santa teresa d’ávila

O Frei, a Santa e outras novidades

Na quarta-feira passada, dia 20, uma plateia lotada pôde ouvir Frei Betto falando sobre O livro da vida, autobiografia de Santa Teresa D’Ávila que o frade dominicano prefaciou. Veja mais algumas fotos do evento no nosso álbum do Picasa.

Enquanto isso, o selo Penguin-Companhia das Letras continua publicando seus clássicos. Ainda esta semana serão lançados Os ensaios, de Montaigne, e Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto; e até o final do ano os seguintes títulos farão parte do catálogo: Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed, O emblema vermelho da coragem, de Stephan Crane, O amante de lady Chatterley, de D. H. Lawrence, e Os últimos dias de Tolstói, de Liev Tolstói.

Para quem gosta de ler e de conversar sobre literatura, o próximo encontro do Clube de Leitura Penguin-Companhia das Letras será na Saraiva MegaStore do Shopping Pátio Higienópolis, no dia 18 de novembro. O livro discutido será Pelos olhos de Maisie, de Henry James. Veja mais detalhes aqui.

A santa Teresa, de Bernini

Por Matinas Suzuki

Um detalhe da escultura em mármore O êxtase de santa Teresa, do italiano Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), está na capa de O livro da vida, a autobiografia de santa Teresa d’Ávila, um dos novos lançamentos do selo Penguin-Companhia das Letras que chegou às livrarias no final de semana. Trata-se de uma imagem que se impõe pela sua força interna e pelo seu significado para a história da cultura; não só críticos de arte, mas historiadores e psicanalistas também costumam se deter para analisá-la. Esculpido por Bernini entre 1645 e 1652, esse importante documento barroco se encontra em um nicho na capela Cornaro, na igreja Santa Maria della Vitória, em Roma.

A autobiografia de santa Teresa recebeu uma nova tradução, de Marcelo Musa Cavallari, e traz um notável prefácio de Frei Betto, que assim descreve a religiosa espanhola, fundadora das “carmelitas descalças”: “Feminista avant la lettre, esta monja carmelita do século XVI, ao revolucionar a espiritualidade cristã, incomodou as autoridades eclesiásticas de seu tempo, a ponto de o núncio papal na Espanha, dom Felipe Sega, denunciá-la, em 1578, como ‘mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz’”.

Por uma dessas coincidências que ocorrem na vida das editoras, pouco mais de uma semana depois, no dia 7 de outubro, a Companhia das Letras lançará a edição luxuosa de O poder da arte, do professor inglês de história e de história da arte Simon Schama. Além de discorrer sobre obras de Caravaggio, Bernini, David, Rembrandt e outros, Schama faz também, neste belo livro, uma reflexão sobre a santa Teresa de Bernini. Leia a seguir, em primeira mão, o que ele diz sobre a escultura:

* * * * *

Será que alguém consegue ver O êxtase de santa Teresa (1644-47), de Bernini, com olhos inocentes?

Anos atrás, numa tarde escaldante do verão romano, um trio de freiras entrou na escura igreja de Santa Maria della Vittoria e se dirigiu para a capela Cornaro, no braço esquerdo do transepto. Eu estava sentado num banco do lado oposto, perplexo, como sempre, com o que via — um arrebatamento iluminado intermitentemente. De quando em quando, uma moeda tilintava, acendia-se a luz, e o espetáculo mais espantoso da arte prosseguia: a cabeça da santa jogada para trás, a boca aberta num gemido, o lábio inferior recuado, os olhos quase cerrados, os ombros encolhidos numa postura de defesa e desejo. Ao lado dela, um sorridente serafim delicadamente lhe descobre o peito para facilitar a penetração da flecha.

As freiras se demoraram uns dez minutos, absolutamente imóveis; depois, duas delas se ajoelharam, benzeram-se como puderam e foram embora. A terceira freira, baixinha, gordinha, de óculos, sentou-se em outro banco, baixou a cabeça e se pôs a rezar; de vez em quando eu me surpreendia olhando para ela, tentando não imaginar o que lhe passava pela mente. Afinal, a escultura de Bernini se situa na instável fronteira entre o mistério sagrado e a indecência. Os estudiosos não se cansam de dizer que o que estamos vendo jamais poderia ser um momento de entrega sensual, pois Bernini era notoriamente devoto e a santa esclarece em sua autobiografia que “a dor não é física, mas espiritual”. O especialista típico alerta que ver a obra como erótica “limita-a seriamente” — mas, como ocorre em geral com esse tipo de comentário, não se dá o trabalho de explicar por quê. Apenas adverte que, para compreendermos as intenções de Bernini, seria melhor tirarmos da cabeça toda essa vulgaridade moderna. Não há base histórica, insiste ele, para imaginar que o arquiteto do papa, o supremo escultor de Roma, um homem que praticava diariamente a disciplina jesuítica, pudesse sequer pensar em representar a levitação mística de uma santa num momento de convulsão orgástica. Na verdade, porém, o anacronismo moderno não é a união de corpo e alma repisada por tantos poetas e escritores do século XVII, e sim sua pudica separação em experiência sensual e experiência espiritual. Na época de Bernini, entendia-se e experimentava-se o êxtase como sensualmente indivisível. Basta ler a poesia de Richard Crashaw, John Donne (o deão de St. Paul) ou Giambattista Marino, o passional contemporâneo de Bernini, para constatar que no início do século XVII o anseio da alma de ser possuída pelo divino sempre implicava a superação das sensações extremas do corpo. Depois de negar que sua experiência com o anjo fosse física, Teresa imediatamente acrescenta que “o corpo tem parte nisso, até mesmo uma parte considerável”.

Assim, os mal-entendidos são inevitáveis, pois Bernini os previu. Um século depois que ele criou essa escultura, a mais prodigiosa e emocionalmente avassaladora de todas as suas obras, o chevalier De Brosses, aristocrata francês de passagem por Roma, olhou para a santa no auge do paroxismo e fez um comentário que se tornou infame pelo cinismo: “Bom, se isso é amor divino, eu sei muito bem como é”. Mas pode ser que (deliberada ou casualmente) o chevalier tenha entendido mais do que dizia saber: que a intensidade do êxtase de Teresa, a representação do transporte da alma, na verdade, tinha tudo a ver com conhecimento carnal, sobretudo o próprio conhecimento carnal de Bernini.

(Trecho retirado do capítulo “Bernini — o criador de milagres” do livro O poder da arte, de Simon Schama)

* * * * *

Matinas Suzuki é diretor de comunicação da Companhia das Letras e editor da Penguin-Companhia. Organiza a coleção de Jornalismo Literário da editora, cujos próximos lançamentos são A vida secreta da guerra, de Peter Beaumont, e Operação massacre, de Rodolfo Walsh.

* * * * *

Notícias sobre a Penguin-Companhia:

Dois clubes de leitura estão sendo organizados, por enquanto apenas em São Paulo (veja aqui mais detalhes).

Matinas Suzuki participou do programa Invasões Bárbaras, da BandNews FM, e falou com Barbara Gancia sobre O príncipe, de Maquiavel. Você pode ouvir a entrevista no site da rádio.

Para receber notícias por e-mail dos lançamentos do selo Penguin-Companhia, inscreva-se aqui.

Semana dezenove

Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar, José Rubens Siqueira, Antonio Carlos Viana e Dorothée de Bruchard)
Entremeando a narrativa do cativeiro com reflexões sobre a morte, a liberdade e o poder, Não há silêncio que não termine reconstitui com implacável lucidez o período de mais de seis anos que Ingrid Betancourt passou no inferno verde da selva amazônica em poder das Farc, a principal organização guerrilheira da Colômbia. Leia dois post sobre o trabalho de edição do livro: “Seis anos na selva, quatro meses de trabalho”, da editora-assistente Lucila Lombardi, e “Originais aos pedaços”, do colunista Luiz Schwarcz.

Seu rosto amanhã – vol. 3, de Javier Marías (Tradução de Eduardo Brandão)
O narrador deste ambicioso thriller metafísico, Jacques ou Jaime ou Jacobo Deza — o ex-professor da Universidade de Oxford que, ainda no primeiro volume, decide voltar à Inglaterra e se juntar a um grupo de velhos espiões do núcleo do Serviço Secreto britânico que atuaram contra o nazismo —, acaba conhecendo aqui os inesperados rostos dos que o rodeiam e também o dele. Descobre então que, sob o mundo mais ou menos tranquilo em que os ocidentais vivem, sempre lateja uma necessidade de traição e violência que é inoculada em nós como um veneno.

No buraco, de Tony Bellotto
Em seu novo romance, Tony Belloto mimetiza às avessas sua história para contar com humor ácido e contundente as aventuras de Teo Zanquis, um tipo solitário, que atingiu muito rápido seu apogeu para, em seguida, com a mesma rapidez, mergulhar no mais retumbante esquecimento. Agora ele caminha sem ilusões para a velhice, mas isso não impede que Teo busque o amor no corpo de uma jovem coreana, nem que estreite laços de amizade com figuras de quem ele jamais imaginaria se aproximar em seus tempos de semi-ídolo do rock nacional, como a dona Gladys, velha e excêntrica vizinha da quitinete onde ele mora.

Os anéis de Saturno, de W.G. Sebald (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo)
Internado no hospital, o narrador deste poderoso romance tece o relato de uma caminhada de um ano pelo leste da Inglaterra, investigando a história, a arte e a natureza numa mistura de autobiografia, ensaio, narrativa histórica e prosa de ficção. A lucidez, a originalidade e a beleza descritiva de Sebald resultam numa narrativa hipnotizante, que remete a influências como Jorge Luis Borges, Thomas Bernhard e Joseph Conrad.

Livro da vida, de Santa Teresa d’Ávila (Tradução de Marcelo Musa Cavallari)
Livro da vida, o clássico mais lido pelos espanhóis depois de Dom Quixote, é a autobiografia de uma mulher que conta, entre outros feitos, a experiência de seu contato direto com Deus, numa prosa que mistura conversa de freira, romance de cavalaria e teologia mística. Em notável prefácio, escrito especialmente para esta edição, Frei Betto descreve Teresa da seguinte maneira: “Feminista avant la lettre, esta monja carmelita do século XVI, ao revolucionar a espiritualidade cristã, incomodou as autoridades eclesiásticas de seu tempo, a ponto de o núncio papal na Espanha, Dom Felipe Sega, denunciá-la, em 1578, como ‘mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz’”. Esta edição traz também uma esclarecedora introdução de J. M. Cohen, especialista em literatura de língua espanhola e um dos mais notáveis homens de letras da Inglaterra no séc. XX.

Sete suítes, de Antonio Fernando de Franceschi
O contraponto entre a musicalidade das palavras e o rigor da composição, entre a maneira que tem o poeta de entrar no assunto com leveza e de ao mesmo tempo conferir-lhe a força da revelação, caracteriza o poeta Antonio Fernando De Franceschi, não deixando dúvida quanto à importância dessa poesia mineral, feita de pedras, de paisagens bruscas e desse outro minério que é o produto da memória. Os temas das sete suítes são “Pirassununga” (memórias da infância), “Asa e vento” (uma contraposição entre passado e presente), “As formas clássicas”, “As palavras”, “Poços de Caldas”, “Retratos” e “Inquietudes”.

Padre Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa, de Amélia Pinto Pais (Ilustrações de Mariana Newlands)
Escrito como uma autobiografia, o livro traz os principais acontecimentos da vida de Antônio Vieira, além de trechos de seus mais conhecidos sermões e de sua correspondência. O volume inclui ainda dois anexos: um texto explica a estrutura de um sermão e outro contextualiza a ação da Inquisição. Dirigido aos jovens leitores, Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa pretende despertar neles o gosto por conhecer a vida e a obra deste que é um dos maiores prosadores da nossa língua.

Quem soltou o Pum?, de Blandina Franco (Ilustrações de José Carlos Lollo)
A história é simples, mas a sacada é das boas: imagine um cachorrinho de estimação que se chama Pum! Daí dá para tirar diversos trocadilhos, criando frases e situações realmente hilárias. É um tal de não conseguir segurar o Pum, que é barulhento e atrapalha os adultos, que dizem que o Pum molhado, em dia de chuva, fica mais fedido ainda, o que faz o menino passar muita vergonha. Pobre Pum. E pobre dono do Pum! Mas não tem jeito, com o Pum é assim mesmo: simplesmente ninguém consegue evitar que ele escape e cause certos inconvenientes.