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Minha vida sob escolta armada

Por Roberto Saviano (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

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Foto publicada no perfil oficial de Roberto Saviano no Instagram.

Roberto Saviano cancelou sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty dois dias antes do início do evento. Sua equipe de segurança não permitiu que o jornalista e autor dos livros Gomorra Zero zero zero viesse ao Brasil, onde falaria sobre o narcotráfico, tema de seu último livro. Desde 2006, ele vive sob a guarda das autoridades italianas depois de ser ameaçado de morte pela máfia por conta da publicação do relato em que expõe detalhes sobre a camorra. No início do ano, Saviano publicou no The Guardian um artigo falando justamente sobre como é viver cercado de guardas e mudando de endereço constantemente. Leia, abaixo, um trecho deste texto sobre o antes e o depois de Gomorra. 

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Minha vida, antes e depois

Antes. Percorrendo incansavelmente os subúrbios até apanhar uma história no ar, daí, uma corrida frenética atravessando a cidade em minha Vespa para chegar primeiro à cena do crime e ver o corpo antes dele ser movido. Para chegar lá antes da família, com seus terríveis lamentos cortantes e angustiados. Dirijo minha Vespa das cenas de crime para os tribunais e as prisões. Eu estava cobrindo a batalha pelo domínio entre os chefes do clã Di Lauro em Secondigliano, e um grupo dissidente conhecido como os espanhóis, porque o líder havia mudado o centro de suas operações para a Espanha, onde vivia na clandestinidade. Era como ser um repórter de guerra: dois ou três assassinatos por dia, ataques incendiários — bombas incendiárias arremessadas às casas das pessoas. Era incrível que algo assim pudesse estar acontecendo no meio da Europa.

Depois. Viver com guarda-costas mudou tudo; é tão complicado tentar trabalhar com uma escolta armada a reboque. Se estou na Itália, tenho que decidir o que vou fazer com três dias de antecedência. Eu vivo nesse lapso temporal de três dias permanentemente, de modo que sempre sinto que estou atrasado para tudo. Seja lá o que eu queira fazer, eu tenho que deixar os guarda-costas saberem, e eles decidem o melhor modo de fazê-lo.

Se eu quiser viajar para o exterior, eu tenho que informar ao departamento de segurança do governo, com semanas, ou até meses de antecedência, exatamente para onde estou indo e como será minha agenda. Onde me hospedarei, os lugares que irei visitar, as pessoas com quem me encontrarei. Então eu tenho que esperar a permissão para viajar — para descobrir se o país que eu quero visitar me considera bem-vindo. Lá chegando, leva alguns dias para estabelecer um relacionamento com a escolta da polícia local. No início, há a sensação de que eu sou um inconveniente, uma carga, um problema administrativo, especialmente quando há um evento público.

Eu não confio mais em ninguém. Temo me afeiçoar a alguém e baixar a minha guarda. Estou sempre à espera que as pessoas me decepcionem. É a paranoia tradicional do prisioneiro.

Há novos amigos, novos lugares, novas rotinas, mas há também um novo Roberto Saviano. As circunstâncias o modificaram; ele é diferente da pessoa que era antes, e dos amigos que tinha então. Provavelmente, uma pessoa pior. Mais retraído, afastado, porque constantemente sob ataque. E mais focado em si mesmo, porque se tornou um símbolo.

Eu realizei o sonho de todo escritor, o sonho que a maioria dos meus colegas não ousa sequer imaginar. Um best-seller internacional. Um público enorme. Mas todo o resto se foi: a chance de uma vida normal, a chance de um relacionamento normal. Minha vida foi envenenada. Eu estou sufocado por mentiras, acusações, difamação, uma porcaria incessante. No final, você fica marcado por isso.

Desde 2006, minha vida tem sido uma busca contínua de algum lugar para morar, um lugar para escrever. Tenho vivido em tantas casas, em tantos quartos diferentes. Não morei em qualquer lugar por mais do que alguns meses durante todo esse tempo. Quartos pequenos, todos eles, alguns minúsculos. E nenhum deles menos que escuro. Eu teria gostado de um quarto maior, um aposento mais iluminado. Eu teria adorado uma varanda, um terraço: eu tenho ansiado por um terraço como antes eu ansiava pela oportunidade de viajar. Mas eu não podia dar palpite, eu não podia tomar uma decisão sobre lugar em que eu moraria. Eu não podia sair por aí procurando casas: dois carros à prova de balas e sete guarda-costas não facilitam as coisas quando se quer passar despercebido. Assim que eu finalmente encontrava algum lugar para morar, assim que as pessoas descobriam onde eu estava vivendo, em que rua, em qual número, era hora de me mudar.

Em Nápoles, era impossível encontrar uma casa. Os carabinieri que eram meus guarda-costas tentaram me ajudar a encontrar um lugar para alugar, por meio de seus contatos. Fácil o bastante, até que a locatária descobriu que era para mim. Assim que me vêem, sai algo do tipo: “Eu não posso, me desculpe, eu tenho filhos”, ou “Eu não posso, acabei de alugar para outra pessoa.” E lá fui eu de volta para o quartel. Eu ainda estou procurando um lugar só para mim.

Enquanto isso, moro nesses espaços monásticos, despojados de tudo, cada movimento controlado.

Como bagagem: um saco para meias, camisetas e calças. Um para camisas e jaquetas. Um com medicamentos, escova de dentes, pasta de dentes e carregadores de celular. Um saco para livros, jornais. E o laptop. É isso aí. Essa é minha casa.

Muito do que tenho escrito nos últimos anos, este artigo incluso, o fiz em quartos de hotel. Esses impessoais e idênticos hotéis, que eu passei a odiar. Esses quartos de hotel são escuros, com janelas que você não pode abrir. Tenho visitado países — às vezes, lugares aos quais eu sempre desejei ir  —, e tudo o que vejo é o interior de um quarto de hotel e o horizonte de uma cidade através do vidro escuro de um carro à prova de balas. A maioria dos países não se atreve a me deixar sair para uma caminhada curta, nem mesmo com os guardas armados que deslocaram para cuidar de mim. Eles geralmente me mudam para um novo hotel após uma noite. Quanto mais aparentemente civilizado, calmo e pacífico um lugar, quanto mais longe da máfia e quanto mais seguro eu me sinto lá, mais eles me tratam como uma bomba não detonada que poderia explodir na cara deles a qualquer momento.

Na Itália, particularmente em Nápoles, costumo pernoitar no quartel dos carabinieri, com o cheiro da graxa da bota de meus companheiros de quarto; o comentário barulhento do jogo de futebol na TV, os gemidos quando eles são chamados de volta ao trabalho, ou quando a equipe adversária faz gol; sábado e domingo, dias mortos. Dias passados ​​na barriga vazia de uma baleia. Você pode ouvir os gritos do lado de fora, você pode sentir as pessoas se movendo ao redor, você sabe que está um dia ensolarado, que o verão já começou. Eu me lembro que no começo da minha vida à prova de balas, acordei uma noite no quartel, no escuro, sem reconhecer nada. Eu não tinha ideia de onde eu estava. Desde então, a mesma coisa aconteceu muitas vezes, eu acordo no começo da noite e não sei onde estou. A última vez que estive em Nápoles, fiquei em um quartel que costumava ser um mosteiro. Ele tem um terraço, e dá pra ver o mar de lá de cima. Eu consegui assistir o amanhecer sobre a baía mais bonita do mundo.

Muitas vezes me perguntam se eu me arrependo de ter escrito Gomorra. Normalmente, eu tento dizer a coisa certa. Eu digo: “Como um homem, sim, como um escritor, não”. Mas essa não é a resposta honesta. Na maior parte do tempo em que estou acordado, eu odeio Gomorra. Eu desprezo esse livro. No início, quando eu dizia aos jornalistas que se eu soubesse o que estava vindo eu nunca teria escrito o livro, seus rostos despencavam. Se era a última pergunta na entrevista, eu ia embora com um gosto ruim na boca, sentindo como se eu não tivesse nem começado. Eu percebi que devia ter dito, claro, que faria tudo de novo amanhã. Que eu sacrificaria tudo, tudo de novo. Mas tanto tempo se passou que agora eu sinto que fiz jus ao direito de partilhar os meus arrependimentos, e admitir que sinto falta do tempo em que eu era um homem livre. O que quer que eu tenha planejado para a minha vida, o fato é que eu escrevi Gomorra, e pago por isso todos os dias.

Leia o artigo completo em inglês.

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Roberto Saviano nasceu em Nápoles, em 1979. É autor, entre outros, de Gomorra (Bertrand Brasil, 2008), que foi traduzido em mais de quarenta países, ultrapassou 10 milhões de exemplares vendidos e originou o filme de mesmo nome, vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes em 2008, e de A máquina da lama (Companhia das Letras, 2011). Jurado de morte pela máfia italiana depois da publicação de Gomorra, Saviano seguiu firme em seu propósito de revelar as articulações do crime com a economia formal, escrevendo em jornais como La Repubblica, The New York Times, El País eDie Zeit. Em 2014, publicou Zero zero zero, onde mapeia o tráfico internacional da cocaína e mostra quem são seus personagens e suas conexões com a economia formal e o mercado financeiro.

Prepare-se para a Flip

Hoje tivemos a coletiva da Festa Literária Internacional de Paraty, que anunciou os convidados de sua 13ª edição. Em 2015, a Flip vai acontecer entre os dias 1º e 5 de julho e tem como autor homenageado Mário de Andrade. A Companhia das Letras e a Objetiva têm diversos autores entre os convidados deste ano. Conheça!

Colm Tóibín

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Um dos principais nomes da ficção estrangeira, o irlandês Colm Tóibín ganhou o Costa Book Award e o Los Angeles Times Book Prize, entre diversos outros prêmios. É autor de seis livros, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras: A luz do farol (2004), O mestre (2005), Mães e filhos (2008), Brooklyn (2011) — que ganhou uma adaptação para os cinemas — e O testamento de Maria (2013). Seu romance mais recente, Nora Webster, está nas listas de melhores livros de 2014 dos principais jornais e revistas literárias, e chega em junho às livrarias brasileiras. O autor vive em Dublin e em Nova York.

Mesa Encontro com Colm Tóibín — Quinta-feira, 2 de julho, às 19h30.

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro em 1961. É autor de, entre outros, Martelo (1997), Desassombro (2002) — vencedor do prêmio Alphonsus Guimarães, da Biblioteca Nacional, de melhor livro de poesia de 2002 — e Cinemateca (2008). É professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, além de autor, também foi organizador de livros como Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), de Caetano Veloso. É coordenador editorial da Coleção Vinicius de Moraes. Seu livro de poemas mais recente, Escuta, foi lançado março deste ano. Na Flip, Eucanaã vai participar da mesa “A Cidade e o Território”, um diálogo entre arquitetura e literatura brasileira com Antonio Risério.

Mesa “A cidade e o território” — Quinta-feira, 2 de julho, às 10h.

Ngũgĩ wa Thiong’o

Ngugi - credito - Daniel Anderson

Ngũgĩ wa Thiong’o é um escritor queniano. A sua obra inclui novelas, peças teatrais, contos e ensaios, da crítica social à literatura infantil. Um grão de trigo, publicado originalmente em 1967, será lançado no Brasil pela Alfaguara em junho e trata do difícil processo de independência do Quênia. O autor participa da mesa com Richard Flanagan sobre literatura no Hemisfério Sul.

Mesa “Escrever ao sul” — Sexta-feira, 3 de julho, às 17h15.

Eduardo Giannetti

Eduardo Giannetti, filósofo.

Eduardo Giannetti nasceu em Belo Horizonte em 1957. É formado em economia e em ciências sociais pela USP e PhD em Economia pela Universidade de Cambridge. Foi o vencedor do Prêmio Jabuti de 1994 na categoria Estudos Literários (Ensaio) com o livro Vícios privados, benefícios públicos?, e no Jabuti de 2006 ficou em segundo lugar na categoria Economia, Administração, Negócios e Direito com O valor do amanhã. Giannetti participa de uma conversa sobre a mente na mesa com o neurocientista Sidarta Ribeiro.

Mesa “As ilusões da mente” — Sexta-feira, 3 de julho, às 15h.

José Miguel Wisnik

Jose Miguel Wisnik1 - 2008 ©Adriana Vichi

Nasceu em São Vicente, São Paulo, em 1948. É professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo, além de pianista e compositor. Pela Companhia das Letras, publicou O som e o sentido — Uma outra história das músicas (1989) e Veneno remédio — O futebol e o Brasil (2008). Também selecionou e escreveu o prefácio do livro Poemas escolhidos de Gregório de Matos (2010). Em sua mesa, que encerra a Flip 2015, fará um retrato de Mário de Andrade, autor homenageado desta edição.

Conferência de encerramento — Domingo, 5 de julho, às 14h.

Rafael Campos Rocha

deus

Nascido em São Paulo, em 1970, Rafael Campos Rocha já trabalhou como produtor gráfico, desenhista de animação, professor de história da arte, cenógrafo, artista plástico, cartunista e ilustrador. Em 2012 lançou pela Quadrinhos na Cia. a sua primeira graphic novelDeus, essa gostosa, em que Deus assume a forma de uma mulher negra, proprietária de um sex-shop, ligada nos movimentos mais exóticos (e esotéricos) do assim chamado amor carnal. Vai participar da mesa com Riad Sattouf, ex-colaborador da Charlie Hebdo, sobre batalhas culturais nas HQs.

Mesa “Letras e imagens” — Sexta-feira, 3 de julho, às 10h30. 

Arnaldo Antunes

ANTUNES, Arnaldo

Músico, compositor, artista visual e poeta, Arnaldo Antunes nasceu em São Paulo em 1960 e foi integrante da banda Titãs até 1992. Entre projetos solo e com outros músicos, é um dos principais compositores brasileiros. Já tem 18 livros publicados, entre eles As coisas, que ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 1993. Em junho, lança pela Companhia das Letras Agora aqui ninguém precisa de si. Rock e poesia se unem na mesa com o autor e a estreante Karina Buhr.

Mesa “Desperdiçando verso” — Sábado, 4 de julho, às 21h30.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo, São Paulo, 2015.

Roberto Pompeu de Toledo nasceu em São Paulo. Desde 1991 assina uma coluna na revista Veja. Trabalhou no Jornal da Tarde, no Jornal da República, na revista Isto É e no Jornal do Brasil. É autor de reportagens sobre política, cultura e história e autor dos livros A capital da solidãoA capital da vertigem, que chega em breve nas livrarias. Participa da mesa “Como era a cidade em que o Mário viveu?”.

Mesa “São Paulo! comoção de minha vida…” — Sexta-feira, 3 de julho, às 12h.

Reinaldo Moraes

REINALDO MORAES

Nasceu em São Paulo, em 1950. Estreou na literatura em 1981 com Tanto faz e depois publicou Abacaxi (1985) — reeditados em 2011 num volume único pelo selo Má Companhia. Passou dezessete anos sem publicar ficção, até lançar o romance juvenil A órbita dos caracóis (2003), os contos de Umidade (2005), a história infantil Barata! (2007) e o romance Pornopopéia (2009, Objetiva). Reinaldo Moraes vai participar da mesa Os Imoraes sobre literatura erótica e pornográfica.

Mesa “Os imoraes” — Sexta-feira, 3 de julho, às 21h30.

Confira a programação completa da Flip.

Semana cento e catorze

Os lançamentos desta semana são:

A testemunha silenciosa, de Otto Lara Resende
Este livro reúne duas histórias que a imaginação de um grande escritor, o mineiro Otto Lara Resende, foi colher nas profundezas do tempo e nas entranhas de uma província, para fazer delas indiscutíveis obras-primas da literatura brasileira. Novelas capazes de tocar leitores de qualquer canto e época, não só pela universalidade dos temas de que tratam como pela maestria com que são tecidas. Por detrás delas transparece o esforço sem descanso de um autor que como poucos perseguiu – e tantas vezes alcançou – a perfeição, retocando ou mesmo refazendo interminavelmente seus escritos.

A máquina da lama, de Roberto Saviano (Trad. Joana Angélica d’Avila Melo)
“Compreender o que está acontecendo hoje na Itália parece algo simples, mas, ao contrário, é bastante complexo. É preciso fazer um esforço que redunde na última possibilidade de não sofrermos a barbárie. Porque a máquina da lama cospe contra quem quer que o governo considere inimigo.” As palavras contundentes de Roberto Saviano embalam as histórias sobre a Itália que foram narradas neste volume. Seus temas são os negócios da máfia calabresa no norte do país, o direito à morte digna, o descalabro com o lixo nas ruas de Nápoles, as vítimas de um terremoto que morreram por negligência das autoridades, a compra de votos nas eleições… Citando Tolstói, Saviano convida o leitor a deixar a indiferença de lado: “‘Não se pode enxugar a água com a água e não se pode apagar o fogo com o fogo, portanto não se pode combater o mal com o mal.’ A partir do momento que cada um de nós não faz o mal, está um passo à frente e talvez sonhando com uma Itália diferente”.

Editora Paralela:

Como ser mulher, de Caitlin Moran (Trad. Ana Ban)
Nunca houve época melhor para ser mulher. Nós votamos, temos a pílula, estamos no topo das paradas musicais, somos eleitas presidentes e primeiras-ministras, e não somos acusadas de bruxaria e queimadas desde 1727. Entretanto, algumas perguntinhas incômodas persistem. Os homens no fundo nos odeiam? Como devemos chamar nossos peitos? Por que as calcinhas estão ficando cada vez menores? E por que as pessoas insistem em perguntar quando vamos ter filhos? Em Como ser mulher, a jornalista inglesa Caitlin Moran responde a essas e muitas outras perguntas que mulheres modernas no mundo todo estão se fazendo. A partir de um péssimo aniversário de treze anos, ela fala sobre adolescência, trabalho, machismo, relacionamentos, amor, sexo, peso, maternidade, aborto, moda, compras e modelos de comportamento, sempre com um olhar crítico e muito humor.

A idade dos milagres, de Karen Thompson Walker (Trad. Christian Schwartz)
E se os dias ficassem cada vez mais longos – primeiro em questão de minutos, depois horas, até que o dia virasse noite e a noite virasse dia? Em um sábado aparentemente comum, na Califórnia, Julia e sua família acordam e descobrem, com o resto do mundo, que a velocidade de rotação da Terra está diminuindo. Os dias e as noites vão ficando mais longos, fazendo com que a gravidade seja afetada e o meio ambiente entre em colapso. Ao mesmo tempo que luta para sobreviver em uma paisagem constantemente em transformação e se adaptar à nova “normalidade”, Julia tem que lidar com os problemas típicos da adolescência e os desastres do cotidiano: a crise no casamento de seus pais, a perda de antigos amigos, as amarguras do primeiro amor e o estranho comportamento de seu avô, que acredita tratar-se de uma conspiração do governo e passa o dia catalogando suas posses obsessivamente. Com uma prosa e econômica e prazerosa e a sabedoria emocional de uma contadora de histórias nata, Karen Thompson Walker criou uma narradora singular em Julia, uma garota forte e perspicaz. Entre as tradições do romance de formação e do filme catástrofe, A idade dos milagres é uma obra visionária que discute a capacidade de adaptação do homem, traçando um retrato comovente da vida familiar em um mundo gravemente alterado.

Promoção: Dez Coisas Pelas Quais Vale a Pena Viver

Agosto é o mês de um grande lançamento da Companhia das Letras: A máquina da lama, de Roberto Saviano. O novo livro do autor de Gomorra é baseado no programa de televisão Vieni via con me, que, apresentado em 2010 na Itália pela RAI 3, alcançou a maior audiência da história da emissora, deixando para trás o Grande Fratello (o Big Brother italiano) e um clássico da Liga dos Campeões entre Inter e Barcelona.

Com Vieni via com me, Saviano, que desde o lançamento de Gomorra vive sob escolta policial, mais uma vez irritou o governo, provocou políticos de diferentes partidos e conquistou o público. Diante de um auditório lotado, contou histórias da Itália contemporânea: falou dos negócios da máfia calabresa no Norte do país, do direito à morte digna, do descalabro com o lixo nas ruas de Nápoles, das vítimas de um terremoto que morreram por negligência das autoridades, da compra de votos nas eleições…

Como a música de Paolo Conte, que inspirou o título e tocava na abertura do programa, a mensagem de Saviano é universal. É um protesto contra a indiferença, a omissão e a fuga. E é um convite ao leitor, para que esse o ajude na busca de uma saída.

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O autor conclui o seu prefácio — reescrito especialmente para a edição brasileira — com uma lista pessoal das dez coisas pelas quais vale a pena viver. Para comemorar o lançamento de A máquina da lama, convidamos você a nos enviar a sua própria lista das Dez Coisas Pelas Quais Vale a Pena Viver.

Deixe um comentário neste post com a sua lista. Sortearemos entre os leitores que participarem cinco exemplares do livro. O resultado será divulgado no dia 16 de agosto, neste mesmo post.

[Atualizado dia 16 de agosto, 16h30]
Resultado da promoção: foram sorteados pelo random.org os números 19, 12, 54, 39 e 32, logo os vencedores são:

19) Roberta Resende
12) Patrícia Salomão
54) valter ferraz
39) Marcia Caetano
32) Odilia Pizzo

Parabéns, entraremos em contato por email!

Abaixo, trecho exclusivo do prefácio, com a lista de Saviano.

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A Itália das listas

(Trecho do prefácio de Roberto Saviano. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)

O desafio inicial era narrar esta Itália diferente através de listas que seriam o arcabouço e a gramática da transmissão. Uma ideia simples, porque as listas podem conter qualquer coisa, qualquer experiência, qualquer história. Também por isso a participação do público foi superlativa: todos pensaram em uma lista própria e, através do Facebook e do site, chegaram milhares delas ao programa. Belas, divertidas, dramáticas. Lembrei-me da cena do filme Manhattan na qual Woody Allen, deitado no sofá, imagina “uma narrativa sobre pessoas doentes, que continuamente criam para si mesmas problemas inúteis e neuróticos porque isso as impede de se ocupar dos mais insolúveis e aterrorizantes problemas universais”. Como antídoto, Allen pensa em algo otimista: uma lista das coisas pelas quais vale a pena viver. É claro que isso é um expediente, o doente crônico é ele e a lista otimista serve — a ele e só a ele — para subtraí-lo dos problemas inúteis e neuróticos aos quais está aprisionado. Woody Allen cita Groucho Marx, Joe Di Maggio, o segundo movimento da sinfonia Júpiter de Mozart, Louis Armstrong, A educação sentimental de Flaubert, os filmes suecos, Marlon Brando, Frank Sinatra, aquelas incríveis maçãs e peras pintadas por Cézanne, os caranguejos do restaurante Sam Wo e o rostinho de Tracy. Uma lista leve, que vale mais do que um guia moral para os perplexos.

Sempre fui atraído por listas. Um dia, gostaria de escrever livros de listas. E tenho certeza de que a lista das coisas pelas quais vale a pena viver é um exercício fundamental para lembrarmos aquilo de que somos feitos. Uma Constituição de nós mesmos. Eu gostaria de passar o tempo escutando o que as pessoas escrevem, as dez coisas que dão sentido à vida delas. Gostaria de poder lê-las no programa. Mas sempre convém saber poupar as palavras. Aqui, porém, tenho o papel à minha frente, e ele nunca nega fogo. Infelizmente e por sorte. Eis minha lista. Eis as dez coisas pelas quais, para mim, vale a pena viver:

1) A mozarela de búfala de Aversa;
2) Bill Evans tocando “Love theme from Spartacus”;
3) Ir com a pessoa que você mais ama ao túmulo de Rafael Sanzio e ler para ela a inscrição latina que muitos ignoram;
4) O gol de Maradona no 2 x 0 contra a Inglaterra na Copa do México em 1986;
5) A Ilíada;
6) Passear de fones de ouvido por aí, escutando Bob Marley cantar “Redemption song”;
7) Mergulhar, mas bem no fundo, onde o mar é mar;
8) Sonhar com a volta para casa depois de ter sido obrigado a ficar longe por muito, muito tempo;
9) Fazer amor em uma tarde de verão. No Sul;
10) Depois de um dia em que criaram um abaixo-assinado contra você, ligar o computador e encontrar um e-mail do seu irmão dizendo: “Estou orgulhoso de você”.