stephen greenblatt

Mesa 6: O mundo de Shakespeare

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Convidados:

Mediação: Cassiano Elek Machado

Dois dos maiores estudiosos da obra de William Shakespeare mostram como a obra do escritor inglês ultrapassa o falso dilema entre particularidade histórica e universalidade literária. Nesta conversa sobre as criações de Shakespeare e os mitos que continuam a cercar sua figura, Stephen Greenblatt e James Shapiro discutem como as peças e poesias do autor se vinculam profundamente com as circunstâncias em que foram escritas, ao mesmo tempo que, ainda hoje, continuam a atrair novas leituras, adaptações e controvérsias.

Horário de início: 12h

Antes da mesa, Silviano Santiago lê o poema “Viagem na família”.

Para juntar Shakespeare e Drummond, Cassiano lê trecho de uma crônica do poeta: “quando não se falar inglês, falar-se-á Shakespeare”.

Mediador: Por que deveríamos olhar o retrato de Shakespeare e ler suas biografias quando podemos ler sua obra? Os dois convidados vão tentar responder a esta pergunta.

Mediador: Shapiro, afinal, quem escreveu Shakespeare?

Shapiro: Essa pergunta sempre aparece, e pra nos é frustrante, porque temos certeza que foi ele quem escreveu as obras. A dificuldade é explicar. Os estudiosos tentam de afastar dessa pergunta. Mas eu comecei a me perguntar o que havia por trás dessa pergunta, por que havia esse questionamento.

Mediador: É importante explicar que esse questionamento começou em 1785, quando uma pessoa percebeu a falta de documentação e passou a suspeitar que Francis Bacon tinha escrito as peças.

Shapiro: Pra mim é inquietante saber que Freud não acreditava que Shakespeare fosse o autor das peças. Mas nessa pesquisa você descobre que diversas pessoas brilhantes tinham essas teorias. Freud criou a teoria de Édipo após a morte do pai, mas também poderia se chamar teoria de Hamlet. E ele acreditava que Shakespeare não teria como ter escrito Hamlet se não fosse logo após a morte de seu pai.

Mediador: Em Como Shakespeare se tornou Shakespeare, Greenblatt não aborda muito essas teorias, mas tenta responder o porquê dessa falta de documentação. Queria que você falasse sobre o papel da religião, política e violência na época, e como isso poderia ter feito Shakespeare esconder seus documentos.

Greenblatt: Ele viveu há muito tempo e não era nobre, não é tão espantoso que não haja documentos sobre ele, ficava abaixo do radar. É a forma como se vivia na época. O surpreendente é que haja uma foto dele, porque não era algo comum para uma pessoa como ele ter uma foto. E era uma época burocrática, então há até bastante documentos: certidão de batismo, papéis de impostos. O que não temos são os documentos que gostaríamos, originais, anotações. Sobre dia pergunta: na época comunidades e famílias de dividiam, era uma época arriscada. Ele era de família católica, e na época isso era visto como o Al Qaeda. Era uma paranóia fundamentada.

Mediador: Vocês dois mencionam a possibilidade de escrita colaborativa. Queria que vocês falassem sobre a existência de indícios em suas obras.

Shapiro: Mesmo quem acredita na autoria de Shakespeare consegue conceber que ele tinha coautores, porque ele estava tão acima do padrão da época. Principalmente no final de sua carreira, nos últimos 7 ou 8 anos, quando não atuava mais. Temos que aceitar que ele era mortal e tinha colaboradores.

Mediador: Mas é possível apontar trechos que foram escritos por outras pessoas?

Shapiro: Claro, a primeira metade de Péricles, por exemplo, é de outra pessoa. É possível perceber os colaboradores pelo estilo, pela preferência de palavras.

Mediador: Shakespeare retrabalhava outras peças, se aproveitava de enredos de outros autores. Até que ponto essa prática era comum?

Greenblatt: Você podia reclamar, mas não tinha como levar alguém a julgamento por plágio na época. Era uma prática comum. Mas Shakespeare era tão criativo, se colocava tanto na história, que mesmo nas traduções você percebe a força por trás do texto. Tem a ver com a forma como ele se identificava, sabia o que havia de poderoso para levar aos palcos.

Shapiro: Shakespeare pegava um final feliz e transformava numa tragédia, matava o pai e a filha. É particularmente interessante ler suas peças sabendo quais eram as histórias originais. Ele conseguia pegar o que não estava funcionando e transformar numa história melhor.

Mediador: O fato de ter sido autor, ator e dono de sua Companhia parece ter sido fundamental para ele.

Greenblatt: Sim, ele foi provavelmente o único dramaturgo da época que ganhou dinheiro com isso. Ele ganhou muito dinheiro. Ele queria ter uma vida burguesa, comprou uma casa cara.

Shapiro: Eu acho incrível o tanto que ele produziu numa época em que não havia cafeína!

Greenblatt: Sim, e ele morreu jovem! Eu acredito que ele gastou todas as suas energias.

Mediador: E ele também conseguia ter um controle sobre seu trabalho.

Greenblatt: Há sinais de que Shakespeare reescrevia compulsivamente. Mas acho que esse controle não era tanto o que ele buscava. É fantástico para nós, mas ele entendia que esse controle não era interessante para o meio teatral.

Mediador: Você disse em seus livros que é surpreendente que tão poucos de seus textos faziam referência a acontecimentos de sua época.

Shapiro: Muitos dramaturgos da época faziam referência ao que estava nos jornais, mas ele só fez isso 4 ou 5 vezes em toda a sua obra. Ele entendeu que você ganha mas também perde citando algo assim.

Greenblatt: Era arriscado fazer referências assim na época.

Shapiro: É só ver quantos dramaturgos da época foram presos.

Mediador: Conhecer a identidade de um autor muda sua obra?

Shapiro: É difícil dizer por que seria importante nomear o autor da obra. É importante? O que acho complicado é quem quer trocar a autoria de suas peças.

Greenblatt: Acho que não é que você precisa saber, mas você quer saber. Se você recebesse uma carta anônima que fala a você de um jeito poderoso, você gostaria de saber quem a escreveu. É tentador buscar suas limitações, sua humanidade.

Mediador: Vocês se pegam de vez em quando usando palavras antigas, ou enxergando fatos pelo prisma dos séculos passados?

Greenblatt: Creio que não, a importância de autores como esse é a permanência de suas mensagens.

Shapiro: Eu te invejo. Quando terminei meu livro, meu filho perguntou “Você pode vir para o século 21 agora? Você está aqui mas está vivendo no século 16!”.

Mediador: É interessante que “ser ou não ser” seja composto de palavras tão simples quando ele é conhecido por ter inventado tantas palavras.

Shapiro: As pessoas gostam de exagerar, mas sem dúvida ele inventou palavras. Mas também em Rei Lear, “nunca nunca nunca nunca nunca”, é só uma repetição simples. Ele não tentava impressionar.

Greenblatt: Shakespeare usava muitas palavras novas da época, não é exatamente que ele tenha inventado elas.

Mediador: Qual seu personagem preferido?

Shapiro: Eu tento não responder esta pergunta, porque não gosto muito de me ligar assim aos personagens. Mas o que mais amo é um serviçal em Rei Lear que vê seu mestre cegar um bom homem e tenta impedir essa brutalidade. Ele é morto por isso, mas é muito nobre.

Greenblatt: Eu tenho uma resposta mais convencional. Se tiver que escolher, diria Hamlet, que fala mais diretamente a mim, ao adolescente que ainda existe em mim, que está se arrastando tentando compreender sua vida.

Horário de término: 13h22

Semana cento e oito

Os lançamentos desta semana são:

A virada, Stephen Greenblatt (Trad. Caetano W. Galindo)
Em A virada, o acadêmico norte-americano Stephen Greenblatt conta a história de Poggio Bracciolini, um homem do século XV que caçava livros antigos, e sua descoberta aparentemente despretensiosa. Ele resgatou um poema esquecido durante séculos, que mais tarde influenciaria o pensamento dos principais responsáveis por nossa concepção de mundo moderno – de Galileu Galilei a Charles Darwin, de Nicolau Maquiavel a Thomas Jefferson, de William Shakespeare a Sigmund Freud.

Exclusiva, Annalena McAfee (Trad. Angela Pessoa e Luiz Araújo)
De um lado, a correspondente de guerra Honor Tait. Ela cobriu praticamente todos os grandes conflitos do século XX, além de ter levado uma vida amorosa movimentada e cercada de mistério. A “Dietrich da sala de redação” hoje tem oitenta anos, tornou-se desconhecida das novas gerações e vê sua carreira declinar. Do outro, Tamara Sim, colunista de um suplemento de celebridades, repórter freelancer movida a ambição e igualmente desconhecida. Quando a segunda é enviada para escrever sobre a primeira, o espaço que separa esses mundos dá lugar a uma guerra tragicômica repleta de segredos, mentiras e prazos apertados. Exclusiva revela com humor e veneno os bastidores do jornalismo, desde o funcionamento dos grandes jornais às eternas picuinhas de repórteres, colunas e editores.

Grandes esperanças, Charles Dickens (Trad. Paulo Henriques Britto)
Considerado por muitos críticos o principal romance de Charles John Huffman Dickens (1812-1870), Grandes esperanças conta a história de Pip, um órfão de família humilde que ao receber uma herança renega o passado e muda-se para Londres para tentar inserir-se na alta sociedade. Saudado por autores como Bernard Shaw e G.K. Chesterton pela perfeição narrativa, este romance discute, na figura do protagonista, a imoralidade, a culpa, o desejo e a desilusão. Esta edição traz o final considerado definitivo, escolhido por Dickens após ceder às críticas de que o primeiro era triste demais, e também um apêndice com o original, preferido por parte dos leitores. A introdução de David Trotter, especialista em literatura britânica e americana do século XIX, contextualiza o livro em sua época, revelando as ideias de reforma social defendidas pelo autor.

Serena, Ian McEwan (Trad. Caetano W. Galindo)
Serena é um romance sobre espiões. Não apenas porque a protagonista é uma jovem matemática que se vê recrutada pelo Serviço de Segurança britânico, mas também porque a ficção se revela um grande exercício de vigilância. Serena quer entender o comportamento misterioso de seu amante mais velho, e acha que estão escondendo alguma coisa dela. Max Greatorex observa Serena com olhos apaixonados, talvez até demais. Tom Haley não entende o que o destino, personificado pela mesma Serena, lhe deu aparentemente de graça. Mas Haley é um escritor, e seus contos refletem justamente sobre o papel do oservador e do observado. Afinal, um romancista é um ótimo espião. O que, neste romance, o leitor também precisará ser.

Cidade aberta, Teju Cole (Trad. Rubens Figueiredo)
A Nova York pós-Onze de Setembro percebida pelo nigeriano Julius, um psiquiatra que faz residência na cidade, carrega em si uma atmosfera de traumas ocultos e muita solidão. Em longas caminhadas por Manhattan depois do trabalho, o jovem médico traça reflexões e reminiscências pelas quais divisa sua história – a infância na Nigéria, a condição de migrante, seu amor pela música e pela arte – e a história da própria cidade em que vive e seus habitantes. Um romance premiado e memorável sobre identidade nacional, raça, liberdade, perda, deslocamento e renúncia. Escrito numa voz clara e rítmica que permanece, este livro é uma obra madura e profunda de um novo autor que tem muito a dizer sobre o mundo de hoje.

O desatino da rapaziada, Humberto Werneck
Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Murilo Rubião, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Gabeira, Ivan Angelo, Luiz Vilela… O que há em comum entre esses escritores de épocas, gêneros e estilos tão diversos, além do fato de que são mineiros (ainda que nascidos em outra parte, como o capixaba Rubem Braga)? É que todos eles se renderam também à paixão do jornalismo. Rico em informações para a história da imprensa e da literatura, este livro vai além: é sobretudo uma saborosa crônica de meio século de vida num lugar que tem dado ao país tantos bons poetas, prosadores – e jornalistas, naturalmente.


Editora Paralela:

O leitor de almas, Paul Harper (Trad. Renata Guerra)
Lore Cha e Elise Currin – esposas de dois poderosos e influentes empresários de San Francisco – estão tendo casos extraconjugais com o mesmo homem. As regras dos encontros são sempre as mesmas: nomes verdadeiros e detalhes pessoais ficam fora do quarto. Mas quando Vera List, a psicanalista de Lore e Elise, percebe que seus arquivos profissionais estão sendo violados e informações confidenciais , medos e fantasias das mulheres estão sendo utilizados para manipulá-las, o que não passava de uma grande coincidência se torna um perigo fatal. Com um roteiro tenso e uma narrativa eletrizante, O leitor de almas é um thriller que segue a tradição dos grandes romances policiais pelo estilo elegante, pelo gosto por personagens complexos e pela capacidade de surpreender o leitor a todo momento.