stephen king

Semana duzentos e setenta e um

A resistência, de Julián Fuks
O leitor se descobre de partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante. Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam buscar o exílio no Brasil, o menino cresce, ganha irmãos, e as relações familiares se tornam complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescritura do próprio enredo familiar. Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.

Lugar nenhum – Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura, Lucas Figueiredo
Entre os incontáveis mistérios que cercam o período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-85), a ocultação dos arquivos secretos da repressão é um dos mais controversos. Desde a volta da democracia, em 1985, sucessivas tentativas de abrir os arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foram feitas pelo Ministério Público e pela Justiça. Mas a resposta dos militares era sempre a mesma: foram destruídos e não há vestígio deles em nenhum setor das Forças Armadas. Nesta brilhante reportagem investigativa que inaugura a coleção Arquivos da Repressão no Brasil, Lucas Figueiredo mostra que não é bem assim. O jornalista teve acesso a um conjunto de microfilmes do Cenimar – o temido Centro de Informações da Marinha. O material foi examinado por peritos da Biblioteca Nacional, que atestaram sua autenticidade, e analisado por historiadores renomados, que foram unânimes quanto a sua importância. Os documentos não deixam dúvida: os militares sempre souberam mais do que revelaram. Desde o início, tinham registros precisos sobre o destino de presos políticos tidos como “desaparecidos”, mas na realidade mortos pela repressão. Ainda existem registros desconhecidos sobre o período? Por que os militares insistem em ocultar seus arquivos, mesmo passados trinta anos do fim do regime ditatorial? Por que, de Sarney a Dilma, nenhum presidente civil do pós-ditadura obrigou a Marinha, a Aeronáutica e o Exército a abrir seus arquivos secretos? O que esse impasse diz sobre o poder das Forças Armadas e a democracia no Brasil de hoje?

O frango ensopado da minha mãe – Crônicas de comida, Nina Horta
O frango ensopado da minha mãe faz uma nova reunião de textos inéditos em livro – também originalmente publicados na Folha de S.Paulo -, selecionados com a colaboração de Rita Lobo, discípula confessa de Nina Horta. Eles consolidam a presença da autora não apenas como referência na bibliografia gastronômica, o que já seria muito, mas também como lídima continuadora do melhor da tradição da crônica literária brasileira. Os textos de Nina pretendem falar sobre comida, mas falam de vida. De uma vida simples, rica em experiências e repetições que levam à sabedoria – do jeito que ela prefere a culinária: sem esnobaria e afetação. Família, amigos, cozinheiros, livros, filmes, lugares, nomes de pratos, modismos gastronômicos, dietas e cuidados alimentares contemporâneos – tudo serve para mobilizar a escrita afetuosa em tom de troca de receitas, a glosa sagaz de quem conhece muita coisa e as escolhas de quem chegou à plena liberdade. Como essa, por exemplo: “Deixem em paz o porco, esse poema”. Uma sábia, essa Nina Horta.

Alfaguara

Um mapa todo seu, Ana Maria Machado
Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Paralela

Gigantes, Pedro Henrique Neschling
Tudo começa numa festa de formatura de ensino médio. Cinco amigos comemoram juntos o tão aguardado fim da vida escolar. Apesar de bem diferentes entre si, têm algo em comum: enxergam o futuro como um mar de possibilidades a ser descoberto e explorado. Sonham em ser gigantes, tão grandes quanto suas ambições. Mas para nenhum deles o futuro será conforme o previsto. À medida que os anos passam, os jovens deparam com as complexidades trazidas pelo chamado da vida adulta. Desilusões amorosas, questões familiares, conflitos na carreira, dúvidas e mais dúvidas… É inevitável: ao chegar perto dos trinta, todos nos tornamos um pouco mais desencantados e – por que não? – sábios. Mas e os sonhos da juventude, onde vão parar?

Suma de Letras

Revival, Stephen King (Tradução de Michel Teixeira)
Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade. Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra  o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

Objetiva

As mentiras que as mulheres contam, Luis Fernando Veríssimo
Tudo começa com a mãe, com o “Olha o aviãozinho!” à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que vai se desdobrando em outras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social. Na coletânea de crônicas As mentiras que as mulheres contamaparecem, por exemplo, a senhora que tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente a idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

Seguinte

Felizes para sempre, Kiera Cass (Tradução de Sandra Suy)
Esta coletânea traz os contos A rainha, O príncipe, O guarda e A favorita ilustrados e com introduções de Kiera Cass. Conheça o príncipe Maxon antes de ele se apaixonar por America, e a rainha Amberly antes de ser escolhida por Clarkson. Veja a Seleção através dos olhos de um guarda que perdeu seu primeiro amor e de uma Selecionada que se apaixonou pelo garoto errado. Você encontrará, ainda, cenas inéditas da série narradas pelos pontos de vista de Celeste e Lucy, um texto contando o que aconteceu com as outras Selecionadas depois do fim da competição e um trecho exclusivo de A sereia, o novo romance de Kiera Cass. Este é um livro essencial para os fãs de A Seleção, que poderão mergulhar mais nesse universo tão apaixonante.

O lugar onde se vê ao longe

Por Socorro Acioli

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Stephen King é um sujeito que senta todos os dias à sua mesa de trabalho e escreve uma cota mínima de duas mil palavras, cerca de dez páginas. Religiosamente. Mesmo no Natal, Dia da Independência Americana e no próprio aniversário. Ele é pragmático, obsessivo, com uma biografia cheia de tragédias e absurdos e, o melhor de tudo, extremamente bem humorado quando escreve sobre si mesmo.

Pelas contas do autor, sua cota de trabalho rende um livro de 180 mil palavras a cada três meses, o que explica a lista infinita de livros publicados, adaptados para o cinema, séries de televisão e outras aventuras. Uma delas foi o projeto de escrever On Writing – A memoir of the craft, lançado no Brasil pela Suma de Letras com o título Sobre a escrita.

Sobre a escrita não é um manual sobre como tornar-se um grande escritor, um best-seller, um sucesso. Isso não existe. Stephen King não acredita em cursos de Escrita Criativa, manuais, fórmulas ou outros atalhos na formação de um escritor. Ele acredita em talento e trabalho. E a forma como explica isso é o que faz com que o leitor não solte o livro até chegar ao fim. Ele prova com sua própria história de vida.

Sobre a escrita é o relato de um homem que sonhava em ser escritor desde criança e conseguiu realizar o seu sonho, tornando-se um dos autores mais lidos, vendidos, adorados e detestados do mundo (e ele diz não dar a mínima para quem o detesta. Em alguns casos, até concorda e atira a primeira pedra).

O livro começa com o relato de uma vida trágica, desde o abandono do pai à moradia em casa de parentes sem boa vontade, às sucessivas doenças, acidentes, vícios e outras desgraças. Enquanto tudo isso acontecia, o jovem Stephen lia e escrevia sem parar, acumulando cartas de recusa de editores em um prego na parede do seu quarto. Depois começam a chegar os aceites, as primeiras publicações, os primeiros dólares na conta e momentos de alegria e celebração com seus filhos e esposa, a onipresente Tabby.

Na segunda parte do livro, Stephen chega perto do texto e fala sobre linguagem, gramática, e assume tom professoral em alguns trechos quando diz, por exemplo, que “o advérbio não é seu amigo” e que “só escritores medrosos usam advérbios”. Ou quando manda que todos desliguem suas televisões (isso foi em 1997, a tela agora é outra) e fala muito mal de oficinas de imersão em Escrita Criativa e do texto de outros autores.

Como ex-aluna e professora de cursos de escrita criativa, eu concordo com ele. Totalmente. Já tive alunos que chegaram em sala de aula loucos para saber como publicar uma trilogia, dar entrevista no Jô e publicar no exterior, mas com um repertório de leitura mínimo, fraco. Eu não pude fazer nada por eles. Ninguém pode.  Há um equívoco entre ser escritor e ficar famoso publicando livros.

Não há curso ou método que opere milagres em alguém que não entendeu ainda do que se trata o ofício. O que mais gosto no Sobre a escrita é a forma como Mr. King coloca as coisas: escrever é um trabalho, camarada. É esforço diário. Exige talento, prática, coragem e muita leitura. Ele mesmo lê de 70 a 80 livros por ano e diz que “a leitura é o centro criativo da vida do escritor”.

Mesmo quem não aprecia a obra de Stephen King pode gostar muito desse livro. É o ponto de vista de um autor experiente sobre o que é viver de escrever e levar muito a sério a profissão. Ele não promete contar nenhum segredo, mas falar da própria experiência. Se você for aspirante a escritor, tiver talento e vontade de trabalhar, esse livro pode ajudar muito.

Para Stephen King, a mágica da escrita acontece na intimidade entre o autor, o papel e as palavras, mas ela demora a chegar. Só a vida vai dizer se o escritor tem talento, se vai ser publicado, lido, aclamado. Nada pode garantir ou prever isso. A única forma de testar talento e sorte é esquecer disso, sentar-se diariamente à sua mesa de trabalho, o “lugar de onde se vê ao longe”, e depositar uma cota diária de palavras e suor. Sem preguiça e sem medo.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu(editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santo.
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