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Os melhores livros de 2015

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Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

12 livros premiados em 2015

O final do ano é o momento de lembrar as melhores leituras e, claro, premiar os melhores lançamentos dos últimos meses. Em 2015, o Grupo Companhia das Letras teve vários autores consagrados com diversos prêmios nacionais e internacionais. Confira a seguir a lista de livros premiados em 2015!

Quarenta dias

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“Quarenta dias no deserto, quarenta anos.” É o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de Quarenta dias, romance magistral de Maria Valéria Rezende. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar a Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ela narra seu mergulho gradual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procura de um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Ex-freira, Maria Valéria Rezende sempre se dedicou à educação popular, e em 2015 ganhou com Quarenta dias o Prêmio Jabuti de livro do ano.

A noite do meu bem

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Depois de reconstituir o mundo da bossa nova no já clássico Chega de Saudade, Ruy Castro mergulhou no universo do samba-canção e das boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60 em A noite do meu bemSeu novo livro mostra o nascimento de uma nova boemia do Rio de Janeiro, que saía dos cassinos (após a proibição dos jogos de azar em 1946) e migrava para as boates de Copacabana. Cantores, artistas, dançarinas, barmen e mais profissionais que perderam com o fechamento dos cassinos encontraram nas boates um novo lar, e aí nasceu uma nova cena musical que marcou a cena artística brasileira: o samba-canção. Os grandes nomes do gênero estão em A noite do meu bem, que foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor livro na categoria ensaio/teoria e crítica literária/reportagem.

Mil rosas roubadas

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Autobiografia e ficção se misturam neste romance de Silviano Santiago. No ano de 1952, dois rapazes se encontram em Belo Horizonte à espera do mesmo bonde. O acaso os transforma em amigos íntimos. Passam-se sessenta anos. Numa tarde de 2010, Zeca, então produtor cultural de renome, agoniza no leito do hospital. Ao observá-lo, o professor aposentado de História do Brasil entende que não perde apenas o companheiro de vida, mas seu possível biógrafo. Compete-lhe inverter os papéis e escrever a trajetória do amigo inseparável. Publicado em 2014, Mil rosas roubadas ganhou o primeiro lugar do Prêmio Oceanos (antes conhecido como Portugal Telecom).

Por escrito

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O Prêmio Oceanos teve uma dobradinha da Companhia das Letras. Silviano Santiago ficou com o primeiro, já Elvira Vigna com o segundo lugar pelo livro Por escritoEsta é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas e de muitos erros.

O tronco e os ramos

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Quais as relações entre o pensamento de Freud e o de seus sucessores? Responder a essa pergunta significa escrever uma história da psicanálise, tarefa que pressupõe o domínio dos conceitos da disciplina e o conhecimento de sua cronologia. Eis o desafio a que Renato Mezan tem se dedicado ao longo de mais de trinta anos, e é o que vemos em O tronco e os ramos. No livro, o autor analisa não só textos fundamentais de Freud e cartas trocadas por ele com Ferenczi, Abraham, Jung, Fliess, mas também desdobramentos do tronco freudiano, autores centrais como Winnicott, Melanie Klein, Bion e Lacan — todos apreendidos junto de vasta bibliografia. O tronco e os ramos ganhou o Prêmio Jabuti na categoria psicologia, psicanálise e comportamento.

Antes e depois

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Antes e depois – Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, de Flávio de Souza, ganhou o Prêmio APCA de melhor livro infantil/juvenil. D. Pedro II, Luiz Gama, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Maria Lenk são os sete personagens deste livro que mostra qual foi o dia mais importante na vida de cada um e por que esse momento acabou mudando a vida de todos nós.

Turismo para cegos

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A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação. Turismo para cegos é o primeiro romance de Tércia Montenegro, e venceu o Prêmio Biblioteca Nacional na categoria romance.

Entre o mundo e eu

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Prêmios internacionais também entram na nossa lista! O National Book Award de 2015 foi para Entre o mundo e eu, de Ta-Nehisi Coates, lançado no Brasil pela Editora Objetiva. Coates é um jornalista americano que trabalha com a questão racial desde que escolheu sua profissão. Filho de militantes do movimento negro, ele sempre se questionou sobre o lugar que é relegado ao negro na sociedade. Em 2014, quando o racismo voltou a ser debatido com força nos Estados Unidos, Coates escreveu uma carta ao filho adolescente e compartilha, por meio de uma série de experiências reveladoras, seu despertar para a verdade em relação a seu lugar no mundo e uma série de questionamentos sobre o que é ser negro na América.

Vida e destino

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A tradução de Irineu Franco Perpetuo para Vida e destino, de Vassili Grossman, foi escolhida a melhor do ano no Prêmio JabutiVida e destino é um épico moderno e uma análise profunda das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial. Vassili Grossman, que esteve no campo de batalha e acompanhou os soldados russos em Stalingrado, compôs uma obra com a dimensão de Tolstói e de Dostoiévski, tocando, ao mesmo tempo, num dos momentos cruciais do século XX.

O livro das semelhanças

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Um dos grandes destaques da poesia em 2015 foi Ana Martins Marques, que ganhou o Prêmio APCA com O livro das semelhanças. Dividido em quatro seções (“Livro”, “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e “O livro das semelhanças”), esta obra desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Do amor à percepção de que há um espaço — geográfico, quase — para o lugar-comum, do entendimento da precariedade do nosso tempo no mundo à graça (mineira, matreira) proporcionada pela memória: eis uma poeta que nos fala diretamente.

Jeito de matar lagartas

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Quase seis anos após a publicação de Cine privê, Antonio Carlos Viana, um dos melhores contistas brasileiros da atualidade, lançou Jeito de matar lagartas, também premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria contos/crônicas. Ao narrar histórias do cotidiano aparentemente banais, como uma brincadeira de criança, a venda de um imóvel ou o reencontro de um jovem estudante com a antiga professora, o autor toca em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão.

Luís Carlos Prestes

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Para encerrar, o Jabuti de biografia foi para Luís Carlos Prestes, de Daniel Aarão Reis. Brilhante estrategista militar, comandante da lendária marcha guerrilheira que leva seu nome, alto dirigente comunista e ideólogo da esquerda durante várias décadas, Luís Carlos Prestes é de um protagonismo inquestionável na história política do Brasil entre os anos 1920 e 1980. Amparado em documentos e depoimentos de primeira mão, muitos deles inéditos, Daniel Aarão Reis — professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e respeitado historiador das esquerdas brasileiras — faz uma ambiciosa investigação sobre o homem por trás do mito do “Cavaleiro da Esperança”.

Semana duzentos e setenta e sete

A noite do meu bem, Ruy Castro
Os cassinos fecharam para sempre, mas os indestrutíveis profissionais da noite, sem falar nos boêmios de plantão, logo encontraram um novo habitat: as boates de Copacabana.Eram casas em tudo diversas dos cassinos. Em vez das apresentações grandiosas, dos espaçosos salões de baile e das orquestras em formação completa — que estimulavam uma noite ruidosa —, as boates, com seus pianos e candelabros, favoreciam a penumbra e a conversa a dois.
Isso não quer dizer que tenham deixado de ser o centro da vida social. Ao contrário, não havia lugar melhor para saber, em primeira mão, da queda de um ministro, de um choque na cotação do café ou de um escândalo financeiro do que nas principais boates, como o mítico Vogue, frequentado por exuberantes luminares da República e por grã-finos discretos e atentos. Mas a noite era outra: assim como a ambiance, a música baixou de tom. Os instrumentistas e cantores voltaram aos palcos em formações menores, andamento médio e volume baixo, quase um sussurro. Tomava corpo um novo gênero, um samba suavizado pela canção, que encontrou nas boates o lugar ideal para se desenvolver plenamente. Essa nova música, com seus compositores, letristas e cantores; as boates, com seus criadores, funcionários e frequentadores, e o excitante contexto social e histórico que fez tudo isso possível são o tema do novo livro de Ruy Castro, que mais uma vez nos delicia com sua prosa arrebatadora.

Mulheres de cinzas, Mia Couto
Primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza – segundo maior império no continente comandado por um africano. Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano. O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.
Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.

Confissões de um homem livre, Luiz Alberto Mendes
Quando tinha doze anos, Luiz Alberto Mendes fugiu de casa pela primeira vez. Filho de pai alcoólatra e de dona Eida, vivia num ambiente de brigas intermináveis e de opressão. Aos dezenove foi preso, acusado de assalto e homicídio. Primeiro passou pela Febem, atual Fundação Casa, depois, já adulto, cumpriu pena em várias casas de detenção. Em 1984, fugiu e foi recapturado. Quase dez anos depois, vivendo em regime semiaberto, com um pé na liberdade e outro no sistema prisional, foi detido em flagrante por roubo. Em um dos pontos altos deste livro, o autor narra a fuga repleta de tensão, imprevistos e erros, que culminaram no cerco da polícia.
Faltando pouco para alcançar a liberdade definitiva, teria que amargar mais alguns anos na cadeia. Mas dessa vez o anti-herói deste relato autobiográfico tinha um bom motivo para viver à margem das confusões e dos grupos radicais: agora era pai de Renato, fruto do casamento com Irismar. Enquanto esteve preso, trabalhou no setor jurídico, em um grupo espírita, nos Correios, foi professor e até produziu bichinhos de pelúcia. Passou por muitas celas, foi transferido para diferentes presídios, e cada mudança representava um recomeço: impor-se diante dos colegas, conhecer as regras, conquistar privilégios e arrumar um emprego para sustentar a família.
Confissões de um homem livre encerra a trilogia que começou com Memórias de um sobrevivente e foi seguida de Às cegas. Assim como nos outros livros, o seu relato do mundo do crime é um dos poucos que não doura a pílula. O discurso é seco, nervoso e direto. Sua honestidade, desconcertante. E são essas qualidades que aparecem de modo mais contundente nesta história sobre os anos que antecederam a sua liberdade.

Flores, votos e balas, Angela Alonso
É vasta a bibliografia sobre a abolição. Já foram discutidas suas causas econômicas, as resistências judiciais e cotidianas de que foi alvo, as revoltas e as fugas de escravos. Ainda não foi plenamente reconhecida, contudo, a relevância do movimento abolicionista .Joaquim Nabuco, um de seus líderes, atribuiu a libertação dos escravos à magnanimidade da casa imperial. No centenário da Lei Áurea, em 1988, estudiosos e ativistas do movimento negro contestaram essa versão e ressaltaram a resistência dos cativos, operando apenas uma inversão de sinal: em vez da liderança da dinastia, o protagonismo dos escravos; em vez da princesa Isabel, Zumbi. Esse deslocamento deixou à sombra um fenômeno que não foi nem obra de escravos, nem graça da princesa: o movimento pela abolição da escravidão. Este livro conta sua história. Reconstrói a trajetória da rede de ativistas, associações e manifestações públicas antiescravistas que, a exemplo de outros países, conformou um movimento social nacional – o primeiro no Brasil do gênero. O movimento elegeu retóricas, estratégias e arenas, operando sucessivamente com flores (no espaço público), votos (na esfera político-institucional) e balas (na clandestinidade), num jogo que se estendeu por duas décadas, de 1868 a 1888. Tudo isso é narrado por meio da trajetória de ativistas nacionais decisivos para o desfecho da empreitada: André Rebouças, Abílio Borges, Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco – três deles negros. A abolição não se faria por si, pelo desenvolvimento da economia ou por decisão solitária do sistema político, como não se fez por canetada da princesa. É a relevância do movimento abolicionista para o fim da escravidão que este livro mostra de forma brilhante. A luta pela libertação dos escravos dividiu águas na história do país – investigar sua natureza é também compreender um processo que ainda reverbera nas formas contemporâneas da desigualdade no Brasil.

Receita de Ano-Novo, Carlos Drummond de Andrade (Ilustrações de Andrés Sandoval)
Natal, Ano-Novo, tempo de balanço pessoal, de renovação. Sentimentos um tanto ambíguos se alternam, quando a eletricidade pelo encerramento de mais um ciclo vem acompanhada de inefável melancolia. Esse é o espírito evocado pelos poemas de Carlos Drummond de Andrade, selecionados por Luis Mauricio Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, neste Receita de Ano-Novo. Com projeto gráfico exclusivo e ilustrações de Andrés Sandoval, colaborador de publicações como piauí e The New Yorker e autor de Socorram-me em Marrocos (Companhia das Letrinhas), Receita de Ano-Novo é um brinde — muito drummondiano, pois — ao final do ano. Boas festas!

Fontanar

Uma luz entre nós, Laura Lynne Jackson (Tradução de Luiz A. de Araújo e Afonso Celso da Cunha Serra)
Uma luz entre nós lista algumas dicas para termos uma vida rica e plena. Através de sua maravilhosa visão de mundo, Laura Lynne Jackson nos lembra de que nosso relacionamento com aqueles que amamos é duradouro; que estamos todos conectados e participamos das vidas uns dos outros; que estamos aqui para amar e sermos amados. Sua história oferece um novo entendimento sobre as nossas consciências e a experiência humana.

Companhia das Letrinhas

Você tem talento, Charlie Brown!, Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Charlie Brown vai fazer de tudo para impressionar a Garotinha Ruiva! Participar do concurso de talentos da escola com um número de mágica, tentar alguns passos de dança bem originais em uma competição e muito mais. Será que ele finalmente vai provar que tem um grande talento? Ou mais uma vez vai fazer um papelão daqueles?

A noite do meu bem

07_Stanislaw Ponte Preta [Acervo da família] - Reveillon no Golden Room

Reveillon no Golden Room. Foto: Sérgio Porto – Foto Carlos/ Herdeiras de Sérgio Porto.

Até 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar no Brasil, a noite carioca girava em torno dos grandes cassinos: o da Urca, o do Copacabana Palace, o Atlântico, ou mesmo, subindo a serra, o Quitandinha, em Petrópolis. Eram verdadeiros impérios da boemia, onde a roleta e o pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos, atrações internacionais e muito champanhe.

A canetada presidencial gerou uma legião de desempregados — músicos, cantores, dançarinas, coristas, barmen, crupiês — e um contingente ainda maior de notívagos carentes. Os cassinos fecharam para sempre, mas os indestrutíveis profissionais da noite, sem falar nos boêmios de plantão, logo encontraram um novo habitat: as boates de Copacabana. Este é o cenário de A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, que mergulha no universo do samba-canção e em seu ambiente: as boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60, redutos do glamour e do poder.

O novo ponto dos boêmios cariocas eram casas em tudo diversas dos cassinos. Em vez das apresentações grandiosas, dos espaçosos salões de baile e das orquestras em formação completa — que estimulavam uma noite ruidosa —, as boates, com seus pianos e candelabros, favoreciam a penumbra e a conversa a dois. Isso não quer dizer que tenham deixado de ser o centro da vida social. Ao contrário, não havia lugar melhor para saber, em primeira mão, da queda de um ministro, de um choque na cotação do café ou de um escândalo financeiro do que nas principais boates, como o mítico Vogue, frequentado por exuberantes luminares da República e por grã-finos discretos e atentos.

Mas a noite era outra: assim como a ambiance, a música baixou de tom. Os instrumentistas e cantores voltaram aos palcos em formações menores, andamento médio e volume baixo, quase um sussurro. Tomava corpo um novo gênero, um samba suavizado pela canção, que encontrou nas boates o lugar ideal para se desenvolver plenamente.

Essa nova música, com seus compositores, letristas e cantores (como Tom Jobim, Angela Maria, Cauby Peixoto, Maysa e Dolores Duran); as boates, com seus criadores, funcionários e frequentadores, e o excitante contexto social e histórico que fez tudo isso possível são o tema de A noite do meu bem, onde Ruy Castro mais uma vez nos delicia com sua prosa arrebatadora.

Para você conhecer um pouco mais sobre o livro, selecionamos uma lista de canções da época para ouvir e entrar no clima do samba-canção. A noite do meu bem chega às livrarias no dia 20 de novembro.

Veja também o booktrailer do livro:

60 anos sem Carmen Miranda

Impressionant Carmen Miranda de B-Toy; al carrer del Triangle.

Na madrugada 5 de agosto de 1955, Carmen Miranda sofreu um infarto enquanto estava sozinha em seu quarto, se preparando para dormir após uma noite se apresentando ao lado de Jimmy Durante para seu programa na TV. As últimas imagens da “pequena notável” que conquistou o Brasil e os EUA mostram ela sorrindo, mandando beijos para a câmera. Sessenta anos após a morte de uma das grandes artistas que o Brasil já teve, reunimos alguns trechos de sua história publicada em Carmen: Uma biografia, escrita por Ruy Castro.

No livro, o autor acompanha ano a ano a vida de Carmen — do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.

Além dos trechos, também selecionamos alguns vídeos de Carmen Miranda em seus filmes e apresentações, incluindo sua última aparição, para ouvir novamente a voz da brasileira mais famosa do século XX.

Taí

“Conforme a história já muito contada, o educado e retraído Joubert de Carvalho, então famoso pela canção ‘Tutu marambá’, passava pela rua
Gonçalves Dias quando foi chamado pelo sr. Abreu, gerente de A Melodia, loja de discos e partituras ao lado da Confeitaria Colombo, para ouvir um disco que acabara de sair. O disco era ‘Triste jandaia’, com a desconhecida Carmen Miranda. Segundo Joubert, a audição lhe provocou uma sensação inédita: a de estar vendo a cantora, ‘como se ela estivesse dentro da vitrola’. Joubert fez Abreu tocar o disco várias vezes, sempre gostando mais, e lhe pediu que, um dia, o apresentasse à garota. Abreu respondeu que não haveria dificuldade nisso, porque Carmen, como muitos cantores e compositores, ia com freqüência à loja. O acaso então fez das suas, e Carmen em pessoa — maquiada, saltos altos, elegantíssima — entrou pela porta da Melodia.

‘Taí a nova cantora!’, exclamou Abreu.

Os dois foram apresentados e Joubert falou de seu interesse em compor algo para ela. Carmen, encantada, deu-lhe o endereço, e os dois se despediram. Joubert saiu da loja com uma palavra — ‘Taí’ — e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do Comércio.

A porta se abriu lá em cima e Carmen surgiu no alto da escada, com um vestido caseiro, sem pintura e descalça. A princípio, Joubert não a identificou.

‘Sou eu mesma’, disse Carmen. ‘Você não está me reconhecendo porque estou sem a máscara de ontem. Vamos lá, suba!’

A música era uma marchinha, ‘Pra você gostar de mim’, não necessariamente carnavalesca. Não havia piano em casa—sintoma de pobreza numa família cheia de moças —, donde Joubert cantou-a para Carmen em seu estilo seresteiro:

Taí!
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim comigo, não…

Carmen a aprendeu logo e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

‘Não precisa me ensinar, não, que, na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.’

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

‘Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!'”

O que é que a baiana tem?

“Aos sessenta minutos cravados do primeiro ato, um cantor mexicano atacou uma rumba (!), acompanhado pela orquestra e pelas dezenas de ‘girls’ — Cesar explicaria depois que, segundo o diretor Edward Dowling, a rumba era para ‘marcar o contraste com o ritmo brasileiro’. Ao fundo, um letreiro começou a piscar anunciando o nome de um cabaré: Páteo Miranda. Finda a rumba, todo o elenco no palco gritou, como se a convocasse:

‘Miranda! Miranda! Miranda!’

Ouviu-se o ritmo do samba. Um lance de cortina, e os seis rapazes do Bando da Lua já apareceram tocando, como um batalhão de choque. Carmen, de baiana, surgiu entre eles, esbanjando malícia, sensualidade e graça em ‘O que é que a baiana tem?’. Os microfones camuflados no chão permitiam que ela cantasse, dançasse e evoluísse pelo palco com toda a liberdade — e Aloysio diria depois que, aquela noite, ali estava uma Carmen que ele próprio nunca tinha visto:

‘Os olhos não brilhavam: faiscavam. Seus movimentos pareciam ter sido preparados por uma Eleonora Duse.'”

Chica chica boom chic

“‘Chica chica boom chic’ era o número de abertura do filme. Carmen cantava a letra de Yaconelli em português (mais uma list song falando da Bahia), e Don Ameche, a letra em inglês de Mack Gordon. Entre as duas partes vocais, a música incluía uma dança combinando alguns vagos elementos de samba com as tradicionais evoluções em hollywoodês. O coreógrafo era Hermes Pan, 35 anos e muito respeitado por ter sido o braço (ou o pé) direito de Fred Astaire em seus nove filmes com Ginger Rogers na RKO. Mas Fred e Ginger tinham desfeito a dupla em 1939, e Zanuck levara Pan para a Fox. Pan vinha de uma família grega e seu nome completo era Hermes Panagiotopoulous — fizera bem em abreviá-lo. Pensando que Carmen, além de cantora, fosse dançarina, ele lhe criara marcações complicadas para “Chica chica boom chic”. E, pela primeira vez, ela se rebelou no estúdio da Fox.

Carmen reagiu às marcações de Hermes Pan. Tinha consciência de que não sabia dançar e precisava de liberdade para fazer os movimentos do samba. Para complicar-lhe a vida, disse a ele, já bastavam a baiana prateada, o turbante de penas e as plataformas de treze centímetros. Pan entendeu e deixou-a à vontade, dentro de certos limites. Mas, com habilidade, convenceu-a a aprender a rodopiar nos braços de um bailarino, ser jogada para o alto e cair de pé, graciosamente, na pontinha da plataforma. O resultado foi um take perfeito logo de primeira, incluindo o take de segurança, filmado simultaneamente por outra câmera.”

Give me a band and a bandana

“Aquele era o primeiro número de Carmen, bem no começo de Greenwich Village (no Brasil, Serenata boêmia), o filme que ela rodou na passagem de 1943 para 1944, menos de seis meses depois de ter quase morrido. Talvez por isso, e por ter se recuperado completamente, estivesse tão esfuziante nesse e em seus dois outros números musicais no filme: “I like to be loved by you”, de Harry Warren e Mack Gordon (uma canção que ficara de fora de Entre a loura e a morena), e “Give me a band and a bandana”, de Nacio Herb Brown e Leo Robin (em que ela interpolava “O que é que a baiana tem?”, de Caymmi, e “Quando eu penso na Bahia”, de Ary Barroso). O irônico era que Carmen enfim conseguira incluir “O que é que a baiana tem?” num filme americano, mas justamente quando já não tinha no corpo nem uma peça da baiana original — nem torço de seda, corrente de ouro e pano-da-costa, nem bata rendada ou saia engomada, nem mesmo bolotas ou balangandãs. Em lugar disso, o que ela tinha era o corte vertical da saia para mostrar as pernas — belas pernas, firmes, bem torneadas, resultado talvez dos muitos anos sobre as plataformas e melhores ainda que as da jovem Carmen —, mas sempre uma coisa típica de rumbeira. Era Carmen se rendendo à figurinista que ela mesma descobrira, a jovem Yvonne Wood.”

Tico-tico no fubá

“Com o fim da guerra e do ciclo de Carmen na Fox, os pósteros consideraram oficialmente encerrada a Política da Boa Vizinhança e a adulação dos Estados Unidos aos países latino-americanos. O marco seria a canção “South America, take it away”, música e letra de Harold Rome, para a revista musical Call me mister, e cantada e dançada por Betty Garrett. A letra exortava a América do Sul a levar de volta os sambas, rumbas e congas que tinham descadeirado os americanos durante a guerra.

Take back your samba
Ay, your rumba
Ay, your conga
Ay, yayay, yay!
I can’t keep shaking, ay
My rumble, ay
Any longer
Ay, yayay, yay
[…]
That’s enough, that’s enough, take it back!
My spine’s out of whack!
There’s a big crack in the back
Of my sacro-iliac!
Take back your conga
Your samba, ay, yay, yay
My hips are creaking, ay
And shrieking, ay
Caramba, ay, yay, yay!
I’ve got a wriggle and a diddle and a jiggle
Like a fiddle in my carcass
Holay!
South America, take it away!

O recado era grosseiro e inequívoco, mas certas coisas a América do Sul não podia levar de volta, porque não lhe pertenciam — a rumba e a conga, por exemplo, que eram originárias de Cuba. Além disso, era menos verdade que os americanos quisessem devolver tudo. Um dos sucessos de 1946 foi a canção “The coffee song (They’ve got an awful lot of coffee in Brazil)”, de Bob Hilliard e DickMiles, lançado na Copacabana revue, no nightclub de Monte Proser, e depois popularizada por Frank Sinatra. Também naquele ano, uma lasciva canção
de Arthur Schwartz e Leo Robin, “A rainy night in Rio”, emergiu de um filminho da Warner intitulado Um sonho e uma canção (The time, the place and the girl) para uma bonita carreira-solo. Ainda em 1946, um antigo choro brasileiro, “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, já apresentado (com letra de Aloysio de Oliveira) nos filmes Alô, amigos! e Escola de sereias, entraria de vez para o repertório americano ao ser cantado por Carmen a duzentos por hora no filme Copacabana, que ela rodaria no segundo semestre — e “Tico-tico”, sim, era tão de descadeirar que seria gravado até por Charlie Parker.”

Disseram que voltei americanizada

“Alguns se perguntavam como, menos de dois meses depois da maior humilhação de sua vida, Carmen podia estar voltando ao mesmo palco onde aquilo acontecera. E se o fiasco se repetisse? Mas, dessa vez, Carmen sabia que não podia dar errado. Nada de black-tie, de gente do governo ou de bandeirinhas verde-amarelas. Em vez disso, lá estaria o seu público, vestido como pudesse. Como cenário, um painel mostrando uma série de Carmens em efeitos luminosos. E ela própria estava com o gogó tinindo. Quanto à reação da platéia, já tivera uma prova na véspera, à tarde, durante o último ensaio — assistido por dezenas. Ao entrar no palco na noite de estréia, sabia-se amada como sempre.

Mas não se esquecera da agressão, e seu novo repertório continha sambas que comentavam o seu status de sambista brasileira desafiado pelos bobocas: ‘Disseram que voltei americanizada’,

Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada.
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo ‘Eu te amo’, e nunca ‘I love you’
Enquanto houver Brasil, na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu

A última apresentação de Carmen Miranda

“Fim do primeiro bloco e intervalo para trocar de roupa. Meia hora depois, Carmen voltou, já com a fantasia para a sequência num nightclub em que, durante cinco minutos ininterruptos, dançaria com Jimmy e coro misto um frenético medley de ritmos de fox, samba, tango e mambo. Um número que exigiria tudo dos dois. As câmeras já estavam rodando e, em dado momento, quando Jimmy se virou para contracenar com o coadjuvante Eddie Jackson, os joelhos de Carmen se dobraram e ela perdeu as pernas.

Claudicou, quase caiu — e só não caiu porque segurou a mão de Jimmy. Recobrou-se num instante e disse, fora do roteiro, mas ao perfeito alcance dos microfones:

“Fiquei sem fôlego!”

Carmen sorriu, como se imensamente grata pelo fôlego lhe ter voltado — como se isso não estivesse entre os seus direitos de ser vivo. Na sequência, cantou o rapidíssimo “Cuanto le gusta” sem perder um segundo de velocidade.

Imagens estáticas depois retiradas do filme e muito ampliadas mostraram que, quando Carmen dobrou os joelhos, seus olhos se reviraram por um segundo. A boca adquiriu um desenho que nunca tivera. Seus olhos e sua boca, e toda a sua expressão naquele segundo, já eram os da morte. Especulou-se que Carmen tivera ali um colapso. Mas ela não levou a mão ao peito nem se queixou de dores — disse apenas que tivera “falta de ar”. Tudo indica que tenha tido um forte descompasso cardíaco, uma arritmia, como a de dez anos antes. Ou como a que tivera em Las Vegas no outro dia, como a da queda em sua casa, e como outras que podem ter acontecido e de que ela não deixou que se tivesse conhecimento — pequenos avisos de que havia um grande vulcão preparando-se para a erupção fatal. A cada descompasso, seu coração perdia uma ou mais batidas — que viriam a lhe fazer falta muito em breve.

Mais um corte, mais uma pausa, e o cenário do programa voltou para o apartamento de Jimmy. Era o encerramento. Carmen, cansada, mas contente, aparece saindo de costas por uma porta, dançando com o Bando da Lua, jogando beijos e despedindo-se de Jimmy, do público e da vida.

Quem mais teria esse privilégio, de despedir-se com uma imagem em que joga beijos?”

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