renato russo

Quando o sol bater na janela do teu quarto

Por Tarso de Melo

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É bem provável que o título acima tenha feito você cantar a música da Legião Urbana antes de ler este texto. É algo bem normal, caro leitor. Se você estiver agora em algum lugar do Brasil, num ônibus, num bar, na sua escola, no seu trabalho, faça o seguinte exercício: pergunte para a pessoa mais próxima qual a música da Legião Urbana que ela prefere. Não sei se ela responderá “Faroeste Caboclo”, “Eduardo e Mônica” ou algum título gravado no lado B de algum vinil bem gasto que está na casa dos seus pais desde os anos 90, ou que foi embora junto com o último toca-discos da família, mas posso garantir que dificilmente a resposta será “não gosto” e muito menos “não conheço”. São três décadas desde o primeiro disco da Legião e, de lá pra cá, suas músicas são a trilha sonora da vida de muitos brasileiros, mesmo com a morte de Renato Russo e o fim da banda há duas dessas três décadas!

E é impossível falar de The 42nd St. Band — romance de uma banda imaginária sem lembrar o que aconteceu com o adolescente que o escreveu. Renato foi uma figura das mais intensas que já apareceram por aqui: ele surge nos bares de Brasília no final dos anos 1970, para explodir, de vez, com o primeiro disco da Legião Urbana em 1985 e fazer um sucesso ininterrupto dali até sua morte em 1996. Em pouco mais de uma década com a Legião Urbana, as canções da banda grudaram nos ouvidos e corações de uma verdadeira legião de fãs, que ainda não parou de crescer.

O livro trata de uma banda exatamente assim: a 42nd St. Band é a Legião Urbana antes que Renato Manfredini Jr. pudesse realmente subir aos palcos. Não é por acaso que Renato adota, para a carreira que começaria logo em seguida, o sobrenome do líder da 42nd St. Band. Renato Russo é a concretização de Eric Russell e, com ele, de histórias muito semelhantes às da banda completamente inventada por Renato, em seu quarto, espalhada em alguns cadernos de adolescente.

Mas o entrosamento da 42nd St. Band com a realidade não se restringe à antecipação da vida de Renato, ela também está na forma como toda essa ficção vem profundamente marcada pelas informações da época, sobre as bandas que ele já amava, sobre a cultura e estilo de vida dos seus ídolos do rock, sobre o clima que Renato flagrava em revistas importadas sobre o que era a vida de um “rock star” mundo afora. Os caminhos de seus personagens se cruzam com o de artistas reais, eles tocam em lugares reais, dão entrevistas para revistas que realmente existiam. Nesse sentido, o livro também apresenta a visão muito rica de um jovem apaixonado pelo mundo do rock e retrata parte essencial da cultura dos anos 1970.

Renato foi durante toda sua vida um grande “anotador”. Antes dos cadernos em que projetou a 42nd St. Band até os cadernos em que gravou os dramas finais de sua curta vida, passando pela infinidade de páginas em que escreveu e reescreveu os versos que todos nós sabemos cantar, Renato tomava notas de tudo. Os amigos que conviveram mais de perto com ele contam de seu hábito de ficar sempre com um caderno e caneta tomando notas enquanto conversavam, em camarins, hotéis, em sua casa, mas talvez não saibam que, muitas vezes, essas notas eram tanto músicas novas quanto as “sensações” de Renato com relação a tudo que estava ao seu redor e, mais ainda, a tudo que passava pela sua cabeça enquanto parecia estar ali… E há vários indícios de que todos esses papéis, essas notas que cobrem dos anos 1970 aos 1990, nunca ficaram esquecidas por Renato. Pelo contrário, tudo indica que Renato, quando estava compondo suas canções no auge da Legião Urbana, voltava a seus cadernos e dava vida nova a frases e ideias soltas de outros momentos.

Por isso, tirar um romance dos diversos cadernos e folhas soltas encontrados no apartamento carioca de Renato Russo (hoje arquivados no MIS, em São Paulo) exigiu um tanto de “arqueologia”, mas ainda mais de mergulho naquele ritmo acelerado em que a imaginação de Renato trabalhava. Não se trata de um material fechado, com início, meio e fim bem amarrados, mas sim de uma sucessão, um jorro de entrevistas fragmentárias, listas de cidades de todo o mundo em que a 42nd St. Band excursionou, trechos de matérias jornalísticas sobre a banda, seus discos e seus integrantes, listas de canções, anotações sobre as origens e destinos pessoais de cada integrante, diferentes formações das bandas, projetos coletivos e individuais dos músicos, ilustrações para as capas dos álbuns, letras.

Conforme avançávamos na organização, mais me convenci de que se tratava de um romance, mas não de um romance convencional. Era mesmo “work in progress”, feita para ser fragmentária, para ser caótica e em parte misteriosa como a história das grandes bandas pelas quais Renato era apaixonado. Aliás, a forma como a história está no livro revela uma das possibilidades da organização do material; certamente estamos diante de um livro com várias entradas possíveis, que poderá ser remontado infinitas vezes na cabeça do leitor e, claro, também completado por sua imaginação. Neste sentido, o livro espelha em parte os próprios cadernos de Renato e entrega ao leitor uma espécie de “álbum de recortes” de um fã da 42nd St. Band.

Não é possível assegurar como Renato cuidaria desse material se tivesse a oportunidade, mas certamente a história da 42nd St. Band não seria descartada. Aliás, para nossa sorte, não foi! Renato viveu pouco e meteoricamente, daí talvez a grande conexão que podemos encontrar entre tudo que produziu da adolescência à morte precoce aos 36 anos. É justamente por isso que, em The 42nd St. Band, não estamos diante de uma simples curiosidade ou exercício surrupiado da intimidade de Renato, mas sim de uma obra que se completou pela própria carreira de absoluto sucesso de seu autor. Não é exagero dizer, portanto, que o Renato conhecido é a face mais evidente de uma figura cuidadosamente trabalhada antes e nos bastidores dos discos estrondosos da Legião. É daquele quarto lá dos anos 1970 que sai um artista meticuloso com suas ideias, projetos e carreira, com força e personalidade para levar aos palcos não apenas um gênio artístico admirável, mas também todas as tormentas de assumir publicamente a homossexualidade num país conservador, de expor o vício em álcool e outras drogas, o sofrimento com a AIDS etc.

Ao leitor de The 42nd St. Band é necessário lembrar que, daqui em diante, é impossível saber o que é do mundo ou da mente de Renato Russo. Até você aí, lendo este texto agora, talvez não seja mais que um personagem sendo escrito por um jovem de Brasília num de seus cadernos infinitos. Aumente o som.

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Tarso de Melo conversa com a editora Sofia Mariutti e Dinho Ouro Preto na próxima segunda-feira, dia 17 de outubro, no debate de lançamento do livro The 42nd St. Band. O evento acontece às 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Vagas limitadas. Serão distribuídas senhas para o evento a partir das 18h na frente do teatro (1 senha por pessoa). Saiba mais.

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Tarso de Melo é poeta, autor de Poemas 1999-2014 (Dobra/E-galáxia, 2015), organizou 42nd St. Band — romance de uma banda imaginária e colabora nas edições de Renato Russo pela Companhia das Letras.

A trilha sonora de Renato Russo

Por Camila Berto Tescarollo

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Foto: Cesar Diniz/AE

Já está nas livrarias Só por hoje e para sempre — diário do recomeço, relato até agora inédito do período que Renato Russo passou numa clínica de reabilitação, entre abril e maio de 1993.

Além de oferecer a seus fãs um vislumbre da intimidade, dos pensamentos e das memórias de Renato, essas páginas também nos convidam a conhecer mais sobre seu gosto musical e suas referências.

Ao lado de clássicos do rock como Beatles, Janis Joplin e Jimi Hendrix, o líder da Legião Urbana também ouvia bandas nem tão óbvias.

Separamos para os leitores alguns desses nomes que faziam parte do universo do cantor — e trechos do diário.

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Ao listar cinco momentos em que se comportou de forma autodestrutiva, Renato relembra o último show da turnê do disco As quatro estações, em que estava aflito por enfrentar o público: “Abrimos esta última apresentação com ‘A Whiter Shade of Pale’, que descrevia meu estado perfeitamente, e, já no palco, não tive maiores problemas”. A música que a Legião Urbana interpretou é de Procol Harum, banda inglesa de rock progressivo da década de 1960.

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Renato comenta também as músicas que tocavam no rádio da clínica Vila Serena. Um de seus registros mostra que ele ouviu “Be my Baby” no dia 5 de maio de 1993. A canção é do grupo The Ronettes, trio feminino norte-americano da década de 1960.

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Se Renato era alvo de atenção quando se apresentava, ele também esteve do outro lado do palco, como quando foi assistir ao show de uma banda da qual era fã: “No começo de março deste ano fui assistir a um show que esperara 21 anos para ver: Emerson, Lake & Palmer no Canecão. Fiquei tão feliz que fiz tudo eu mesmo (geralmente, a reserva e compra de ingressos, segurança, transporte até, é tudo verificado pelo nosso escritório)”.

Britânicos, Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer formavam a banda que ficou conhecida por ser o primeiro conjunto de rock a levar um sintetizador para um show. Lucky Man é um dos maiores sucessos do trio.

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Renato ainda relembra a perda de dois amigos no show da banda australiana de rock ativista Midnight Oil. O grupo cantava pelo direito dos aborígenes e pela proteção ao meio ambiente, fazendo sucesso entre os surfistas.

“Lembro que o que mais me chocou foi a morte de dois amigos (um eletrocutado e o outro afogado ao tentar salvar seu amigo), de dezenove anos, no show do Midnight Oil no Maracanãzinho, há cerca de um mês.”

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Camila Berto Tescarollo estuda jornalismo e é estagiária do departamento editorial da Companhia das Letras.

Semana duzentos e cinquenta e oito

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Ai! Que Preguiça! — O Brasil em 39 poemas fabulosos & alegóricos, de Rodolfo W. Guttilla
Os mais variados aspectos e capítulos da vida brasileira são capturados com leveza pela poesia de Rodolfo Guttilla. Seu livro é uma jornada lírica e graciosa por nossa história. Leitores de todas as idades irão se cativar por essa mistura muito bem-feita de poesia e comentário social. Tomando de empréstimo como título a famosa frase de Macunaíma, de Mário de Andrade, o livro de Guttilla tem como principais inspirações a obra do autor modernista e os poemas de José Paulo Paes (1926-1998), que tratava de assuntos brasileiros com uma graça que influencia os autores mais jovens até hoje.

Seis meses em 1945 — Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman — Da Segunda Guerra à Guerra Fria, de Michael Dobbs (Tradução de Jairo Arco e Flexa)
Poucos pontos de inflexão na história apresentam tantos aspectos dramáticos como os meses entre fevereiro e agosto de 1945, o período entre a Conferência de Yalta e o bombardeio de Hiroshima. Os Estados Unidos e a União Soviética se tornaram as duas nações mais poderosas do mundo; a Alemanha nazista e o Japão imperial foram derrotados; o Império britânico estava à beira de um colapso econômico. Um presidente morreu; um ditador doentio que quase conquistou o mundo suicidou-se; um primeiro-ministro que havia inspirado seu povo durante os dias mais sombrios de sua história foi derrotado em eleições livres. Golpes de Estado e revoluções tornaram-se corriqueiros; milhões de pessoas foram enterradas em valas comuns; antigas cidades reduziram-se a pilhas de escombros. Um tsar vermelho redesenhou o mapa da Europa, erguendo uma “cortina de ferro” metafórica entre Oriente e Ocidente. Essa é a história das pessoas — presidentes e comissários, generais e soldados rasos, vencedores e derrotados — que deram origem à corrida de gigantes que redefiniria os rumos do mundo.

O diário de Guantánamo, de Mohamedou Ould Slahi (Tradução de Donaldson M. Garschagen e Paulo Geiger)
Desde 2002, Mohamedou Slahi está preso no campo de detenção da Baía de Guantánamo, em Cuba. No entanto, os Estados Unidos nunca o acusaram formalmente de um crime. Um juiz federal ordenou sua libertação em março de 2010, mas o governo americano resistiu à decisão e não há perspectiva de libertá-lo. Três anos depois de sua prisão, Slahi deu início a um diário em que conta sua vida antes de desaparecer sob a custódia americana, o processo interminável de interrogatório e seu cotidiano como prisioneiro em Guantánamo.

Um holograma para o rei, de Dave Eggers (Tradução de Jorio Dauster)
Em uma próspera cidade da Arábia Saudita, longe da complicada realidade da recessão que assola os Estados Unidos, um empresário em apuros financeiros realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida. Em Um holograma para o rei, Dave Eggers nos conduz por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise que devasta todos como uma tempestade.

Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço, Renato Russo
Perfeccionista e exigente em todas as etapas de seu processo criativo, da composição à execução diante do público, o homem que estava à frente da Legião Urbana — uma das bandas de maior sucesso na história da música brasileira — encarou com a mesma obstinação o Programa dos Doze Passos oferecido pela clínica, seguindo à risca os exercícios terapêuticos de escrita propostos. É esse material inédito que vem à tona depois de mais de vinte anos em Só por hoje e para sempre, atendendo ao desejo do autor de ter sua obra publicada postumamente. Entremeando as memórias de Renato com passagens de autoanálise e um olhar esperançoso para o futuro, esse relato oferece a seus fãs, além de valioso documento histórico, um contato íntimo com o artista e um exemplo decisivo de superação.

Paralela

Casa em cores, de Durell H. Godfrey 
Para todos os fãs de livros de colorir, chega uma novidade para todas as idades. As ilustrações de Durell Godfrey do montante de coisas das nossas vidas ocupadas — mesas cobertas, salas caóticas e pilhas de papéis — estão preparadas para ganharem vida com o ato de colorir. Arrumar pode ser terapêutico, mas colorir é muito mais. Um sossego que funciona tanto para arrumadinhos quanto bagunceiros. É só adicionar cores!

Fontanar

Um Deus muito humano — Um novo olhar sobre Jesus, de Frei Betto
Frei Betto, um dos principais líderes religiosos brasileiros, faz neste livro uma reflexão atualizada, mostrando que, em Cristo, Deus se assemelha a nós, humanos, em tudo, exceto no egoísmo. Jesus continua a ser um importante paradigma, sobretudo por ter centrado sua mensagem no amor e assegurado, com sua ressurreição, que a vida tem mais força que a morte.

Companhia das Letrinhas

Os grudolhos perseverantes de Frip, de George Saunders (Tradução de Fabricio Waltrick)
Grudolhos são como carrapichos, só que maiores. Eles são laranja, têm muitos olhos e gostam de viver em bando, de preferência bem grudadinhos nos pelos das cabras. No povoado de Frip, fazem a festa. Vivem infestando as cabras de Valência, que passa o dia escovando-as. As outras famílias do vilarejo não sofrem desse mal e se recusam a ajudar Valência. Querem mesmo é que as criaturas infernais fiquem longe de seus rebanhos. Mas, num belo dia, Valência tem uma grande ideia. Ela se livra dos grudolhos, que correm todos até as cabras mais próximas…

Trinta e sete não são vinte e nove

Em torno dos astros, há sempre uma constelação de mitologias. Não poderia ser diferente com Renato Russo, ídolo cósmico do rock brasileiro.

“Passei vinte e nove meses num navio/ e vinte e nove dias na prisão”, canta ele na primeira música do álbum O descobrimento do Brasil, lançado em novembro de 1993. Carregado de simbologia, o número “vinte e nove”, que se repete do primeiro ao último verso da letra, logo foi adotado por Renato para falar dos dias que ele passou na clínica Vila Serena, entre abril e maio do mesmo ano, e o conteúdo da canção sempre foi associado à experiência transformadora que esse período proporcionou ao ídolo da Legião Urbana.

Era esse o tempo que, inicialmente, disseram que ele passaria internado. Em torno de vinte e nove dias. A alta acabou sendo adiada em dez dias, o que incomodou nosso artista, como podemos notar nessa passagem:

“Não sinto em mim ainda a capacidade para me desligar e fluir com os eventos do dia. Percebo agora que o maior problema foi o adiamento de minha alta (e não foi por causa de compromissos de trabalho, meu tratamento é mais importante). O que me deixou confuso foi o fato de sentir que estou indo bem na programação (alta 04/05) e ter a notícia de que mais dez dias foram incluídos em minha estadia aqui (alta 14/05). Isso gerou uma dúvida em relação ao meu aproveitamento, me fazendo questionar ainda mais minhas atitudes e sentimentos.” (p.120)

Embalados pela canção do compositor, não vimos aquilo que estava bem diante de nossos olhos, e assumimos que ele passou vinte e nove dias na clínica, como vocês verão nas orelhas e na quarta capa do livro. Mas o leitor atento de Só por hoje e para sempre contará trinta e sete entradas no diário escrito na clínica de reabilitação, de 8 de abril a 14 de maio de 1993.

Vinte e nove: número de anos vividos por aquele que atravessa o retorno de Saturno. Em abril de 1993, Renato tinha trinta e três anos, mas tudo indica que foi ali, na Vila Serena, “aos vinte e nove, com o retorno de Saturno”, que ele decidiu “começar a viver”, enfrentando seus vícios e hábitos destrutivos.

O retorno de Saturno representa, na astrologia, o tempo que o planeta demora para dar uma volta em torno do Sol, trazendo dor, transformação, confronto com nossos próprios limites, crescimento. A numerologia era tão forte para ele que praticamente se consolidou em história. Abrir um baú de inéditos que ficou fechado por mais de vinte anos tem dessas coisas: mais cedo ou mais tarde nos vemos obrigados a rever a história e a reconhecer nossos erros.

Poucos são capazes de transformar uma canção em fato histórico, a ficção em realidade, dois mais dois em cinco. Renato, como o grande criador que era, e para quem havia mais coisa entre o céu e a terra, operou essa mágica e deu uma bela rasteira em todos nós. Trinta e sete não são vinte e nove. Ou serão?