sacha sperling

Entrevista com Sacha Sperling

Por João Lourenço

“Não consigo achar um único lugar onde eu gostaria de estar, um só lugar onde eu me sentiria bem. Você tem tudo e, no entanto, você se vê pouco a pouco com o coração vazio e a cabeça cheia de imagens violentas, as únicas capazes de fazer você se lembrar de que está vivo”

Não é de hoje que a França espera pelo novo Rimbaud. O jovem da vez escreve sobre a sua geração vazia, cínica e violenta. Seu romance de estreia, Ilusões Pesadas, foi publicado quando ele tinha apenas 18 anos e vendeu mais de 20.000 cópias nos dois primeiros meses. Fruto do consumo desenfreado de informação, ele retrata uma juventude inquieta e solitária. Ele é Sacha Sperling.

– Li um texto onde você dizia que tinha que existir, ser outra pessoa, e rápido. Como foi isso e por quê escrever?

Costumam dizer que eu fiz música e filmes antes do meu primeiro livro, mas isso não é verdade. Eu sempre quis escrever, precisava existir. Escrevo para fazer a minha voz ser ouvida. Sou muito impaciente. Comecei cedo e escrevi o mais rápido que pude. Ainda é complicado falar sobre os meus romances. Gostaria que eles falassem por si só.

– Que tipo de trabalho te influenciou na infância?

Comecei a ler apenas na adolescência. Me apaixonei pelos autores americanos. Nomes como Bret Easton Ellis, William S. Burroughs, Tennessee Williams e Stephen King me fizeram companhia por anos. Eles foram meus heróis, me incentivaram a escrever. No entanto, nunca pensei em imitar o trabalho deles.

– Raymond Carver acreditava que para ser verdadeiro com a realidade o escritor deveria começar mentindo sobre ela. O que acha disso?

Sim, concordo. Às vezes, isso funciona – mas não acredito em regras fixas. Cada romance é uma aventura singular que carrega consigo sua parcela de verdade, mentiras, confissões e mistérios. Escrever não é trair a realidade, mas sim um convite para um outro universo, que pode ser real ou não. Acredito que é um lugar efêmero que desaparece no momento que o leitor fecha o livro. Um reinado de papel, saca?!

– Você acredita que o narcisismo é uma qualidade necessária para a ficção?

Não. Nenhuma qualidade é necessária para a ficção. Talvez talento possa ajudar.

– “Tornar-se adulto é admitir que não existe outro lugar. Tornar-se adulto é admitir que a fuga é impossível”, reflete Sacha, o narrador de Ilusões Pesadas. Muitos defendem que o período de transição entre a adolescência e a vida adulta não tem hora para começar e terminar. Como foi seu período de transição?

Concordo totalmente. No meu caso, não me vejo como um adolescente e muito menos como um adulto. Eu sou uma criança! E isso é uma transição que vai durar para toda a vida.

– O protagonista de Ilusões Pesadas observa o mundo queimar ao seu redor. Ele é apenas testemunha, não faz nada para reagir ao que está diante de seus olhos. Seja na França ou no Brasil, vivemos em um mundo cada vez mais desigual. Qual seu posicionamento em relação às diversas manifestações ao redor do globo?

Às vezes, os homens descem às ruas e mudam o mundo. Mudam alguma coisa. Fico comovido quando as pessoas se reúnem ao redor de uma causa, olham na mesma direção com olhos de esperança e com o coração repleto de sonhos de mudança e um futuro melhor. No entanto, nunca participei de nenhum tipo de manifestação.

– Seus livros são recheados de referências pop. Você se inspira nelas? Conte nos um pouco sobre a sua rotina como escritor.

Tenho paixão pela cultura pop. Os ícones, os símbolos, as marcas, a TV e os logos. Tudo isso me atrai e é uma fonte de eterna inspiração. Amo coisas que posso identificar em qualquer lugar. Do Rio de Janeiro à Pequim, todos sabem o que é um Big Mac, quem é Britney Spears e como o tênis Converse se parece. A minha rotina é bastante simples. Não tenho rituais extravagantes. Preciso apenas de uma coca vermelha, meu computador e um pouco de música.

– Até então, você já publicou três livros. Ilusões Pesadas, como você disse, foi publicado em idiomas que você não sabe nem como dizer “olá” e “obrigado”. O que mudou durante o processo de um livro para o outro? A pressão e a expectativa são as mesmas?

Mudou muito. Eu jamais poderei recuperar a inocência dentro de mim, aquela que tinha quando lancei o primeiro romance. Escrever tornou-se minha profissão.  Mesmo sendo um ótimo trabalho, a minha relação com a página em  branco não é mais a mesma. Hoje, sei que os leitores me aguardam e eu não quero decepcioná-los. As críticas me ensinaram bastante, mas ainda me sinto machucado quando acho que elas não são justas.

– Sua narrativa é bem rápida. Em alguns momentos é como se o narrador estivesse prestes a perder o fôlego. Você costuma reescrever suas sentenças ou tudo se forma no primeiro esboço?

Corrijo muito meus livros. É quase um trabalho de corte e colagem. Quero que as frases ressoem perfeitamente. Talvez por isso que muitas vezes elas são curtas, afiadas como lâminas. Procuro escrever alguma coisa que seja de uma beleza eficaz. Não conto por contar.

– Quais as semelhanças entre você e os seus personagens?

Escrevo livros pessoais na expectativa de que eles também sejam pessoais para quem os procura. É essa a minha escrita. Falar de mim, das minhas falhas, e esperar uma conexão com o público. Meus personagens são como eu, diria até que são mais do que eu. Não me preocupo com as barreiras entre ficção e realidade. Sim, escrevo sobre pessoas que conheço. Tento não causar problemas para as pessoas de quem falo, mas não me proíbo de nada. Caso contrário, ficaria limitado. É preciso fazer fogo com todas as madeiras, com tudo que você tem em mãos. Eu preciso de liberdade para escrever. É essa a regra do jogo. Não sinto necessidade de pedir licença para contar o que acontece comigo e nem com os outros ao meu redor.

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// João Lourenço é jornalista, nascido no Paraná e criado em São Paulo. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Foi assistente de Stephen Todd, do Times e do Guardian. Já entrevistou todos os escritores que queria, menos a musa de todas as musas: Joan Didion. Ele também tentou estudar Literatura Francesa pelo simples prazer de ler e acreditar que iria passar todas as aulas discutindo Balzac. Sem data para retornar, agora está na Califórnia tentando escrever seu primeiro romance //

 

Semana quarenta e seis

[Novidade: agora é possível acompanhar a lista de livros que a Companhia lançará nos próximos meses]

Os lançamentos da semana são:

Zeitoun, de Dave Eggers (Tradução de Fernanda Abreu)
Abdulrahman Zeitoun decide ficar em Nova Orleans para salvar sua casa durante a passagem do furacão Katrina. A tempestade daquela noite é intensa e a devastação enorme; mas a água escoa rápido. Até que uma torrente invade a cidade. E é então que os efeitos do temporal começam a se tornar mais dramáticos. Neste relato verídico, com cenas tão absurdas que parecem saídas de uma história ficcional, Dave Eggers dá voz a uma família de imigrantes para mostrar como a mistura de desinformação, paranoia e atuação política desastrosa transformaram um cataclismo natural numa injustiça humana de proporções inimagináveis.

O país do Carnaval, de Jorge Amado
A narrativa começa no navio que traz de volta ao Brasil o jovem filho de fazendeiro Paulo Rigger, depois de sete anos em Paris, onde cursara direito e absorvera comportamentos e ideias modernas. Nos primeiros dias que passa no Rio de Janeiro, Rigger tenta compreender um país onde já não se sente em casa, um país que tenta timidamente superar seu atraso oligárquico e ingressar na era industrial e urbana. Sintonizado com os dilemas de seu tempo, o primeiro romance de Jorge Amado já revela uma literatura vívida e calorosa, em que a veia satírica convive com uma profunda compreensão das limitações humanas.

Jakob von Gunten — Um diário, de Robert Walser (Tradução de Sergio Tellaroli)
Composto sob a forma de diário, e publicado em 1909, Jakob von Gunten é o relato da trajetória do jovem de origem supostamente nobre que ingressa no Instituto Benjamenta para aprender a servir. Walser escreveu-o ao longo de 1908, em Berlim, onde, três anos antes, chegara a frequentar ele próprio instituição semelhante. Recheado de elementos autobiográficos, o diário de Jakob von Gunten descreve seu relacionamento conflituoso com o colega Kraus, modelo absoluto de humildade e subserviência, e com os misteriosos proprietários da instituição educacional: o diretor e sua enigmática irmã, mestra adorada. Do conflito do jovem Jakob entre uma suposta grandeza de berço e a certeza de que não será nada na vida, entre o orgulho familiar e o aprendizado da humildade, Walser extrai uma das narrativas mais intrigantes do século. Escritor admirado por Kafka, Thomas Mann, Robert Musil, entre outros, o autor é fonte de inspiração para os maiores nomes da literatura contemporânea.

Ilusões pesadas, de Sacha Sperling (Tradução de Reinaldo Moraes)
Aos dezoito anos, Sacha Sperling causou sensação na exigente cena francesa com este romance de estreia, de forte inspiração autobiográfica. A intensidade dos relatos sobre amor, sexo e drogas na adolescência chegou a lhe render a alcunha de “Rimbaud pop”. No livro, um garoto que mal completou quinze anos já se sente vivido o bastante para contar sua vida, em especial tudo que se passou com ele um ano antes, numa fase de profunda crise existencial. E ele tem mesmo o que contar, começando por suas explorações sexuais com garotas e com um garoto de sua idade, o pasoliniano Augustin, que tem um pé na delinquência e virá a ser seu primeiro grande amor. Não faltam as epifanias nem sempre luminosas, obtidas às custas de muito álcool e drogas, desde maconha até cocaína, passando por anfetaminas e calmantes de farmácia.

O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm (Tradução de Tomás Rosa Bueno)
Janet Malcolm, uma das mais importantes jornalistas americanas do século XX, narra a história de um médico, Jeffrey MacDonald, condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, e que moveu uma ação inaudita contra um jornalista, Joe McGinniss, que escrevera um livro sobre ele, baseado em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Colocando em pauta temas tão polêmicos quanto a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa, a clássica reportagem de Janet Malcolm sobre a ética jornalística inaugura a série Jornalismo Literário de Bolso, mais econômica. A edição inclui posfácio de Otavio Frias Filho.