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Semana noventa e sete

Os lançamentos da semana são:

O chefão dos chefões, de Vito Bruschini (Tradução de Federico Carotti)
Este livro se inscreve na melhor tradição dos romances de máfia, abrangendo um período que vai de 1919 a 1943, Vito Bruschini traça um painel da história e das tensões sociais que prepararam o surgimento da Cosa Nostra. A figura do príncipe Ferdinando Licata está no centro da trama, que começa num vilarejo da Sicília e se desloca para as ruas de Nova York. Conhecido como U Patri, “O Pai”, Licata é um grande latifundiário da região, temido e respeitado por todos. Ameaçado pela ascensão dos fascistas na Itália, ele se vê forçado a ir para os Estados Unidos, onde dará início a uma das organizações criminosas mais conhecidas do mundo. Personagens fictícios e gente real, como o famoso Lucky Luciano, são trabalhados habilmente nesta trama de intrigas em que não faltam os ingredientes indispensáveis ao gênero — suspense, violência, paixões e revelações inesperadas.

HHhH, de Laurent Binet (Tradução de Paulo Neves)
Himmlers Hirn heibt Heydrich: O cérebr0 de Himmler se chama Heydrich. Por si só, a sentença corrente entre os membros da SS permite vislumbrar os horrores vividos pela extinta Tchecoslováquia durante a ocupação nazista. Nomeado pelo Fürer o “protetor” da Boêmia-Morávia (atual República Tcheca), Reinhardt Heydrich — exímio violinista, devotado pai de família e implacável chefe da Gestapo — recebeu a tarefa de administrar com mão de ferro o território incorporado ao III Reich.  Ele logo se tornou um misto de vice-rei e ditador, com absoluto poder de vida e de morte sobre todos os tchecos. Prisões em massa, torturas e execuções sumárias passaram a integrar o cotidiano dos habitantes da capital, que apelidaram seu novo senhor de “o carrasco de Praga”. Neste livro híbrido de romance e relato histórico, premiado com o GOncourt de 2010, Laurent Binet reconstitui a trajetória dos heróis que organizaram o atentado fatal contra Heydrich em plena luz do dia numa rua de Praga, em maio de 1942.

Livro de receitas para mulheres tristes, Héctor Abad (Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni)
Qual a receita do amor feliz? E da solidão feliz? Existe remédio para a culpa, para o medo da velhice, para a angústia sem nome? Como lidar com os desejos de grávida, com os desejos proibidos, com a falta de desejo? Há uma fórmula para recuperar o brilho no olhar e as cores do rosto? Héctor Abad dá aqui respostas insólitas, comoventes e divertidas para essas e muitas outras questões sobre os grandes males existenciais e as minúsculas mazelas cotidianas. Fala diretamente à mulher, cochichando como um bom irmão ou amigo do peito, mas convida o homem a ouvir por trás da porta. Tudo em textos breves e inclassificáveis, que ora se aparentam com receitas de cozinha, ora com conselhos sentimentais e simpatias, ora com o aforismo filosófico, o tratado de costumes…Um saboroso pot-pourri temperado com nonsense e poesia, com fortes poderes de consolação.

A cartuxa de Parma, de Stendhal (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Escrito em inacreditáveis 53 dias, no final de 1838, narra as descenturas de Fabrice del Dongo, um jovem vibrante, idealista e imaturo que decide se unir ao exército de Napoleão Bonaparte. O notável tratamento dado por Stendhal à batalha de Waterloo, por onde o protagonista vagueira sem saber que está no meio de um acontecimento importante, entusiasmou nomes como Tolstói (que assume a influência do romance sobre o seu Guerra e paz), Ernest Hemingway e conterrâneo Honoré de Balzac. Esta edição inclui introdução do jornalista literário britânico John Sturrock, que contextualiza o romance na conturbada biografia de Marie-Henri Beyle, verdadeiro nome do autor francês.

O homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda
O crítico, historiador e sociólogo paulista Sérgio Buarque de Holanda é um dos maiores intelectuais brasileiros no século XX. Autor de obras capitais, alguns de seus conceitos se tornaram modelos clássicos de interpretação de nossa história. Entre eles se destaca o do “homem cordial”, presente em Raízes do Brasil (1936), seu primeiro livro. Aqui o autor investiga as origens de uma forma de sociabilidade brasileira, mais afeita aos contatos informais e à negação das esferas públicas de convívio. Crítico, ele mostra como a “cordialidade” leva a uma relação problemática entre instâncias públicas e privadas. Este volume reúne, além de “O homem cordial”, outros momentos altos da produção intelectual de Sérgio Buarque de Holanda: “O poder pessoal” (da coleção História geral da civilização brasileira), “Experiência e fantasia” (de Visão do Paraíso, “Poesia e crítica” (de O espírito e a letra) e a”Botica da natureza” (de Caminhos e fronteiras). O conjunto é uma excelente introdução ao pensamento do autor, ou a oportunidade de voltar a esses textos fundamentais, que aliam o rigor metodológico do grande historiador e crítico à fluência narrativa do metre da língua.