quadrinhos

As viagens de Cyril Pedrosa

Até onde consigo me lembrar, eu sempre quis fazer histórias em quadrinhos.

Entre as boas e más razões que me fizeram desistir de ser presidente da república, rockstar ou cirurgião-dentista, o poder mágico do desenho assume o topo da lista, sem hesitação. A descoberta, a partir da infância, do prazer que há, com um lápis e um papel, em mergulharmos no interior de nós mesmos, até desaparecermos lentamente, marcou minha vida para sempre.

Desenhamos, e abracadabra, desaparecemos.

É exatamente disso que se trata.

Aquele que desenha não pensa mais. Ele esquece de si mesmo e se incorpora, corpo e espírito, na ponta de seu lápis, ao contato do papel.

Seu cérebro, a mão que desenha, o braço que se move, a cadeira sobre a qual ele fica sentado oito horas por dia, a casa que o cerca, o mundo inteiro, os medos, as dúvidas, as alegrias, tudo isso desaparece para renascer por encantamento, e sob uma outra forma, nos traços que surgem na folha de papel. Assim, que tenha 6, 39 ou 84 anos, o desenhista viaja. Ele entra primeiro no interior de si mesmo, para então sair novamente, projetando-se por inteiro na imagem que produz.

Muitos anos mais tarde, certamente ainda não satisfeito com essas viagens mágicas de desenhista, fui para um pouco mais longe, para o lado da minha imaginação, dos meus desejos, dos meus sentimentos. No início, eu seguia com prudência os caminhos familiares e, depois, pouco a pouco, tentei me afastar deles a fim de encontrar alguma outra coisa, que valesse a pena compartilhar com os outros. Esses objetos, preciosos ou banais, acabaram se juntando e se transformando em “histórias”, depois em livros. Os “outros”, abracadabra, viraram leitores, e eu, abracadabra, “autor de histórias em quadrinhos”.

Outros anos se passaram. Continuo com minhas viagens interiores, mas, como em um passe de mágica, alguns de meus livros acabaram por me carregar com eles. Tive a sorte incrível de que Três sombras atravessasse fronteiras, sendo traduzido e lido em vários países, me abrindo as portas para belos encontros e inesperadas aventuras… Pela primeira vez na minha vida, graças a esse livro, eu vou sobrevoar o Atlântico essa noite e chegar amanhã de manhã em São Paulo. Não consigo acreditar que os livros tenham um poder assim, de mobilizar os homens, de provocar encontros, de mudar vidas. Parece, no entanto, que é isso.

— Cyril Pedrosa
Sábado, 5 de novembro de 2011
[Tradução de Carol Bensimon]

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Cyril Pedrosa participará de eventos em 3 cidades:

Belo Horizonte: Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ)
– Bate-papo “Conversa em Quadrinhos”, com Cyril Pedrosa e Olivier Martin: quinta-feira, 10 de novembro, às 16h
– Sessões de autógrafos: dias 10 e 12 (quinta e sábado), das 17h30 às 19h30
Serraria Souza Pinto – Avenida Assis Chateaubriand, 809 – Centro

Olinda: Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto)
Mesa com Cyril Pedrosa, Walther Moreira Santos e Frederico Barbosa: “Imagem, palavra, impacto: poesia, prosa de ficção e HQ”
Terça-feira, 15 de novembro, às 11h30
Praça do Carmo – Tenda Principal – Sítio de Seus Reis

Rio de Janeiro:
Bate-papo com Cyril Pedrosa e Tiago Lacerda
Quarta-feira, 16 de novembro, às 18h30
Mediateca da Maison de France – Avenida Presidente Antônio Carlos, 58 / 11° andar

Três Mazzucchelli

Por Érico Assis

Zê-zê, cê-cê, ele-ele. Não é difícil aprender a grafia correta do sobrenome do autor de Asterios Polyp, David Mazzucchelli, comparada à dificuldade que é entender sua carreira. De desenhista de super-herói com ascensão meteórica (e vamos falar mais sobre meteoros) a autor de graphic novel-arte, foram mais de duas décadas. É como se um ator sumido das novelas da Globo ressurgisse com glórias no teatro francês.

Mas muitos anos de poucas páginas, se comparado aos raros nomes nos quadrinhos que conseguiram fazer essa transição. E seu “sumiço” — nem uma página publicada durante nove anos — deixa a história ainda mais estranha. Três páginas mazzucchellianas talvez ajudem a contar essa trajetória.

Estudante de pintura apaixonado por quadrinhos, Mazzucchelli tentou a sorte nas poderosas editoras de quadrinhos dos EUA, Marvel e DC, aos 20 anos. Aos 24, trabalhava numa série mensal: do Demolidor, o herói cego com roupa de demônio conhecido pelas histórias com tom noir, principalmente as que Frank Miller escreveu e desenhou no início dos anos 80. Na segunda metade da década, Miller, no auge da fama, topou voltar à série só como roteirista, mantendo os desenhos com Mazzucchelli.
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A sequência de histórias conhecida no Brasil como “A queda de Murdock” — onde Matt Murdock, identidade secreta do Demolidor, perde casa, profissão, dinheiro e sanidade, mas dá a volta por cima — é um marco. O artista já tinha todas suas referências de história da arte e dos quadrinhos (Gould, Krigstein, Toth, Kurtzman, Eisner) e deu mais um salto ao entrar no círculo de artistas de Miller — pessoal que se reunia para estudar mangás e bande dessinées importadas sem entender uma palavra de japonês nem de francês. Queriam só entender o traço, a narrativa, como conseguiam contar uma história só nos desenhos.

Miller e Mazzucchelli fariam mais um trabalho juntos: Batman – Ano um, história de referência para todos os bat-quadrinhos, bat-filmes, bat-desenhos animados e bat-videogames que vieram depois. A partir daí, podia fazer o que quisesse. E, por um bom tempo, decidiu repensar se queria mesmo ser quadrinista.

A fama nos gibis de super-herói até atrapalhou. Experimentando novos traços, ele mandou histórias para a revista de vanguarda Raw e foi rejeitado pelo editor Art Spiegelman. Resolveu publicá-las por conta própria. Rubber blanket, a série que lançou em 1991, representava seu ímpeto de fazer qualquer HQ que quisesse, no traço que quisesse, e quando estivesse a fim.
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A primeira edição abria com “Near miss“, um conto de nove páginas sobre Steven Drizzle, homem que abre mão da família, do emprego e da casa ao descobrir que um asteroide passou raspando na Terra: 700 mil quilômetros de distância. “Não quero acabar como os dinossauros”, ele avisa à mãe antes de ir embora, refugiando-se num cânion onde monta sua luneta, aponta para as estrelas e espera.

Mazzucchelli teve reconhecimento internacional com Rubber blanket. Suas histórias eram republicadas na França e na Itália em formato de livro, coisa que nunca aconteceria (e ainda não aconteceu) nos EUA. Art Spiegelman arrependeu-se e convidou-o a participar de uma linha de adaptações de literatura contemporânea para quadrinhos. Mazzucchelli dividiu com Paul Karasik a adaptação de Cidade de vidro, parte da Trilogia de Nova York de Paul Auster. Aí, depois de três edições, parou com a Rubber blanket. E sumiu.

Bom, não exatamente “sumiu”. Ok, Mazzucchelli não é chegado a entrevistas nem a sessões de autógrafo, convenções etc. Mas estava à vista de todos seus alunos na School of Visual Arts, onde ainda leciona, em Nova York (no mesmo departamento de Mark Newgarden, Gary Panter, Peter Kuper, Matt Maden, Jessica Abel, Nick Bertozzi, Klaus Janson). Nos primeiros anos de docência, publicou um e outro conto, por convite, até 2001. Dali em diante, só os alunos o veriam rabiscar.
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Não se sabe quando ele começou Asterios Polyp. Há quem diga que seria a história de Rubber blanket #4, que deveria ter saído lá por 1993. Seja como for, há forte ironia na sucinta descrição de quarta capa em Asterios — “David Mazzucchelli vem fazendo quadrinhos a vida inteira. Esta é sua primeira graphic novel”. Ele sempre fez HQs que mereciam a prateleira de livraria, querendo livrar-se dos limites de páginas das revistas. Mas nem ele nem o mercado sabiam.

Como já apontou o crítico Craig Fisher, tanto “A queda de Murdock” — o homem que perde quase tudo, mas renasce — quanto Steven Drizzle estão em Asterios Polyp. Steven aparece ainda no primeiro ato, ainda com medo dos asteroides, e Asterios(-des) tranquiliza-o: “um cometa desse tamanho [que extinguiu os dinossauros] só colide com a Terra uma vez a cada cem milhões de anos”. Mas sejam eles cometas, asteroides ou meteoros, ainda vão ter importância na narrativa.

Citando toda sua carreira, conscientemente ou não, Asterios Polyp é estas três décadas da evolução sui generis de Mazzucchelli, e mais. A única semelhança com suas outras obras é o fato de que precisa ser reencontrada na prateleira a cada ano e ser relida. A depender do autor, vai demorar muito até termos algo de novo para superá-la.

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De quarta-feira a domingo, participo do 7º Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte. Confira a programação aqui: http://fiqbh.com.br/

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Sessenta propostas de quadrinhos

Por Érico Assis

Just Good Marketing
(Foto por Andy Ihnatko)

Tem HQ brasileira que não se passe em São Paulo ou no Rio de Janeiro? Tem: Fawcett, de André Diniz e Flavio Colin (Amazônia); Bando de Dois, de Danilo Beyruth (sertão nordestino); Saino a Percurá, de Lelis (zona rural de Minas Gerais); 1968: Ditadura Abaixo, de Teresa Urban e Guilherme Caldas (Curitiba). Tem HQ sobre bandas punk de São Paulo dos anos 80? Tem: Xampu, de Roger Cruz. Tem HQ que critica a RBS? Tem: Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, de Pedro Franz. Tem HQ que misture teatro com mitologia com antropologia com filosofia com o Brasil? Tem: toda a fase recente do Laerte.

Tem HQ adulta, boa e graphicnovelesca que não seja autobiográfica? Tem: Três Sombras, de Cyril Pedrosa; The Arrival, de Shaun Tan; The Wrong Place, de Brecht Evens; A God Somewhere, de John Arcudi e Peter Snejbjerg; Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho. Tem adaptação literária que parece ter sido feita direto nos quadrinhos? Tem: Poor Sailor, de Sammy Harkham (baseado em Guy de Maupassant); O Pequeno Pirata, de David B. (baseado em Pierre Mac Orlan); Na Colônia Penal, de Sylvain Ricard e Maël (baseado em Franz Kafka). Tem HQ que seja adulta, cômica e que não seja de histórias curtas? Tem: várias do Kyle Baker, seja fazendo as vezes de Woody Allen (Why I Hate Saturn, I Die at Midnight) ou do Monty Python (The Cowboy Wally Show).

Tem HQ sobre as HQs? Tem: a trilogia Desvendando os Quadrinhos / Reiventando os Quadrinhos / Desenhando Quadrinhos, de Scott McCloud; Planetary, de Warren Ellis e John Cassaday; Contre la bande dessinée, de Jochen Gerner; Hicksville, de Dylan Horrocks; Comic Book Comics, de Fred Van Lente e Ryan Dunlavey. Tem HQ sobre como é vender suas HQs para Hollywood? Tem: Fortune and Glory, de Brian Michael Bendis.

Tem HQ sobre finanças, administrês e como ficar rico? Tem: todo o catálogo da SmarterComics, com A Cauda Longa em quadrinhos, Como ser um grande vendedor em quadrinhos, A Arte da Guerra em quadrinhos, Quem Pensa Enriquece em quadrinhos… Tem HQ de crítica ao criacionismo, ao politicamente correto, ao caretismo da esquerda e à histrionice da direita? Tem: Everybody is stupid except for me, os quadrinhos que o Peter Bagge publica na revista Reason. Tem HQ que explica Teorias da Comunicação e do Jornalismo? Tem: The Influencing Machine, de Brooke Gladstone e Josh Neufeld.

Tem HQ sobre culinária vietnamita? Tem: The Art of Pho, de Julian Henshaw. Tem HQ sobre cerveja artesanal? Quase: tem uma HQ vendida junto a cerveja artesanal chamada Yeast Hoist, que o autor Ron Regé Jr. recomenda que seja consumida enquanto se lê o gibi.

Tem HQ sobre o Hunter S. Thompson? Tem: Gonzo: A Graphic Biography, de Will Bingley e Anthony Hope-Smith. Tem HQ sobre Dominique Villepin, ex-primeiro-ministro da França? Tem: Quai d’Orsay, de Christophe Blain e Abel Lanzac. Tem HQ sobre blogs, celulares, twitters, cultura das celebridades e reality shows? Tem: Omni-Visibilis, de Lewis Trondheim e Matthieu Bonhomme. Tem HQ sobre tendências de comportamento, consumismo e adolescência? Tem: O Beijo Adolescente, de Rafael Coutinho. Tem HQ em que os personagens envelhecem em tempo real? Tem: Gasoline Alley, criada por Frank King e publicada ininterruptamente desde 1918.

Tem HQ sobre herpes? Tem: Monsters, de Ken Dahl. Tem HQ sobre como é viver com um tumor cerebral? Tem: La Parenthèse, de Elodie Durand. Tem HQ sobre é viver com Doença de Chron? Tem: os do Jeffrey Brown, principalmente Funny Misshapen Body. Tem HQ sobre anorexia? Tem: Lucille, de Ludovic Debeurme. Tem HQ sobre namorar uma menina com AIDS? Tem: Pillules Bleue, de Frederik Peeters. Tem HQ sobre pedofilia incestuosa? Tem: Because I Love You So Much, de Nikoline Wedelin. Tem HQ sobre quando seus pais ficam idosos e você tem que cuidar deles? Tem: Special Exits, de Joyce Farmer. Tem HQ sobre trepanação? Tem: Homunculus, de Hideo Yamamato. Tem HQ que explique patologias psiquiátricas em geral? Tem: Psychiatric Tales, de Darryl Cunningham.

Tem HQ “esteticamente aniquiladora” e “de pendurar na parede”? Tem: Pinocchio, de Winshluss; qualquer uma de J.H. Williams III (Promethea, Batwoman); Pebble Island e Birchfield Close, de Jon McNaught; Ordinário, de Rafael Sica. Tem HQ que misture animação mas ainda continue sendo HQ? Tem: When I am King, de demian.5.

Tem HQ sobre gatos que aprendem a falar para discutir judaísmo? Tem: O Gato do Rabino, de Joann Sfar. Tem HQ sobre organizações criminosas em reservas indígenas? Tem: Escalpo, de Jason Aaron e R.M. Guéra. Tem HQ sobre como explicar arte para sua mãe? Tem: El Arte, de Juanjo Saez. Tem HQ sobre ser uma soldada israelense? Tem: Farm 54, de Galit e Gilad Seliktar. Tem HQ sobre jogadores de basquete cadeirantes? Tem: Real, de Takehiko Inoue. Tem HQ sobre como cada rachadura na calçada pode virar uma história? Tem (metaforicamente falando): todas do Ben Katchor.

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Com todo respeito e admiração, este texto é uma resposta a “Seis Propostas para os Quadrinhos”, de Cardoso. No meu critério entraram quadrinhos publicados mais ou menos nos últimos dez anos e que, se não saíram no Brasil, são facilmente encontráveis em livrarias de importados (ou online). E mais: todos são de bons a ótimos.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Filosofia de gibi e o sentido da vida

Por Érico Assis

Esses dias alguém deixou comentário num dos meus textos dizendo que pensar demais sobre os quadrinhos — e, por conseguinte, escrever sobre o que se pensa demais sobre quadrinhos — pode estragar algo feito para ser uma diversão leve, entretenimento. Não lembro das palavras exatas, mas acredito que o sentido era este.

Digamos que eu discorde em 90% do comentário. Deixo 10% reservados para comentar mais abaixo.

No meu trabalho como jornalista, acompanho diariamente aí por uma dúzia de blogs cujo único propósito é discutir gibi. Tem os puramente geeks, cuja joie de vivre é fazer listas das 10 melhores sagas dos Vingadores, 20 melhores desenhistas do Batman, 100 namoradas mais gostosas dos super-heróis. Tem os fervorosos, que escrevem ensaios de deixar fininho o nível da barra de rolagem para convocar linchamentos contra o atual escritor dos X-Men. Tem os nostálgicos, para ficar admirando o traço do Hal Foster, do Alex Toth, do Milton Caniff, do Neal Adams.

É um nicho, que tem até microcelebridades. Matt Seneca, de Los Angeles, tem uma coluna semanal para analisar quadros ou sequências de HQ num nível que lembra os ensaístas clássicos da Rolling Stone ou da NME destrinchando os thesaurus para explicar o gosto pelo Velvet Underground. Douglas Wolk, de Portland, aborda desde o impacto de tecnologias digitais até a metafísica lisérgica dos gibis do Warlock em freelas na Wired, na Salon e no New York Times. Chegou a escrever um livro chamado Reading comics (“Ler gibi”) que, veja só, é um monte de textos sobre gibis e quase nenhuma página de gibi.

Há também o Comics Grid, um blog que reúne gente que faz pesquisa acadêmica sobre quadrinhos, principalmente em universidades da Europa (incluindo brasileiros). São papers curtos, com direito a referência bibliográfica, de várias pesquisas maiores sobre linguagem, discurso, arte e técnica das HQs. No mesmo sentido, sabia que a USP tem um Observatório de Histórias em Quadrinhos, com pesquisadores que publicam trabalhos sobre quadrinhos no mundo inteiro? (E que vai organizar um congresso próprio agora em agosto?)

Dos geeks aos acadêmicos, todos são analíticos a seu modo e estão aí para pensar sobre as pretensões e despretensões dos quadrinhos. Mesmo que não goste de todos, é impossível não considerá-los válidos. E acredito que o fim deles não é apenas produzir filosofia sem propósito para os gatos pingados que, além de ler gibi, gostam de discutir e pensar sobre os gibis que leem. Eles propõem argumentos para explicar o que os gibis têm de essencial e específico. Conseguem esquecer que não existe um preconceito histórico contra os quadrinhos e falar deles com a mesma propriedade que se fala de outras mídias. Podem dar camadas novas de significado a algo que, à primeira vista, devia ter como significado único alguns minutos de escapismo.

Acima de tudo, eles constroem o aspecto social e necessário a qualquer tipo de leitura: o de falar para os outros sobre o que gostamos num livro, num filme, numa exposição e, enfim, num gibi. E, a partir daí, conversar. Há quem diga que o sentido da vida — fora a subsistência de pagar contas e preservar a espécie — seja esse: conversar sobre a nossa cultura. Concordo e recomendo.

Quanto àqueles 10%, aceito que ficar falando sobre gibi não seja pra todo mundo, e que às vezes você queira guardar seus significados e emoções com uma leitura para você. E pode-se encaixar aí também as discussões com instransigentes, que lhe chamam de imbecil por ter curtido um gibi mais ou menos do que “devia”. Como em qualquer área, há os teimosos. Porém, o problema é com as pessoas, não com os quadrinhos — culpe o mensageiro, não a mensagem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Atividades sórdidas e desprezíveis (2)

Por Érico Assis

[Leia aqui a parte 1 do texto sobre o Comics Code Authority]


Dr. Fredric Wertham, psiquiatra que depôs no Senado americano ligando os quadrinhos à delinquência juvenil e à depravação.

Critérios gerais – Seção A: (…) (11) As letras da palavra “crime” na capa de uma revista de quadrinhos nunca deverão ser relevantemente maiores em dimensão do que outras palavras contidas no título. A palavra “crime” nunca deverá aparecer sozinha na capa. (…)

Critérios gerais – Seção B: (…) (4) A inclusão de histórias que lidem com comportamento desvirtuoso só poderão ser utilizadas ou publicadas quando o intento for o de ilustrar uma questão moral, e em caso algum o mal pode ser representado de forma atraente, tampouco de maneira que fira as sensibilidades do leitor. (…)

Diálogos: (1) Blasfêmias, obscenidades, indecências, vulgaridades ou palavras ou símbolos que tenham adquirido conotações indesejáveis são proibidos. (…)

Sexo e Casamento: (1) O divórcio não deve ser tratado com humor nem representado como desejável. (…) (3) O respeito pelos pais, pelo código moral e pelo comportamento honroso devem ser fomentados. A compreensão compassiva dos problemas do amor não é licença para distorções mórbidas.

São trechos do Comics Code, versão original de 1954. Você pode ler o Código completo aqui.

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Com o passar das décadas, o Código foi sendo revisado e a interpretação dos avaliadores tornou-se mais flexível. Em 1971, por exemplo, às portas do Watergate, autorizou-se que o governo ou outras autoridades fossem representados com algum nível de corrupção. Mas ainda aconteciam controvérsias: no mesmo ano, quando o roteirista Stan Lee quis mostrar um amigo do Homem-Aranha tendo problemas com drogas, a história teve que sair sem o selinho.

Na década de 80, estabeleceu-se o “direct market” — quadrinhos passaram a ser vendidos quase que exclusivamente em lojas só de quadrinhos, numa tentativa de estimular a diversidade do mercado (e facilitar a contabilidade, pois as lojas não devolveriam encalhe). As ameaçadoras páginas coloridas começaram a deixar as bancas, mercearias e drogarias, protegendo Johnnys e Marys de tentativas de sedução.

O mesmo período é conhecido como a chegada da maturidade dos quadrinhos nos EUA. Super-heróis ficaram mais soturnos e ganharam tramas mais complexas, em alguns casos até abrindo mão do selinho para permitir-se sangue, violência e insinuações sexuais. E, correndo por fora desde os anos 60, gibis underground como os de Robert Crumb haviam ajudado a criar toda uma vertente do mercado que não estava nem aí para Códigos de Ética — ou tinha prazer em desobedecer cada um dos artigos.

Em 2001, a Marvel Comics, hoje maior editora de gibis do país, abandonou o Código, tendo por pretexto querer publicar quadrinhos para todas as idades. Assim, adotou uma classificação indicativa própria — mesma medida que a concorrente DC Comics anunciou este ano, ao também deixar o selo. A maioria das editoras preferiu esta opção na última década.

Mas a história ganhou um contorno kafkiano: a DC informou que pagara em 2010 sua anuidade de associação ao Código e até então enviava suas HQs pelo correio para receber a benção. Só não sabia para quem enviava nem de quem recebia.

A jornalista Vaneta Rogers apurou que o selo vinha sendo administrado por uma representação, a Kellen Company, até 2009. Terminado o contrato com a Kellen, uma das funcionárias da empresa, Holly Munter Koenig, tomou para si a tarefa de avaliar os quadrinhos — voluntariamente e fora do expediente. Disse que fazia isso por admirar a causa da organização, cinquentenária como ela.

Ou seja: o Código só teve sobrevida por conta de uma carola com um carimbo nas mãos, aproveitando-se do anonimato.

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O principal sucesso do Comics Code Authority foi afugentar diversos talentos do roteiro e dos desenhos, que tinham os gibis como ganha-pão nas décadas de 30 a 40. Ao serem ostracizados como corruptores da juventude, centenas deles decidiram buscar empregos mais legítimos. 10-Cent Plague, livro recente do jornalista David Hadju, registra 902 nomes de profissionais que nunca mais assinaram um gibi após as décadas de 40 e 50.

Na interpretação de alguns, o Comics Code foi um movimento para derrubar a portentosa EC Comics. Acabou afundando todo o mercado. Hoje, as editoras só fecham as contas quando conseguem licenciar seus heróis para o cinema, os games e outras mídias mais lucrativas. As vendas de quadrinhos (fora livrarias) movimentaram US$ 420 milhões em 2010 — menos de 5% do que representa, por exemplo, a venda de ingressos de cinema nos EUA.

O maior trunfo do Código, porém, foi fazer os quadrinhos sumirem de vista. Fora a entrada nas livrarias na última década, nos EUA os gibis ficaram praticamente restritos às lojas especializadas, concentradas em cidades de grande porte. Brinca-se, com certo fundo de verdade, que o consumidor médio atual das revistinhas tem 35 anos e mora no porão da casa dos pais. Os gibis não são mais danosos à juventude, pois a juventude não os conhece — e nem faz questão de conhecer. Perversões sexuais, instituições dilapidadas e mulheres de proporções irreais estão a um Google de distância. Neste mundo, o Comics Code realmente não faz mais sentido. Se é que um dia fez.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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