ronaldo correia de brito

Baile do Menino Deus

Por Ronaldo Correia de Brito

49

Ilustração de Baile do Menino Deus, por Flávio Fargas.

O Brasil possui um calendário de festas herdadas da tradição ibérica, amplamente difundidas e celebradas, principalmente na região Nordeste, como os reisados, lapinhas, pastoris, guerreiros e bumba meu boi. As festas absorveram elementos da cultura indígena e negra, e passaram a ser celebradas em ciclos: Ciclo Natalino e de Reis, Ciclo Carnavalesco, Ciclo da Quaresma ou da Semana Santa, e Ciclo Junino.

O Baile do Menino Deus inspira-se no reisado, brincadeira muito comum no cariri cearense. Numa noite de Natal, o Mateus, uma espécie de palhaço, acompanhado de várias crianças, procura a casa onde nasceu um menino para celebrar uma festa. A procura é cheia de acontecimentos e reviravoltas e quando eles acham a casa, ela está com as portas e janelas fechadas. Começam brincadeiras e ardis, mágicas e peripécias para abrir a porta. Quando ela se abre, revela-se um menino recém-nascido, com seu pai e sua mãe. A festa parece que vai começar, mas a casa desaparece novamente e se inicia uma nova procura. É melhor não contar o final.

Representado pela primeira vez no Recife, em 1983, o Baile do Menino Deus se transformou num espetáculo de sucesso. Multiplicou-se Brasil afora em praças, quadras, pátios, escolas públicas e privadas, comunidades rurais e suburbanas, assentamentos de sem-terra etc. Há 33 anos, o Baile foi incorporado aos festejos de Natal no Recife e em todo estado de Pernambuco. Há 13 anos, é encenado na Praça do Marco Zero para um público superior a 60 mil pessoas, de várias procedências, idades e classes sociais, com acesso gratuito.

Na Praça do Marco Zero, céu e mar se juntam ao cenário, aos músicos, cantores, atores e bailarinos para celebrarem o Natal nas noites de 23, 24 e 25 de dezembro. São mais de 80 artistas no palco. As pessoas fizeram do Baile do Menino Deus do Marco Zero sua festa natalina, pois o espetáculo encanta a todos com sua linguagem leve, alegre, sublime e popular. Os textos e as músicas são facilmente memorizados e não mais esquecidos. O público se reconhece em melodias e versos que contam o nascimento de um menino por meio de teatro e dança. Como diz Ruth Rocha no prefácio do livro, “é uma peça de Natal que faz adultos e crianças rirem e se emocionarem, com sua estrutura simples, sem rodeios, capaz de falar ao coração de qualquer pessoa”.

As brincadeiras do presépio, com José, Maria, Jesus, Reis Magos, Anjos, Pastoras, Ciganas, Boi, Burrinha, Jaraguá, Caboclinhos, Beija-Flor e Borboleta se representam nesse auto que nunca termina e se repete todo ano, conforme sugere um dos personagens da brincadeira:

Senhores donos da casa,

meninos desta folia,

povo inteiro desta sala

que assiste a nossa alegria,

continuemos o baile,

o coração nunca esfria,

quem dança os males espanta

e o peito desanuvia.

Continuemos o baile

agora e em cada dia.

Adote o conselho da Ruth Rocha: “Você pode formar um grupo de amigos na sua rua, no seu colégio, e juntos lerem esta peça. As letras das músicas podem ser recitadas, como poesia. Também pode ser uma bela experiência encenar o Baile do Menino Deus, da qual muitas crianças podem participar — como brincantes dessa festa especial e brasileira”.

O baile aqui não termina,

o baile aqui principia

do mesmo tanto que o sol

se renova a cada dia,

da mesma forma que a lua

quatro vezes se recria,

do mesmo tanto que a estrela

repassa a rota e nos guia.

* * *

Baile do Menino Deus é o primeiro volume de uma “trilogia de festas”, da qual fazem parte Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval, peças teatrais publicadas pela editora Alfaguara. Seus autores: Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima (texto e letras) e Antonio José Madureira (músicas). O trabalho se completa com as trilhas musicais originais gravadas em CD e lançadas em paralelo aos livros. O CD do Baile foi lançado, em 1983, pela gravadora Eldorado e os outros em edições independentes. Essas peças foram encenadas inúmeras vezes, consagrando-se, principalmente o Baile, como clássico do teatro popular.

* * * * *

Ronaldo Correia de Brito é contista, romancista e dramaturgo. Autor do romance Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura/2009. Publicou os volumes de contos Faca, Livro dos Homens, Retratos imorais, O amor das sombras, e o romance Estive lá fora. Tem livros e contos traduzidos para o francês, espanhol, inglês, alemão, italiano, búlgaro, húngaro, hebraico, e adaptados para cinema e televisão. Escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Pela Alfaguara/Objetiva, publicou a trilogia infanto-juvenil: Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval e o livro Crônicas para ler na escola.

Os melhores livros de 2015

8605398994_73b6bc03e2

Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.