sidney chalhoub

Semana cento e dezesseis

Os lançamentos desta semana são:

Bahia de todos-os-santos, de Jorge Amado
Há poucas cidades no mundo tão fascinantes, complexas e repletas de história quanto Salvador. E que outro guia melhor do que Jorge Amado para desvelar os encantos, mistérios — e mazelas — seculares de suas ruas, ladeiras, terreiros, igrejas, mercados, trapiches e praias? O autor de tantos romances ambientados em Salvador, responsável em grande parte pela difusão de sua mitologia popular pelo mundo afora, abre aqui de modo generoso as portas da cidade para quem quiser conhecê-la, mas sem perder o olhar crítico e transformador. Diferentemente dos guias turísticos e prospectos oficiais, este livro, publicado originalmente em 1944 e alvo de sucessivas atualizações, não esconde o lado obscuro da capital baiana, seus bairros miseráveis e sem higiene, a vida dura e sem perspectivas da população mais pobre, bem como a deterioração paulatina do meio ambiente e da arquitetura. Bahia de todos-os-santos entrega ao leitor a cidade por inteiro, não só na paisagem física mas também em seus ritos tradicionais e em seus costumes cotidianos.

Notícias do planalto, de Mario Sergio Conti (Edição econômica, com novo posfácio)
“Com sua força narrativa concentrada, um amplo panorama de personagens de cima e de baixo, denso nos detalhes, e com um desenlace dramático à altura, lê-se Notícias do Planalto como um trabalho documental de Balzac. Sem poupar ninguém — proprietários, comentaristas ou repórteres —, o livro quebrou o tabu fundamental da imprensa: cachorro não come cachorro.” Foi assim que Perry Anderson, um dos grandes historiadores ingleses, classificou Notícias do Planalto num ensaio na London Review of Books. Lançado em 1999, o livro deflagrou uma imensa controvérsia acerca das relações perigosas entre a imprensa e o poder e entre jornalistas e donos de órgãos de comunicação. Com mais de 70 mil exemplares vendidos, entrou para a bibliografia básica de inúmeras faculdades de jornalismo.

Os inimigos íntimos da democracia, de Tzvetan Todorov (Trad. Joana Angélica d’Ávila Melo)
Em Os inimigos íntimos da democracia, Todorov emite um enfático alerta contra a maior ameaça à sobrevivência dos valores democráticos no século XXI: as estruturas autoritárias gestadas nas entranhas do próprio sistema político ocidental. Para o autor, o risco de uma regressão global a modos de agir e pensar típicos do totalitarismo é o efeito mais alarmante da perversão interna dos valores democráticos nas últimas décadas. Todorov denuncia os descomedimentos da política contemporânea por meio de uma lúcida compreensão dos discursos ideológicos em jogo nos conflitos decisivos da realidade social.

Aninha, a pestinha, de Juliet Mickelbugh (Trad. Eduardo Brandão)
Aninha era sempre uma gracinha — pintava que era uma gracinha, cantava que era uma gracinha, e todo mundo só dizia: “Que gracinha, a Aninha!”. Mas, irritada com a situação, um dia resolveu passar a fazer só abobrinha. Falava de boca cheia, subia na cadeira, rabiscava a mesa inteira, pintava as paredes de casa, respondia para os adultos, só aprontava confusão! Logo, logo, para todos tinha virado “a pestinha”. Foi aí que ela percebeu que não queria ser nem uma coisa nem outra: queria mais ser ela mesma, só a Aninha.

O voo do golfinho, de Ondjaki
E se todos tivéssemos o dom de mudar de corpo ao longo da vida? E se voar fosse mesmo possível para todos os que sempre desejaram ter asas? Esta é a história de um golfinho que queria ser passarinho e que um dia ousou dar um salto a mais…

A força da escravidão, de Sidney Chalhoub
“Esses escravos ilegais estão a todo momento e por toda parte em presença das autoridades brasileiras, mas eles não são vistos.” A irônica observação de um cônsul britânico diante do escândalo dos africanos escravizados sintetiza o descaso criminoso a que a cidadania dos negros foi submetida no Brasil oitocentista. Em aberta afronta ao direito internacional, mais de 750 mil pessoas foram contrabandeadas para o país após a lei de 1831 que proibia o comércio de cativos. por outro lado, a notória tolerância das autoridades em relação aos horrores do tráfico deteriorava a já instável condição social dos ex-escravos e dos nascidos livres, sinalizando-lhes que seus direitos pouco valiam contra a força avassaladora do poder escravista. Apoiado numa abrangente pesquisa em arquivos da época, o historiador Sidney Chalhoub demonstra como a precária experiência da liberdade dos negros esteve à mercê da cumplicidade entre o Estado e as classes proprietárias durante a maior parte do Segundo Reinado.

Fora do tempo, de David Grossman (Trad. Paulo Geiger)
Em 12 de agosto de 2006, o sargento Uri Grossman foi morto no Líbano, a dois dias do cessar-fogo em nome do qual seu pai, o escritor David Grossman, havia se manifestado anteriormente, em público, ao lado de Amós Oz e A. B. Yehoshua. Cinco anos depois, o ficcionista oferece uma investigação das maneiras de dizer o luto, fazendo a poesia e o maravilhoso ressoarem num espaço próprio, embora permeado pela política e pela biografia. Destituídas das virtudes mágicas capazes de dar corpo ao ausente, as palavras ainda assim insuflam vida em quem encontra fôlego para dizê-las. Em algum ponto da jornada inconcebível limite entre “aqui” e “lá”, o enlutado vislumbra uma hipótese de caminho de volta do exílio. Com Fora do tempo, Grossman testemunha, mais uma vez, que a vida não acabou. Confiando nas virtudes da escrita, ele prossegue em busca das imagens “em alta resolução”, pelas quais “vivemos a nossa própria vida, não um clichês que outros formularam para nós”, conforme declarou certa vez em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Uma certa justiça, de P. D. James (Trad. Celso Nogueira)
O crime central deste romance é o assassinato de Venetia Aldridge, uma mulher obsessiva e arrogante que, dedicando-se de corpo e alma à advocacia criminal, conseguiu chegar ao topo da carreira, brilhando no tribunal mais famoso da obsessiva e arrogante que, dedicando-se de corpo e alma à advocacia criminal, conseguiu chegar ao topo da carreira, brilhando no tribunal mais famosos da Inglaterra, o Old Bailey. Foi lá que realizou a defesa de Garry Ashe, um jovem acusado do assassinato brutal de sua tia. Venetia, porém, não poderia prever que um mês depois seria morta com violência em seu próprio escritório — pois, como diz P.D. James no início deste livro, “os assassinos não costumam alertar suas vítimas”. Por mais hábeis que sejam, entretanto, os criminosos sempre deixam pistas, e segui-las é o trabalho do inspetor Adam Dalgliesh e de sua equipe da Scotland Yard. Uma das melhores autoras do romance policial, Phyllis Dorothy James nasceu em 1920 e só estreou na literatura em 1962. Desde então, publicou cerca de duas dezenas de livros.

Semana sessenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores da África, reflete sobre as mazelas e maravilhas do continente nos artigos e ensaios deste livro de “interinvenções”. Da corrupção endêmica de boa parte dos governos africanos à destruição do meio ambiente, da força da tradição oral às complexas relações entre as culturas locais e a modernidade urbana, do entrelaçamento do português com as línguas nativas à herança de séculos de escravismo, tudo passa pelo crivo do autor, que também fala de escritores que lhe são caros, como Jorge Amado e Guimarães Rosa. Nestes textos militantes, em que se atacam os principais entraves ao desenvolvimento dos povos africanos, Mia Couto se serve de sua dupla experiência de biológo e escritor, combinando rigor intelectual e imaginação poética para ler melhor um mundo em permanente mutação.

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli
Comprar barato e vender caro pode ser um processo mental vicioso. Devido à prática, o dono de uma loja de quinquilharias atinge essa condição extrema ao expor a clientela a tal materialismo cínico. Prestes a se casar, dispensa a noiva com frieza e apaixona-se pela bunda de uma garçonete. Lê livros policiais e sua mente adota um ritmo alucinante. No entanto, algo de errado no encanamento dos fundos da loja põe tudo sob a seguinte perspectiva: o mau cheiro vem do ralo ou do protagonista? Surpreendente estreia literária de Lourenço Mutarelli, o livro exploca alguns dos temas prediletos do autor, como a desumanização progressiva, o absurdo e a crueldade, com a linguagem ágil que foi amadurecida em sua carreira nos quadrinhos. Adaptado às telas, resultou em atuação memorável de Selton Mello, além de marcar a história recente do cinema brasileiro.

A importância de ser prudente e outras peças, de Oscar Wilde (Tradução de Sonia Moreira)
Muito da fama de Oscar Wilde se deve ao romance O retrato de Dorian Gray, mas foi como dramaturgo que ele alcançou o maior sucesso em vida, com as comédias de costumes Uma mulher sem importância, Um marido ideal e A importância de ser prudente, reunidas neste volume. Nas peças que em larga medida satirizam a alta sociedade vitoriana que jamais o aceitou de bom grado, Wilde aponta de maneira irônica para si mesmo. Há algo do autor nas observações cínicas de lorde Illingworth em Uma mulher sem importância, assim como no estilo de vida despreocupado de lorde Goring, o bon vivant que é a fonte de sensatez de Um marido ideal, e também no inconsequente dândi Algernon de A importância de ser prudente. Com introdução e notas de Richard Allen Cave, diretor e estudioso do teatro britânico, a edição da Penguin-Companhia situa o leitor sobre o contexto em que as peças foram encenadas e as inovações que Wilde, um intelectual de grande apuro técnico, trouxe para a dramaturgia moderna.

Burocracia e sociedade no Brasil colonial, de Stuart B. Schwartz (Tradução de Berilo Vargas)
Entre o fim do século XV e o começo do século XVI, a monarquia portuguesa passou a contar cada vez mais com a burocracia estatal para centralizar o poder, processo esse quase contemporâneo — e de alguma forma propulsor — da expansão ultramarina. Esse esforço pela construção de uma burocracia régia acabou por legar às colônias a herança de uma estrutura administrativa bem desenvolvida e de uma concepção curiosamente legalista do governo e da vida. Este livro (publicado originalmente nos anos 1970 e reeditado agora com nova tradução, apêndice documental inédito e nova introdução do autor) foi estudo pioneiro da burocracia colonial na América portuguesa, tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abordagem, que privilegiou as teias humanas que formavam a burocracia.

Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub
Rio de Janeiro, últimas décadas do século XIX. Adão Africano, Genuíno, Juvêncio, Bonifácio, Francelina, Maria de São Pedro — todos negros, vários escravos: esses são alguns dos personagens que, outrora esquecidos em meio à documentação dos arquivos, protagonizam este livro. Um trabalho de pesquisa minucioso e sensível permite a Sidney Chalhoub analisar os processos criminais e de obtenção de alforria em que esses negros estavam envolvidos, revelar seus desejos e interferências nas operações de compra e venda a que tinham de se submeter e, por fim, desvendar o papel que a cidade do Rio desempenhava em suas vidas. Recuperando aspectos da experiência dos escravos na Corte, seus modos de pensar e atuar sobre o mundo, Chalhoub mostra que as lutas entre diferentes visões de liberdade e cativeiro contribuíram para o processo que culminou com o fim da escravidão no Rio de Janeiro.

Histórias de mistério, de Lygia Fagundes Telles
Esta bela reunião de seus contos apresenta a escritora Lygia Fagundes Telles em alguns de seus aspectos mais importantes. Seus temas, aqui, são a ansiedade e a morte, assim como o desamparo diante da perda do amor. Ao mesmo tempo encontramos a surpresa, o inusitado surgindo sem aviso do cotidiano bem conhecido. É o que acontece, por exemplo, em “As formigas”, em que duas estudantes alugam um quarto no sótão de uma pensão e descobrem, abandonado pelo locatário mais recente, um caixotinho cheio de ossos. Assustadas, elas veem como noite após noite uma fileira maciça de formigas entra na caixa e, aparentemente, não sai. As formigas parecem ter uma missão. Nesse e nos outros contos deste livro, o leitor encontrará os temas e o clima que caracterizam os contos de Lygia Fagundes Telles, escritos na linguagem ao mesmo tempo delicada e incisiva de uma das maiores escritoras brasileiras de nosso tempo.

Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares)
Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui.

Meu filho pato (Organização de Ilan Brenman e Instituto 4 Estações; Ilustrações de Rafael Anton)
Nem sempre é fácil falar sobre a morte, mas vivemos o sentimento de perda desde a infância. Pensando na dificuldade que muitos adultos têm em falar com seus filhos sobre o tema, o escritor Ilan Brenman, autor de inúmeros livros de sucesso destinados ao público infantil, e a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, resolveram convidar seis escritores de renome (Angela-Lago, Índigo, Lalau, Flávia Lins, César Obeid e Roger Mello) para criar histórias para os pequenos sobre esse assunto. O resultado é um livro tão variado em estilos — há contos de humor, outros mais tristes, um mais psicodélico, cordel e poesia — quanto em conteúdo — muitas possibilidades para que as crianças possam falar sobre a morte e entendê-la como um fenômeno inerente à vida.

Forma e exegese & Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes
Este livro reúne Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher (1936), o segundo e o terceiro livro de Vinicius de Moraes, respectivamente. Forma e exegese foi publicado quando Vinicius tinha apenas 22 anos. Mas se o jovem poeta já chamara a atenção da crítica com seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), o segundo trouxe a consagração ao receber o prestigioso prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Ariana, a mulher é um único e longo poema que põe em cena, como num transbordamento, o mundo emotivo e existencial de um sujeito. O texto se inicia com o relógio “batendo soturnamente a Meia Noite” e termina com o mesmo relógio “parado sobre a Meia Noite”. É nesse mundo estagnado, morto, que o poeta clama por Ariana. Mas ela não é apenas uma mulher; como o título sugere, ela é a mulher. E é também a morte, a vida, a natureza.