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Semana trezentos e dezessete

Companhia das Letras

Diários II, de Susan Sontag (organização e prefácio de David Rieff e tradução de Rubens Figueiredo)
Dos anos turbulentos de sua viagem a Hanói, em pleno auge da Guerra do Vietnã, até a experiência como cineasta na Suécia e às eleições presidenciais americanas de 1980, este volume documenta a evolução de uma mente extraordinária. Em 1966, a publicação de Contra a interpretação lançou Susan Sontag da periferia do ambiente artístico e intelectual de Nova York para os holofotes de todo o mundo, sedimentando seu lugar como uma força dominante no mundo das ideias. Esses registros são um retrato inestimável dos pensamentos íntimos de uma das mais inquisitivas e instigantes ensaístas do século XX.

Roberto Civita: O dono da banca – A vida e as ideias do editor da Veja e da Abril, de Carlos Maranhão
Roberto Civita (1936-2013) era o dono da banca. No auge, seu império editorial – a Abril – teve 10 mil funcionários e mais de trezentos títulos. Workaholic, curioso, grande formador de talentos, homem de convicções fortes mas avesso a confrontos, Civita redefiniu o jornalismo no Brasil ao criar publicações como Veja e Realidade – e por influenciar os rumos do país e da sociedade por meio desses veículos. Das origens familiares na burguesia italiana à crise da mídia impressa no início do século XXI, Carlos Maranhão reconstitui, com elegância, isenção e rigor na apuração, os acertos e os fracassos dessa figura tão fundamental quanto polêmica na história da mídia brasileira.

Companhia das Letrinhas

Abecedário – Abrir, brincar, comer e outras palavras importantes, de Ruth Kaufman e Raquel Franco (ilustrações de Diego Bianki, tradução de Mell Brites)
Com este abecedário ilustrado, ganhador do Prêmio New Horizons, da Feira de Literatura Infantojuvenil de Bolonha, vai ficar fácil aprender a ler. Acompanhando as 26 letras que compõem o alfabeto através dos verbos e suas ações e vinhetas que vão além do óbvio, as crianças vão perceber como o mundo das palavras diz tudo sobre a nossa vida.

Alfaguara

Meninos em fúria, de Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento
O rock não morre. O punk não morre. E não morrerá enquanto existir fúria. Março, 1983. Diante de uma plateia atônita, Clemente e sua banda, os Inocentes, começam a tocar acordes rápidos. Ariel, o vocalista, cai do palco e segue cantando com o microfone desligado. Clemente, no baixo, toma os vocais. Caos e confusão, um show que se tornaria um marco do rock brasileiro. Em 1982, Marcelo Rubens Paiva havia acabado de sofrer o acidente que o colocara numa cadeira de rodas. Conhece Clemente e as bandas punks e começa a escrever seu livro, Feliz ano velho. Um livro vibrante — que se lê como um romance, mas onde tudo é estritamente real — que fala não só do movimento punk e da sublevação da periferia, mas também da abertura política brasileira, da fúria e do desencanto dos anos 1980.

Suma de Letras

Nós dois, de Andy Jones (tradução de Ângelo Lessa)
Se apaixonar é fácil. Difícil é o que vem depois. Durante dezenove dias, Fisher e Ivy vivem uma relação idílica e são praticamente inseparáveis. É claro que os dois sabem que estão destinados a ficar juntos para sempre, e o fato de se conhecerem tão pouco é apenas um detalhe. Nos doze meses seguintes, período em que suas vidas mudam radicalmente, Fisher e Ivy percebem que se apaixonar é uma coisa, mas manter uma relação é algo completamente diferente. Nós dois é um romance honesto e emocionante sobre a vida, o amor e a importância de dar valor a ambos.

Reimpressões

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
O último voo do flamingo (nova capa), de Mia Couto

Raduan Nassar, Prêmio Camões 2016

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Foi concedido na tarde de hoje em Lisboa o Prêmio Camões para Raduan Nassar. A distinção consagra o paulista de Pindorama (1935) como um dos mais altos momentos da nossa língua. Mais do que merecido. Com uma obra absolutamente imprescindível — o romance Lavoura arcaica, a novela Um copo de cólera e as histórias de Menina a caminho —, Raduan tornou-se um clássico instantâneo já em 1975, quando publicou Lavoura arcaica. Estavam ali os elementos de uma arte poderosa, que trabalhava o idioma de forma olímpica e poética, tratava das relações familiares e dos afetos, recontava, de forma sutil, a trajetória da imigração e expunha a tensão (social, cultural, emocional) entre o campo e a cidade. Um marco.

Com o Prêmio Camões, Raduan fica ao lado de outros grandes de Brasil e Portugal, como João Cabral de Melo Neto, José Saramago, Jorge Amado, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Mia Couto e outros formidáveis criadores de mundos e de palavras em nossa língua.

A Companhia das Letras, em nome de seus editores e funcionários, gostaria de parabenizar o autor e externar o seu imenso orgulho pelo privilégio de publicar as obras de Raduan Nassar.

Você tem que ler Raduan Nassar

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto de Juan Pablo Villalobos.

Em 30 de janeiro de 2013, recebi um e-mail do editor mexicano Diego Rabasa perguntando se eu conhecia a obra de um autor brasileiro chamado Raduan Nassar. Respondi que conhecia, sim, porque a grande maioria de meus amigos brasileiros (professores universitários, editores e escritores, principalmente) tinha falado para mim a mesma frase, idêntica, em algum momento de nossas conversas sobre literatura brasileira: você tem que ler Raduan Nassar. Eu tinha lido anos atrás, de fato — apesar das limitações do meu português na época —, Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho, levando em consideração meus amigos quando percebi que Raduan Nassar era um desses raros casos de unanimidade. Li com muito respeito, com um pouquinho de medo, até, pela óbvia dificuldade de leitura, mas desde as primeiras páginas a contundência da prosa e sua plasticidade me converteram num desses caras que falava para os amigos: você tem que ler Raduan Nassar. Eu tinha virado Nassarita, ou Raduanita, uma seita bem mais fanática do que o Corinthians.

Até aquela época, só Lavoura arcaica tinha sido traduzido para o espanhol (uma tradução espanhola) nos anos 1990, e alguns dos contos de Menina a caminho haviam sido publicados em revistas mexicanas, argentinas e espanholas. Em um e-mail posterior, Diego perguntava se eu estaria interessado em traduzir os três livros e se poderia ajudá-lo a fazer os contatos para comprar os direitos. Falei que sim, lógico, poucas vezes na vida um leitor encontra a oportunidade de cumprir o maior sonho, a maior honra de todo leitor: traduzir um de seus autores favoritos para a própria língua.

Demorou quase um ano e meio para ter o contrato de edição pronto (as reticências de Raduan Nassar para a tradução de sua obra são conhecidas) e o primeiro livro, Um copo de cólera, me exigiu quase três meses de trabalho intenso e exclusivo para traduzir as 13.880 palavras do romance. Lembro que fiquei tão abismado com a exigência do texto que, quando terminei, até fiz um cálculo. Eu tinha dedicado aproximadamente 400 horas para a tradução do livro, o que quer dizer que eu conseguia traduzir 34,7 palavras por hora! Uma palavra a cada dois minutos! Lógico que estou considerando tempo de revisão e de reescrita, mas acho que o cálculo é válido para ter uma ideia do que essa tradução representou.

Eu acredito que, contrário à opinião de muitas pessoas, o trabalho de tradução é um trabalho de criação equivalente à escrita. No meu currículo, gosto de colocar os livros traduzidos junto com meus romances. Não pretendo pisar o terreno do querido Caetano Galindo, vizinho deste blog, grande tradutor, teórico engraçadíssimo e amigo, mas gostaria de reivindicar, com permissão do Raduan Nassar, que algumas das páginas de Un vaso de cólera (a tradução de Um copo de cólera para o espanhol) são, com certeza, do melhor que eu consegui escrever até agora.

Un vaso de cólera foi publicado em janeiro de 2016 pela editora Sexto Piso no México e na Espanha e já recebeu ótimas resenhas. Na semana passada chegou uma notícia fantástica da Inglaterra: a edição em inglês (A cup of rage, traduzida pelo Stefan Tobler), foi escolhida como semifinalista do Man Booker International, um dos prêmios mais prestigiosos no mundo. É uma boa notícia para a literatura brasileira, para a obra de Raduan Nassar, mas é, especialmente, uma boa notícia para esses novos leitores que, pela primeira vez, terão o privilégio de ler Raduan Nassar.

A seita dos Raduanitas e dos Nassaritas crescerá.

A ladainha continuará, agora em inglês, agora em espanhol.

You must read Raduan Nassar.

Tienes que leer a Raduan Nassar.

 

Fragmento da tradução para o espanhol de Um copo de cólera:

EL BAÑO

Bajo la ducha yo dejaba que sus manos se escurrieran por mi cuerpo, y sus manos eran inagotables, y corrían escrutadoras con mucha espuma, e iban y venían incansablemente, y nuestros cuerpos mojados de vez en cuando se pegaban para que ellas alcanzaran la espalda en un abrazo, y a mí me parecía delicioso todo ese movimiento vacilante y sinuoso, que me provocaba súbitas y recónditas sacudidas, y viendo que aquellas manos ya invadían mis regiones más oscuras – explorando incluso las hilachas que acompañan el remiendo mal cosido de las ingles (sopesando astutas el paquete enjabonado de mi sexo) – le dije “lávame el pelo, me urge”, y entonces, sacándome del foco de la ducha, sus manos penetraron de inmediato en mi cabello, friccionando con firmeza los dedos, rayando mi cuero con las uñas, raspándome la nunca de una manera que me volvía loco en la médula, pero yo no decía nada y sólo me quedaba sintiendo la espuma que iría creciendo blanda allá arriba hasta que se desmoronara con alboroto por la cara, pinchándome los ojos en el descenso, haciéndome restregarlos desesperadamente con los nudillos de los dedos, aunque supiera que ellos, ardiendo, anunciaban francamente mi aseo, y ella no tardó en jalarme de nuevo bajo la ducha, y sus dedos comenzaron a tramar la cosa más deliciosa del mundo en mi cabello con la lluvia caliente que caía encima, y era entonces un plaft plaft de espuma gruesa y atropellada, estrellándose en la cerámica con el agua que corría ruidosamente hacia el desagüe, y ella reía y reía, y yo ahí, todo quieto y abandonado a sus cuidados, no movía ni siquiera un dedo para que ella cumpliera sola ese trabajo, y yo ya estaba bien enjuagado cuando ella, resbalando de los límites de la tarea, deslizó la boca mojada por mi piel de agua, pero yo, sujetando los frenos, hice de cuenta que nada perturbaba el ritual, y en cuanto ella cerró la llave me dejé conducir callado de la ducha al piso, y, conectado a una ligera corriente de escalofríos, me quedé esperando hasta que ella me tiró una amplia toalla sobre la cabeza, encargándose luego de secarme el pelo, en movimientos tan ágiles y precisos que agitaban mi memoria, y con los ojos escondidos vi por instantes, aunque pequeños y descalzos, que sus pies crecían metidos en sandalias, y sentí también que sus manos afiladas se transformaban en manos rústicas y pesadas, y eran manos minuciosas que se metían con los dedos por mis orejas, colmándome de caricias, haciéndome cosquillas, haciéndome reír bajito debajo de la toalla, y era extremadamente rico que ella se ocupara de mi cuerpo y me condujera enrollado al cuarto y me peinara delante del espejo y esbozara una reprimenda de ceño fingido y me hiciera pequeñas recomendaciones y me hiciera vestir pantalón y camisa y me hiciera acostarme de espaldas en la cama, inclinándose en seguida para cerrarme los botones, y me hiciera extender mis pesados zapatos en su regazo para que ella, doblándose llena de aplicación, pudiera amarrar las agujetas, yo sólo sé que me entregaba enteramente a sus manos para que fuera completo el uso que ella hiciera de mi cuerpo.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Raduan Nassar: 80 anos

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“Raduan tem um jeito que é só seu, uma mistura de solidão e tristeza, com um sorriso que começa silencioso no canto dos lábios e depois vai se escancarando e ficando sonoro, principalmente se a conversa é mais longa e pessoal. Embora traga consigo uma mágoa da vida literária, que o fez abandonar a profissão e se voltar integralmente à vida rural, seus livros são o maior testemunho de um coração ultra generoso. Para escrever dessa maneira, tratar seus personagens com tamanha compreensão e riqueza, é preciso ter um conhecimento do mundo tão aberto como profundo e singular.”

Hoje, dia 27 de novembro, Raduan Nassar completa 80 anos. O relato acima é de Luiz Schwarcz, falando da história editorial de um dos principais escritores brasileiros. Autor de Lavoura arcaica Um copo de cólera, Raduan ganhará suas primeiras traduções para o inglês e o espanhol em 2016.

Para comemorar a data, releia os dois textos em que Luiz Schwarcz fala sobre seu encontro com Raduan e a importância da sua literatura para a Companhia das Letras, publicados aqui no blog em 2013:

  • O reencontro: “Reencontrar Raduan Nassar talvez tenha sido o melhor que me aconteceu no ano passado.”
  • A surpresa: “— Você não imagina. O Luiz (Fernando Carvalho, cineasta que filmou Lavoura arcaica) passou aqui e me arrastou para a Balada. Disse que não arredaria pé da minha casa sem que eu fosse, e acabei indo. Não houve jeito. E foi bom, sabe, imagine que houve uma moça que me disse que meus livros foram muito importantes para a vida dela. Me pediram autógrafos, Luiz, me limitei a uma assinatura magra em cada exemplar.”

 

A surpresa

Por Luiz Schwarcz


Quando cheguei no apartamento de Raduan, encontrei-o com a barba por fazer, certamente há muitos dias. Fora isso, não senti traço algum de envelhecimento no amigo que tanto me influenciou. Nossa conversa inicial girou toda em torno dos problemas de saúde que ele enfrentou, das inúmeras intervenções e tratamentos pesados que abalaram mais a moral do que a aparência do escritor. Ele se disse cansado, isolado, sem capacidade para ler ou se concentrar. Assim, logo depois das minhas reiteradas desculpas, seguimos falando sobre nosso primeiro encontro, há tantos anos, enquanto eu ainda trabalhava na Brasiliense, e sobre o que significaram, para cada um de nós, as edições feitas em conjunto desde então. Da minha parte, reforcei o quanto tinha sido importante para mim ter me tornado editor de Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho.

— Não editei livros melhores que os seus nestas três décadas dedicadas à literatura. Editá-los foi uma das coisas mais significativas que fiz em minha vida, Raduan. Apesar de não ter sido o primeiro editor das suas obras, você não imagina o sentido que elas têm para mim.

— Nunca vou esquecer que você apostou em mim quando eu estava esquecido — ele me disse —, mas hoje nem penso mais em literatura. Sou grato a você mas me sinto alheio ao mundo literário.

— Raduan, você não pode menosprezar a importância que seus livros têm para as pessoas que os leem. Veja o número de edições que já fizemos de cada um deles.

Lembrei-me nesta hora do prazer que senti, na época das primeiras edições de cada um de seus livros, quando discutíamos os detalhes gráficos minuciosamente. Lembrei também de como a atenção obsessiva que ele dedicava a cada detalhe acabou por me marcar como profissional do livro. Fui com Ettore Bottini à casa do autor algumas vezes, e o próprio Raduan veio à editora para conversar conosco, envolvendo nessas reuniões o José Luiz e mais tarde a Elisa Braga. Em conjunto, discutíamos cada pequeno aspecto das edições. Só hoje, escrevendo esta crônica, percebo que sem o que aprendi com Raduan eu seria um editor muito diferente. Ele se importava com o papel, com a tipografia e com o espaçamento da entrelinha. Escolhia tudo e depois, ao chegar em casa, por vezes voltava atrás. Pedia sempre desculpas pela “encheção de saco”, e eu tentava explicar que aquilo era o que de melhor podia acontecer a um editor — entender que as entrelinhas contavam tanto como a melhor palavra, ou expressão. Consultávamos ele a cada nova edição, e não foram poucas as ocasiões em que fizemos mudanças para satisfazê-lo, sempre em prol de uma edição mais aprimorada.

Raduan serviu café com bolo, como sempre delicioso; contou que a simpática colaboradora que o atende há décadas vem menos do que costumava, hoje só dois dias por semana: para que possa ficar mais só. Perguntei-lhe sobre a Balada Literária que o homenagearia, que começava no dia seguinte, e ele me garantiu:

— Não vou, Luiz, de jeito nenhum. Eu avisei, quiseram me homenagear mesmo assim.

Surpreendi-me no dia seguinte ao ver sua foto na internet, com o mesmo aspecto de quando o encontrara, em plena Balada, com um sorriso de canto a canto do rosto. Liguei para ele emocionado. (Pretensiosamente, guardava uma dúvida: quem sabe a nossa conversa do dia anterior teria influenciado de alguma forma sua mudança de decisão).

— Maravilha, Raduan, você foi.

Mas a resposta apagou de vez minha pretensão.

— Você não imagina. O Luiz (Fernando Carvalho, cineasta que filmou Lavoura arcaica) passou aqui e me arrastou para a Balada. Disse que não arredaria pé da minha casa sem que eu fosse, e acabei indo. Não houve jeito. E foi bom, sabe, imagine que houve uma moça que me disse que meus livros foram muito importantes para a vida dela. Me pediram autógrafos, Luiz, me limitei a uma assinatura magra em cada exemplar.

— Não te disse que os teus livros são fundamentais para muita gente?

— É, você disse, sim. E na hora não acreditei. Mas essa moça falou de uma forma que eu até me emocionei. (Ao perguntar o nome dela para o autógrafo, Raduan se deu conta de que se tratava da atriz Maria Fernanda Cândido).

Na conversa do dia anterior ainda havíamos lembrado dos eventos que fizemos juntos com Chico Buarque, cada escritor lendo trechos do livro do outro. Raduan acolheu com entusiasmo os livros de Chico, ao contrário de parte de seus colegas escritores, que, sem terem lido as obras, reagiram com preconceito e ciúmes. Foram três eventos com Raduan e Chico lendo juntos, o maior deles em Belo Horizonte, no programa Sempre Um Papo de Afonso Borges, no Palácio das Artes, onde frente a um público de mil e setecentas pessoas os dois gargalharam, em plena leitura, por longos minutos. Os atos com dois escritores particularmente tímidos, mas cuja literatura demonstra o contrário — uma vontade enorme de abraçar a vida e entender tudo o que está ao nosso redor —, foram de arrepiar. Também foi bonito ouvir Raduan ler trechos de um livro de José Saramago, não me lembro mais qual, em um evento no Sesc. Sempre que Saramago e Pilar se hospedavam em casa, Raduan era convidado para almoçar conosco. Os dois escritores se respeitavam muito e mantinham uma amizade renovada, principalmente nesses almoços em que por vezes também estavam presentes Leyla Perrone-Moisés e Lygia Fagundes Telles — o grupo mais próximo de Saramago no Brasil.

No final do encontro, após Raduan preencher meu prato com mais fatias de bolo, ele me disse que gostaria de falar algo que nunca havia me dito. Se certificou inúmeras vezes de que eu não me chatearia, ouvindo sempre de mim que ficasse tranquilo, podia dizer o que fosse, eu gostaria de ouvir. Foi quando Raduan pegou uma matéria veiculada pela internet que criticava o estado de Israel, defendendo o direito dos dois povos à terra Palestina.

— Segundo estudos do DNA daqueles povos, somos primos, Luiz, mas o que está acontecendo lá não está certo. Nunca te falei sobre isso, mas não está certo não.

— Você está coberto de razão, Raduan. Eu tenho muitas críticas às atitudes militaristas do estado de Israel, e também acho que os dois países ou povos devem ter direito às suas terras e aos seus estados nacionais.

Respirei aliviado, já que, depois das palavras inicias, estava imaginando que Raduan tivesse guardado por tantos anos alguma crítica ou reclamação profissional.

A conversa foi acabando e eu com horário corrido, como sempre, tive que sair. Combinamos de ficar mais em contato, o que vem de fato ocorrendo desde então. Saí de lá feliz, orgulhoso e aliviado da minha culpa inicial. Meu contato com Raduan Nassar bem vale uma vida bem vivida de editor.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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