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Silviano Santiago, 80 anos

Por Sofia Mariutti

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Hoje celebramos o aniversário de oitenta anos de um dos maiores pensadores brasileiros em atividade. Quando a tarefa é traçar sua biografia, todas as orelhas de livro e páginas de livrarias virtuais ficam pequenas. Mas hoje podemos nos permitir ultrapassar os limites de toques tão caros aos editores para homenageá-lo.

Silviano Santiago nasceu em Formiga, em Minas Gerais, em 1936, e vive hoje no Rio de Janeiro. Sua adolescência em Belo Horizonte é magistralmente retratada no livro Mil rosas roubadas, que conta a  amizade excepcional do narrador com Zeca, influente jornalista cultural. O roman à clef, lançado em 2014, foi o vencedor do Prêmio Oceanos em 2015.

Pela sua vasta produção escrita que inclui poemas, ensaios filosóficos, crítica literária, traduções, romances e contos, o autor já havia sido premiado três vezes com o Jabuti, recebido o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o José Donoso, do Chile, pelo conjunto da obra, além de ter sido condecorado pelo governo da França como Chevalier e pelo MinC com a medalha de Comendador.

As condecorações não param por aí. Bacharel em Letras Neolatinas pela UFMG e Doutor em Letras pela Université de Paris — Sorbonne em 1968, Silviano foi professor visitante e pesquisador em diversas instituições norte-americanas como Stanford, Yale e Princeton e na Universidade de Toronto, no Canadá. Foi também professor da PUC do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, onde, após a aposentadoria, recebeu o título de Professor Emérito. É, ainda, Doutor Honoris Causa pela Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación do Chile e pela Universidad Tres de Febrero, na Argentina.

Seus primeiros livros de crítica literária foram lançados nos anos 1970, e em 1988 a Companhia, então recém-inaugurada, publicava Nas malhas da letra, com reflexões até hoje acuradas e originais sobre a literatura modernista e pós-1964. Passados quase trinta anos, hoje ele ainda é referência quando se trata de discorrer sobre Carlos Drummond de Andrade, seu conhecido pessoal, na conferência de abertura da 10a Flip, pensar criticamente a obra de artistas contemporâneos como Adriana Varejão ou refletir sobre a morte e as biografias em ensaio filosófico para a revista Serrote.

Silviano é um pensador à l’ancienne, corajoso e inovador, que não tem receio de fazer críticas ferinas e trazer dissonância para o centro do debate da arte contemporânea. Um dos maiores méritos desse acadêmico e ensaísta de trajetória brilhante, contudo, é desdobrar os temas centrais de sua produção crítica em uma produção ficcional inovadora, pós-moderna, que dissolve as fronteiras entre os gêneros da ficção e não ficção (biografia, ensaio, romance). Como traço de sua ousadia, impossível deixar de lado a homoafetividade como tema recorrente de suas obras, presente em livros como Stella Manhattan (1985), Keith Jarrett no Blue Note (1996) e o próprio Mil rosas roubadas.

No ano em que festeja os oitenta anos, Silviano oferecerá a seus leitores o melhor presente imaginável. Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, com Em liberdade (1981) e Viagem ao México (1993), o mineiro recria os últimos e dolorosos anos da vida de Machado de Assis, a partir de uma perspectiva totalmente original e audaciosa.

Nascido em 1839 na Corte Imperial, no romance de Silviano o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas é um viúvo solitário que sofre dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização do Rio de Janeiro, no começo do século XX. As mudanças são muitas; a Monarquia deu lugar à República e a escravidão, ao trabalho livre; o poder se deslocou de Petrópolis, onde viviam a família real e outras famílias aristocráticas, ao Alto da Tijuca, bairro central que podem frequentar todos os cariocas.

Em um tempo em que as consultas médicas se dão nas farmácias, Machado encontrará em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, um precioso interlocutor, que também sofre  crises nervosas terríveis e o encaminhará ao Dr. Miguel Couto.

Como se relacionava o autor do célebre conto “A causa secreta”, com a literatura médica das bulas de remédio? O que está por trás da sua obsessão por personagens viúvas e dissimuladas, como Fidélia e Capitu?

Qual será a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação?

Com extensa pesquisa, Silviano resgata aspectos biográficos da vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos e os costura numa narrativa substanciosa que lança nova luz sobre a vida e a obra de Machado de Assis.

Enquanto não chega Machado, deixamos vocês com a capa e um trecho inédito do romance.

Parabéns, Silviano!

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machado

“Machado de Assis tem na biblioteca tudo o que Gustave Flaubert e Stendhal publicaram no século XIX. Admira Stendhal por seu gosto pelas mulheres fascinantes e pelo desejo de abraçá-las e beijá-las em todo escrito literário. Quer amar a cada uma delas e a todas, satisfatoriamente. Suas vitórias (por ter a cabeça entulhada de coisas militares, é assim que Stendhal denomina as conquistas amorosas) não lhe proporcionam o prazer total; é tão pouco intensa a sensação do gozo amoroso que ele não chega à metade da profunda infelicidade que lhe trazem suas derrotas. Machado gosta da dura metáfora militar, escolhida por Stendhal para assimilar e explicar a delicadeza da carência afetiva masculina. Vitórias e derrotas. Elas cavam um sutil buraco na escrita literária de Stendhal, à espera do dia em que o sentimento incomensurável do gozo sexual aberto e pleno o preencha e, de modo inequívoco, proclame ao mundo o amor.

Quando a carência sentimental e a busca da plenitude no amor são sentidas no próprio coração, Machado caminha até a estante do escritório e apanha ao acaso um dos muitíssimos livros de Stendhal que guarda na biblioteca e começa a relê-lo sentado na poltrona da sala de visitas.

Stendhal na colina do Janículo.

Ele imagina escrever suas memórias na manhã do dia 16 de outubro de 1832, quando visita a igreja de São Pedro em Montório, erigida no local onde permaneciam as ruínas de antiga igreja romana do século IX. Machado lê as memórias alheias. A seus olhos cariocas, acostumados à imagem da baía de Guanabara vista do morro do Castelo, estende-se toda a Roma antiga e moderna. Da Via Ápia, que desde sempre se conserva com as ruínas dos seus túmulos e aquedutos, até os magníficos Jardins da Villa Borghese, construídos pelos franceses. Um sol esplendoroso brilha nos céus. Mal sente a brisa do siroco africano que, ao soprar amena, leva as nuvenzinhas brancas que coroam o monte Albano a flutuar nos céus. Um calor delicioso reina nos ares.

Está feliz por viver.”

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Sofia Mariutti foi editora na Companhia das Letras e trabalhou na edição dos livros de Silviano Santiago.

WALY ESTÁ AQUI

Por Sofia Mariutti

(Capa por Elisa von Randow)

Há quem conheça Waly Salomão como o letrista que compôs canções em parceria com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Itamar Assumpção e Adriana Calcanhoto, para só citar meia dúzia de artistas.

Há quem o conheça como aquele que escreveu os versos “Oh, sim/ eu estou tão cansado/ mas não pra dizer/ que não acredito mais em você”.

Há quem conheça Waly como o diretor de um espetáculo que marcou a história da música brasileira: FA-TAL ― GAL A TODO VAPOR.

Há quem o conheça como interlocutor de Hélio Oiticica e Lina Bo Bardi, criador dos poemas visuais Babilaques, “admiráveis obras de arte” nas palavras de Antonio Cícero.

Há ainda quem o conheça por ter sido homem público, Diretor da Fundação Gregório de Matos de Salvador e Coordenador do carnaval da Bahia, que ele procurou transformar, apoiando blocos afros como Ilê Ayê e Olodum.

Há quem o conheça como Waly Sailormoon, espécie de entidade poética ou alter-ego desse artista múltiplo.

E há quem o conheça como um poeta extremo, radical, que sempre buscou a inovação em suas obras, rompendo as fronteiras entre a poesia e todas essas artes que ele conhecia muito bem.

Para todos esses, e também para aqueles que estão abertos a conhecer uma das figuras mais fecundas e heterogêneas da cultura brasileira recente, a Companhia das Letras tem o orgulho e a alegria de anunciar que WALY ESTÁ AQUI.

Me segura qu’eu vou dar um troço, Gigolô de bibelôs, Algaravias, Lábia, Tarifa de embarque e Pescados vivos: o poeta total reunido pela primeira vez num só volume, que conta ainda com uma seção de canções inéditas em livro e um apêndice com os mais relevantes textos críticos sobre sua obra.

Poesia total fica pronto no começo de maio. Por ora deixamos um gostinho para vocês:

Ars Poética

Operação limpeza

Assi me tem repartido extremos, que não entendo…
Sá de Miranda

I. SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.

II. Súbito
Sub-reptícia sucurijuba
A reprimida resplandece
Se meta-formoseia
Se mata
O q parecia pau de braúna
Quiçá pedra de breu
Quiçá pedra de breu
                              CINTILA
Re-nova cobra rompe o ovo
De casca velha
                              SIBILA

III. SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

Morte e vida de editora

Por Sofia Mariutti

最後の歌がもうおわった

No nosso catálogo tem um livrinho juvenil pra lá de simpático chamado O livro selvagem, do mexicano Juan Villoro. Talvez eu não parasse para lê-lo se não fosse o clube de leitura da Penitenciária Feminina de Sant’Anna, de que a Vanessa sempre fala aqui no blog e do qual eu participo como mediadora há pouco mais de um ano.

No fim do nosso último encontro, a Luciana [nome fictício], que trabalha na biblioteca da penitenciária e está saindo para o regime semiaberto depois de ter cumprido uma longa pena, disse que o bom do clube de leitura é que a gente parte da leitura de um livro e sai da conversa com dez livros diferentes. Acho que é bem isso, ela resumiu a experiência do clube de leitura.

Ainda bem que as meninas da penitenciária me fizeram ler (dez vezes) o Juan Villoro. É uma narrativa toda cheia de peripécias, magia e metalinguagem, que sempre me lembra meus tempos de menina assistindo ao Castelo Rá Tim Bum.

A uma dada altura, o Juan Villoro diz que não somos nós que escolhemos os livros, são os livros que nos escolhem. O que me fez pensar no começo do meu trabalho como editora, quando só caía na minha mão livro sobre a morte. No mesmo semestre, editei As virgens suicidas, do Eugenides, A morte do inimigo, do Hans Keilson, e A morte do pai, do Knausgard. Pode ser que em certa medida todo livro adulto fale sobre a morte, mas esses livros são mortes, especialmente os dois últimos.

A morte define o Keilson, começando por sua biografia: ele só foi reconhecido como escritor aos noventa e oito anos, pouco antes de morrer. Isso porque ele deixou sua identidade de escritor na Alemanha junto com todo o resto, quando fugiu do nazismo e imigrou para a Holanda. Lá, ele se tornaria psiquiatra de crianças traumatizadas no pós-guerra, e os romances que ele publicou em terras germânicas no começo do século, logo proibidos pelas leis de Nuremberg, ficariam esquecidos por um longo tempo, até que fossem redescobertos no século XXI por um editor americano, e ganhassem o devido buzz literário pelo mundo todo.

Nesse livro de Keilson, a morte também é central, como revela o título. O narrador é um judeu obcecado por seu inimigo, Hitler, e pela ideia de sua morte. Embora reconheçamos imediatamente do que se trata, o narrador nunca é chamado de judeu, o espaço nunca é chamado de Alemanha, o ano de 1942 nunca é mencionado e Hitler é sempre B, de modo que a narrativa acaba servindo de parábola universal para qualquer relação entre opressor e oprimido.

Num momento avançado da trama, e em uma das cenas mais arrepiantes que já li, o protagonista está tão empenhado em se aproximar de seu inimigo que acaba participando de uma incursão de ativistas do partido nazi por um cemitério judaico, durante a noite. Tumbas são reviradas, quebradas. A barbárie extrema: violência contra os mortos. E o judeu ali, cúmplice.

Bem, depois veio A morte do pai, do norueguês Knausgard, de quem já falei aqui no blog. O romance autobiográfico começa com um mergulho profundo em um corpo humano recém-destituído da vida para voltar, nas páginas finais, a uma descrição minuciosa dos últimos dias de um pai alcóolatra que bebeu até morrer.

Essa história de que os livros escolhem a gente, do Villoro, faz todo o sentido — esses livros parecem ter vindo para selar uma fase bastante melancólica da minha vida.

E agora, eis que depois de Vida, do Leminski, me vi editando Vida querida, da Alice Munro. Livros muito inspiradores, sopros de vida que me escolheram.

Que venha mais vida em 2014!

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Sofia Mariutti

Há quanto tempo trabalha na editora? Fiz um estágio em 2005 com a Renata Megale, na imprensa, outro em 2008 com a Ana Paula, de direitos estrangeiros, e voltei de vez em 2011. Ao todo três anos e meio.

Função: Em 2012, comecei a trabalhar no editorial, como assistente da mestre-mãe-de-todos Maria Emília, e aqui estou. Normalmente, editamos ficção estrangeira, às vezes também ensaios de romancistas, e por sorte/ afinidade a poesia completa do Leminski caiu nas minhas mãos (e estará em fevereiro nas livrarias). No dia a dia, leio originais, e, se forem bons, ajudo a transformá-los em livros: mando o material para os tradutores, discuto questões de tradução, falo com os preparadores, com o pessoal da produção, ajudo a pensar a capa, o título, o que entra na quarta, na orelha, depois converso com o pessoal de vendas, com os livreiros… enfim, acompanho o percurso todo do livro, de ideia a objeto.

Um livro: No momento, só consigo pensar no romance A morte do inimigo, do Hans Keilson, que sai em janeiro. Das melhores coisas que li nos últimos tempos.

Uma citação ou passagem de livro:

S. O. S.

não houve sim que eu dissesse
que não fosse o começo
de um esse o esse

Toda poesia, de Paulo Leminski, que será lançado em fevereiro.

Uma história que você se lembre da editora: Outro dia estava passando pela produção e me disseram que os leitores andavam reclamando de um erro no livro Ficando longe do fato de estar meio que longe de tudo, do David Foster Wallace: queriam devolver o exemplar, o dinheiro de volta. Fui conferir, na reportagem do navio, “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer”, o tal trecho polêmico, que termina do nada, depois das palavras: “por causa da”. O mesmo acontece no original, “because of” e  depois necas, nem ponto nem vírgula nem palavra alguma, uma suspensão que deixa o leitor completamente órfão. Depois desse pequeno acontecimento entendi como as inventividades de um autor podem ir longe na provocação ao leitor, incomodá-lo, enfim, movimentá-lo.

Sorte de principiante

Por Sofia Mariutti


Capa por warrakloureiro. Foto de Ali Smith por Sarah Wood.

Somando idas e vindas por alguns departamentos da editora, intercaladas com um ano de estudos em Berlim, trabalho há uns bons três anos na Companhia, mas só em 2012 entrei em contato com o tão almejado ofício editorial. Se bem que o anterior (e não menos interessante) posto nos direitos estrangeiros já envolvia atividades que, em geral, são atribuídas aos editores, como a leitura e seleção de originais, seguidas da negociação dos direitos de tradução para a língua portuguesa.

Ainda assim, a natureza dos trabalhos é bem diversa. Com a Ana Paula, aprendi o dinamismo: sim, é possível (e necessário) fazer vinte coisas ao mesmo tempo, sem abrir mão da qualidade; praticar o desapego e deixar de lado as obras que não têm grandes chances, partindo logo para outras leituras; esquecer de um dia para o outro aquele livro que você tanto queria, mas infelizmente não vai ser editado pela Companhia das Letras.

Tudo isso, confesso, me causava certo sofrimento. Se antes de trabalhar na editora eu já me angustiava com a imensidão de livros por ler numa vida tão curta, esse cargo escancarava minha própria insignificância, proporcional à abundante remessa da produção contemporânea do mundo todo. Posso afirmar com conhecimento de causa: domar o volume de material de leitura que chega todos os dias ao nosso departamento de direitos estrangeiros é tarefa sobre-humana.

Também sentia falta de um contato mais minucioso com o texto. Sempre gostei de ler e reler passagens, atenta a cada detalhe. Poderia passar dias em busca de uma palavra até encontrar a melhor tradução. E é essa ourivesaria que tenho tido a felicidade de aprender com a mestre Maria Emília desde o começo do ano.

Impossível ter sido melhor recebida, na minha primeira semana no editorial: os contos da Ali Smith, traduzidos pelo Caetano Galindo, tinham acabado de voltar da preparação da Ana Cecília Água de Mello e a Maria Emília sugeriu que eu os lesse, simplesmente, observando as emendas da preparadora. O que se seguiu, eu não poderia imaginar: ainda com um computador provisório e todo o meu material no antigo posto de trabalho, logo me vi às gargalhadas, incapaz de me conter, numa sala cheia de gente trabalhando. Aqueles contos tão surpreendentes, graciosos e requintados me conquistaram de cara.

Foi inevitável adotá-los como filhos, preocupar-me com eles e assumir certa responsabilidade. Resultado: em pouco tempo estava eu escrevendo para o Galindo, metida que só, perguntando, entre outras coisas, se poderia trocar “guria” por “menina”, no conto “N’água”, já que estávamos na Escócia e me soou estranha aquela coisa meio gaúcha. “Que história é essa de sair opinando na tradução dos outros antes de chamar pra um café?”, foi a resposta brincalhona do tradutor, que acolheu com muita generosidade as minhas sugestões.

Dessa época até a publicação do livro, andei vendendo a obra por todo canto, dos corredores da editora às redes sociais. Numa conversa com o Marcelo Levy, diretor comercial da Companhia, chegamos a uma questão que há tempos me atormenta: são poucos os leitores de contos. Ora, taí algo que nunca vou entender. Desde os tempos de escola, quando fui iniciada no universo ficcional da Clarice, do Calvino, do Cortázar e do Garcia Márquez, a narrativa curta é o gênero que mais me fascina. Há inúmeras explicações para isso, que a própria Ali Smith coleta em “Um conto real” e que prefiro deixar para a crítica. Mas o que mais me intriga é que ainda nos faltem leitores de contos, quando esse gênero me parece o mais adequado para os nossos dias, por um motivo óbvio: falta-nos tempo.

Talvez por ingenuidade, talvez por estar apaixonada pela Ali Smith, continuo acreditando que serão muitos os leitores da minha musa escocesa. E foi com essa convicção que entrei numa aposta um tanto arriscada com o Luiz: venderíamos a primeira tiragem do livro de contos no primeiro ano. Tenho um trunfo: no meio do caminho, o conto “A criança”, talvez o mais brilhante de todos, saiu na piauí. Mais leitores.

Enfim, depois de alguns meses convivendo com o texto, saiu A primeira pessoa, o primeiro livro que ajudei a editar. Fico espantada com a sorte que tive em começar por aí, e me pergunto: será a tal sorte de principiante? Se for assim, grandes chances de eu ganhar a aposta.

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Sofia Mariutti é editora-assistente na Companhia das Letras.