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Papéis coloridos

Por Socorro Acioli

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Meu primeiro emprego foi como vendedora de uma pequena livraria em Fortaleza, aos dezenove anos, e eu poderia contar inúmeras histórias que me aconteceram nesse período. Da mulher que me pedia para escrever dedicatórias de um fictício amante apaixonado ao rapaz que ia diariamente me pedir que lhe contasse das minhas leituras e que acabou casando comigo. Da presença de Rachel de Queiroz no lançamento do seu livro de memórias Tantos anos às performances do poeta pernambucano Miró, que lotava a livraria em todos os seus eventos.

Nos meus primeiros dias de trabalho, eu praticamente só vendia dois livros: O mundo de Sofia e O Xangô de Baker Street. Eles vinham da Companhia das Letras, uma editora que eu não conhecia ainda, mas que me conquistou de cara e me ajudou muito no começo.

Primeiro, porque a venda inacreditável dos livros mencionados acima melhorou consideravelmente a minha comissão. Segundo porque eu não tinha tempo de ler tudo e precisava de informações para indicar as novidades para os clientes. Então a Companhia mandava resenhas dos livros em papéis coloridos, vários tons de todas as cores. Eu guardava um por um no colecionador de plástico que eu levei de casa. Até que não coube mais nada e eu tive a ideia de encadernar e deixar na mesa de leitura da livraria.

Foi um sucesso. Alguns clientes sentavam para ler o Caderno de Resenhas da Companhia das Letras. Escolhiam os livros e faziam encomendas. Eu morria de ciúmes. Se alguém sentasse à mesa e ignorasse meu precioso caderno de resenhas, eu pedia licença e o retirava de lá, com medo de alguma avaria.

Quando a livraria fechou, o caderno foi doado à artista plástica Alba Alves, maior fã da Companhia que passou por ali. Lemos na mesma época o Momentos do livro no Brasil e conversávamos sobre o papel da editora na história do livro. Ela mereceu herdar o volume.

Deixei o trabalho para voltar à faculdade de jornalismo. Quase no final do curso, o escritor Lira Neto, então editor da Fundação Demócrito Rocha, convidou-me para escrever um dos ensaios biográficos da saudosa coleção Terra Bárbara. Uma semana antes, eu estive com Frei Betto, que lamentava a falta de uma biografia sobre o frade cearense Frei Tito de Alencar.  Aceitei o desafio e publiquei o livro Frei Tito em 2001.

Depois do Frei Tito, segui a carreira de escritora e alimentei secretamente, pouco a pouco, o desejo de publicar pela Companhia das Letras.

Enfim, chegou a minha vez. Levado pelas mãos da minha agente Lúcia Riff, em 2014, meu romance A cabeça do Santo foi publicado pela Companhia. A capa amarela escolhida pela designer Elisa Von Randow me fez lembrar dos papéis coloridos que eu guardava como tesouro aos dezenove anos, trabalhando na livraria.

É pela lembrança tão nítida desses dias que cometo o pecado da pieguice na hora de falar da minha relação com a Companhia das Letras. Tenho dois livros na casa, mais dois por vir em breve e vários planos para o futuro. Minhas editoras são minhas amigas, bem como todos os que cuidam de várias etapas de edição e divulgação dos meus livros.

Não passo por São Paulo sem visitar a casa e tenho um orgulho imenso de ser parte da comemoração dos trinta anos da Companhia das Letras, de maneiras diferentes, desde 1994. Toda pieguice será perdoada. É tudo sonho e narrativa.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

A primeira vez que falei Esperanto

Por Socorro Acioli

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Socorro Acioli, autora de A cabeça do santo A bailarina fantasma, é a convidada de hoje e conta aos leitores como aprendeu a falar Esperanto.

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Logo que começamos a namorar, meu marido matriculou-se em um curso de Esperanto. Estava empolgadíssimo. Nossos primeiros dias de amor eram preenchidos por longos momentos de explicações sobre a ideia de uma língua internacional. Ele me contava que o criador do Esperanto, o Dr. Zamenhof, inventou um sistema linguístico congregando elementos de vários idiomas, uma fascinante gramática sem exceções, fácil de aprender.

Não demorou para que ele encontrasse um grupo de esperantistas ainda mais empolgados. É a língua da paz e da união dos povos, eles diziam. Planejavam um congresso regional, outro nacional e um grande evento internacional. A esperança de um mundo sem guerras estava na implementação do Esperanto como língua de comunicação intercultural — diziam eles, com veias saltadas no pescoço, na testa, braços para o alto, gesticulando com fervor.

De estudante, meu marido virou professor de Esperanto, e o envolvimento com o projeto esperantista aumentava descontroladamente. A coisa ficava cada dia mais séria. Eu não conseguia acompanhar tamanho entusiasmo e meu marido percebia, é claro, minha participação apática nos eventos da estrela verde.

Mas ele foi esperto quando me disse, um dia, que estava interessado em ir ao Congresso Internacional de Esperanto, em Tel Aviv, mas que só iríamos se eu aprendesse o idioma até lá. Aí sim, ele falou minha língua. Até porque a organização do evento oferecia uma excursão antes do congresso que passava por Jerusalém e eu tinha loucura para conhecer aquele lugar.

Foram alguns meses de empenho para aprender Esperanto até chegarmos ao hotel em Tel Aviv e encontrarmos o grupo da nossa excursão. Eram senhores e senhoras da África do Sul, da Espanha, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da França, da Itália e do Japão e, dentre eles, o mais jovem deveria ter cerca de setenta e cinco anos. Todos falando somente Esperanto — menos eu, que até então estava muda.

Na véspera da visita ao Lago Tiberíades, o guia convocou uma reunião para decidirmos se encurtaríamos o passeio para almoçar em um restaurante arrumadinho ou se aproveitaríamos um pouco mais, porém comendo um falafel em um restaurante caseiro no meio da estrada.

Quando dei por mim, eu estava  explicando que seria muito melhor comer o falafel, é óbvio, a coisa mais deliciosa do Oriente Médio, aquele pão maravilhoso cheio de salada e bolinhos de grão de bico. Uma das coisas que eu mais queria provar na viagem era o tal falafel, não poderia perder a oportunidade. Argumentei gesticulando, dilatando as veias do pescoço e falando Esperanto. Nem eu acreditei, segundos depois. Parecia possuída pelo fervor da estrela verde. Meu marido marejou, orgulhosíssimo. Em nome de um falafel, eu finalmente honrava a língua do Dr. Zamenhof.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

Semana duzentos e sessenta e sete

Sombras de reis barbudos, José J. Veiga
Publicado pela primeira vez em 1972,Sombras de reis barbudos foi tido como alegoria do regime militar brasileiro, ao contar a história de uma cidade que recebe a Companhia Melhoramentos de Taitara, símbolo da modernidade. Aos poucos, porém, a empresa impõe uma rotina tirânica aos moradores. Embora tenham influência do realismo mágico, seus livros não se encaixam nessa vertente; exploram o universo infantojuvenil, mas vão além do romance de formação. O leitor pode agora atestar por si só por que José J. Veiga é considerado um dos melhores autores brasileiros do século XX.

Claro Enigma

Se liga no som, Ricardo Tepeman
Não há como falar sobre o rap sem associá-lo ao racismo e à desigualdade social. Assim como nos Estados Unidos, os rappers brasileiros saíram dos bairros periféricos para se projetarem no cenário musical. Com posições de enfrentamento, outras mais apaziguadoras, questões caras sobre a sociedade brasileira emergem na produção artística desses jovens músicos. A ambiguidade do poder público em relação às batalhas de rua, o posicionamento dos rappers no mercado musical, a adesão da indústria fonográfica e de artistas consagrados são alguns dos temas tratados neste livro, que, longe de trazer respostas definitivas, propõe, a partir de uma introdução da história do rap, provocar, questionar, levantar dúvidas sobre essa nova e, acima de tudo, estimulante forma de fazer música.

Nos caminhos do barroco – Roteiros visuais do Brasil, Alberto Martins e Glória Kok
Poucas vezes um livro sobre arte atingiu um equilíbrio tão harmonioso entre clareza narrativa, simplicidade e erudição. Neste segundo volume da Coleção Roteiros Visuais no Brasil, Glória Kok e Alberto Martins fazem uma instigante incursão pelo período Barroco, guiando o leitor desde os primórdios do movimento até a sua consolidação como identidade nacional. Se a arte é em grande medida feita de forma, luz e movimento, entender o Barroco é saber como os artistas se apropriaram dessas ferramentas para criar a sua identidade. Ainda que instintivamente todos saibam sobre a arte barroca – seja pelo legado das cidades históricas como Tiradentes e Ouro Preto, seja pela figura do mestre Aleijadinho e suas igrejas, ou ainda pelos versos ácidos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, que disparavam críticas contra todas as classes sociais -, este é um livro essencial para quem deseja conhecer um período importante da história da arte no Brasil.

Seguinte

A bailarina fantasma – Anabela em quatro atos, Socorro Acioli
Anabela mal podia conter a empolgação quando seu pai foi o arquiteto escolhido para coordenar uma obra no Theatro José de Alencar, em Fortaleza. A proposta era que aquela casa de espetáculos maravilhosa mantivesse as mesmas características de quando foi inaugurada há mais de um século, em 1910. Em pouco tempo vira rotina para Anabela passar as tardes naquele teatro antigo fazendo a lição de casa enquanto o pai trabalha. Mas essa reforma acaba desenterrando mistérios escondidos há muitos e muitos anos… Para a surpresa de Anabela, uma bailarina translúcida e vestida de azul aparece dançando no palco e passeando pelos corredores, perseguindo Anabela. O que será que ela está fazendo ali? E por que será que apenas a garota consegue enxergá-la? Quem é essa bailarina e por que ela aparece?

Companhia das Letrinhas

Cartas Lunares, Rui de Oliveira
Um astrônomo solitário descobre uma nova pequena estrela; um exímio cantor tenta convencer a tecla favorita do seu pianoforte a não lhe abandonar; uma princesa ajuda três amigos – a Chuva, o Raio e o Trovão – a encontrar trabalho; um rei sem castelo conhece uma semente cantora; um grande astrônomo prevê a passagem de um cometa, que não chega. Nesta nova edição de Cartas Lunares, o premiado ilustrador Rui de Oliveira acrescenta uma quinta história para completar este conjunto lunar. São contos líricos, sobre a amizade e o amor, escritos e ilustrados com uma delicadeza ímpar.

Alfaguara

O elefante e a porquinha: Elefantes não dançam!, Mo Willems
O elefante Geraldo está convencido de não sabe dançar. Então a Porquinha, que é sua melhor amiga, resolve ajudá-lo. Juntos, eles ensaiam vários passos. E quando parece que Geraldo realmente não conseguirá acompanhar as instruções da Porquinha, algo surpreendente acontece…Quem disse mesmo que elefantes não sabem dançar?

Quatro dias para Manoel

Por Socorro Acioli

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Semana passada, recebi uma carta de remetente desconhecido. Uma missiva manuscrita, como nos velhos tempos. Doze páginas de papel almaço em caligrafia calma, impecável, desenhada, sem perder a força do traço até o fim.

A carta veio da Penitenciária Nestor Canoa, em Mirandópolis, São Paulo e chegou à minha casa, em Fortaleza. Foi escrita por um detento, que chamarei aqui de Manoel, inspirado pela leitura do livro A cabeça do santo. Ele reescreveu todo o enredo do romance em versos rimados, com direito às suas próprias interpretações e realces, à sua maneira, dos trechos preferidos.

Quem encaminhou a correspondência foi a Maria Queiroz, do Núcleo de Incentivo à Leitura da Companhia das Letras. Ela e a Janine Durand me explicaram melhor o projeto que serviu de ponte entre livro e leitor.

O Manoel faz parte do Programa de Incubação de Clubes de Leitura em oito unidades prisionais do estado de São Paulo, fruto da parceria entre a Companhia das Letras e FUNAP. Foram selecionados oito títulos do catálogo da editora: A arte de ouvir o coração (Jan-Philipp Sendker), A cabeça do santo (Socorro Acioli), Cada homem é uma raça (Mia Couto), Dois irmãos (Milton Hatoum), Estrela amarela (Jennifer Roy), Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino), Persépolis (Marjane Satrapi) e Sociedade da neve (Pablo Vierci). Em cada uma das oito unidades prisionais, foram formados grupos de vinte detentos, que têm trinta dias para ler cada livro, com a ajuda de um mediador orientado pela editora. Ao fim do prazo, eles têm que apresentar uma resenha, a ser avaliada pela equipe de voluntários da Companhia e encaminhada à FUNAP e ao juiz regional para que seja concedida a remição de pena. Se tudo der certo, a cada livro lido o detento terá até quatro dias a menos no total da sua pena. Quatro dias de liberdade em troca de trinta dias de literatura.

De tudo o que aconteceu desde o lançamento de A cabeça do santo, em fevereiro de 2014, receber a carta do Manoel foi a experiência que me causou mais impacto. Esse livro, que fala do pedaço de Brasil de onde eu venho, das pessoas do Nordeste e suas desesperanças, ultrapassou uma barreira que eu nunca imaginei. Fui tomada pela imensa alegria de constatar que a literatura e seus percursos podem e devem ser um processo coletivo. Não somos mais só eu, minha ficção e a teia sufocante da vaidade, guerra de egos, números e disputas que esgota o autor contemporâneo. Sempre busquei um sentido além disso tudo para o que faço e ele chegou dessa vez na caligrafia do Manoel. A cabeça do santo, agora, faz parte de um projeto muito maior, de mãos dadas com outros escritores que admiro tanto e isso renovou minhas esperanças no poder da palavra.

Não consigo parar de pensar nos quatro dias de liberdade de Manoel, na grande alegria de fazer parte disso. Desejo que sejam horas bonitas, que ele enxergue beleza onde não via antes. Que ele lembre dos trechos dos livros que leu, que os personagens o acompanhem. Que o mundo pareça menos cinza e menos cruel do que tem sido. Que ele encontre esperança e, sobretudo, força. E que não se esqueça nunca do quanto a literatura pode fazer por ele e por todos nós.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lança nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

Booktubers

Por Socorro Acioli

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Há alguns anos acompanho o fenômeno dos booktubers — leitores que criam canais no YouTube para postar vídeos sobre livros. A proposta é simples: eles sentam diante da câmera e conversam informalmente com a audiência sobre impressões de leitura. São vídeos opinativos, em sua maioria, e que não pretendem fazer o papel de critica literária especializada. Ao contrario, muitos costumam reforçar que são apenas leitores e que fazem o canal por diversão, nada mais.

Sempre que vejo esses canais, penso no Sr. Hans Robert Jauss, que no dia 13 de abril de 1967 proferiu sua famosa conferência na Universidade de Constanz, “A história da literatura como provocação à teoria literária”.

Jauss propôs uma mudança de enfoque na arte e na literatura e nascia ali a Estética da Recepção em seu berço alemão, difundida e ampliada por vários pesquisadores na mesma universidade e por outros países.

O enfoque de Jauss era pesquisar e atentar não só para o autor e texto, mas sim para o que ele chamou de “terceiro estado”: o leitor. Nas suas famosas sete teses, ele provoca a abertura de uma nova vereda de pesquisa sobre como a leitura é recebida pelo público, como modifica sua existência. Os frutos das investigações que abraçaram a Estética da Recepção no mundo são inúmeros.

Fico imaginando o quanto o Sr. Jauss gostaria de viver um dos movimentos mais positivos da internet. Acompanhando os canais dos booktubers nacionais temos um retrato da leitura do jovem brasileiro. Um retrato recortado, é claro. Estamos falando de um grupo grande de pessoas com boa escolaridade, acesso à compra ou empréstimo de livros, de faixa etária mais ou menos homogênea e com poder aquisitivo razoável. Ainda não é um espectro amplo, mas uma fonte impressionante de informações.

Os booktubers costumam contar o motivo da escolha de cada livro, a forma de aquisição, tempo de leitura, além de opinar sem reservas sobre o texto, capa, projeto gráfico. Descobri, por exemplo, o hábito de comprar vários livros iguais porque a editora lançou uma capa mais bonita. Os gêneros preferidos de cada canal pode variar muito. O grupo mais jovem foca nos livros Young Adults, mas existem booktubers que determinam metas de ler e reler clássicos, ou autores nacionais, ou só mulheres. Os canais conversam entre si e criam as famosas tags, que são roteiros pré-estabelecidos para os vídeos. E maratonas, desafios, encontros ao vivo, clubes de leitura, participações de um nos canais dos outros e outros tipos de parcerias, formando uma forte rede de leitura.

Quanto ao estilo, existem os seríssimos, os engraçadinhos, os que resumem os livros, os que arriscam uma análise mais profunda, os organizados, os caóticos e os chatos, é claro. A qualidade técnica, de vídeo e edição, também varia muito. É difícil listar os melhores, porque certamente você vai gostar mais daqueles que escolhem livros parecidos com as suas leituras.

O fato é que o movimento dos booktubers é um material precioso para quem tem interesse na literatura e nas diversas facetas do mundo editorial sob o ponto de vista de quem compra e lê muito. Nesse momento confuso, quando o mercado precisa se reinventar, nada mais importante do que ouvir os leitores reais. Atentamente. Canal por canal. Sem preconceitos, sem torcer o nariz para uma bobagem ou outra que escapa de vez em quando, sem pose. Afinal de contas, livros precisam de leitores. Eles estão falando e vale a pena parar e escutar.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu(editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santo.
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