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A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves

No dia 26 de abril chega às livrarias o novo romance de Joca Reiners Terron, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves. Pedimos a Rafael Sica que fizesse uma tirinha sobre o livro, e você confere o resultado abaixo:

Sinopse: O misterioso crime do Nocturama ocupa os noticiários. Em torno dele, giram as vidas de um entregador coreano, uma enfermeira especializada em pacientes terminais, um taxista com pendor para música clássica, um escrivão insone às voltas com a doença do pai e uma bióloga com pretensões televisivas. E, ao centro dessa trama cada vez mais macabra, está a criatura. Vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha, ela passa os dias num casarão do Bom Retiro, sem jamais sair à rua. Embora pareça uma criança, sua idade é indeterminada, bem como suas intenções.
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Em A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron traz ao nosso tempo uma história que poderia pertencer à Inglaterra vitoriana. No lugar da neblina e dos lampiões a gás, um efervescente bairro de imigrantes no coração de São Paulo, onde convivem sucessivas gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Um ambiente ideal para o embate entre seitas secretas, assassinos em série e antigos mistérios de família.

Semana trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

O campo e a cidade, de Raymond Williams (Tradução de Paulo Henriques Britto)
O campo e a cidade é considerado a obra-prima de Raymond Williams, um dos mais finos e respeitados críticos literários ingleses do século XX. O autor oferece leituras detalhadas de poemas bucólicos e antibucólicos, comparando-os com o desenvolvimento efetivo da sociedade rural inglesa, e examina as reações aos centros urbanos a partir dos séculos XVI e XVII, as mudanças decisivas ocorridas na Londres do século XVIII e a nova literatura urbana dos séculos XIX e XX.

O caderno de Liliana, de Livia Garcia-Roza (Ilustrações de Taline Schubach)
Liliana não entende por que a mãe, que foi internada, não vai mais voltar para casa. Como não pode visitá-la, a menina se põe a escrever. Contar sua rotina — as visitas da avó, os irmãos bagunceiros, o batizado da boneca preferida… — é uma forma de continuar conversando com a mãe. Palavra atrás de palavra, com leveza e sabedoria que só as crianças têm, Liliana vai aprender a dizer o que sente e a descobrir como dar sentido a sua tristeza, a suas alegrias e a sua maneira de ver o mundo.

Ordinário, de Rafael Sica
Ordinário é uma coletânea da série de tiras de mesmo nome, publicada por Rafael Sica em seu blog desde 2009. Essas tiras, em preto e branco e sem falas, retratam a vida na metrópole, marcada por sentimentos intensos como solidão, tristeza, medo e horror, sempre com um humor ácido e um toque de surrealismo. Nesse universo bastante particular — e facilmente reconhecível — criado por Sica, de um modo quase tragicômico questiona-se a vida urbana e o comportamento do homem contemporâneo. O resultado seria algo próximo de Macanudo, se fosse escrito por alguém como Tim Burton. Haverá lançamentos com sessão de autógrafos em Porto Alegre, São Paulo e Curitiba.

Pelotas (1)

Por Erico Assis

hopper + coffee monsters
(Ilustração por Samanta Flôor)

Primeira hipótese: é tudo culpa da chuva. Quando começa a chover em Pelotas, há uma grande chance de que aquela chuva dure não algumas horas, mas alguns dias. Se começou na tarde de quinta-feira, você só vai ver o sol lá pelo meio-dia de domingo. E torça para que não fique muito quente, porque aí a umidade (que fica na média dos 237%) se aviva e lança mais chuva. Até aí por quarta-feira.

Quando não está chovendo, é preciso ficar esperando a água secar das ruas e calçadas. O risco de alagamento e leptospirose de-mãe-puxar-sua-orelha-por-ter-saído-na-chuva são constantes. O negócio, enfim, é achar alguma coisa para fazer em casa. Quadrinhos, por exemplo.

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Daqui a alguns dias, a Quadrinhos na Cia. lança Ordinário, primeira coleção impressa das tiras que o Rafael Sica publica há alguns anos em http://rafaelsica.zip.net/. Sica é chamado de gênio por muita gente; eu sou só mais um. As tiras dele, quase sempre sem texto, falam de neuroses urbanas num tom surreal, com um estilo de desenho sujo — seria melhor chamar de risco, ao invés de desenho — que lembra gravura.

O Sica é pelotense, embora não more lá há alguns anos. Ver o álbum dele me lembrou do Odyr, que também é pelotense, também é quadrinista — lançou Copacabana, em parceria com Sandro Lobo, no ano passado — e também tem um estilo próprio no nanquim, que sempre me cheira a nostalgia. E lembrei também que o Rafael Grampá nasceu em Pelotas e tem feito sucesso pelo mundo com Mesmo Delivery e a expectativa em torno do próximo trabalho, Furry Water.

Lembrei da Samanta, que faz os Toscomics — pequenas comédias autobiográficas, que geraram um séquito de fãs via internet. Do Maumau, da Tia Chica e do Malditos Junkies, que atualmente divide-se entre dar aula sobre quadrinhos, rabiscar e fabricar cerveja em Porto Alegre. Os dois de Pelotas.

Conversei com o Sica e ele me lembrou do Canini, ilustrador desde a década de 50, famoso por quebrar o padrão Disney nas histórias que desenhou do Zé Carioca e por vários personagens (Dr. Fraud, Kaktus Kid, Tibica) que viraram tiras — ele não nasceu em Pelotas, mas é patrimônio da cidade (até com título de Cidadão Pelotense) há anos. E do André Macedo, que faz aquele papel de “cartunista da cidade”, trabalhando nas tiras e cartuns do jornal local há quase vinte anos — e que foi um dos mentores do Sica.

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Você provavelmente conhece o trabalho de algum artista plástico, músico, ator, pesquisador, poeta ou escritor pelotense. Já deve ter comido um dos tradicionais doces de Pelotas ou visto fotos (como estas) da arquitetura tradicional da cidade. Conhece as piadas sobre as tendências sexuais da população, que têm a ver com a riqueza no século XIX. E até aí tudo bem, pois toda cidade do porte de Pelotas vai ter sua dose de exportação de arte, cultura e talentos.

O que é único nessa história é a quantidade de quadrinistas. E dos bons. Tem que haver alguma explicação pra isso. Seria tudo culpa da chuva?

[Continua na próxima coluna]

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.