quadrinhos

Super-herói

Por Erico Assis

Aquela em que ele revela a identidade secreta pro fã com câncer terminal. A em que ele lembra da família e dos amigos e encontra forças para levantar toneladas de maquinário. O casamento. O pedido de casamento. Aquela em que ele passa duas semanas enterrado depois de levar um tiro do vilão das selvas. A do uniforme jogado na lata de lixo. A morte da Gwen.

Eu sei que você tem uma história preferida do Homem-Aranha.

Não é possível falar de quadrinhos sem falar de super-herói. Com a reputação dos quadrinhos hoje, você pode até torcer o nariz ― “super-herói é gibi, eu só leio graphic novels” ―, mas o gênero das capas e poderes mutantes foi no mínimo porta de entrada para as HQs. Atire o primeiro batarangue quem não sabe o que é um batarangue.

Super-heróis foram exportados da literatura pulp para os quadrinhos na década de 1930, nos EUA, época das primeiras revistas dedicadas somente a quadrinhos. Superman é um dos melhores exemplos. Hoje saem aproximadamente 50 novas HQs com super-heróis por semana (toda quarta-feira, para ser mais exato) lá. Dessas 50, pelo menos uma é do Superman, outra do Batman, outra do Homem-Aranha e uma quarta tem participação especial do Wolverine.

Esses são alguns dos motivos para torcer o nariz: os 70 e tantos anos ininterruptos de um gênero só, com um excesso de narrativas incomparável a qualquer outro gênero da literatura, do cinema, da televisão, da música. A lógica diz: não há como se fazer algo de novo com super-heróis.

É o tipo de frase repetida pelo menos desde a década de 1970, quando coincidentemente começou a explosão dos quadrinhos alternativos – e o também grande gênero da autobiografia de artista atormentado, em que as pessoas geralmente não sabem voar. Aí veio Watchmen, desconstruindo clichês dos supers. Veio Alex Ross, artista símbolo da reconstrução da inocência dos super-mitos. Vieram os filmes, para alegrar as produtoras de efeitos especiais. E toda semana, mais gibi dos X-Men.

Crianças e adolescentes hoje têm videogames, trocentos canais de televisão e a infinidade da internet, nada que exija o compromisso (compromisso, eca) de ler (ler, eca) uma história do seu herói preferido toda semana – dois ou três vão procurar um gibi do Homem de Ferro depois de conhecê-lo no cinema. Diz-se que a grande maioria dos leitores de quadrinhos de super-herói são trintões e quarentões. É a mesma idade de quem roteiriza e desenha quadrinhos, e que também cresceu lendo Capitão América e Mulher-Maravilha. Um gênero movido a nostalgia.

Não sei bem em que ponto quero chegar com esse texto, fora que não é possível falar de quadrinhos sem falar de super-herói. Você pode dizer que é discípulo do Crumb. Que só tem olhos para os franco-belgas. Que seu primeiro quadrinho foi Retalhos. Que, putz, seu negócio é só Laerte, Angeli e Glauco.

Mas, se você está lendo um texto sobre quadrinhos, já passou horas pensando que superpoder queria.

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Erico Assis Lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Salão de Beleza

Por Erico Assis

Rafael Coutinho trabalhando em Cachalote no Salão de Beleza.

Tem um vira-lata embaixo da mesa de desenho. Se não me engano, vi outro andando pela casa. Esse, embaixo da prancheta, está placidamente deitado sobre almofadas velhas. Parece que o canto dele é ali mesmo, ao lado de skates.

Ele observa, com olhar triste de vira-lata, o dono da mesa de desenho, no momento checando os e-mails em outra mesa. Na parede atrás do computador, juntam-se algumas dezenas de pinturas em acrílico. Na parede ao lado, mais ainda – a maioria delas com mais de 1 metro de largura. No chão, ainda mais telas, fileiras delas encostadas na parede.

Rafael Coutinho, nessa tarde, já havia desenhado sua quota diária e tinha outras coisas na cabeça. Sua exposição individual na galeria Choque Cultural havia aberto na semana anterior, com grandes quadros figurativos cujo destaque é o crop ousado.

No seu estúdio, também há uma coleção desorganizada de livros e quadrinhos ao lado da mesa de desenho, e originais de seu pai, pequenos, em uma parede. No caso, o pai é Laerte, quadrinista também e respeitado por quem entende. Os quadrinhos com originais de outros artistas seguem pelas paredes e levam para fora da sala. Lá tem mais Laerte, um Angeli, Fábio Moon, Gabriel Bá e outros.

Agora é o outro habitante da casa, Rafael Grampá, que está me mostrando um dos quadros: uma página de jornal amarelada e desgastada do Little Nemo (1905-1914) de Winsor McCay. Na seu próprio estúdio, colado ao de Coutinho, a estante tem ainda mais influências: Jeff Smith, Frank Miller, Geoff Darrow, Paul Pope, Jamie Hewlett.

Na mesa de desenho de Grampá, uma cena de ação que envolve um aquário despedaçado. Grampá deu detalhes e expressões próprias a cada peixinho. Estatuetas de Rufo e Sangrecco, os personagens de Mesmo Delivery, seu primeiro trabalho, ficam sobre a escrivaninha. Ao lado deles, um troféu do Eisner Awards e dois HQ Mix. Aqui só um há quadro na parede: um pôster de Lourenço Mutarelli.

Há mais um habitante na casa: Fabio Cobiaco.* Seu estúdio é o que deve ter sido uma sala de jantar. Não há divisórias, e você obrigatoriamente passa por ele quando vai à cozinha ou ao banheiro. Em compensação, acaba sendo o maior estúdio da casa. Cobiaco é mais na sua; naquela tarde, é o único que está compenetrado na prancheta.

Não há nada demais na casa da Pompeia, bairro paulistano, se você não souber que Rafael Coutinho está desenhando Cachalote, a graphic novel escrita por Daniel Galera, a HQ nacional mais comentada antes do lançamento; que Rafael Grampá prepara Furry Water and the Sons of the Insurrection, co-escrita por Daniel Pellizzari, tão aguardada quanto sequência de blockbuster, tanto no Brasil quanto nos EUA; e que Fabio Cobiaco está igualmente ocupado com V.I.S.H.N.U., roteiro de Eric Archer e Ronaldo Bressane, outro lançamento para este ano.

Se esse pontinho na Pompeia não é um planeta importante na constelação dos quadrinhos contemporâneos, nada mais é.

* Após a visita do colunista, Fabio Cobiaco mudou-se do estúdio.

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Erico Assis Lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.