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Uma amizade (im)possível: encontro entre disciplinas

Por Márcia Celestini Vaz

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Ilustração de Spacca para o livro Uma amizade (im)possível, de Lilia Moritz Schwarcz.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Márcia Celestini Vaz, do colégio COC SAPIENS em São Paulo, e a sequência didática elaborada por ela com base na adoção do livro Uma amizade (im)possível – As aventuras de Pedro e Aukê no Brasil colonial.

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No 1o bimestre do 4o ano do EFI do COC SAPIENS, desenvolvemos uma sequência didática para integrar as disciplinas de língua portuguesa, produção textual e história. Este trabalho chama-se “Projeto Leitura” e aplica-se a todos os anos do ciclo escolar, com focos específicos, considerando diferentes gêneros textuais. As expectativas para esta série se concentram na diversidade de estratégias que possam levar o estudante a aprofundar suas habilidades iniciais como leitor. Com esse objetivo, os alunos devem ler uma narrativa transpondo seus elementos constituintes (personagens, cenários, enredo, tempo e foco narrativo) e também sua estrutura básica (apresentação de uma situação inicial, conflito, clímax e desfecho).

Pretende-se que o aluno tenha a oportunidade de desenvolver certa inquietação previamente lançada: como se descolar dessa base textual e começar a fazer perguntas ao texto de modo autônomo e crítico? Em outras palavras, essa inquietação deve levar o aluno a associar fatos, ideias e temas; relacionar informações, dados, conceitos; e inferir, de modo coerente, levantando hipóteses, refutando ou afirmando-as. O olhar da investigação começa assim.

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Considerando-se os diversos níveis de leitura e partindo-se do pressuposto de que a escola é a principal “agência formadora” desse olhar de investigação, a intenção do Projeto é fazer com que o aluno, gradativamente, transporte-se do olhar fragmentado, do olhar ingênuo que não questiona, para um olhar que pergunta, critica, desconfia… desvela.

Fundamental para o processo de aprendizagem, esse olhar faz o leitor suspender sua visão do texto e começar a indagar: “por que impossível?”, “por que (im)possível?”. Além de começar a perceber que um prefixo muda todo o significado da palavra, descobre que o impossível pode tornar-se possível, que o desconhecido, inabitado e escuro começa a se revelar quando se deixa conduzir pela “voz” do texto, pelo foco narrativo, pelo enredo, pelas personagens, que, em atuação, mostram universos antes nunca percebidos. Esse é o navegar proposto pelo livro, ao fazer a junção entre a História e a Literatura. Por meio desse universo tão familiar à criança, o poético, revela-se que o outro, a História, à primeira vista tão distante e inatingível, pode ser visto, entendido, apreendido.

E assim tem início nossa jornada…

Logo no princípio do ano, e como atividade de “aquecimento” para a leitura da obra Uma amizade (im)possível, os alunos são desafiados a se desprender de outro texto (a professora lê um livro desconhecido pelas crianças sem apresentar capa e título originais). Após a leitura (feita duas vezes, em aula e na íntegra), um aluno de cada turma (são duas as classes de 4o ano) reconta oralmente, com suas próprias palavras, o enredo. Após essa fase coletiva de releitura, os alunos partem para a produção individual de reconto, que inclui uma capa com ilustrações e títulos elaborados pelo próprio estudante. Essas escritas e representações visuais são, em um terceiro momento, comparadas ao texto original. O objetivo é, portanto, observar se um aluno de 4o ano, com nove anos em média, consegue retomar a sequência narrativa de um texto apenas de ouvido e como ele representa por imagens e pelo título o tema central da história.

Com esse primeiro “aquecimento”, passamos à segunda fase do Projeto, quando o livro Uma amizade (im)possível é apresentado ao aluno. Após a exploração da capa, estimulamos a antecipação de informações, o conhecimento prévio dos alunos sobre o possível tema a ser tratado no livro e, finalmente, iniciamos a leitura da obra.

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Neste momento do trabalho, recebemos a dupla de contadores de histórias, a Cia. Ruído Rosa, para uma apresentação sobre o livro estudado. Tal atividade faz parte do projeto Adote Novas Histórias, da Companhia das Letras, por meio do qual as escolas são contempladas com a contação do livro adotado — Uma amizade (im)possível faz parte dos livros que integram esse projeto da editora.

A dupla, então, desenvolve uma performance ressaltando as questões relacionadas a uma leitura crítica. O início da apresentação mencionou um dos aspectos centrais do livro: a polêmica sobre o “descobrimento” do Brasil. A dupla entrou na telessala informalmente: “Ah, descobrimos a sala da contação!”, “Não, não descobrimos! Achamos! A sala e as pessoas já estavam aqui, já existiam, antes de chegarmos!”.

A partir da amizade entre um índio criança, Aukê, e Pedro, a criança portuguesa, os alunos se envolveram com a narrativa e com os fatos e referências históricas. A viagem entre realidade e ficção se inicia pelo título e suas leituras (im)possíveis. O leitor é convidado a refletir, por exemplo, acerca da concepção que se tinha do mundo antes das grandes navegações (o oceano acaba em um precipício? existem monstros marinhos?); sobre os vários “ãos” e seus desdobramentos: exploração, aculturação, (des)caracterização; sobre a diversidade cultural e étnica expressa em hábitos alimentares, de higiene pessoal, em vestimentas… e na língua!

A leitura e a performance dos contadores sobrepõem textos que revelam as duas culturas em interação. As atividades do Projeto prosseguem, com leitura e compreensão do texto, reconto, comparação entre o texto lido e a apresentação vista, com discussões e reflexões sobre a história e a ficção.

Toda essa sequência parte de um retorno ao texto-livro, para uma segunda leitura, essa de compreensão, uma vez que as turmas foram estimuladas, pela contação, a visualizar personagens, espaços, diferenças. Em seguida, assim como fizeram na atividade de “aquecimento”, os alunos são estimulados a recontar o texto, agora fixando os detalhes, investindo em recursos de linguagem, acionando a memória textual e visual. Depois, conduzidos pelas professoras, partem para a “leitura comparativa” entre o livro e a contação (o que há de diferente e de semelhante entre o lido e o visto?). Por fim, descobrem as artimanhas da literatura, da ficção, para fisgar o leitor e fazê-lo da história entrar na História.

Uma amizade (im)possível — livro e contação — faz o leitor se transformar em um navegador: para além do que se apresenta em um texto, o que posso descobrir?… Ou seria achar?

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Marcia Celestini Vaz é Coordenadora da Área de Linguagens, Códigos e Tecnologias do colégio COC SAPIENS, de Osasco – SP.

Semana cento e noventa

Os lançamentos desta semana são:

Milagre em Joaseiro, de Ralph Della Cava (Tradução de Maria Yedda Linhares)
Este clássico ensaio do brasilianista Ralph Della Cava sobre o padre Cícero Romão Batista (1844-1934) e a cidade de Joaseiro (atual Juazeiro do Norte) é um dos trabalhos historiográficos e de ciências sociais mais influentes das últimas décadas no país. Amparado em documentação inédita na época, Della Cava mergulha na história e na cultura do Nordeste brasileiro entre o século XIX e o XX para compor um extraordinário retrato do “Patriarca do Cariri” e de um pretenso milagre, que suscitou em torno do devoto sacerdote um movimento religioso popular que repercute até os dias de hoje. Na medida em que ele e os fiéis defenderam o milagre, padre Cícero entrou em acirrado conflito com a hierarquia da Igreja católica, que o privou das ordens. Na busca de sua restauração, arvorou-se, quase por acaso, em um dos mais controvertidos políticos do Nordeste. O livro, publicado originalmente nos Estados Unidos em 1970, desvela as raízes socioeconômicas e políticas do movimento popular de Joaseiro e argumenta que sua história é parte e parcela da própria ordem social nacional.

Schmidt recua, de Louis Begley (Tradução de Rubens Figuereido)
O advogado Albert Schmidt usufrui da confortável aposentadoria enquanto trabalha para uma fundação humanitária e transita pelo mundo exclusivo dos endinheirados americanos. Não está livre, no entanto, de relacionamentos conflitantes ao chegar à terceira idade. A ex-namorada Carrie, décadas mais jovem, está grávida de um bebê que pode ser dele. Charlotte, sua única filha, ensaia uma reaproximação que resulta em um conflito ainda maior com o pai. E, por fim, Schmidt se apaixona por Alice Verplanck, viúva de um antigo colega. O mesmo Schmidt que protagonizou dois romances anteriores de Louis Begley percorre neste “terceiro ato” um período de mais de uma década, em que sua história de amor com Alice se desenrola entremeada a confusões familiares. Tentando resolver uma equação que envolve afetos, antigos preconceitos e casos do passado, ele busca afastar a solidão da velhice.

Prosa, de Elizabeth Bishop (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Elizabeth Bishiop sempre foi celebrada como grande poeta, mas sua prosa não é menos extraordinária. Este volume reúne boa parte de sua produção publicada em vida ou postumamente, entre contos, memórias, artigos, resenhas e cartas. Estão aqui os textos de Esforços do afeto e outras histórias, mas também alguns inéditos sobre o Brasil e a correspondência da escitora com a crítica Anne Stevenson. Além de um deleite literário — com uma ficção que beira o memorialismo e memórias e ensaios que bem poderiam ser ficções –, este é um livro indispensável para se conhecer as fontes concretas da poesia de Bishop.

O ladrão do tempo, de John Boyne (Tradução de Henrique B. Szolnoky)
Matthieu Zéla parou de envelhecer no final do século XVIII, quando se aproximava da meia-idade. Duzentos anos depois, ele rememora as muitas vidas que teve desde que fugiu da França para a Inglaterra, após ter presenciado o assassinato brutal de sua mãe. Seus companheiros na empreitada foram o irmão mais novo, Tomas, e Dominique Sauvet, seu único amor verdadeiro. Mas Matthieu sobreviveu aos dois, e desde então não parou de sobreviver a todos. Foi soldado, engenheiro, cineasta, investidor, executivo de televisão e amante de muitas mulheres. Em seu romance de estreia, John Boyne construiu uma trama maravilhosamente articulada, que nos leva a visitar os grandes eventos que marcaram o mundo nos últimos dois séculos pelos olhos de um personagem extraordinário.

Lionel Asbo, de Martin Amis (Tradução de Rubens Figuereido)
Lionel Asbo é um jovem arruaceiro de um subúrbio londrino. Vive com o sobrinho adolescente Desmond Pepperdine e dois pit bulls, Joe e Jeff, que ele considera “ferramentas de trabalho”. Ao ganhar 140 milhões de libras na loteria, Lionel Asbo tem a vida virada ao avesso. Catapultado à fama, à fortuna e às páginas dos tabloides ingleses, o novo Lionel promete reorganizar as relações familiares e sociais dos Pepperdine. A um só tempo hilariante, sensível e dramático, Lionel Asbo é uma fábula contemporânea sobre quatro gerações de uma família problemática, inesperadamente agraciada pela fortuna.

Os mundos de Teresa, de Marcelo Romagnoli (Ilustrações de Carlo Giovanni)
Teresa acabou de fazer seis anos e agora tem uma nova missão: descobrir o mundo. Mas, para desvendar tudo o que está à sua volta — e também aquilo que está mais longe –, Teresa não quer apenas saber. O que interessa, para ela, é ser. De verdade. Então ela decide se transformar em menino e fazer tudo o que um menino faz. Depois, quer ser cachorro, e então planta, e pedra, e coisa… Tudo muito divertido porque, desde sempre, ser criança é a melhor descoberta que existe.

As barbas do imperador — D. Pedro II, a história de um monarca em quadrinhos, de Lilia Moritz Schwarcz e Spacca
Misto de ensaio interpretativo e biografia de d. Pedro II, As barbas do imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, foi um marco na historiografia brasileira, apresentando uma visão nova e reveladora de nosso passado. Nesta edição em quadrinhos, Schwarcz volta à parceria com o premiado ilustrador Spacca, na dobradinha que já rendeu o best-seller D. João Carioca. Aqui, eles conduzem o leitor a um verdadeiro passeio pela história do Brasil, transpondo a linguagem do ensaio e da biografia para o universo das HQs de forma vibrante e esclarecedora.

Editora Seguinte

O alçapão (Infinity Ring, vol.3), de Lisa McMann (Tradução de Alexandre Boide)
Em mais uma viagem com o Anel do Infinito, os três jovens viajantes do tempo mal voltam para os Estados Unidos e já caem em uma armadilha — Riq é confundido com um escravo e perde sua liberdade. Tentando desvendar as pistas deixadas pelos Guardiões da História, Dak e Sera precisam ajudar o amigo e descobrir como evitar que a SQ acabe com a última esperança de fuga de muitos escravos do país. Riq, por sua vez, não está tão preocupado assim com a missão. Ao longo da jornada para se libertar, ele conhece um garotinho muito importante — não para a história do planeta, mas para a história do próprio Riq. Agora ele correrá todos os riscos para salvar a vida desse menino, mesmo que o preço a ser pago seja alto demais.

Editora Paralela

Quando estou com você, de Beth Kerry (Tradução de Flávia Yacubian)
Elise sempre foi linda, impulsiva e incontrolável. Foi exatamente isso que Lucien reencontrou enquanto tentava seguir uma nova vida. Mesmo decidido a afastar Elise e o passado que ela representa, Lucien logo percebe que sua tarefa não será fácil. Além de ser uma tentação, Elise não desiste facilmente, o que obriga Lucien a tomar uma decisão: permite que ela fique, mas de acordo com as regras dele. Caso queira ficar por perto, ela terá que se submeter a ele sexualmente. Mas as coisas não saem exatamente como planejado. A impulsividade de Elise e os segredos de Lucien colocarão tudo em risco ou permitirão que eles se entendam?

Links da semana

Hoje foram divulgados os vencedores do Troféu HQ Mix, e a Quadrinhos na Cia. foi escolhida a editora de quadrinhos do ano. Spacca (Jubiabá), Chris Ware (Jimmy Corrigan) e Craig Thompson (Retalhos) também foram premiados. Obrigado a todos que votaram em nosso trabalho!

Falando em premiações, a casa britânica Ladbrokes está aceitando apostas sobre o próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. No momento, o poeta sueco Thomas Transtromer é o mais cotado para ganhar o prêmio.

Semana passada aconteceu a Homenagem a José Saramago, no SESC Vila Mariana. No site do programa Metrópolis você pode ver um trecho da apresentação. As fotos estão no nosso álbum do Picasa.

Uma pesquisa americana descobriu que um em cada quatro leitores de quadrinhos tem mais que 65 anos. A Raquel Cozer, do suplemento Sabático, entrevistou o quadrinista Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza.

A Juliana, do Portal PUC-Rio Digital, entrevistou Moacyr Scliar sobre seu novo livro, Eu vos abraço, milhões. A Kika, do Meia Palavra, escreveu uma resenha sobre o livro.

A revista Paris Review colocou em seu website todas as famosas entrevistas que realiza desde a década de 1950, com escritores como Truman CapoteJorge Luis BorgesJohn UpdikeGay Talese.

O Julio, do Digestivo Cultural, resenhou Ponto final, de Mikal Gilmore. O Mauro, do blog De vermes e outros animais rastejantes, falou sobre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca.

Um longo artigo do New York Times fala dos julgamentos que decidirão o destino de documentos até então desconhecidos de Franz Kafka.

A Andréia, do Guia de Leitura, falou de AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki. O Felipe, do Meia Palavra, leu Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, e a Amanda, do blog O Café, resenhou Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O escritor Neil Gaiman disse pelo Twitter que está lendo Fábulas italianas, de Italo Calvino. A Kelly, do Blog da Cultura, falou sobre as manias que cada escritor tem.

O blog Classics Rock! se dedica exclusivamente a reunir músicas que mencionam ou foram inspiradas por livros, e o site Flavorwire critica os clichês em fotos de escritores.

O Evaldo falou em seu blog sobre Henry Louis Mencken, autor de O livro dos insultos. A Mariana, do Outra xícara por favor, resenhou O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, e o Alfredo falou em seu blog de O senhor vai entender, de Claudio Magris.

Os designers da IDEO divulgaram um vídeo com três idéias de inovações que a leitura digital pode trazer para os livros.

E Malcolm Gladwell, em um artigo na New Yorker, desdenha da possibilidade de as redes sociais causarem alguma mudança real no mundo. O texto causou um certo furor na internet, e respostas a ele apareceram em sites como WiredThe Atlantic Wire.