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Como sair bem em fotografias

Por Renato Parada

Trabalhar com fotografia, e especificamente com retratos, significa se relacionar com os mais diversos tipos de pessoas — e, por consequência, com suas carreiras, posições, histórias, reputações e projetos. Todos buscam algum tipo de sucesso, exposição, reconhecimento ou alguma forma de diversão que seja. E, obviamente, todos querem sair bem, interessantes na foto. Assim nasce o inferno do fotografado.

Tendo essa preocupação como ponto de partida, de ambos os lados, o encontro está fadado ao fracasso. O que acontece na maior parte do tempo. Até que, por um toque de graça da fotografia, o acaso faz surgir uma boa foto. O mérito é de algo que está além da habilidade de ambos os lados, por mais acostumados que estejam, e além do objetivo concreto — no caso, fotógrafo e fotografado tentarem vender seu peixe.

Ao fotografar escritores para a Companhia das Letras, o desafio é dobrado. Escritores têm mentes afiadas. São especialistas em identificar o clichê, o brega, o senso comum. Conscientes da dificuldade que é comunicar de modo eficaz uma mensagem relevante, vibrante e nova através da literatura, a ideia de ter sua imagem simplificada através de uma fotografia para eles é torturante. É o inferno do fotografado ao quadrado.

E eles têm razão. Nada mais ridículo do que alguém poderoso parecer poderoso, uma pessoa sexy sair com cara de sexy, um inteligente com pose de sabichão. Apesar de isso funcionar no mundo, fazer ele girar e as coisas acontecerem, para algumas pessoas não desce muito bem. Ao ver fotografias como essas, a sensação é de que o retratado acabou comendo muito feijão e ninguém quis ficar por perto.

Na tentativa de fugir do literal, o que surge é uma ausência de resposta e método que é justamente a resposta em si. No exercício de desvendar os mecanismos pelos quais uma boa fotografia acontece, para conseguir agradar o fotografado, o que se passa é uma infinidade de tentativas e alguns raros momentos de desistência completa de ambos os lados. É aí que pode surgir uma boa foto.

Mas não existe o desistir sem muito tentar. É criando formas de expressão que se constroem vazios prenhes de possibilidades, prontos para dar à luz. Então pode-se tentar parecer bonito, inteligente, sofisticado, poderoso, sexy, blasé, irônico, cruel, generoso, compassivo, humilde, desajustado, feliz, melancólico, escritor, atriz, modelo, empresário, bem-sucedido, fracassado, pai, filho, esposa, marido, religioso, pornográfico, feminista, ateu, vítima ou qualquer coisa que se esteja enamorado em ser.

A questão é que, apesar de momentaneamente sermos todas essas coisas, estamos além dessas simplificações que, inevitavelmente, nos causam tanto estresse. Em algum lugar pouco visitado, é possível nos encontrarmos bem, nus, leves e simples, sem a necessidade de levantar bandeiras, defender pontos de vista ou iniciar guerras. Um espaço no tempo onde finalmente desistimos. Tudo bem até mesmo sermos simplificados em uma fotografia. Acontece rápido, é raro de se perceber e difícil de sustentar. Mas ele existe. Um instante de grande alívio. E quem sabe uma boa fotografia.

(Foto de Antônio Prata por Renato Parada)

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Renato Parada é natural de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Colabora com seus retratos de personalidades para as principais editoras e revistas do país. Veja mais de seu trabalho em www.renatoparada.com.

Fotografando pessoas

Por Renato Parada

A ideia que tenho de fotógrafo não é das melhores. Penso em um sujeito desconhecido que chega, com uma câmera na mão, pedindo para o fotografado repetir gestos e expressões, colocando-o muitas vezes em situações ridículas, repetindo tudo, à exaustão, até o sujeito do outro lado da lente ficar cansado e, talvez, se sentindo a maior fraude do mundo.

É o que imagino que as pessoas esperam de mim quando vou fotografá-las. Quando o retrato é de escritores, esse contrangimento antecipado piora um pouco. São pessoas inteligentes, com senso estético apurado,  acostumados e muitas vezes cansados de lidar com a imprensa.

Lembro da última vez que José Saramago veio ao Brasil. A Companhia me contratou para fotografá-lo. Haveria uma rápida e reservada sessão. Apenas eu e outro fotógrafo de uma rede de tevê em que Saramago dava uma entrevista.

Meu colega foi mais rápido e avisou que seria o primeiro. Após os primeiros cliques, ele pediu para um Saramago que acabara de escapar da morte: “Dê um sorriso!”. Recebeu como resposta algo mais ou menos como “Não acho que meu sorriso em fotos transmita algo de sincero”.

Quando chegou minha vez, não troquei nenhuma palavra. Fiz poucos cliques. Ele estava cansado, e rapidamente dei por encerrada a sessão. A foto não ficou tão boa como eu imaginava. Fiquei um pouco decepcionado, me questionando se não deveria ter insistido um pouco mais.

O desafio de fotografar qualquer pessoa é fazê-lo da forma mais rápida possível, sem incomodar muito, e ao mesmo tempo dar significado a um momento com grandes chances de passar despercebido.

O resultado dessa comunicação, que aparentemente acontece de forma precária em contraponto com as infinitas possibilidades da fotografia, é o que tanto me fascina e surpreende durante as sessões.

Uma lembrança marcante é de quando, também para a Companhia, fui fotografar o escritor e historiador da USP Boris Fausto. Boris passava por um momento dificílimo. Acabara de perder sua esposa. Porém, me recebeu de forma excelente. Sua aparência era de uma força enorme.

Mais tarde, me disse que estava difícil disfarçar sua angústia. As fotos foram feitas e tudo ocorreu bem. Pedi algumas variações, porém sem saber na hora o resultado daquilo. Quando fui editar o material, a foto abaixo me chamou a atenção em especial.

Não conseguia tirar o olho dela, e na hora não sabia muito por quê. A sensação era de que Boris tinha me dado uma espécie de lembrete de esperança ao mesmo tempo em que vivia um difícil sentimento de perda.

Lembrei dessa e de outras histórias ao selecionar as fotos para minha exposição “12 retratos de escritores”, que faço a convite de Marcelino Freire para a Balada Literária. A exposição acontecerá na Livraria da Vila do dia 19 de novembro a 08 de dezembro. Todos estão convidados.

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Renato Parada é natural de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Mudou-se para a capital há três anos e desde então vem colaborando com seus retratos para as principais editoras e revistas do país. Veja mais de seu trabalho em www.renatoparada.com.