romance

Semana sessenta e oito

[Veja aqui a lista dos 10 livros que serão vendidos com 50% de desconto durante setembro.]

Os lançamentos da semana são:

A ideia de justiça, de Amartya Sen (Tradução de Denise Bottman e Ricardo Doninelli Mendes)
O que precisa ser feito para que as injustiças mais evidentes do mundo contemporâneo sejam eliminadas ou, ao menos, atenuadas? Nas sociedades democráticas, as instituições do Estado trabalham pela aplicação equânime das leis ou são meros instrumentos de uma burocracia autorreferente? Partindo do ordenamento jurídico em vigor — que negligencia a realidade concreta dos cidadãos para privilegiar a formulação de arranjos institucionais —, que caminhos podem levar à construção de um planeta mais inclusivo e menos iníquo? Neste livro ao mesmo tempo rigoroso e inovador, Amartya Sen, prêmio Nobel de economia em 1998, retira o foco das utopias conceituais do direito para tentar responder as questões mais urgentes da cidadania, desviando-se das elucubrações sobre a essência da justiça ideal que, desde o Iluminismo, vêm balizando a ciência do direito. Sen traz as esperanças e necessidades das pessoas reais para o centro da discussão, sugerindo uma radical reavaliação das prioridades da justiça e da política.

Como vou?, de Mariana Zanetti, Renata Bueno e Fernando de Almeida
Podemos ir de um canto a outro das mais diversas formas, dependendo de onde moramos, de quanto tempo temos e, às vezes, de algumas das nossas preferências também. Quando vamos a um lugar do ladinho de casa é bom ir a pé; se moramos em uma cidade grande, tem até metrô; se é preciso atravessar o oceano, só mesmo de avião ou navio; e quem não gosta de ir até a casa do amigo de bicicleta? Nas brincadeiras infantis, os meios de transporte estão sempre presentes e levam as crianças até onde a imaginação mandar. Neste livro, três artistas arquitetos se uniram para falar sobre a nossa movimentação no espaço, seja embaixo da terra, na água ou no ar — para cada situação, um jeito diferente de se deslocar —, e usaram um pouco de tudo de que gostam na hora de ilustrar: colagem, lápis e tinta.

Denúncias, de Ian Rankin (Tradução de Álvaro Hattnher)
Malcolm Fox tem que ser exemplar. Como inspetor da Divisão de Denúncias da Polícia de Edimburgo, na Escócia, ele precisa manter a linha para não dar munição aos policiais corruptos que investiga. Mas o passado de alcoolismo e a tendência a passar por cima de autoridades fazem de Fox uma presa fácil para seus inimigos. Especialmente quando ocorre um assassinato em sua família. Suspeito do crime, Fox tenta encontrar o verdadeiro assassino, e descobre que o encarregado da investigação é seu próximo alvo na Divisão de Denúncias: o sargento-detetive Jamie Breck, acusado de fazer parte de uma rede de pedofilia na internet. Na busca pela verdade, Fox e Breck topam com outra morte e uma intrincada trama de interesses que envolve pessoas importantes da sociedade escocesa. Para conseguir resolver o crime, o inspetor precisa decidir em quem confiar — quando todos parecem estar contra ele.

A especulação imobiliária, de Italo Calvino (Tradução de Mauricio Santana Dias)
O protagonista de A especulação imobiliária, o sr. Anfossi, espécie de alter ego do autor, é um intelectual em crise com suas ideias, que volta à sua cidade natal, na Riviera da Ligúria, para incorporar um imóvel — o que, por motivos óbvios, acaba complicando ainda mais sua vida. Incapaz de lidar com os problemas da vida prática, Anfossi acaba envolvido numa série interminável de problemas causados por seu antagonista, o sr. Caisotti, construtor trambiqueiro e inescrupuloso. Em meio a uma legião de advogados, engenheiros, funcionários públicos e operários, Anfossi e sua família assistem impotentes ao desenrolar dos fatos. O fracasso da empreitada, porém, convive com o sucesso dos agentes que contribuíram para transformar a nova Itália num paraíso de arrivistas, negociatas e do turismo de massa. Sem conseguir realizar-se nem no campo das ideias, ao anti-herói deste romance ao mesmo tempo cômico e amargo resta a alternativa improvável de reinventar para si um novo modo de sobrevivência neste mundo que muda vertiginosamente.

A crônica dos Wapshot, de John Cheever (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Primeiro romance de John Cheever, A crônica dos Wapshot é o retrato de uma família tradicional e decadente da Nova Inglaterra, cenário dileto das narrativas ácidas e minimalistas do autor. Na pequena e depauperada cidade de St. Botholphs, o patriarca da família é operador de balsa, o que não é um grande emprego para quem descende de lendários comandantes de navio, mas ele vai levando a vida com a esposa e os filhos. Os filhos crescem, deixam a casa dos pais para começar vida própria em Washington e Nova York, e a narrativa passa a girar em torno deles. Os dois parecem reconquistar o lugar “de direito” da família, mas o individualismo exacerbado e a vacuidade de suas existências são a tônica desta que é uma das grandes narrativas familiares do século XX.

Semana sessenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Ao ponto, de Anthony Bourdain (Tradução de Celso Nogueira)
Quem gosta de programas de culinária já conhece o crítico ranzinza Anthony Bourdain. Com seu programa de tevê, ele roda o mundo atrás de bons pratos e das histórias de quem os prepara. Seja comendo carne apimentada num bar sujo em Chengdu ou descrevendo o menu quatro estrelas do chef Thomas Keller, o que importa a ele é o material humano que compõe esse rico universo da gastronomia. Claro que Bourdain não se furta a longas e saborosas descrições culinárias, com requintes de crueldade que ele mesmo admite. Mas os textos reunidos neste livro vão muito além de um bom jantar. Bourdain desanca medalhões da crítica gastronômica, examina a indústria de fast-food americana e revela os bastidores do reality-show Top Chef. (Leia o capítulo “Educação básica”)

A forma difícil, de Rodrigo Naves
Publicado originalmente em 1996, este livro tornou-se um clássico da crítica brasileira. Ao analisar a obra de artistas como Debret, Almeida Júnior, Guignard, Volpi, Amilcar de Castro e Mira Schendel, Rodrigo Naves não busca inseri-los em uma determinada linha ou esquema teórico artificial. Pelo contrário, o que ele aponta é a dificuldade de encontrar “nexos esclarecedores” entre essas obras, para depois investigar o que isso diz sobre nossa melhor produção. A forma difícil é um estudo original e indispensável sobre a arte feita no Brasil.

Terramarear — Peripécias de dois turistas culturais, de Ruy Castro e Heloisa Seixas
Ruy Castro e Heloisa Seixas são dois grandes viajantes. Nas últimas décadas, têm rodado o mundo, levados por vários motivos, inclusive profissionais. Mas eles não são meros turistas. Quando viajam, buscam sempre o espírito dos lugares — a cultura das ruas pelas quais passeiam e suas relações com a história, a arquitetura, a música, o cinema, a gastronomia. Com isso, descobrem os roteiros mais surpreendentes, em Nova York, Paris, Roma, Veneza, Madri, Barcelona, Sevilha, Havana, Moscou, Saint-Tropez, Rio — e que, agora, eles nos revelam em Terramarear. (Leia o capítulo “Flanando pelo dédalo de ruelas”)

Branca de neve, de Fabrice Tourrier (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
Quem não conhece a princesa que nasceu com a pele tão clarinha que foi chamada de Branca de Neve? E a madrasta malvada que sempre queria saber quem era a mais bela do reino e por isso não deixava em paz seu espelho mágico? Nesta edição desse célebre conto de fadas, destinada aos pequenos leitores, materiais de diferentes texturas são usados nas ilustrações. Dessa forma, as crianças poderão tocar a palha da cabana dos sete anões, o tecido do manto da bruxa e a maçã envenenada e também se mirar no espelho mágico. No final do livro, uma dobradura ilustra o desfecho da história.

Cachinhos dourados, de Annelore Parot (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
Era uma vez uma mamãe ursa, um papai urso e um filhinho urso, que viviam em uma bela casa na floresta. Um dia, ao voltarem de um passeio, encontraram a casa toda revirada e uma menina de cabelos cacheados e amarelos feito ouro dormindo na cama do ursinho. Pena que, ao acordar, ela ficou assustada e fugiu. O pequeno urso nem pôde convidá-la a conhecer sua casa… Nas ilustrações desta edição, as crianças poderão tocar a pelagem dos ursos, o assento das cadeiras e o tecido dos lençóis. E também, ao puxar as setas, descobrir a Cachinhos Dourados dormindo e vê-la fugir para dentro da floresta.

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Além destes, também foram lançados mais 4 volumes da Coleção Prêmio Nobel. São títulos de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura, em edição limitada de capa dura e revestida de tecido.

Semana sessenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Jake Cake e a merendeira robô, de Michael Broad (Tradução de Antônio Xerxenesky)
Este é mais um livro todo feito por Jake Cake. Sempre metido em alguma confusão, o menino gosta de contar suas aventuras num diário ilustrado por ele. E as ilustrações são de arrepiar! É que Jake sempre depara com coisas muito estranhas. Desta vez, ele descobre que a mulher que trabalha no refeitório da escola é, na verdade, um robô maluco por repolho; encara uma invasão de duendes no jardim de sua casa; e quase vira presa de uma bruxa que finge ser uma senhora adorável, dona de uma loja de doces. Com tanta maluquice acontecendo, fica realmente difícil acreditar no que ele diz. Mas ele jura que é tudo verdade!

A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorme (Tradução de Christian Schwartz)
Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante. Aclamado desde seu lançamento como um clássico, A letra escarlate é um retrato dramático e comovente da submissão e da resistência às normas sociais, da paixão e da fragilidade humanas, e uma das obras-primas da literatura mundial. Esta edição tem posfácio de Nina Baym, professora de inglês do Centro de Estudos Avançados e professora emérita de artes e ciências humanas na Universidade de Illinois.

Lembranças de 1848: as jornadas revolucionárias em Paris, de Alexis de Tocqueville (Tradução de Modesto Florenzano)
Quase 60 anos depois da eclosão da Revolução Francesa, os cidadãos de Paris voltaram a insurgir-se contra a monarquia. Em fevereiro de 1848, com a conflagração da cidade, o rei Luís Filipe foi obrigado a abdicar e refugiar-se na Inglaterra. Antes de seu triunfo definitivo, a reação conservadora que se seguiu à instauração do governo provisório foi desafiada durante quatro sangrentos dias de junho pela primeira revolução socialista moderna. Nestas Lembranças de 1848, Alexis de Tocqueville reconstitui as experiências vividas no centro nevrálgico da política francesa, simultaneamente como ator e testemunha dos acontecimentos. Esta edição traz introdução, notas e consultoria do filósofo e professor Renato Janine Ribeiro e prefácio de Fernand Braudel, um dos maiores historiadores do século XX.

Contos e lendas da Amazônia, de Reginaldo Prandi (Ilustrações de Pedro Rafael)
A Amazônia é tão grande em tamanho, tão rica em variedade de espécies, quanto em histórias nascidas nas mais diferentes culturais. Em pequenas aldeias à beira dos rios, e até nas cidades, surgiram narrativas e mais narrativas, que, de boca em boca, extravasaram os limites dos grupos em que foram criadas e se tornaram parte da cultura nacional brasileira. São histórias sobre pessoas, bichos, plantas, rios, estrelas, em que tudo se explica por meio de algum encantamento, e que nos mostram um pouco do universo inegotável da mitologia amazônica.

O homem frondoso e outras histórias da África, de Claude Blum (Ilustrações de Grégoire Vallancien; Tradução de Hildegard Feist)
Na África, a tradição dos contadores de história é muito forte. Com ritmo próprio, eles encantam crianças e adultos com suas narrativas cheias de sabedoria. Esta coletânea traz 22 contos africanos, entre eles o que dá título ao livro: após a morte do pai, o jovem Daúda constrói uma cabana distante da aldeia para sua irmã mais nova, a bela Aissata, pois teme que ela seja raptada pelo rei. Só que os encantos da moça acabam chegando aos ouvidos do soberano, que envia um verdadeiro exército para raptá-la. Daúda acaba com todos, um por um, até que uma velha feiticeira engana o corajoso irmão, fazendo com que Aissata seja levada. Cheio de raiva, e decidido a nunca mais encontrar ninguém, Daúda se isola na floresta. Arbustos e ervas brotam de sua cabeça, e ele se torna um homem frondoso.

O cobertor de Jane, de Arthur Miller (Ilustrações de Elisabeth Teixeira e Al Parker; Tradução de José Rubens Siqueira)
Jane adorava o seu cobertor. Era cor-de-rosa, macio e quentinho. Ainda bebê, ela ficava enrolada nele, bem quieta. E, se alguém o levasse embora, armava o maior berreiro. Mesmo quanto cresceu um pouco e começou a fazer uma porção de coisas que antes não conseguia, continuou continuou carregando seu cobertor por toda parte. Os dois eram inseparáveis. Mas o tempo passa e Jane vai ficando cada vez maior, e seu cobertor, cada vez menor. Até que chega a hora em que, se quiser deixar de ser criança, vai ter que abandoná-lo. Neste clássico da literatura infantil, Arthur Miller, um dos maiores dramaturgos do século XX, conta uma doce história sobre crescer e abandonar as coisas que amamos, com a qual toda criança e adulto pode se identificar. Edição bilíngue.

Semana sessenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores da África, reflete sobre as mazelas e maravilhas do continente nos artigos e ensaios deste livro de “interinvenções”. Da corrupção endêmica de boa parte dos governos africanos à destruição do meio ambiente, da força da tradição oral às complexas relações entre as culturas locais e a modernidade urbana, do entrelaçamento do português com as línguas nativas à herança de séculos de escravismo, tudo passa pelo crivo do autor, que também fala de escritores que lhe são caros, como Jorge Amado e Guimarães Rosa. Nestes textos militantes, em que se atacam os principais entraves ao desenvolvimento dos povos africanos, Mia Couto se serve de sua dupla experiência de biológo e escritor, combinando rigor intelectual e imaginação poética para ler melhor um mundo em permanente mutação.

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli
Comprar barato e vender caro pode ser um processo mental vicioso. Devido à prática, o dono de uma loja de quinquilharias atinge essa condição extrema ao expor a clientela a tal materialismo cínico. Prestes a se casar, dispensa a noiva com frieza e apaixona-se pela bunda de uma garçonete. Lê livros policiais e sua mente adota um ritmo alucinante. No entanto, algo de errado no encanamento dos fundos da loja põe tudo sob a seguinte perspectiva: o mau cheiro vem do ralo ou do protagonista? Surpreendente estreia literária de Lourenço Mutarelli, o livro exploca alguns dos temas prediletos do autor, como a desumanização progressiva, o absurdo e a crueldade, com a linguagem ágil que foi amadurecida em sua carreira nos quadrinhos. Adaptado às telas, resultou em atuação memorável de Selton Mello, além de marcar a história recente do cinema brasileiro.

A importância de ser prudente e outras peças, de Oscar Wilde (Tradução de Sonia Moreira)
Muito da fama de Oscar Wilde se deve ao romance O retrato de Dorian Gray, mas foi como dramaturgo que ele alcançou o maior sucesso em vida, com as comédias de costumes Uma mulher sem importância, Um marido ideal e A importância de ser prudente, reunidas neste volume. Nas peças que em larga medida satirizam a alta sociedade vitoriana que jamais o aceitou de bom grado, Wilde aponta de maneira irônica para si mesmo. Há algo do autor nas observações cínicas de lorde Illingworth em Uma mulher sem importância, assim como no estilo de vida despreocupado de lorde Goring, o bon vivant que é a fonte de sensatez de Um marido ideal, e também no inconsequente dândi Algernon de A importância de ser prudente. Com introdução e notas de Richard Allen Cave, diretor e estudioso do teatro britânico, a edição da Penguin-Companhia situa o leitor sobre o contexto em que as peças foram encenadas e as inovações que Wilde, um intelectual de grande apuro técnico, trouxe para a dramaturgia moderna.

Burocracia e sociedade no Brasil colonial, de Stuart B. Schwartz (Tradução de Berilo Vargas)
Entre o fim do século XV e o começo do século XVI, a monarquia portuguesa passou a contar cada vez mais com a burocracia estatal para centralizar o poder, processo esse quase contemporâneo — e de alguma forma propulsor — da expansão ultramarina. Esse esforço pela construção de uma burocracia régia acabou por legar às colônias a herança de uma estrutura administrativa bem desenvolvida e de uma concepção curiosamente legalista do governo e da vida. Este livro (publicado originalmente nos anos 1970 e reeditado agora com nova tradução, apêndice documental inédito e nova introdução do autor) foi estudo pioneiro da burocracia colonial na América portuguesa, tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abordagem, que privilegiou as teias humanas que formavam a burocracia.

Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub
Rio de Janeiro, últimas décadas do século XIX. Adão Africano, Genuíno, Juvêncio, Bonifácio, Francelina, Maria de São Pedro — todos negros, vários escravos: esses são alguns dos personagens que, outrora esquecidos em meio à documentação dos arquivos, protagonizam este livro. Um trabalho de pesquisa minucioso e sensível permite a Sidney Chalhoub analisar os processos criminais e de obtenção de alforria em que esses negros estavam envolvidos, revelar seus desejos e interferências nas operações de compra e venda a que tinham de se submeter e, por fim, desvendar o papel que a cidade do Rio desempenhava em suas vidas. Recuperando aspectos da experiência dos escravos na Corte, seus modos de pensar e atuar sobre o mundo, Chalhoub mostra que as lutas entre diferentes visões de liberdade e cativeiro contribuíram para o processo que culminou com o fim da escravidão no Rio de Janeiro.

Histórias de mistério, de Lygia Fagundes Telles
Esta bela reunião de seus contos apresenta a escritora Lygia Fagundes Telles em alguns de seus aspectos mais importantes. Seus temas, aqui, são a ansiedade e a morte, assim como o desamparo diante da perda do amor. Ao mesmo tempo encontramos a surpresa, o inusitado surgindo sem aviso do cotidiano bem conhecido. É o que acontece, por exemplo, em “As formigas”, em que duas estudantes alugam um quarto no sótão de uma pensão e descobrem, abandonado pelo locatário mais recente, um caixotinho cheio de ossos. Assustadas, elas veem como noite após noite uma fileira maciça de formigas entra na caixa e, aparentemente, não sai. As formigas parecem ter uma missão. Nesse e nos outros contos deste livro, o leitor encontrará os temas e o clima que caracterizam os contos de Lygia Fagundes Telles, escritos na linguagem ao mesmo tempo delicada e incisiva de uma das maiores escritoras brasileiras de nosso tempo.

Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares)
Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui.

Meu filho pato (Organização de Ilan Brenman e Instituto 4 Estações; Ilustrações de Rafael Anton)
Nem sempre é fácil falar sobre a morte, mas vivemos o sentimento de perda desde a infância. Pensando na dificuldade que muitos adultos têm em falar com seus filhos sobre o tema, o escritor Ilan Brenman, autor de inúmeros livros de sucesso destinados ao público infantil, e a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, resolveram convidar seis escritores de renome (Angela-Lago, Índigo, Lalau, Flávia Lins, César Obeid e Roger Mello) para criar histórias para os pequenos sobre esse assunto. O resultado é um livro tão variado em estilos — há contos de humor, outros mais tristes, um mais psicodélico, cordel e poesia — quanto em conteúdo — muitas possibilidades para que as crianças possam falar sobre a morte e entendê-la como um fenômeno inerente à vida.

Forma e exegese & Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes
Este livro reúne Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher (1936), o segundo e o terceiro livro de Vinicius de Moraes, respectivamente. Forma e exegese foi publicado quando Vinicius tinha apenas 22 anos. Mas se o jovem poeta já chamara a atenção da crítica com seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), o segundo trouxe a consagração ao receber o prestigioso prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Ariana, a mulher é um único e longo poema que põe em cena, como num transbordamento, o mundo emotivo e existencial de um sujeito. O texto se inicia com o relógio “batendo soturnamente a Meia Noite” e termina com o mesmo relógio “parado sobre a Meia Noite”. É nesse mundo estagnado, morto, que o poeta clama por Ariana. Mas ela não é apenas uma mulher; como o título sugere, ela é a mulher. E é também a morte, a vida, a natureza.

Semana sessenta e três

Os lançamentos da semana são:

A rosa de Sarajevo, de Margaret Mazzantini (Tradução de Federico Carotti)
A italiana Gemma está de volta a Sarajevo com Pietro, seu filho adolescente. Anos antes ela estivera nessa cidade (que encarna, como poucas, as contradições do nosso tempo) durante os terríveis conflitos da Guerra da Bósnia. Naquela época, atiradores alcoolizados divertiam-se alvejando civis na rua, em plena luz do dia, enquanto as grandes potências ocidentais faziam vista grossa para o massacre em curso. Se a cidade agora está pacificada, o mesmo não parece ocorrer com os sentimentos de Gemma. Em Sarajevo ela conheceu Diego, seu grande amor, e lá também eventos tão decisivos (e muito próximos, como se verá) quanto o nascimento e a morte desfilaram diante de seus olhos — transformando sua vida para sempre. Escrito por um dos grandes nomes da literatura italiana contemporânea, A rosa de Sarajevo é um romance em que a história, os afetos e mesmo a biologia compõem um painel lírico e emocionante.

A flecha de Deus, de Chinua Achebe (Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva)
Depois da chegada do homem branco, a aldeia de Umuaro, no interior da África, sofre mudanças profundas que afetam toda a cultura local. Seu sumo sacerdote, Ezeulu, governante e porta-voz da aldeia, terá de enfrentar tanto a ameaça que o homem ocidental traz consigo como também os próprios habitantes de Umuaro, que passam a questionar até mesmo seus rituais e crenças mais antigos. A flecha de Deus, clássico de um dos maiores escritores africanos da atualidade, apresenta uma África que se constrói tanto através da visão dos colonizadores ingleses como do ponto de vista dos habitantes locais. E é na alternância entre essas duas visões que é possível entrar em contato com o choque dramático entre essa cultura e o sistema de valores ocidental.

Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo
Adoravelmente desabusado, o narrador deste livro herda uma pequena fortunamas nem por isso se dá por satisfeito: casa-se com uma prima (também ela uma herdeira de muitos contos de réis) e passa então a traçar grandes planos, Ingressa na carreira política, faz conchavos, estabelece alianças duvidosas, pede e troca favores — tudo isso enquanto critica acidamente os usos e costumes do seu tempo. Escritas entre 1867 e 1868, estas Memórias do sobrinho do meu tio parecem anunciar tanto a crônica quanto o romance carioca de costumes. Joaquim Manuel de Macedo faz desfilar uma verdadeira comédia humana do Brasil imperial, em que os assuntos de Estado eram conduzidos como negócio de família e a vida privada infiltrava-se sem a menor cerimônia nos gabinetes oficiais. Com introdução de Flora Süssekind, este romance faz picadinho da vida política brasileira e permanece, mais de cem anos depois de sua publicação, uma leitura atual e sempre perturbadora do Brasil.

Sonetos luxuriosos, de Pietro Aretino (Tradução de José Paulo Paes)
Sem papas na língua e há quase 500 anos, o poeta Pietro Aretino satirizou os poderosos e a nobreza com tal vigor que era chamado de “o flagelo dos príncipes”. Despudoradamente erótico, estes sonetos que agora fazem parte do selo Má Companhia descrevem sem censura o universo labiríntico do desejo e são capazes de impressionar até os leitores mais desinibidos. Seu espírito livre e sua crítica desabusada valeram-lhe inimigos, e na ocasião do escândalo causado pela divulgação dos Sonetos luxuriosos o poeta teve de abandonar a corte papal e mudar-se de Roma para Veneza. Ali viveu como um potentado, honrado como o maior poeta italiano de seu tempo. Esse fausto era mantido pelos presentes e doações de reis, de príncipes e nobres de toda a Europa e mesmo do Oriente, atentos ao poder de seus escritos e, especialmente, à força destrutiva de suas sátiras. Esta tradução do poeta e ensaísta José Paulo Paes — a primeira que se fez para a língua portuguesa — é fiel tanto ao espírito como à forma do original e reproduz com felicidade o vigor e a graça da luxúria de Aretino.