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Por Que O Prêmio Jabuti Deveria Ter Categoria Quadrinhos ou Por Que O Prêmio Jabuti Não Deveria Ter Categoria Quadrinhos (2)

[Por uma questão de continuidade, publicamos o colunista Erico Assis em duas segundas-feiras seguidas. A coluna de Júlia Moritz Schwarcz será postada no blog amanhã.]

Por Erico Assis


Art Spiegelman mostra algumas páginas de sua premiada graphic novel, Maus.

Continuando da semana passada

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Em 1991, Neil Gaiman e Charles Vess ganharam o World Fantasy Award por uma edição de Sandman. A premiação se deu na categoria “conto” (short fiction). Logo após, instaurou-se a controvérsia pelo fato de uma HQ ter ganho prêmio destinado a literatura. O regulamento do WFA foi revisto para que quadrinhos só se encaixassem na categoria Special Award.

Em 1992, Maus, de Art Spiegelman, ganhou um Prêmio Pulitzer — um prêmio eminentemente de não-ficção (Maus é uma biografia). A premiação não foi em categoria específica, mas sim entre as “special citations” à que a organização do Pulitzer recorre quando bem entende.

Em 2001, Jimmy Corrigan: O menino mais esperto do mundo, de Chris Ware, levou o primeiro Guardian First Book Award concedido a quadrinhos. A categoria é única e mistura ficção e não-ficção. Em 2005, a revista Time incluiu Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, entre os 100 maiores romances da língua inglesa desde 1923. Dividia espaço com Ruído branco, de Don Delillo, Amada, de Toni Morrison, e Os filhos da meia-noite, de Salman Rushdie, para ficar nos mais contemporâneos.

Em 2006, o sexagenário National Book Award – equivalente norte-americano mais próximo do Jabuti – indicou O chinês americano, de Gene Luen Yang, à categoria Literatura Infanto-Juvenil. Um crítico de cultura da revista Wired, Tony Long, atacou o prêmio dizendo que, embora reconhecesse os quadrinhos como arte, o National Book “devia ser reservado a livros só com palavras”. Long levou críticas pesadas de autores e editores de quadrinhos, mas Chinês Americano não ganhou o prêmio. Indiferente ao debate, em 2009, o National Book Award indicou outra HQ, Cicatrizes, de David Small, que também não ganhou.

Em 2010, o Los Angeles Times Book Prize comemorou 30 anos incluindo a categoria “Graphic Novel” em suas premiações. O primeiro vencedor foi Asterios Polyp, de David Mazzucchelli.

O Booker Prize, do Reino Unido, nunca indicou quadrinhos. No grande mercado da bande dessinée franco-belga, até hoje a divisão é clara: quadrinhos nunca concorreram no Prix Goncourt. O que não é problema, pois estão sempre em destaque nas livrarias e toda vez que acontece o Festival d’Angoulême, por sua vez restritíssimo às HQs.

No Japão e na Itália, outros dois mercados grandes produtores de quadrinhos, mangás e fumetti também não concorrem em prêmios literários.

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“Para efeito deste concurso, é considerado livro a obra intelectual impressa e publicada”, diz o artigo 3, seção VI do regulamento do Prêmio Jabuti. O Prêmio é promovido pela Câmara Brasileira do Livro, que, assim como executa para qualquer outro livro, faz as fichas catalográficas dos quadrinhos que chegam às livrarias do país. Como dito na coluna anterior, o Jabuti já foi concedido a uma HQ brasileira. Ou seja, não há dúvida nas definições do prêmio de que os quadrinhos podem ser livros e passíveis de indicação e premiação.

Mas, enfim, a categoria “Quadrinhos” deveria existir? Sim, deveria.

Por um lado, os quadrinhos não são literatura. Por outro, o Jabuti não é um prêmio de literatura, e sim um prêmio para incentivar o mercado livreiro, do qual os quadrinhos fazem parte.

Por um lado, talvez não exista produção nacional suficiente de quadrinhos. Por outro, uma das funções de um prêmio é justamente estimular esta produção.

Por um lado, quadrinhos já podem teoricamente concorrer em algumas categorias do Jabuti. Por outro, uma categoria “Quadrinhos” não seria impedimento para que isto continuasse a acontecer – apenas reforçaria a necessidade da presença dos quadrinhos no prêmio e sua relevância no mercado livreiro.

Por um lado, os quadrinhos poderiam ter seus próprios prêmios. E têm: o Troféu HQ Mix, que acontece anualmente desde 1989 e é promovido pela Associação dos Cartunistas do Brasil junto ao Instituto do Museu dos Artistas Gráficos. Por outro lado, incluí-los no Jabuti ajudaria a acabar com preconceitos ainda resistentes contra as HQs enquanto produção artística ou leitura de formação. É legitimidade emprestada, mas necessária.

E o principal argumento tem a ver com esta legitimidade estendendo-se ao artista ou profissional dos quadrinhos. De ocupação marginalizada, ainda enxergada com desconfiança até pelas editoras (mesmo se as vendas forem de respeito), os quadrinistas de talento do país poderiam ganhar impulso com a maior possibilidade de reconhecimento, não mais vinculada a modas passageiras ou a ter que buscar esta legitimidade a partir do mercado estrangeiro.

O Jabuti pode não ter todo este poder de beneficiar a percepção dos profissionais de HQ, mas sem dúvida seria um passo nesta direção. E se vier o argumento que mesmo os profissionais da literatura são marginalizados, sejam jabutizados ou não, é só ler qualquer entrevista de Lourenço Mutarelli onde ele compara o reconhecimento zero que tinha quando quadrinista e o tratamento de artista que recebe agora, como autor de livros sem figurinhas.

Existe preconceito. Preconceito que uma pequena estátua de quelônio pode ajudar a quebrar, incentivando ainda mais talentos num país que já faz alguns dos melhores quadrinhos do mundo.

Enfim, para benefício à imagem do próprio Jabuti, seria uma demonstração de atualização, adequando-se a um mercado livreiro que, seja moda passageira ou não, vende e reconhece os quadrinhos nas suas prateleiras. Por mais que jabutis não sejam exemplo de velocidade, fico aqui aguardando este passo adiante.

(O colunista entrou em contato com a organização do Prêmio Jabuti a respeito desta discussão, via e-mail, mas até o momento não obteve resposta.)

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

“Aqui”

Por Erico Assis

É comum que qualquer discussão sobre história, técnica ou linguagem dos quadrinhos mencione “Here”, HQ escrita e desenhada por um tal de Richard McGuire em 1989. Foi publicada originalmente na Raw, a antologia de quadrinhos experimentais editada pelo casal Art Spiegelman & Françoise Mouly, padrinhos orgulhosos de tudo que hoje ganha merecidamente o título graphic novel.

“Here” tem seis páginas. McGuire, aliás, não desenhou muitas outras páginas de quadrinhos. Conheço apenas mais uma HQ sua, sem título, também com seis páginas, que saiu na edição 13 da revista literária McSweeney’s. Pelo Google, descobre-se que ele já foi baixista de uma banda chamada Liquid Liquid e que teve uma carreira variada como ilustrador, designer gráfico, webdesigner, animador, autor de livros infantis e projetista de brinquedos.

Ainda assim, parece obrigatório incluir McGuire nos mesmos ensaios, aulas e livros que destacam Spiegelman, Will Eisner, Scott McCloud, Chris Ware e outros nomes que acumulam bibliografia extensa, tanto prática quanto teórica, sobre HQ. Tudo que ele tem a seu favor são seis páginas.

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O canto de uma sala. Duas paredes se encontram, em perspectiva aparentemente isométrica; uma janela à esquerda. Os três quadros seguintes têm data indicada na esquerda superior: “1957” (mesmo ano de nascimento de McGuire, aliás). Um casal saindo para o hospital para ter o primeiro filho. O pai no telefone, dizendo que é um menino. A mãe no sofá com o bebê.

A partir do quarto quadro, passamos para 1922, uma moça ao telefone enquanto outra a aguarda. Mas 1957 continua ali, num quadro dentro do quadro. A seguir, pula-se para 1971, enquanto 1957 continua encaixada no meio — e um gato aparece na inferior direita, vindo de 1999. O gato continua andando na página seguinte, ainda em 1999, alheio às cenas de outras épocas.

Você entende o jogo. São histórias dentro de histórias, mas fixas no mesmo ponto do espaço: o canto de uma sala. Leia aqui.

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Você pode entender “Here” de duas maneiras. É um experimento sobre como contar uma história sem mudar o cenário, a “câmera” sempre fixa na mesma posição, enquanto o tempo, manipulado para frente e para trás, faz a narrativa acontecer. Ou é uma representação instrutiva de que o tempo é apenas ilusão, e que só existe o espaço onde tudo acontece/aconteceu/acontecerá.

Seja qual for a intenção, “Here” é histórica por mostrar o potencial dos quadrinhos na sua característica essencial: a manipulação do tempo e do espaço na qual o próprio leitor é participante ativo, envolvido a preencher os intervalos entre cada cena de acordo com seu próprio tempo. “Here”, porém, tem mais que o tradicional intervalo entre cada quadro — chamado de “sarjeta” pelos livros técnicos —, mas também envolve a construção de uma narrativa complexa com quadros menores dentro de cada quadro principal.

McGuire não é aleatório na forma como intercala cenas separadas pelo tempo. No último quadro da segunda página, por exemplo, compara uma reunião de senhoras, em 1944, às vacas que pastavam ali em 1860. A árvore de 1902 corresponde a dois galhinhos em 1869. O estegossauro de 100650010 a.C. tem uma versão de brinquedo em 2028.

Estudantes de cinema produziram um curta baseado em “Here” em 1991, transformando seis páginas em seis minutos. O resultado, disponível no Youtube, é extremamente fiel à HQ — o que o torna, enquanto filme, tedioso. A troca de quadros é substituída por transições wipe, e os requadros continuam lá para incluir um tempo, ou vários tempos, dentro de outro. Embora competente em respeitar a HQ, o curta rouba o que ela tinha de mais interessante: o leitor, ao invés da montagem, relacionando a mistura de cenas.

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“Here” saiu no Brasil na revista Piratas do Tietê, capitaneada por Laerte, em 1992. Na última edição, a 14. Foi, apropriadamente, pirateada: Laerte diz que não conseguiu contato com o autor para conseguir autorização, nem enviou suas revistas para o exterior porque “podia soar como provocação”. O brasileiro chegou a desenhar um retrato de McGuire — de acordo com sua imaginação, pois nunca o viu nem encontrou fotos. McGuire provavelmente nunca viu a versão traduzida.

Fala-se há quase dez anos que McGuire está trabalhando numa versão em álbum de “Here”, talvez uma versão expandida da história, talvez uma sequência de histórias com a mesma técnica. Mas não se sabe quando vai aparecer, se é que vai. Por enquanto, ele mantém o recorde de menor quociente importância/quantidade na história das HQs: seis páginas que contam o mundo, a partir de um canto de sala.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Semana trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

O campo e a cidade, de Raymond Williams (Tradução de Paulo Henriques Britto)
O campo e a cidade é considerado a obra-prima de Raymond Williams, um dos mais finos e respeitados críticos literários ingleses do século XX. O autor oferece leituras detalhadas de poemas bucólicos e antibucólicos, comparando-os com o desenvolvimento efetivo da sociedade rural inglesa, e examina as reações aos centros urbanos a partir dos séculos XVI e XVII, as mudanças decisivas ocorridas na Londres do século XVIII e a nova literatura urbana dos séculos XIX e XX.

O caderno de Liliana, de Livia Garcia-Roza (Ilustrações de Taline Schubach)
Liliana não entende por que a mãe, que foi internada, não vai mais voltar para casa. Como não pode visitá-la, a menina se põe a escrever. Contar sua rotina — as visitas da avó, os irmãos bagunceiros, o batizado da boneca preferida… — é uma forma de continuar conversando com a mãe. Palavra atrás de palavra, com leveza e sabedoria que só as crianças têm, Liliana vai aprender a dizer o que sente e a descobrir como dar sentido a sua tristeza, a suas alegrias e a sua maneira de ver o mundo.

Ordinário, de Rafael Sica
Ordinário é uma coletânea da série de tiras de mesmo nome, publicada por Rafael Sica em seu blog desde 2009. Essas tiras, em preto e branco e sem falas, retratam a vida na metrópole, marcada por sentimentos intensos como solidão, tristeza, medo e horror, sempre com um humor ácido e um toque de surrealismo. Nesse universo bastante particular — e facilmente reconhecível — criado por Sica, de um modo quase tragicômico questiona-se a vida urbana e o comportamento do homem contemporâneo. O resultado seria algo próximo de Macanudo, se fosse escrito por alguém como Tim Burton. Haverá lançamentos com sessão de autógrafos em Porto Alegre, São Paulo e Curitiba.

Pelotas (1)

Por Erico Assis

hopper + coffee monsters
(Ilustração por Samanta Flôor)

Primeira hipótese: é tudo culpa da chuva. Quando começa a chover em Pelotas, há uma grande chance de que aquela chuva dure não algumas horas, mas alguns dias. Se começou na tarde de quinta-feira, você só vai ver o sol lá pelo meio-dia de domingo. E torça para que não fique muito quente, porque aí a umidade (que fica na média dos 237%) se aviva e lança mais chuva. Até aí por quarta-feira.

Quando não está chovendo, é preciso ficar esperando a água secar das ruas e calçadas. O risco de alagamento e leptospirose de-mãe-puxar-sua-orelha-por-ter-saído-na-chuva são constantes. O negócio, enfim, é achar alguma coisa para fazer em casa. Quadrinhos, por exemplo.

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Daqui a alguns dias, a Quadrinhos na Cia. lança Ordinário, primeira coleção impressa das tiras que o Rafael Sica publica há alguns anos em http://rafaelsica.zip.net/. Sica é chamado de gênio por muita gente; eu sou só mais um. As tiras dele, quase sempre sem texto, falam de neuroses urbanas num tom surreal, com um estilo de desenho sujo — seria melhor chamar de risco, ao invés de desenho — que lembra gravura.

O Sica é pelotense, embora não more lá há alguns anos. Ver o álbum dele me lembrou do Odyr, que também é pelotense, também é quadrinista — lançou Copacabana, em parceria com Sandro Lobo, no ano passado — e também tem um estilo próprio no nanquim, que sempre me cheira a nostalgia. E lembrei também que o Rafael Grampá nasceu em Pelotas e tem feito sucesso pelo mundo com Mesmo Delivery e a expectativa em torno do próximo trabalho, Furry Water.

Lembrei da Samanta, que faz os Toscomics — pequenas comédias autobiográficas, que geraram um séquito de fãs via internet. Do Maumau, da Tia Chica e do Malditos Junkies, que atualmente divide-se entre dar aula sobre quadrinhos, rabiscar e fabricar cerveja em Porto Alegre. Os dois de Pelotas.

Conversei com o Sica e ele me lembrou do Canini, ilustrador desde a década de 50, famoso por quebrar o padrão Disney nas histórias que desenhou do Zé Carioca e por vários personagens (Dr. Fraud, Kaktus Kid, Tibica) que viraram tiras — ele não nasceu em Pelotas, mas é patrimônio da cidade (até com título de Cidadão Pelotense) há anos. E do André Macedo, que faz aquele papel de “cartunista da cidade”, trabalhando nas tiras e cartuns do jornal local há quase vinte anos — e que foi um dos mentores do Sica.

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Você provavelmente conhece o trabalho de algum artista plástico, músico, ator, pesquisador, poeta ou escritor pelotense. Já deve ter comido um dos tradicionais doces de Pelotas ou visto fotos (como estas) da arquitetura tradicional da cidade. Conhece as piadas sobre as tendências sexuais da população, que têm a ver com a riqueza no século XIX. E até aí tudo bem, pois toda cidade do porte de Pelotas vai ter sua dose de exportação de arte, cultura e talentos.

O que é único nessa história é a quantidade de quadrinistas. E dos bons. Tem que haver alguma explicação pra isso. Seria tudo culpa da chuva?

[Continua na próxima coluna]

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
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O artista travestido

Por Erico Assis


(Foto por Renato Parada)

Na primeira HQ do arquivo de outubro, Dom Pedro II encontra o Major Sólon Ribeiro logo após a Proclamação da República. A discussão política ganha tons inflamados, que viram uma aventura espalhafatosa até chegar numa fantasia histórica surreal. É preciso muita cancha nos quadrinhos para conseguir contar tudo isso, com clareza e emoção, em uma única página, e de 13 quadros. A economia — de traço, de diálogo, de narrativa — renderia uma aula inteira para quem estuda quadrinhos, animação ou cinema.

Seguem as histórias da Lagartixa. Lagartixa está à procura de uma ideologia. Tenta encontrá-la no sono, acorda pulando da cama — teve uma epifania. Lagartixa explica a diferença entre relacionamentos binários paritários e autoritários — para ninguém. Lagartixa cita o ministro Gilmar Mendes na cabine de votação. Pois sim, foi mês de eleição.

Tanto foi mês de eleição que uma das tiras — das quadradas, quatro quadros, para a TV Folha — trata de aborto, aproveitando os 15 minutos em que o assunto entrou na pauta em outubro. “Neste país se respeitam as decisões pessoais!”, declara na punchline (é uma punchline?) o personagem das sombras, após submeter a grávida a uma espécie de interrogatório passivo-agressivo. Outra tira rende um comentário à eleição de Tiririca, que — concorde você ou não com a crítica — ainda é um dedo na ferida.

Em meio aos momentos mais reflexivos, há também as tradicionais piadas prontas, tornadas sensacionais pela representação visual. Como a de Kluh, o Hulk ao contrário — “quando se enfurece, ele se torna muito menor e dotado de uma força ridícula” —, e a do “aparte”. Mas mesmo nestas há um pouco de filosofia simples e profunda. Os dois quadros sem texto de “Restaurante Canibal” resumem o que é viver em sociedade.

Tem ainda as “Drágeas”, todas elas também tentando captar alguma coisinha do que é sentir-se vivo (“Creio que uma das responsabilidades do artista e do escritor é comunicar clara e sinceramente como é estar vivo para quem ainda não nasceu” — Chris Ware, aqui). E numa série nova, “Museus”, quadros de total simplicidade — como as do “Museu do Momento Embaraçoso” — também mostram com economia um pouco do que é estar vivo.

No mesmo mês, um livro lançado, um troféu HQ Mix de “Grande Mestre”, participação em Feiras do Livro, mais tiras para crianças, para adolescentes, para diferentes veículos, para ninguém em particular. Com uma variedade de ideias, de estilos, de demonstrações de domínio da narrativa e de maestria em desafiar a técnica, criando verdadeiras aulas de inovação em desenho, composição e roteiro.

Isso tudo é para dizer que CHEGA de teorias, análises, entrevistas, psicanálise-de-bar e mesmo de psicanálise-de-verdade sobre o Laerte vestido de mulher. Chega. Queira ele vestir-se de tia velha, de inca venusiano, de dinossauro ou de Dom Pedro II, o negócio é o seguinte: não é da minha nem da sua conta. O que devia ser da nossa conta é celebrar o fato de estarmos testemunhando o momento mais prodigioso da carreira de um quadrinista brasileiro, com uma obra autoral e inovadora, sem igual no mundo, de importância artística e política, que mistura as veias cômicas e filosóficas com um senso de ridículo afiado, lapidado por algumas décadas de cartunismo.

É óbvio que o noticiário vai preferir as unhas pintadas. Rende até algumas frases laérticas brilhantes (“O Angeli é um exemplo de que uma pessoa pode ser completamente hétero e legal”, aqui), e é divertido. O problema é quando o noticiário vira só isso. Faça-se um favor e vá ler tudo que puder do Laerte — e não sobre o Laerte.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
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