simon winchester

Semana noventa e nove

Os lançamentos da semana são:

Editora Paralela:
  • Scarpetta, Patricia Cornwell (Tradução de Julia Romeu)
    Uma anã chamada Terri Bridges é estrangulada em seu apartamento em Manhattan e a polícia, após descobrir duas outras vítimas que morreram em circunstâncias parecidas, acredita estar lidando com um assassino em série. Oscar Bane, o namorado de Terri, é o principal suspeito, mas para cooperar ele faz uma exigência: ser examinado pela famosa médica-legista Kay Scarpetta. Após decidir se envolver no caso, Scarpetta deixa temporariamente seu laboratório de patologia forense e, quando finalmente chega a Nova York, Bane conta uma das histórias mais bizarras que ela já ouviu. Para piorar as coisas, detalhes da vida pessoal de Scarpetta vão parar na internet, graças a um site de fofocas escrito por um colunista perverso e misterioso. Scarpetta e sua velha equipe vão ter que deixar as mágoas para trás e decifrar dois enigmas: quem é o assassino de Terri Bridges e como um colunista virtual pode saber tanto sobre suas vidas.
Companhia das Letras:
  • História universal da infâmia, Jorge Luis Borges (Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
    Divertido e inteligente, o novo volume da Biblioteca Borges traz contos do começo da década de 1930 em que o autor de O Aleph coloca-se no lugar do leitor, criando contos inspirados por releituras de Stevenson, pela prosa de Marcel Schwob, pelos filmes iniciais de Josef von Sternberg, além da pintura, estimulado, quem sabe, por sua amizade com os pintores Xul Solar e Pedro Figari. Embora as histórias que compõem o volume tenham sido tiradas, em grande parte, de livros de outros autores, o trabalho abissal de reescrita é a novidade, complexa e de grande força expressiva. São obra de um leitor mais tenebroso e singular que os bons autores, como se anuncia num de seus dois prólogos notáveis.
  • Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills, Janet Malcolm (Tradução de Pedro Maia Soares)
    O caso em julgamento parece ser muito simples: tudo leva a crer que a médica Mazoltuv Borukhova, judia ortodoxa da seita bucarana, mandou matar o marido porque perdeu a guarda da filha na separação do casal. É o que pensam a família da vítima, os jornalistas, a promotoria e a opinião pública. E até mesmo o juiz, que espera uma solução rápida do caso para passar as férias no Caribe. Mas para o olhar agudo e perscrutador de Janet Malcolm nada é muito simples, nem exatamente o que parece. Aos poucos, ela desvela a complexidade dos fatos e das pessoas, aponta para fios que permanecem soltos, sugere motivações obscuras e põe em dúvida o sistema judiciário dos Estados Unidos. E a palavra final fica com o leitor perplexo.
  • Atlântico, Simon Winchester (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
    O Atlântico não é só o mar que deslumbra a perder de vista e cujas águas refrescam e restauram quem vai às praias brasileiras. Não é  só o berço da maior parte dos peixes e frutos do mar que fazem a alegria gastronômica de tanta gente. É também muito mais do que o gigante desconhecido que europeus enfrentaram  no século XV, quando encontraram o Novo Mundo com sua população tão múltipla e diversa. Escrever uma biografia não é tarefa trivial. Que dizer, então, da biografia de um oceano que cobre um quinto da superfície da Terra, tem 6400 quilômetros de largura máxima e uma profundidade média de quase quatro quilômetros, e cuja história percorre 190 milhões de anos? É uma missão para um jornalista com formação de geólogo, autor de mais de vinte livros e especialista em construir narrativas vibrantes, capazes de orquestrar uma infinidade de informações e histórias.
Companhia das Letrinhas:
  • Uma chapeuzinho vermelho, Marjolaine Leray (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
    A reinvenção de uma história clássica aguça a percepção das crianças de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista. No caso deste livro, a Chapeuzinho ingênua e inocente do conto tradicional se transforma numa garota corajosa e perspicaz, que engana um Lobo Mau incapaz de causar medo na menina. Tendo início na parte do conto em que o lobo está prestes a papar a garotinha, que então faz as clássicas perguntas a respeito daqueles olhos, orelhas e dentes tão grandes, esta versão da história tem um final inesperado, muito divertido. A inversão de papéis traz ao livro uma graça única, ao passo que o traço infantil das ilustrações materializam o tom sintético da narrativa.
  • As invenções de Ivo, Rogério Trentini (Ilustrações de Daniel Almeida)
    Uma das características mais marcantes entre as crianças é a imaginação. Seja para brincar ou entender o mundo, elas inventam seres e situações os mais inusitados. Ivo, o narrador deste livro, é o exemplo perfeito, passa o dia fantasiando. Como ele diz: “Às vezes estou sozinho/ e me ponho a imaginar./ Invento um mundo novo,/ é nele que vou brincar.”. Ele cria monstros horríveis e prédios enormes, máquinas de fazer planetas e palavras cabeludas, um amigo divertido e bichos comportados, e assim constrói este poema rimado, cheio de surpresas divertidas. As ilustrações coloridas e originais de Daniel Almeida dão forma às ideias malucas de Ivo, e convidam o leitor a fazer a sua parte: dar asas à imaginação, como o nosso Ivo.
  • Pequenos contos para sonhar, Mario Urbanet (Tradução de Eduardo Brandão)
    Quem não gosta de deitar a cabeça no travesseiro e viver as aventuras mais incríveis? Entre os contos deste livro, surgidos nos quatro cantos do mundo, há a história da mãe que, desesperada para recuperar o seu filho do ninho de uma ave, demora a perceber que pássaros e pessoas falam línguas diferentes; de Dalila que, fugindo do seu destino pressagiado pelo galo, acaba descobrindo o seu verdadeiro amor; de um ferreiro que atravessa o oceano em busca de um tesouro que aparecia em seus sonhos e depois vem a descobrir que a fortuna estava desde o início embaixo de seu nariz; do rapaz que, obstinado a ajudar as pessoas, não percebe que está diante da própria morte, entre tantas outras. Cada narrativa traz, ao seu final, uma lição em versos que, muitas vezes, vai de encontro às morais e ensinamentos difundidos na nossa cultura.

Freedom

Por Luiz Schwarcz

Cerulean warbler, o pássaro estampado na capa de Freedom.

Bem, para os que querem saber como me virei com os encontros simultâneos em Frankfurt, sobre os quais comentei no meu último post, a resposta é simples. Um luxo total: aluguei um carro com motorista, tive que pagar por uma taxa mínima de duas horas, e utilizei o transporte por 15 minutos. Saí correndo do encontro com a minha amiga (e agente da William Morris) Raffa, em que falamos mais sobre a filhinha dela do que de qualquer livro novo. O que mais me interessava nessa agência era uma grande reportagem sobre o oceano Atlântico, escrita por Simon Winchester, que já havíamos comprado nas vésperas da Feira. Terminado o encontro, lá fui eu, acompanhado pela Ana Paula*, devidamente choferados, para o coquetel em homenagem a Jonathan Franzen.

Por conta do sucesso de Freedom nos Estados Unidos, e por causa do folclore do lançamento na Inglaterra — onde milhares de erros tipográficos, motivados pela utilização de um arquivo errado, fizeram com que a edição fosse praticamente tirada do mercado, e ainda mais pelo fato do autor ter tido seus óculos arrancados do rosto em plena noite de autógrafos em Londres por dois gaiatos que deixaram um pedido de resgate (dos óculos!) de 100.000 dólares, tendo sido perseguidos por helicópteros da polícia e presos —, Franzen era das grandes estrelas da festa.

No carro, super ocupado com meus afazeres relativos à orquestra sinfônica de São Paulo, esqueci de avisar a Ana Paula que, na noite anterior, num jantar da editora de Franzen, ouvi de seu editor americano, Jonathan Galassi, o seguinte: “Luiz, ainda não convide Franzen para ir ao Brasil. Ele está super requisitado aqui em Frankfurt e vai negar. Em dezembro, quando você estiver em Nova York, faço um jantar para vocês e aí o convidamos. Eu até, quem sabe, gostaria de ir junto”.

Ao chegar no bar, levemente atrasados, eu ainda tinha o celular colado à orelha, quando vi a Ana dirigir-se ao autor e, sem mais delongas, dizer: “Nice to meet you, mister Franzen, we are your brazilian publishers and we want to invite you, once more, to come to Brazil, for the launching of Freedom”.

Ela não poderia ter sido mais direta. Só tive tempo de desligar o telefone, colocar uma mão na cabeça e replicar: “But only if you want to, don’t worry, we can speak about it later…bla bla bla”.

Franzen não se importou com a abordagem direta da Ana, e, sorrindo, comentou que mais duas pessoas da editora já o haviam convidado: a editora Maria Emília, que chegara antes de nós, e que também não fora alertada por mim, e a Joana Fernandes, responsável pelo marketing, e que em Nova York, duas semanas antes, havia se postado numa fila de autógrafos só para poder dizer: “Mister Franzen, I work at your Brazilian publishing house, please come to Brazil!”. Deu certo, elas conseguiram convencer o jovem e badalado autor, e quem sabe Liberdade será lançado por aqui em grande estilo. Espero…

Fiquei apenas dez minutos na festa de lançamento de Freedom. Como escrevi na semana passada, tinha que chegar ao jantar da editora Hanser cedo, para sentar-me com David Grossman. Antes disso, fiquei outros 5 minutos no coquetel da editora Shangai 99; tempo suficiente para pedir desculpas, marcar outro encontro e seguir para a sala ao lado, a fim de grudar no meu querido amigo israelense. O Frankfurter Hof possui um pavilhão só com salas para recepções, que comporta todos esses eventos simultâneos.

O jantar foi o que de mais bacana me aconteceu em Frankfurt neste ano. Além dele, algumas contratações importantes e a leitura confidencial das primeiras cem páginas das memórias de Salman Rushdie sobre o período da Fatwa tomaram o resto dos meus dias. Sobre o novo livro de Rushdie, o jantar e minha amizade com Grossman, pretendo escrever mais, logo mais.

*Ana Paula Hisayama trabalha na Companhia das Letras e é responsável por negociar os direitos de obras publicadas no exterior.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.