia grega, de Heloisa Prieto
Depois das Divinas aventuras, em que alguns deuses da mitologia grega contam suas histórias, das Divinas desventuras, narradas por Cronos, o deus do tempo, agora é a vez de Hermes, o deus da trapaça, contar as suas preferidas – que são repletas de travessuras, é claro. Muito arteiro, ele fala sobre o dia em que roubou os novilhos de seu irmão Apolo; sobre quando ajudou, com sua tamanha esperteza, seu tataraneto Odisseu a vencer o gigante Polifemo, entre demais peripécias. São histórias que ensinam sobre a mitologia grega e seus deuses – como o poderoso Zeus e a vingativa Hera, entre outros -, em um tom divertido e próximo do leitor, por conta da narrativa do faceiro Hermes. Ao final, um glossário apresenta a vida dos principais personagens do livro.

Semana noventa e três

Os lançamentos da semana são:

Vozes, Arnaldur Indridason (Tradução de  Álvaro Hattnher)
O porteiro de um luxuoso hotel de Reykjavík é encontrado morto em circunstâncias no mínimo estranhas: na cama manchada de sangue, Gudlaugur está com um traje de Papai Noel e um preservativo que parece conter traços de saliva. Ao chegar ao local do crime, o inspetor Erlendur, avesso às festividades de fim de ano em razão de um trauma de infância, decide ficar hospedado no hotel até o fim das investigações. Quem era, afinal, Gudlaugur, funcionário antigo do hotel mas que ninguém parecia de fato conhecer? Alguém frequentava o seu quarto? Para manter a reputação do lugar, ou preservar seus próprios interesses, os funcionários não dizem tudo o que sabem. Mas, entre as visitas da filha e as velhas lembranças que o aterrorizam, Erlendur embrenha-se aos poucos na misteriosa vida da vítima. Tendo como pano de fundo a atmosfera claustrofóbica do inverno islandês, Arnaldur Indridason cria um duro retrato do país, bem distante dos sonhos de Natal, onde intrincadas e violentas relações familiares se escondem sob as vozes do passado.

Preto no branco, Thomas E. Skidmore (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Em Preto e branco, Thomas E. Skidmore, decano entre os “brasilianistas”, examina como as elites intelectuais brasileiras enxergavam a sociedade multirracial do país nas últimas décadas do Império e nas primeiras da República. Com base nos escritos e discursos de uma grande gama de cientistas, políticos e romancistas, o livro revela que a intelligentsia local, influenciada por padrões e formas europeus, procurou acomodar as teorias racistas então em voga – que consideravam o negro inferior e condenavam a mestiçagem – à situação local. A solução original encontrada foi o “branqueamento” da sociedade, por meio da imigração européia. Skidmore mostra, no entanto, como as idéias deterministas foram gradualmente cedendo lugar a novas perspectiva, que davam ênfase aos aspectos positivos da miscigenação, e acabaram por produzir um consenso sobre a existência de uma “democracia racial” no país, tese que gerou uma percepção distorcida do racismo brasileiro. O livro é prefaciado por Lilia Moritz Schwarcz.

Segundos fora, Martín Kohan (Tradução de Heloisa Jahn)
De um lado, o embate mítico entre os boxeadores Jack Dempsey, campeão mundial, e Luis Angel Firpo, conhecido como El Toro Salvaje de lãs Pampas. De outro, a paresentação da primeira sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em BuenosAires, regida por Richard Strauss. Setembro de 1923 foi abalado por esses dois eventos, que décadas mais tarde concorrem para ser a matéria principal da edição comemorativa do cinqüentenário do jornal de uma cidadezinha na Patagônia. A disputa é travada por dois colegas jornalistas: enquanto Ledesma defende Mahler e a cultura erudita, Verani aposta na popularidade da luta que aconteceu em Nova York e foi transmitida pelo rádio, abalando o moral da nação Argentina. À margem desse debate, surge a notícia de um assassinato (ou terá sido suicídio?) naquela mesma época – um mistério não solucionado que será o ponto de interseção entre as esferas erudita e popular, que, à primeira vista, pareciam incompatíveis.

A magia da realidade, Richard Dawkins (Tradução de Laura Teixeira Motta; Ilustrações de Dave McKean)
De que são feitas as coisas? Por que existe noite e dia, inverno e verão? O que é o Sol? Quando e como tudo começou? Existe vida fora da Terra? A resposta para essas e muitas outras perguntas que fazemos sobre o planeta e o universo pode ser encontrada neste livro divertido e surpreendente sobre os cientistas e suas descobertas. Escrito pelo best-seller mundial Richard Dawkins e com ilustrações do renomado Dave McKean, A magia da realidade contrapõe antigos mitos em que muitos ainda acreditam a verdades científicas por vezes desconhecidas para mostrar que a realidade é bem mais impressionante que qualquer invenção.

O acendedor de sonhos, Dorothée Piatek e Gwendal Blondelle (Tradução de Eduardo Brandão)
Num tempo em que a noite tinha se tornado eterna, em que não existiam nbem plantas, nem mesmo água, um acendedor de sonhos trabalhava sem parar, tentando trazer um pouco de luz à Terra. Ele era tão grande que tinha que se curvar para não encostar no céu! Um dia, ele recebe um pedido especial: ajudar uma criança a regar uma flor feita de sol. Juntos em busca da água, os dois vão aprender que a Terra é um bem muito precioso que todos precisamos preservar.

Semana oitenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Estrada escura, de Dennis Lehane (Tradução de Fernanda Abreu)
Em 1998, o detetive Patrick Kenzie, de Boston, encontrou a menina Amanda McCready, então com quatro anos, e a arrancou do casal que a criava com segurança e afeto para devolvê-la à sua mãe biológica, uma mulher viciada em drogas e álcool. Doze anos depois, a precoce adolescente Amanda sumiu de novo, e Kenzie tem a chance de se redimir. Sua missão não será fácil. Em seu caminho, o detetive e sua parceira — e agora esposa — Angela Gennaro deparam com a máfia russa e com um sórdido emaranhado de crimes que incluem tráfico de bebês, falsificação de documentos e o roubo de uma relíquia histórica.

A ponte invisível, de Julie Orringer (Tradução de Rubens Figueiredo)
O ano é 1937, e as vidas de Andras e Tibor Lévi estão prestes a ser radicalmente transformadas. Os jovens irmãos judeus, que já haviam emigrado do interior húngaro para trabalhar na capital Budapeste, têm diante de si um futuro promissor. Andras está de mudança para Paris, onde estudará na École Spéciale d’Architecture. Tibor pretende se matricular na faculdade de medicina de Modena, na Itália, assim que reunir o dinheiro necessário. Nascidos numa pequena cidade do leste da Hungria, Andras e Tibor nunca saíram do país e mal conseguem conter o entusiasmo. Contudo, a Europa que os aguarda — tensionada pela barbárie nazista e assolada pelo ódio antissemita — não é um lugar adequado para o otimismo.

Infiel, de Ayaan Hirsi Ali (Nova edição econômica; Tradução de Luiz A. de Araújo)
Em 2004, Ayaan Hirsi Ali foi ameaçada de morte por participar do filme Submissão, sob a situação da mulher muçulmana. No ano seguinte, a revista Time a incluiu entre as cem pessoas mais influentes do mundo. E assim essa jovem exilada somali, eleita deputada do parlamento holandês e conhecida por sua luta pelos direitos da mulher muçulmana e críticas ao fundamentalismo islâmico, tornou-se famosa mundialmente. Como foi possível para uma mulher nascida em um dos países mais miseráveis e dilacerados da África chegar a essa notoriedade no Ocidente? Em Infiel, sua autobiografia precoce, Ayaan, aos 37 anos, narra a impressionante trajetória de sua vida, desde a infância tradicional muçulmana na Somália até o despertar intelectual na Holanda e a existência cercada de guarda-costas no Ocidente. Um relato de superação e crença profunda nos valores ocidentais iluministas da liberdade, igualdade e democracia liberal.

A gênese da sociedade do espetáculo, de Christophe Charle (Tradução de Hildegard Feist)
A partir da década de 1860, o universo do teatro — o principal entretenimento das cidades europeias à época — foi ampliado consideravelmente. De um lado, há o aumento do número de salas e a criação de novos gêneros populares, e, de outro, a invenção da luz elétrica e o desenvolvimento das ferrovias, que possibilitaram a realização de espetáculos cada vez mais luxuosos para públicos crecentes. Nas grandes capitais essas transformações deram ensejo à formação de um conjunto diferenciado de profissões teatrais, composto da multidão de artistas, autores, técnicos e diretores envolvidos nas encenações. O historiador francês Christophe Charle investiga as origens sociais, a formação profissional e o desempenho econômico das pessoas responsáveis por tal boom teatral. O panorama sociológico delineado, além de iluminar aspectos obscuros da vida cultural europeia no século XIX, permite compreender os fundamentos históricos do império midiático que dominaria todo o planeta no século seguinte.

A vida está em outro lugar, de Milan Kundera (Tradução de Denise Rangé Barreto)
Jaromil cresce na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas. Para o júbilo de sua mãe, manifesta já na infância o dom de criar rimas. O menino pouco conhecerá o pai, que é preso pela Gestapo e morre num campo de concentração. Assim, é a mãe quem vai cuidar para que seja um grande poeta. O jovem, porém, se entusiasma com a revolução e põe sua arte a serviço da sociedade socialista. Para o desespero da mãe, ele não faz mais versos rimados. Agora redige palavras de ordem. O poeta quer ser livre e pertencer a algo maior, e ele não está sozinho. A seu lado estão Rimbaud, Lermontov, a poesia da afirmação, da embriaguez. Mas Jaromil nunca será verdadeiramente livre, pois o universo que o gestou não lhe permitirá emancipar-se de suas amarras.

“As esganadas”, novo livro de Jô Soares

No dia 22 de outubro chega às livrarias As esganadas, novo romance policial de Jô Soares. A história se passa no Rio de Janeiro, na década de 30, e acompanha os crimes um serial killer de gordinhas.

Noite de autógrafos com Jô Soares
Quarta-feira, 26 de outubro, às 18h
Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura
Av. Paulista, 2073
São Paulo / SP

Veja abaixo a capa (feita por Victor Burton e Angelo Allevato Bottino) e um texto de Luís Fernando Verissimo sobre o livro, que já está em pré-venda.

Como ator e comediante, o Jô é um grande fazedor de tipos. Sabe como poucos construir um personagem, defini-lo com um detalhe e dar-lhe vida com graça e inteligência. Como autor, essa sua maestria se expande: os tipos são postos no mundo e, mais do que no mundo, numa trama — e o seu criador (eu quase escrevi Criador, pois não deixa de ser um trabalho de deus) se solta. Toda a ficção do Jô é feita de grandes personagens envolvidos em grandes tramas.

Os tipos e a trama deste livro são especialmente engenhosos e através deles o autor nos dá um retrato saboroso do Rio de Janeiro no fim dos anos 1930 e começo do Estado Novo — o Rio das vedetes que davam e dos políticos que tomavam, das estrelas do rádio e das corridas de “baratinhas”. E nesse mundo em ebulição chega uma figura portuguesa, saída de um poema do Fernando Pessoa, para elucidar o estranho e terrível caso das gordas desaparecidas que…

Mas não vou revelar mais nada. Um dos prazeres da literatura policial é ir acompanhando o desvendar de uma trama, levados de revelação a revelação por alguém com a fórmula exata para nos enlevar — e enredar. No caso do Jô, quem nos guia é um autor que já provou seu domínio do gênero, e que aqui se supera na perfeita dosagem de invenção, humor e erudição que nos prende desde a primeira página, desde a epígrafe.

Prepare-se para ser enlevado e enredado, portanto. E prepare-se para outras sensações. Só posso dizer que a trama deixará você, ao mesmo tempo, horrorizado e com fome. E que depois da sua leitura os Pastéis de Santa Clara jamais significarão o mesmo.

Luís Fernando Verissimo

Semana sessenta e oito

[Veja aqui a lista dos 10 livros que serão vendidos com 50% de desconto durante setembro.]

Os lançamentos da semana são:

A ideia de justiça, de Amartya Sen (Tradução de Denise Bottman e Ricardo Doninelli Mendes)
O que precisa ser feito para que as injustiças mais evidentes do mundo contemporâneo sejam eliminadas ou, ao menos, atenuadas? Nas sociedades democráticas, as instituições do Estado trabalham pela aplicação equânime das leis ou são meros instrumentos de uma burocracia autorreferente? Partindo do ordenamento jurídico em vigor — que negligencia a realidade concreta dos cidadãos para privilegiar a formulação de arranjos institucionais —, que caminhos podem levar à construção de um planeta mais inclusivo e menos iníquo? Neste livro ao mesmo tempo rigoroso e inovador, Amartya Sen, prêmio Nobel de economia em 1998, retira o foco das utopias conceituais do direito para tentar responder as questões mais urgentes da cidadania, desviando-se das elucubrações sobre a essência da justiça ideal que, desde o Iluminismo, vêm balizando a ciência do direito. Sen traz as esperanças e necessidades das pessoas reais para o centro da discussão, sugerindo uma radical reavaliação das prioridades da justiça e da política.

Como vou?, de Mariana Zanetti, Renata Bueno e Fernando de Almeida
Podemos ir de um canto a outro das mais diversas formas, dependendo de onde moramos, de quanto tempo temos e, às vezes, de algumas das nossas preferências também. Quando vamos a um lugar do ladinho de casa é bom ir a pé; se moramos em uma cidade grande, tem até metrô; se é preciso atravessar o oceano, só mesmo de avião ou navio; e quem não gosta de ir até a casa do amigo de bicicleta? Nas brincadeiras infantis, os meios de transporte estão sempre presentes e levam as crianças até onde a imaginação mandar. Neste livro, três artistas arquitetos se uniram para falar sobre a nossa movimentação no espaço, seja embaixo da terra, na água ou no ar — para cada situação, um jeito diferente de se deslocar —, e usaram um pouco de tudo de que gostam na hora de ilustrar: colagem, lápis e tinta.

Denúncias, de Ian Rankin (Tradução de Álvaro Hattnher)
Malcolm Fox tem que ser exemplar. Como inspetor da Divisão de Denúncias da Polícia de Edimburgo, na Escócia, ele precisa manter a linha para não dar munição aos policiais corruptos que investiga. Mas o passado de alcoolismo e a tendência a passar por cima de autoridades fazem de Fox uma presa fácil para seus inimigos. Especialmente quando ocorre um assassinato em sua família. Suspeito do crime, Fox tenta encontrar o verdadeiro assassino, e descobre que o encarregado da investigação é seu próximo alvo na Divisão de Denúncias: o sargento-detetive Jamie Breck, acusado de fazer parte de uma rede de pedofilia na internet. Na busca pela verdade, Fox e Breck topam com outra morte e uma intrincada trama de interesses que envolve pessoas importantes da sociedade escocesa. Para conseguir resolver o crime, o inspetor precisa decidir em quem confiar — quando todos parecem estar contra ele.

A especulação imobiliária, de Italo Calvino (Tradução de Mauricio Santana Dias)
O protagonista de A especulação imobiliária, o sr. Anfossi, espécie de alter ego do autor, é um intelectual em crise com suas ideias, que volta à sua cidade natal, na Riviera da Ligúria, para incorporar um imóvel — o que, por motivos óbvios, acaba complicando ainda mais sua vida. Incapaz de lidar com os problemas da vida prática, Anfossi acaba envolvido numa série interminável de problemas causados por seu antagonista, o sr. Caisotti, construtor trambiqueiro e inescrupuloso. Em meio a uma legião de advogados, engenheiros, funcionários públicos e operários, Anfossi e sua família assistem impotentes ao desenrolar dos fatos. O fracasso da empreitada, porém, convive com o sucesso dos agentes que contribuíram para transformar a nova Itália num paraíso de arrivistas, negociatas e do turismo de massa. Sem conseguir realizar-se nem no campo das ideias, ao anti-herói deste romance ao mesmo tempo cômico e amargo resta a alternativa improvável de reinventar para si um novo modo de sobrevivência neste mundo que muda vertiginosamente.

A crônica dos Wapshot, de John Cheever (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Primeiro romance de John Cheever, A crônica dos Wapshot é o retrato de uma família tradicional e decadente da Nova Inglaterra, cenário dileto das narrativas ácidas e minimalistas do autor. Na pequena e depauperada cidade de St. Botholphs, o patriarca da família é operador de balsa, o que não é um grande emprego para quem descende de lendários comandantes de navio, mas ele vai levando a vida com a esposa e os filhos. Os filhos crescem, deixam a casa dos pais para começar vida própria em Washington e Nova York, e a narrativa passa a girar em torno deles. Os dois parecem reconquistar o lugar “de direito” da família, mas o individualismo exacerbado e a vacuidade de suas existências são a tônica desta que é uma das grandes narrativas familiares do século XX.

12