quadrinhos

Atividades sórdidas e desprezíveis

Por Érico Assis

Aos cinquenta e seis anos, o Comics Code Authority teve morte fria, solitária e quase imperceptível em fevereiro último. Conhecido como Código de Ética dos Quadrinhos, era a autoridade responsável por controlar o conteúdo dos gibis nos Estados Unidos, garantindo o entretenimento sadio e inócuo perante pais, crianças e donos de bancas. Seu fim foi recebido com a típica reação reservada a instituições arcaicas e celebridades que não se renovaram: “Ainda existe?”.

A DC Comics, casa-editora de Batman e Superman, anunciou em janeiro o abandono do CCA. O selo de aprovação do Código, símbolo de que havia passado por um rigoroso controle de censores invisíveis, era estampado na capa da maior parte das revistas da editora nas últimas cinco décadas.

No dia seguinte, a Archie Comics anunciou que também abandonaria o selo. Modelo da virtude puritana, seu personagem-título, o colegial Archie Andrews, passou 60 anos indeciso quanto a namorar a amiga loira ou a morena. Assim que decidiu (pela morena), tomou a decisão temente ao Código: casou-se. Apesar da nova liberdade perante as regras do bom-mocismo de gibi, não deve mostrar cenas da lua de mel tão cedo.

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Em 1954, os Estados Unidos viviam um dos momentos de maior popularidade dos quadrinhos. A circulação das revistinhas, mal impressas e ao custo de 10 cents, chegava à casa das dezenas de milhões. Com pouco menos de duas décadas, a mídia era uma febre entre crianças e adolescentes, num mundo sem computadores, videogames e ainda poucos aparelhos de televisão. Os maiores sucessos eram as histórias de crime e terror.

Foi o mesmo ano da publicação de Seduction of the innocent (A sedução do inocente). O livro do psiquiatra Fredric Wertham foi a epítome do repúdio aos gibis no país. Wertham dava razão aos pais, professores e clérigos que já vinham denunciando as revistinhas como instrumentos de sexualização precoce, incitação à delinquência juvenil e prejuízo à boa formação moral.

Para o psiquiatra, havia homoerotismo claro e nocivo na relação entre Batman e Robin. A Mulher-Maravilha, sempre às voltas com inimigas que a amarravam em poses sugestivas, simbolizava as taras sexuais (o que seu criador William Moulton Marston confirmaria, aliás). Superman, o homem melhor que os outros, só poderia estar estimulando impulsos fascistas. “Aquele S grande no uniforme — devíamos, creio eu, agradecer que não é um S.S.”

Wertham municiava um movimento que naquela mesma década já provocara a prisão de donos de bancas — por venda de material impróprio —, a promulgação de leis municipais e estaduais contra a comercialização de quadrinhos e, mesmo à sombra recente do nazismo, fogueiras para queimar gibis. Os incêndios organizados eram promovidos pelas escolas, que congratulavam o civismo do aluno que trazia sua própria coleção e a dos vizinhos. Serviu de iniciação política para vários baby boomers. E, como mostra A guerra dos gibis, de Gonçalo Junior, respingou até no Brasil via Reader’s Digest.

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O quiproquó chegou ao Senado, num comitê especial para tratar das causas da delinquência juvenil. Wertham depôs em audiência, como especialista no assunto, e trouxe exemplos lúgubres da depravação e do sadismo nas revistinhas. William Gaines, proprietário da EC Comics — a editora que concentrava as maiores vendas e as maiores críticas, por seus gibis de crime e terror — foi a voz de defesa da indústria. Seu desempenho, porém, não convenceu.

Às pressas, os donos das principais editoras da época reuniram-se em Nova York para montar a Comics Magazine Association of America. A associação criou as regras do Código de Ética e fez questão de propagandeá-las tão logo quanto pode. A ideia era mostrar que o mercado faria sua autorregulamentação antes que a censura viesse de cima.

Em 31 artigos, o Código mirava claramente os gibis de crime e terror, além da temática sexual. “Quando representados crimes, estes devem ser tratados como atividades sórdidas e desprezíveis”, diz um dos artigos. Mais: “em qualquer instância, o bem deve vencer o mal e os criminosos devem ser punidos por seus delitos”. Para deixar claro quem é o bem e quem é o mal, “policiais, juízes, representantes do governo e instituições distintas nunca devem ser representadas de forma a promover desrespeito para com estas autoridades estabelecidas”.

Para arrematar: “Perversões sexuais ou qualquer sugestão das mesmas são terminantemente proibidas” e “fêmeas devem ser desenhadas de forma realista, sem exageros quanto a seus atributos físicos”.

Todas as editoras deveriam enviar seus quadrinhos, antes da publicação, para serem revisados por um comitê cego. Caso se quisesse o selo de aprovação, a mocinha tinha que usar sutiã e a história acabava em beijos virginais — depois, claro, do mocinho entregar o bandido à altiva força policial. Bancas não vendiam quadrinhos sem o selo, e algumas gráficas recusavam-se a imprimir material não-certificado.

Enquanto isso, quem tinha televisão era agraciado com um episódio de Confidential File, espécie de Globo Repórter de 1955, dedicado à praga dos quadrinhos. Nas cenas dirigidas por Irvin Kershner — que, anos depois, dirigiria O Império Contra-Ataca —, um grupo de crianças envolve-se num ritual sádico de provocação e tortura após ler os maléficos gibis (assista aqui).

É de se imaginar como seriam os gibis hoje — um mercado de pouco mais de US$ 400 milhões nos EUA, nem 5% do que representa a venda de ingressos de cinema no país — se Wertham e o Comics Code não tivessem existido. Fosse ainda relevante ou não, é de se comemorar o apagamento do maldito selinho.

[Continua na próxima coluna]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Semana cinquenta e três

A divina comédia, de Seymour Chwast (Tradução de Alexandre Boide)
Nesta versão em quadrinhos de Seymour Chwast para o poema épico de Dante Alighieri, o autor e seu guia Virgílio usam chapéu de feltro e vagam pelos domínios de um Inferno, um Purgatório e um Paraíso em estilo noir. No caminho eles deparam com inúmeros pecadores e santos — muitos deles são pessoas reais às quais Dante designa uma punição horrível — e ficam frente a frente com Deus e Lúcifer. Chwast cria uma fantasia visual a cada página. Suas ilustrações criativas resgatam a complexidade delirante desse clássico do cânone ocidental.

História do cerco de Lisboa, de José Saramago
Um ato gratuito, sem explicações aparentes, compele o revisor Raimundo Silva a inserir um termo que falsifica a “verdade” histórica. Essa fraude que se impõe àquele fiel respeitador de textos alheios é a origem da fascinante fabulação que Saramago sobrepõe à história do cerco de Lisboa. A nova história do cerco é a crônica do amor tardio do revisor falsário por Mara Sara, que se espelha, oito séculos depois, no amor primevo do soldado Mogeuime por Ouroana, aos pés da cidade prestes a cair. Assim, a Lisboa de Saramago também se refaz nas ruas da cidadela moura e no arraial português, e o que surge desse amálgama é a um só tempo um thriller e um retrato histórico, como só a mais acabada literatura é capaz de fazer.

O museu da inocência, de Orhan Pamuk (Tradução de Sergio Flaksman)
Kemal, homem nos seus trinta anos, descendente de uma família rica e tradicional, está prestes a se casar com Sibel, mulher inteligente e refinada. Na Turquia dos anos 1970, eles representam um casal moderno, que se arrisca a fazer sexo antes do casamento. A vida de Kemal, de fato, parece completa em todos os aspectos — financeiro, familiar e amoroso. No entanto, ao reencontrar-se com Füsun, uma prima distante de dezoito anos que trabalha como vendedora em uma boutique, toda a sua estabilidade colapsa. Ele passa a ter encontros sexuais frequentes com a jovem bela e esbelta, embora não considere romper o noivado com Sibel, a esposa perfeita aos olhos da sociedade turca. A partir dessa história de desilusão, obsessão amorosa e embate entre Ocidente e Oriente, tradição e modernidade, Orhan Pamuk desenha um panorama social e cultural da Turquia.

Na casa do Leo — Os dinossauros, de Philip Ardagh (Ilustrações de Mike Gordon; Tradução de Érico Assis)
Leo é um menino como outro qualquer, a não ser por um detalhe: em sua casa, costumam aparecer visitas extraordinárias. Desta vez, ele vai receber nada menos que os terríveis — alguns nem tanto assim — dinossauros. Acompanhado de Naftalina, seu cachorro de estimação, e Jarbas, o prestativo zelador da casa, Leo vai descobrir, por exemplo, qual é o maior dinossauro de todos os tempos; que alguns dinossauros tinham penas, mas não podiam voar; e o que provocou a extinção desses animais. Em formato de história em quadrinhos, o livro tem linguagem acessível a leitores iniciantes, além de estar dividido em capítulos curtos, como convém a crianças que estão começando a aprender sobre ciências. Um glossário, ao final, complementa o volume com a explicação de alguns termos específicos sobre o assunto.

Grécia antiga, de Stewart Ross (Ilustrações de Inklink e Richard Bonson; Tradução de Augusto Calil)
No século V a.C., a Grécia foi assolada por intensas batalhas travadas entre Atenas e Esparta. Atenas era a mais poderosa e rica cidade da região, e as outras cidades, lideradas por Esparta, tentaram derrubá-la por anos a fio. Tendo como pano de fundo essa rivalidade, o livro conta, em quadrinhos, a história de Cinésias, o mais importante atleta de Atenas, em quem toda a cidade confia para disputar a principal prova dos Jogos Olímpicos que vão se realizar em 416 a.C.
No decorrer da leitura, o leitor vai descobrindo os cenários nos quais se desenrola a história, bem como o dia a dia da sociedade da época — desde roupas e alimentos até a crença em deuses e deusas de temperamento explosivo —, através de textos e ilustrações bastante detalhadas. Vai conhecer, por exemplo, como viviam os guerreiros espartanos, os navios usados pelos atenienses no comércio marítimo, o cuidado dos atenienses com a saúde do corpo e da mente.

O Método Yusa Para Tradução de Quadrinhos

Por Érico Assis

Ingredientes necessários:

  • Cópia impressa da HQ; no caso, Wilson, do Dan Clowes;
  • Um personagem principal falastrão e nada a ver com você, tradutor;
  • Uma esposa entediada em licença-maternidade;
  • Um amigo com dose apropriada de cinismo para interpretar falas e personalidade do personagem principal.

Primeiro, traduza o livro. É fácil: é só transformar as palavrinhas em inglês em palavrinhas em português.

E tentar garantir que as frases soem bem em português. E mudar a ordem das frases, ou uní-las, para soarem melhor. E procurar sinônimos quando aquela sua primeira opção de palavrinha traduzida não parece equivaler à frequência de uso da palavrinha original. E entrar em desespero quando você sabe que existe uma palavrinha (ou expressão) melhor para aquilo em português, e você não sabe em que parte do seu cérebro está, mas sabe que está lá, e nenhum dicionário (de tradução, de inglês, de sinônimos, analógico) ajuda. E deixar essas palavrinhas difíceis para trás, com um highlight acusatório da sua memória deficiente, torcendo para que a opção mais apropriada surja depois de uma ou duas noites de sono, ou antes do deadline chegar. E, durante o processo, ler algum outro livro com personagens ou temas similares, preferencialmente original em português, para se inspirar.

Objetivo: ter uma versão em português dos diálogos, por mais esboçada que ainda seja. Tempo estimado: mais ou menos um mês, se estiver em meio a outros projetos de tradução.

Depois, aguarde momento máximo de tédio da esposa de licença e chegue com os apetrechos: o livro e um pacote de post-its. Esposa agradece oportunidade de parar de reler O que esperar enquanto você está esperando e de assistir novela. Faz relações entre a proposta do marido e arte contemporânea. Pensa em colar post-its somente sobre os balões de personagens femininas e levar o gibi para uma galeria, onde será interpretado como uma denúncia da sociedade machista. Marido diz arrã, mas que por favor ela coloque post-its sobre todos os balões do gibi, sejam de machos ou fêmeas. São apenas 80 páginas e menos de dez balões por página.

O resultado deve assemelhar-se à foto no topo do post. Tempo necessário: duas noites de tédio da esposa.

Convide o amigo com dose apropriada de cinismo. Explique que está traduzindo livro onde personagem principal é basicamente ele, seu amigo. Mas seja gentil: diga para o amigo que é porque ele tem um “vocabulário interessante”. Resista em dizer que o personagem do livro é este seu amigo, no futuro. Importante: seu amigo não deve ter lido o livro previamente.

Parênteses sobre meu amigo Yusanã Mignoni: quando eu e a Marcela estávamos no auge da gravidez, ele fez a gente ver esta foto. Também ronda os comentários aqui do blog, causando discórdia. É um cinismo divertido, assim como o do Wilson. Mas, diferente do Wilson, ele faz alguma coisa. Na verdade, algumas coisas: escreve, fotografa, compõe. E é uma das melhores pessoas para conversar sobre tudo aqui no reino de Chapecó. Fora ter esse nome sensacional. Em homenagem a ele, chamo este de Método Yusa Para Tradução de Quadrinhos. Fecha parênteses.

Com o livro post-it-zado nas mãos do amigo, comece a ler as frases em voz alta a partir do seu roteiro traduzido, enquanto ele acompanha os quadrinhos com os balões tapados. Leia a página uma vez para ele entender a piada ― Wilson é uma reunião de histórias de uma página, sempre com punchline, que formam uma história maior ―, e outra para ele avaliar se o personagem falaria mesmo daquele jeito. Repita o processo a cada página. Quando achar interessante, peça para ele interpretar o personagem a partir das suas falas traduzidas.

Rende várias alterações no texto. São três os objetivos: eliminar o terceiro código (aquelas traduções ruins, onde parece que você vê o texto original aportuguesado toscamente), fazer o texto fechar com as imagens e evitar que o editor mexa demais no seu trabalho, sob o pretexto de “você acaba percebendo um monte de problemas quando coloca o texto nos balões”. Tempo estimado: três madrugadas. Peça pizzas.

Resultado esperado: diálogos que façam jus, em português, aos criados por Dan Clowes. E ― até que se invente um software para tradução direto nos balões ― um experimento para descobrir a melhor forma de traduzir quadrinhos. Aguardar de seis a dez meses para retorno do editor. E de vocês, leitores.

[Wilson tem lançamento previsto para o começo de 2012.]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Semana quarenta e oito

Os lançamentos da semana são:

Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa, de Marilena Chaui
Os oito ensaios reunidos neste livro foram escritos originalmente para conferências e artigos, e neles Marilena Chaui aborda os temas principais da ética de Espinosa, cuja obra ela estuda desde a época do doutorado. Como é característico das outras obras da autora, sua enorme capacidade de síntese e sua escrita clara são fundamentais para oferecer um vasto painel da história da filosofia, aproximando o leitor comum dos conceitos intrincados do sistema filosófico e oferecendo instrumentos valiosos para pensar a sociedade contemporânea.

Scott Pilgrim contra o mundo — vol. 3, Bryan Lee O’Malley (Tradução de Érico Assis)
Mesmo que não aparente, Scott Pilgrim deu passos importantes em direção à vida adulta. Entretanto, algo de estranho pode estar acontecendo com Ramona. São mensagens no celular, cartas suspeitas e o brilho que surge em torno de sua cabeça toda vez que ela entra num assunto de que não gosta. Será que isso tem a ver com a chegada de Gideon, o líder de todos os Ex-Namorados do Mal, a Toronto? Videogames, música indie, amores adolescentes tardios, mangás e a chegada da vida adulta misturam-se no universo do canadense mais famoso do planeta em seu último volume de aventuras – que reúne duas histórias originais do herói que virou cult instantâneo nos cinemas.

A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo, de Angela Carter (Tradução de Luciano Viera Machado)
Nesta edição, a Penguin-Companhia selecionou alguns dos mais célebres (e assustadores) contos de fadas compilados por Angela Carter, num breve painel do folclore mundial e das tradições narrativas dos mais variados povos. Há poucas fadas nessas páginas, e o leitor também terá dificuldades em encontrar príncipes encantados e caçadores que salvam o dia no último momento. Escritas numa época em que esse tipo de história não era destinado a crianças, as fábulas aqui contidas dão lugar a uma série de tias malévolas, esposas traiçoeiras, irmãs excêntricas e perigosas feiticeiras.

Declaração de independência — Uma história global, de David Armitage (Tradução de Angela Pessoa)
Hoje cultuada nos Estados Unidos pelos direitos individuais que assegura, a Declaração teve por razão primeira uma demanda cuja originalidade é hoje pouco lembrada: a independência desvinculada de outro poder soberano. Embora não seja o primeiro documento a questionar a autoridade de um território sobre outro, a Declaração forjou o conceito de Estado, em oposição ao de império, e assim serviu de fundamento e inspiração para dezenas de documentos similares. No livro, David Armitage, professor de história na Universidade Harvard, analisa esse documento fundador dos EUA, e seu papel como modelo e inspiração para a emancipação de comunidades políticas ao redor do mundo.

Para conhecer melhor os tabus e as proibições, de Patrick Banon (Ilustrações de Sabine Allard; Tradução de Eduardo Brandão)
“Não ponha a mão no fogo! Não enfie o dedo na tomada!” Desde bem cedo, nossa vida é cercada de proibições. Em Para conhecer melhor os tabus e as proibições, Patrick Banon investiga a origem dessas regras, procurando desvendar os medos ancestrais dos homens — ligados principalmente às forças naturais e sobrenaturais — e analisar os sistemas criados para enfrentar esses medos desde os primórdios da história humana. Dessa forma, ele sugere que as ligações existentes entre os tabus e o pensamento dos antigos clãs permitem compreender melhor as leis e as proibições que regem nossa vida. O que Banon nos mostra é que todos os tabus têm um denominador comum: pretendem proteger o fraco contra o forte e permitir uma vida social tranquila. Para ele, um mundo sem tabus seria um mundo desumano.

Contradança, de Roger Mello
Alguns de nossos grandes ilustradores têm se revelado escritores de mão-cheia. Não é de estranhar: quem conta histórias com o traço está igualmente sensibilizado com a narrativa através de palavras. Roger Mello é um grande exemplo. Indicado ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil, ele agora lança um de seus livros mais ousados e inventivos. Em um diálogo que mais parece sonho, a filha de um vidraceiro conversa com um macaco que é quase o seu reflexo. Em poucas palavras, os dois falam sobre medo e coragem, e sobre os infinitos reflexos que nossa imagem pode gerar e sobre os outros tantos que podemos enxergar de nós mesmos e dos outros.

Semana quarenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Alex no país dos números, de Alex Bellos (Tradução de Claudio Carina e Berilo Vargas)
Os números têm fascinado a humanidade desde sua descoberta. Representados de diferentes modos pelas civilizações ao longo dos séculos, esses signos e suas relações se tornaram o fundamento do raciocínio abstrato, bem como de todas as atividades humanas em que é necessário contar. Os traços e marcas que permitiam aos primeiros pastores e agricultores o controle sobre a produção de seus rebanhos e plantações se transformaram na base conceitual da atual revolução tecnológica. Nas páginas desta surpreendente viagem pelo país da matemática, tal como a Alice de Lewis Carroll, Alex Bellos conduz o leitor por entre uma multidão de seres inusitados. Em meio a números com poderes maravilhosos, números que se atraem e se repelem, números que representam a plenitude da divindade e números repetidos que desafiam o acaso dos dados, o autor demonstra que a matemática é uma ciência tão importante quanto divertida. Alex Bellos, que fala português, vem ao Brasil para o lançamento do livro. Haverá bate-papo em São Paulo e Rio de Janeiro, com oficina de cubo mágico.

Três sombras, de Cyril Pedrosa (Tradução de Carol Bensimon)
Joachim e seus pais — Louis e Lise — vivem distantes do resto do mundo. A vida é tranquila e cheia de pequenos prazes na casinha rodeada por colinas. Mas um dia três sombras surgem no horizonte, montadas em cavalos, com capas negras e os rostos cobertos por capuzes. Sua presença silenciosa aos poucos se torna onipresente, aterrorizando a família e levando Louis à terrível conclusão de que as três entidades estão ali para buscar Joachim. Então Louis recusa-se a aceitar as engrenagens do Destino, e parte com o filho em uma viagem febril e desesperada. Nessa jornada quase alegórica, retratada com o traço preciso de Cyril Pedrosa — que ora revela a inocência de um olhar, ora ameaça à espreita —, pai e filho atravessarão lugares inóspitos povoados por seres trapaceiros e imorais, enquanto tentam, de todas as maneiras possíveis, escapar do encontro com a morte.

O jantar fatal e outros mistérios médicos, de Jonathan Edlow (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
No ritmo das séries televisivas de grande sucesso ER e House, e inspirado nos contos de sir Arthur Conan Doyle protagonizados por Sherlock Holmes, o professor de medicina em Harvard e renomado especialista em emergências neurológicas Jonathan Edlow conta quinze histórias de mistérios médicos que — por sua complexidade ou rara ocorrência — desafiam os melhores “detetives”. Entre doenças esquecidas nos antigos compêndios de medicina que subitamente se manifestam no coração dos Estados Unidos e supostos chás medicinais que na verdade são tóxicos, o dr. Edlow ainda nos apresenta, em linguagem clara e acessível, a história das moléstias diagnosticadas, e as aventuras da descoberta dos mais diversos males e patógenos.

Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie (Tradução de Melina R. de Moura)
Salman Rushdie é um equilibrista habituado à corda bamba entre dois mundos que parecem mais distantes entre si no tempo que no espaço — o Oriente e o Ocidente. Tem, portanto, um olhar privilegiado sobre cada um deles, o que lhe permite enxergar detalhes que escapariam a um observador convencional. Nos nove contos deste livros, o escritor indiano observa essas duas culturas com olhos afiados e irônicos, montando um caleidoscópio de situações que atravessam séculos e continentes. De Hamlet a Isabel de Castela, de Colombo ao dr. Spock, passando por assaltantes anônimos, espiões e proletários, indivíduos invariavelmente fora do lugar dão a estas páginas colorido e vitalidade raros na literatura — e são a prova definitiva de que não há fronteiras para a fabulação de Rushdie.

Mosca Espanhola, de Will Ferguson (Tradução de Celso Mauro Paciornik)
Jack McGreary é um jovem que vive na minúscula, pobre e pacata cidade de Paradise Flats. Quando dois novos golpistas chegam ao local e começam a agir, Jack é o único que reconhece o truque, mas, em vez de entregá-los, termina por ajudá-los. Encantado com a promessa de uma vida de aventuras com os profissionais do engodo Virgil Ray e srta. Rose, espécie de Bonnie e Clyde sem armas, Jack decide deixar sua antiga vida para trás e partir com eles. Juntos, os três aplicam golpes por todo o país, dos mais simples aos mais sofisticados, com um único lema: não é crime se dão o dinheiro para você. Jack é rapidamente absorvido por essa vida de dinheiro, bebida e jazz, e, usando seu talento nato, planeja o maior golpe de todos: a Mosca Espanhola.

Pompeia, de Richard Platt (Ilustrações de Manuela Cappon; Tradução de Érico Assis)
Era uma vez um modesto casebre no sul da Itália. Por volta de 750 a.C., ele se transforma em uma fazenda que, com o passar do tempo, vai sendo engolida por uma cidade vibrante que cresce ao seu redor — Pompeia. Aos poucos, surgem cada vez mais sinais de que o modo de vida romano tornou-se dominante por lá. Até as forças da natureza rebelam-se: o abalo de um terremoto é apenas o prenúncio de algo ainda mais devastador… Essa é a emocionante história narrada neste livro. Ao acompanhar o dia a dia de uma casa em Pompeia, de séc. VIII a.C. aos dias de hoje, você conhece não só uma parte da história do antigo Império Romano, como também as pessoas que lá viveram e trabalharam, e entende suas crenças e hábitos. Acompanhe em detalhes o crescimento dessa fascinante cidade por meio de desenhos detalhados e textos explicativos.

O livro dos monstros!, de Fran Parnell (Ilustrações de Sophie Fatus; Tradução de Heloisa Jahn)
O que você faria se de repente encontrasse um monstro? Tentaria se esconder? Fugiria? Ou será que diria “oi” na maior calma? Pois nestas histórias você vai ficar frente a frente com vários deles: um abominável homem das neves, um ogro emplumado, um monstro aquático faminto e outros seres de dar medo. E vai acabar descobrindo que eles são cheios de truques e também que nem todos são tão terríveis assim — alguns só precisam de um pouco de compreensão. Inspirado em histórias populares do mundo inteiro, das montanhas do Nepal às planícies da América do Norte, este livro vai fazê-lo passar pela emoção de encontrar algumas criaturas pavorosas — e gostar da experiência!

O rato me contou…, de Marie Sellier (Ilustrações de Catherine Louis; Carimbos e caligrafia chinesa de Wang Fei; Tradução de Eduardo Brandão)
Um dia, no início do mundo, o Grande Imperador do Céu convidou todos os animais a visitá-lo no topo da montanha de Jade. Doze animais compareceram — e acabaram se tornando os doze signos do horóscopo chinês. O que realmente aconteceu naquele dia? O rato, que estava presente, é que vai contar essa história. Ao final do volume, tabelas trazem os anos correspondentes a cada um dos signos chineses.