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Ansioso, eu?

Por Luiz Schwarcz

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imprima_seNum dos meus últimos posts para este blog, contei sobre as leituras que fiz entre o Natal e o Ano Novo na praia. Na semana passada — como havia sido convidado para participar, em Genebra, do júri de um prêmio internacional da Rolex, formado para escolher grandes artistas que seriam convidados para o papel de mentores de jovens talentos nas áreas de literatura, teatro, dança, artes, música e cinema — acabei aproveitando para tirar mais uma semana de descanso, desta vez no frio. Resolvi usar a ocasião para ler um livro publicado pela Companhia das Letras que queria muito ter lido antes, mas que tive que ir postergando já que não tinha razões profissionais para fazê-lo.

Compramos os direitos de Meus tempos de ansiedade de Scott Stossel quando o que existia era apenas um plano (uma proposal como se diz no editorialês). Neste caso, bastou-nos ler o que o jornalista da The Atlantic e da New Yorker pretendia fazer, o resumo dos capítulos e um trecho, para saber que o livro nos interessaria, ou que tinha grandes chances de virar um livrão. É assim que fazemos várias das compras de livros de não ficção; muito antes de eles serem escritos.

Compramos a ideia, o currículo do autor, o tema, com base no máximo em um pequeno fragmento, em algumas páginas rascunhadas, sem uma linha sequer do texto final. Se não aceitarmos um certo risco — isto é, a prática de comprar algo a ser realizado no futuro —, ficaremos sem livros para publicar, tamanha a concorrência por novos direitos. Ao comprar uma ideia estamos apostando não só na capacidade do autor, como também confiando em seu editor original, que terá que fazer um bom trabalho em nome de todos os editores internacionais que publicarão o livro na sequência em diferentes países.

Hoje não só livros estrangeiros são escolhidos dessa forma, restando pouco trabalho de edição para os forasteiros, como também encomendamos livros de autores brasileiros. Da mesma maneira, bancamos ideias, acreditando na responsabilidade do autor com relação a um compromisso de entrega futura, confiando no nosso taco como editores, e acreditando que saberemos chegar, em diálogo com o autor, a um bom livro sobre o tema em questão.

Nesse sentido, o livro de Scott Stossel teve em Sofia Mariutti sua editora e guardiã. Foi ela, junto com Otávio Marques da Costa, que cuidaram das várias etapas da edição brasileira, com participação mínima e distante da minha parte. Assim, sempre quis ler Meus tempos de ansiedade, mas “meus tempos” estavam voltados para algum original brasileiro, ou alguma outra leitura, como por exemplo um novo romance de algum escritor amigo, mesmo que estrangeiro.

Foi preciso que, na volta das férias, André Conti, outro editor da casa, dissesse, enquanto comentávamos nossas leituras na virada do ano, “Luiz, eu li no Natal um livro feito para você! Meus tempos de ansiedade, de Scott Stossel” para que a vontade de ler o livro desse ansioso patológico brilhante me pegasse de vez.

Apesar da indireta descabida e impertinente — Meus tempos de ansiedade feito para mim? Por quê? Imagine!! — acabei decidindo trazer o dito cujo para a minha semana europeia. E o livro é de fato um primor. Nele, guiados pela vida pessoal do autor, um fóbico e ansioso inacreditável, aprendemos sobre coragem, medo, ansiedade e depressão, num passeio pela alma humana e por teorias e histórias de vidas de doentes famosos: Darwin — talvez o mais destacado dos exemplos — sofria de ansiedade social e distúrbios estomacais de fundo nervoso; Sigmund Freud tinha paúra de trens; Richard Burton, o ator, fobia de mel (isso mesmo, de mel!); Nicole Kidman medo de vomitar. Scott Stossel nos mostra que incontáveis são os atores com medo de performar, e esportistas com paúra de desempenho.

Ansioso, eu? No meu caso, apesar da ansiedade morar ao lado, aprendi tanto sobre a alma humana que cabe aqui o agradecimento à vingança ou à indireta do André, e à bela edição por parte da Sofia e do Otávio. Extraordinariamente bem escrito e profundo, o livro de Scott Stossel confirma uma tendência que apontei para os executivos culturais da Rolex, no fim da nossa reunião: a literatura hoje mora também, e em grande parte, nos textos de não ficção. Amigos leitores de literatura, abram os olhos, as mentes e os corações. A cada dia podemos nos divertir mais e mais não apenas com as formas de invenção na prosa, como com textos de reflexão, jornalismo e memória, escritos com a maestria de um grande romancista.

Ps.: Para ler um trecho de Meus tempos de ansiedade, clique aqui.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana duzentos e trinta e um

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Meus tempos de ansiedade, de Scott Stossel (Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra)
A partir de sua própria vivência da ansiedade, o editor da revista Atlantic investiga essa doença que, se não existia como categoria diagnóstica 35 anos atrás, hoje é o mais comum distúrbio mental oficialmente classificado. Embora seja generalizado, o mal permanece uma incógnita, muitas vezes mal compreendido. Trata-se, afinal, de um estado espiritual, um distúrbio neuroquímico, um trauma psicológico? Entre o relato íntimo e a exposição de argumentos de autoridade, o autor nos oferece uma história de todas essas perspectivas, da médica à filosófica, das mais remotas às contemporâneas. Stossel revela ainda as várias formas de tratar a ansiedade e administrar seus efeitos incapacitantes. Eliminá-la, como mostra o autor, seria impossível, e talvez até prejudicial: afinal, o que seria do homem sem inquietações?

Sobre a ira/Sobre a tranquilidade da alma, de Sêneca (Tradução de José Eduardo S. Lohner)
Escritos na metade do século I d.C., em formato epistolar, os dois diálogos contidos neste volume foram provavelmente as únicas obras latinas dedicadas a expor uma terapêutica para a superação da ira e para o alcance de um estado de perene serenidade. Ambos exemplificam a concepção que Sêneca — preceptor de Nero e um dos maiores filósofos da Antiguidade romana — tinha da filosofia: uma disciplina prática, destinada não só a elevar a qualidade ética da vida humana, mas sobretudo a promover um processo de ascese espiritual, conforme a perspectiva afirmada pela doutrina estoica.

Graça infinitade David Foster Wallace (Tradução de Caetano Galindo)
Os Estados Unidos e o Canadá já não existem: eles foram substituídos pela poderosa Onan, a Organização de Nações Norte-Americanas. Uma enorme porção do continente se tornou um depósito de lixo tóxico. Separatistas quebequenses praticam atos terroristas e a contagem dos anos foi vendida às grandes corporações. Em Graça infinita seguimos os passos dos irmãos Incandenza — membros da família mais disfuncional da literatura contemporânea —, conforme tentam dar conta do legado do patriarca James Incandenza, um cientista de óptica que se tornou cineasta e cometeu suicídio depois de produzir um misterioso filme que, pela alta voltagem de entretenimento, levava seus espectadores à morte. Enquanto organizações governamentais e terroristas querem usar o filme como arma de guerra, os Incandenza vão se embrenhar numa cômica e filosófica busca pelo sentido da vida. Graça infinita dobra todas as regras da ficção sem jamais sacrificar seu próprio valor de entretenimento. É uma exuberante e original investigação do que nos torna humanos — e um desses raros livros que renovam a ideia do que um romance pode ser.

Luís Carlos Prestes — Um revolucionário entre dois mundosde Daniel Aarão Reis
Neste livro, que já nasce como a principal referência biográfica sobre Prestes, Aarão Reis acompanha os passos do líder comunista com ênfase em sua incansável atuação política, marcada pela ferrenha coerência ideológica e numerosos sacrifícios pessoais. De modesto oficial de um batalhão do Exército no interior gaúcho a chefe da mais extensa marcha guerrilheira da história mundial, de cabeça da rebelião comunista de 1935 a preso político, militante clandestino e exilado na União Soviética, de presidente histórico do PCB a líder condenado ao ostracismo por um partido que tentava se adaptar ao jogo político da democracia representativa, Reis traça um perfil biográfico de fôlego que é ao mesmo tempo uma história do marxismo e das lutas sociais no Brasil do século XX. O autor assinala como a história do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão, frequentemente se confunde com a biografia de Prestes, propondo um novo olhar sobre o homem-lenda que ainda hoje, mais de vinte anos depois de sua morte, continua inspirando paixões e ressentimentos.

Monções e Capítulos de expansão paulistade Sérgio Buarque de Holanda
Monções, volume publicado originalmente em 1945, trata das expedições portuguesas ao interior da Colônia por rios do Sudeste e do Centro-Oeste. Aqui, com grande talento narrativo e habilidade ímpar de compreensão histórica, o autor reconstitui o processo de adaptação dos portugueses ao território americano de forma original, a partir de descrições palpáveis da áspera empreitada colonial. Em sua quarta edição, o livro é publicado ao lado de coletânea de organização inédita,Capítulos de expansão paulista — cujo título (inspirado em Capistrano de Abreu) dá continuidade à série dos escritos inacabados do historiador paulista, tais como Capítulos de literatura colonial e Capítulos de história do Império. Esta reúne “fragmentos” do projeto idealizado por Buarque de Holanda de reescrever e ampliar Monções com novas informações que recolhera ao longo de pesquisas feitas em Cuiabá e Lisboa, e portanto lhe serve de complemento perfeito.

Quadrinhos na Cia.

O estrangeiro — Baseado na obra de Albert Camusde Jacques Ferrandez (Tradução de Carol Bensimon)
Conterrâneo de Camus, Ferrandez é considerado um especialista incontestável na Argélia colonial, tendo vivido por muitos anos na mesma rua que o autor. No dia em que sua mãe morre, Meursault acaba adormecendo no ônibus que o transporta de Argel ao asilo onde ela vivia. Mais tarde, durante o funeral, ele bebe o café oferecido pelo zelador do asilo, tem vontade de fumar e fica perturbado com a luz violenta das lâmpadas elétricas. É sob a influência aguda do sol argelino que o cega e queima que esse trabalhador calmo e reservado cometerá um ato irreparável. Camus apresenta um homem inapreensível, sem ambições ou desejos, que é levado a cometer um crime e que assiste, indiferente, a seu próprio julgamento. A história de Meursault fascinou milhões de leitores pelo mundo ao oferecer uma reflexão contundente sobre o absurdo da condição humana e questionar a máquina impiedosa da justiça social. Passados mais de setenta anos de sua publicação, O estrangeiro está mais atual do que nunca.

Companhia das Letrinhas

Noel Rosa — Uma grande conversa entre Noel e São Pedro num botequim lá do céude Luciana Sandroni e Maria Clara Barbosa, ilustrações de Gustavo Duarte
Noel Rosa está entre os maiores nomes da música brasileira. Conhecido como o “Poeta da Vila”, nasceu no Rio de Janeiro bem no momento em que o samba despontava e passava a agradar às mais diversas classes sociais. Nesta biografia ficcionalizada, ele está no céu e, a partir de uma sugestão do amigo são Pedro, resolve contar a incrível história da sua vida com suas próprias palavras. Ao final do texto, além de um glossário que aprofunda tópicos importantes sobre a música da época, estão disponíveis as partituras de doze canções de Noel, com sugestões de arranjo para três vozes.

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A ascensão das trevasde Morgan Rhodes (Tradução de Flávia Souto Maior)
No terceiro volume da série A Queda dos Reinos, todos acreditam estar perto de encontrar a Tétrade, quatro cristais mágicos perdidos, capazes de conferir poderes indescritíveis a quem os reunir. Gaius acredita que está no caminho certo e que Lucia, sua filha adotiva, será a chave para localizar e despertar os cristais. Mas o destino é instável quando a magia está em jogo… Um período de trevas se abate sobre Mítica, e nesses tempos sombrios Jonas, Cleo, Magnus e Lucia precisam descobrir o quanto antes em quem podem confiar.

13 incidentes suspeitos, de Lemony Snicket (Tradução de André Czarnobai)
A peculiar cidade de Manchado-pelo-Mar é palco de muitos eventos estranhos e é lá que o jovem Lemony Snicket — famoso solucionador de mistérios — tenta resolver seu primeiro grande caso, relatado em detalhes na série Só Perguntas Erradas. Mas os mistérios se sucedem, e o detetive mirim agora terá de descobrir por que quadros caem sozinhos das paredes, quem roubaria um tritão amarantino, como é possível que um fantasma passeie pelo cais à meia-noite e quem faz parte da famigerada Gangue do Tijolão, entre vários outros enigmas. Lemony Snicket precisará juntar pistas e interrogar testemunhas para desvendar cada caso. Os leitores se tornam membros da organização secreta de Snicket e também participam da investigação: o desafio será resolver os casos antes de ler as soluções, reveladas no final do livro.