steve jobs

Leia antes (ou depois) de assistir: conheça as adaptações de 2016

Em 2016, vários títulos publicados pelo Grupo Companhia das Letras vão ganhar versões para o cinema ou televisão. Organizamos uma lista para você planejar as leituras antes ou depois daquilo que vai ver nas telinhas. Confira!

As relações perigosas

O clássico de Chordelos de Laclos acompanha um grupo peculiar da nobreza francesa que troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. As relações perigosas ganhou uma adaptação pela Rede Globo em Ligações perigosas, ambientada no Brasil durante os anos 1920 e protagonizada por Selton Mello e Patrícia Pillar. A minissérie de dez capítulos estreou na segunda-feira e fica no ar até o final da semana que vem.

Charlie Brown não desiste nunca!

Desde que foi anunciado, o filme 3D de Snoopy e sua turma é aguardado por todos os fãs das tirinhas de Charles M. Schulz. Snoopy e Charlie Brown – Peanuts, o filme estreia no próximo dia 14 nos cinemas brasileiros, e o longa conta como Charlie Brown tenta conquistar a menininha ruiva, sua nova vizinha e colega de escola. E, claro, toda a turma e seu cachorrinho fiel vão dar aquela ajuda para o bom e velho Charlie Brown. A história do filme está em duas edições infantis lançadas pela Companhia das Letrinhas: Charlie Brown não desiste nunca!, um belíssimo livro em capa dura, e Você tem talento, Charlie Brown!, lançados no final de 2015. Dois livros para todos os fãs de Snoopy!

Steve Jobs

Dois nomes de peso de Hollywood estão envolvidos na adaptação da biografia do criador da Apple para as telonas: Danny Boyle, responsável pela direção do filme, e Aaron Sorkin, que fez o roteiro com base no livro de Walter Isaacson. O livro, baseado em mais de quarenta entrevistas com Jobs ao longo de dois anos  e entrevistas com mais de cem familiares, amigos, colegas, adversários e concorrentes , narra a vida atribulada do empresário extremamente inventivo e de personalidade forte e polêmica, cuja paixão pela perfeição e energia indomável revolucionaram seis grandes indústrias: a computação pessoal, o cinema de animação, a música, a telefonia celular, a computação em tablet e a edição digital. Protagonizado por Michael Fassbender, Steve Jobs chega nos cinemas brasileiros também no próximo dia 14.

Pastoral Americana

Em Pastoral Americana, Philip Roth narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. O filme baseado em um dos principais romances de Roth tem estreia prevista para 2016 nos EUA (ainda sem data para o Brasil), e será dirigido pelo ator Ewan McGregor, que também protagoniza o longa. O elenco ainda conta com Jennifer Connelly, Dakota Fanning e Uzo Aduba.

De amor e trevas

Confrontado com o suicídio da mãe aos doze anos, três anos depois Amós Oz declara sua independência e volta as costas para o mundo em que crescera a fim de assumir uma nova identidade num novo lugar: o kibutz Hulda, na fronteira com o mundo árabe. Entre a autobiografia e o romance, De amor e trevas é a extraordinária recriação dos caminhos percorridos por Israel no século XX, da diáspora à fundação de uma nação e de uma língua: o hebraico moderno. O livro de Amós Oz foi adaptado pela atriz Natalie Portman, que assumiu a direção e roteiro do filme e também atua no papel da mãe do escritor. O longa estreou em 2015 em Israel e tem previsão de lançamento no Brasil em abril.

Um holograma para o rei

Tom Hanks faz o papel de um empresário em apuros financeiros que realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida. Ambientado em uma próspera cidade da Arábia Saudita, a história do filme é baseada no livro Um holograma para o rei, de Dave Eggers, que nos leva por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise. O filme estreia em 2016 nos EUA.

Desventuras em série

Finalmente Violet, Klaus e Sunny Baudelaire vão voltar para as telas  mas dessa vez da TV e do computador. A Netflix anunciou que está trabalhando em uma série baseada nos livros de Lemony Snicket que contam a história de três irmãos órfãos que sofrem com a constante ameaça de seu tio, o conde Olaf, que quer roubar sua fortuna. A série de 11 livros já ganhou uma versão para os cinemas em 2004 com Jim Carrey no papel do malévolo conde Olaf. Ainda sem data de estreia (mas que deverá acontecer em 2016), as gravações de Desventuras em série começam agora no início do ano. Ou seja: ainda não temos imagens da adaptação nova para mostrar, mas um fã da série fez este trailer que representa muito bem o clima do livro. Até lá, você pode ir se familiarizando com os irmãos Baudelaire com a série de Snicket.

O Círculo

Mais um romance de Dave Eggers vai ganhar sua versão para as telonas em 2016: O CírculoQuem vai viver a protagonista Mae Holland nos cinemas será Emma Watson, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo. Sediada num campus idílico na Califórnia, O Círculo incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade online única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência. Quem está no Círculo é incentivado a contar tudo, e segredos não são permitidos. O círculo, que deve estrear este ano, é uma eletrizante trama de suspense que levanta questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.

Os livros da selva

Muitos conheceram a história de Mowgli, o menino lobo, com o desenho da Disney lançado em 1967. Em 2016, a história baseada no clássico Os livros da selva, de Rudyard Kipling, ganha uma versão live-action protagonizada pelo jovem ator Neel Sethi e com vozes de Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyongo, Scarlett Johansson e Christopher Walken. O filme deve estrear no Brasil no dia 14 de abril. A nova edição da Penguin-Companhia de Os livros da selva está nas livrarias desde o final do ano passado.

Novembro de 63

Os próximos itens da lista são duas adaptações baseadas em histórias de Stephen King. Em Novembro de 63o professor Jake Epping corrigia as redações dos seus alunos do supletivo quando se depara com um texto brutal e fascinante, escrito pelo faxineiro Harry Dunning. Cinquenta anos atrás, Harry sobreviveu à noite em que seu pai massacrou toda a família com uma marreta. Jake fica em choque… mas um segredo ainda mais bizarro surge quando Al, dono da lanchonete da cidade, recruta Jake para assumir a missão que se tornou sua obsessão: deter o assassinato de John Kennedy. O livro virou a série 11.22.63, com James Franco como protagonista, e estreia no dia 15 de fevereiro na plataforma Hulu.

Celular

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E se uma simples ligação de celular fosse capaz de transformar todos os seus usuários em assassinos impiedosos? Clay Riddell finalmente consegue vender um de seus livros de histórias em quadrinhos quando as pessoas ao seu redor, que por acaso falavam ao celular naquele momento, enlouquecem. Fora de si, começam a atacar e matar quem passa pela frente. Apenas Clay e mais duas pessoas que estavam sem celular no momento escapam e tentam sobreviver à loucura que se instaura. Celular é o próximo livro de Stephen King a virar filme. Com previsão de estreia ainda neste ano, será estrelado por Samuel L. Jackson, John Cusak e Isabelle Fuhrman.

Os filhos da noite

Esta estreia vai acontecer apenas em 2017, mas achamos que você já pode se preparar para ler Os filhos da noite, livro de Dennis Lehane que está se transformando em roteiro do novo filme de Ben Affleck como diretor. O livro acompanha a vida de Joe Coughlin, filho mais novo de um proeminente capitão da polícia de Boston, no mundo do crime em plena Lei Seca. Dos pequenos delitos cometidos na infância, Joe agora desfruta com gosto de uma carreira no crime construída a soldo de um dos mais temidos mafiosos da cidade. Combinando uma história de amor e uma saga de vingança, Lehane traz à vida uma época em que o pecado era motivo de celebração e o vício era uma virtude nacional.

Ansioso para as estreias? Não deixe de ler as histórias que deram origem aos filmes e séries que vêm por aí.

 

Jobs

Por Fabio Uehara

apple

Lembro da primeira vez que vi um computador pessoal ser ligado, e era um Apple II. A televisão, que antes servia só para ver desenho animado, se tornou um objeto que mostrava textos, imagens e jogos. Todos naquela tela verde e brilhante. Naquele momento eu descobri com o que eu queria trabalhar na vida. Queria teclar coisas e fazer surgir aquilo que para mim, quando criança, parecia mágica na tela.

Mais tarde, depois de ter jogado muito Atari, decidi o que faria da vida: design gráfico. Na faculdade vi o primeiro Macintosh Clássico, que ficava no prédio da reitoria. Parecia um objeto tão distante e místico, com apenas alguns comandos páginas de texto saíam de lá, todas com a formatação mais linda do mundo. Era bem a mudança do fotolito, do processo mais artesanal de se fazer o livro, para o digital. Para mim era quase como um sonho que, com aquela caixa cinza, eu não precisaria ter tanta habilidade manual para recortar, riscar, pintar e colar. Bastaria entender aqueles softwares para conseguir desenhar as capas mais lindas e as páginas mais bem diagramadas. Na verdade, não era tão fácil ou simples assim, mas a revolução que isso trouxe é o que vemos hoje no mercado editorial.

Eu queria entrar nesse mundo, e o que fiz foi pedir demissão do emprego anterior, pegar todo o dinheiro da rescisão e comprar um iMac. Se não fosse por ele, estaria vendendo yakissoba até hoje. E se não tivesse entrado no mercado editorial, não estaria usando Macs profissionalmente e não teria a desculpa de ver as apresentações de novos produtos da Apple durante o trabalho.

Aí vamos para 2007. Um amigo, sabendo desta minha pequena obsessão por produtos da maçã, tinha ido para os Estados Unidos e, no meio de um almoço, disse “Olha o que eu trouxe para você também”. Era um iPhone. Lembro da emoção de tirar pela primeira vez aquele plástico da tela. A emoção era tanta por ver aquele objeto tão lindo e reluzente, e também pela minha conta bancária, já que não era um presente, mas uma encomenda não pedida. Mas não podia reclamar. Eu queria muito fazer aplicativos e a promessa de que os livros iriam se tornar digitais foi o que vislumbrei naqueles dias de lua de mel com aquele telefone.

Em 2012 a Companhia das Letras criou o departamento digital, e depois de armados com iPads — outra maravilha da maçã — começamos a fazer e-books, apps e tudo o mais. Era um mundo novo que começava na minha vida editorial, que foi marcado por outro acontecimento: o lançamento de Steve Jobs: a biografia. O livro de Walter Isaacson foi o primeiro e-book a ter uma venda representativa no Brasil, mostrando que não era apenas uma moda, mas sim um formato realmente importante. Mas ao mesmo tempo, essa foi a época em que Jobs morreu, e foi um daqueles eventos que eu lembro exatamente onde estava e fazendo o quê.

Sim, podem me chamar de fanboy, mas na minha vida há vários marcos que fazem paralelos com os produtos criados pela empresa de Steve Jobs. Na primeira vez que fui viajar para fora do país, a segunda coisa que fiz foi ir em uma Apple Store e comprar meu primeiro notebook. O meu primeiro iPad foi comprado na primeira viagem à Europa. O meu trabalho não seria assim se não fosse por este senhor que completaria 60 anos hoje. E que, com certeza, faz muita falta.

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Fabio Uehara é responsável pelo departamento digital da Companhia das Letras.

Semana duzentos

Editora Paralela

 

A dieta da mente, Dr. David Perlmutter e Kristin Loberg
Em A dieta da mente, David Perlmutter apresenta uma descoberta que há muito tempo tem sido escondida pela literatura médica: os carboidratos podem destruir seu cérebro. Até mesmo aqueles considerados “saudáveis”, como os grãos integrais, podem causar demência, déficit de atenção, epilepsia, ansiedade, enxaquecas, depressão, redução da libido e muito mais. Inovador e oportuno, A dieta da mente mostra que o destino do seu cérebro não está na sua genética. Está naquilo que você come. Misturando pesquisas de ponta e histórias reais de transformação, David Perlmutter explica por que uma dieta rica em “gorduras boas” é ideal para o corpo e poderá fazê-lo emagrecer sem voltar a engordar. O revolucionário programa de quatro semanas proposto neste livro aponta o caminho para se manter o cérebro saudável, vibrante e aguçado – sem medicamentos. Com recomendações fáceis de seguir, receitas deliciosas e metas semanais, o plano de ação de Perlmutter prova que você pode assumir o controle de seus genes, recuperar o bem-estar e manter a saúde e a vitalidade por toda a vida.

A igreja da misericórdia, de  Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco) (Tradução de Giuliano Vigini)
Francisco é o papa mais carismático da história recente da Igreja.
Desde que assumiu o posto, o número de visitantes ao Vaticano triplicou. Eleito homem do ano pela revista Time e candidato ao prêmio Nobel, o papa Francisco já fez história ao longo do primeiro ano de seu pontificado, provocando uma verdadeira revolução na Igreja. Agora, escreve como papa pela primeira vez. Com uma bonita e esperançosa mensagem de misericórdia, o homem capaz de mudar a Igreja busca rever seu papel no mundo moderno, ressaltando a importância de servir e acolher os necessitados.

O amor chegou tarde em minha vida, de Ana Paula Padrão
Quando pediu demissão da Globo, de um cargo cobiçado e cheio de glamour, não faltou quem a chamasse de louca. Mas a decisão estava tomada: Ana Paula Padrão deixaria para trás um dos salários mais altos do jornalismo brasileiro para, enfim, tomar as rédeas da própria vida.
Ana Paula Padrão nasceu e cresceu em Brasília, de onde saiu para descobrir o mundo. Com mais de 27 anos de carreira e dezenas de prêmios conquistados, em O amor chegou tarde em minha vida ela abre o jogo e revela que por trás da jornalista bem-sucedida há uma mulher profundamente humana, que amadureceu tendo de lidar com inseguranças, dores e desejos. Neste livro comovente e inspirador, Ana Paula relembra os momentos mais marcantes de sua trajetória e faz uma reflexão contundente sobre a condição atual e o futuro da mulher brasileira a partir de pesquisas e de seu trabalho no portal Tempo de Mulher, uma referência em conteúdo destinado a mulheres.

Portfolio-Penguin

Steve Jobs: as verdadeiras lições de liderança, de Walter Isaaoson (Tradução de Berilo Vargas)
Depois de publicar a biografia definitiva de Steve Jobs – que vendeu milhões de exemplares pelo mundo e já bateu a marca de 300 mil livros no Brasil -, Walter Isaacson perdeu a conta de quantas vezes teve de responder a perguntas sobre quais as verdadeiras lições de liderança deixadas pelo gênio da Apple. Não é para menos: para escrever a biografia, Isaacson conviveu por meses com o reservado Jobs e teve livre acesso a seu misterioso escritório em Palo Alto, além de ter entrevistado mais de uma centena de seus amigos, parentes, concorrentes, adversários e colegas. Em Steve Jobs: as verdadeiras lições de liderança, Isaacson revisita os momentos decisivos da trajetória do gênio para revelar ao leitor de que forma a personalidade do fundador da Apple integrava o jeito como fazia negócios. Nesse livro assertivo e fundamental, Walter Isaacson propõe, enfim, uma lista sucinta e reveladora das chaves de seu sucesso.

Jô e Jobs

Por Luiz Schwarcz


(Fotos por Norman Seeff e Marcio Scavone)

Fazia muito tempo que a Companhia das Letras não tinha dois livros com vendagem tão rápida e significativa como aconteceu agora, com a biografia de Steve Jobs e o romance de Jô Soares, As esganadas. Na verdade, os últimos três anos foram aqueles em que, provavelmente, tivemos menos livros na lista de mais vendidos — curiosamente foram também os anos em que o faturamento da editora mais cresceu. Por sorte, dependemos mais do catálogo do que de livros de alta tiragem, mas quando eles surgem são mais que bem vindos.

Sinto que o leitor do blog muitas vezes divide os livros em categorias, às vezes torcendo o nariz para a literatura de entretenimento ou para outros gêneros menos frequentes na nossa lista editorial. Tenho puxado o assunto para tentar rever com os leitores, e até com muitos funcionários da editora, ideias arraigadas que acabam por hierarquizar livros injustamente.

Por isso, saudar livros de alta vendagem neste blog, como os do Jô e a biografia de Steve Jobs, que muito me orgulham no momento, acaba tendo certo conteúdo provocador. Cada livro tem sua história, sua proposta, e deve ser entendido a partir daí. A boa literatura de entretenimento é melhor que a má literatura cheia de pretensão.

Com provocação ou não, queria contar como esses dois livros nasceram, ao menos como foram os primeiros momentos em que nós, parteiros/editores, fomos chamados a participar de uma maneira ou de outra.

Soube do livro de Walter Isaacson por meio de nossa scout, Maria Campbell. Para os que não sabem, um scout é um profissional que busca informar as editoras para as quais trabalha sobre novos e promissores livros, antes que suas concorrentes o façam. Eles representam um elo cada vez mais importante num mundo que se tornou essencialmente concorrencial. Ao saber do livro, ainda confidencialmente, tentei encontrar-me com a agente durante meses, ameaçando inúmeras vezes viajar especialmente para esse fim; sempre sem sucesso. Apesar de termos sido os editores da biografia de Einstein — o livro de Isaacson que precedeu a biografia de Jobs e que chegou ao topo das listas no Brasil —, eu temia que o novo livro fosse a leilão, o que levaria o preço dos seus direitos às alturas.

Pois Maria Campbell agiu com presteza e, amiga da agente Amanda Urban, assegurou que a Companhia tivesse uma primeira conversa exclusiva, podendo ofertar com preferência. Por coincidência, estava em Nova York logo que os agentes tomaram a decisão de começar a discutir com os editores estrangeiros, e devo ter sido o primeiro a poder ofertar, depois dos meus colegas de língua inglesa.

Assim, num dia especialmente frio, em pleno inverno nova iorquino, fui à ICM, e saí de lá com os direitos comprados. A oferta foi alta, altíssima, mas acabamos pagando menos do que a maioria dos outros países, que compraram a obra três meses depois, em plena feira de Londres, num ambiente competitivo mais acirrado. O adiantamento já deve estar se pagando, no segundo mês de venda do livro, cuja edição também teve momentos emocionantes.

Sabendo do estado de saúde do biografado, combinei com Marta Garcia, a editora do livro na Companhia, que deveríamos trabalhar em tempo real com a edição americana — apesar de termos contra nós o difícil encargo da tradução. Marta conseguiu montar uma equipe ágil de tradutores e, dito e feito: começamos a receber o material em julho, e um mês antes da data prevista para a publicação do livro, com a triste notícia da morte de Jobs, a edição americana foi antecipada, e nós tivemos que correr para conseguir manter a simultaneidade.

O livro, que estava previsto para o dia 22 de novembro, teve que sair no dia 24 de outubro, dois dias depois da data prevista para o livro do Jô. Steve Jobs e As esganadas de Jô Soares, livros que de alguma forma traziam as mesmas inicias invertidas, acabaram indo para as livrarias na mesma semana. (Poucas semanas depois, um inédito de José Saramago, Claraboia, saía da gráfica. Estamos no mês dos Js e Ss!).

A história das Esganadas, como fiquei sabendo do livro  e o do que antecedeu o nascimento dele, conto na próxima semana. Isso se nenhum assunto extraordinário se apresentar. De qualquer forma até lá e: saudades, meus jovens!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Sobre a biografia de Steve Jobs

Por Walter Isaacson
[Este texto será publicado na revista TIME de 7 de outubro. Tradução de Pedro Maia Soares.]

A saga de Steve Jobs é o mito de criação da revolução digital em grande escala: o início de um negócio na garagem de seus pais e sua transformação na empresa mais valiosa do mundo. Embora não tenha inventado muitas coisas de cabo a rabo, Jobs era um mestre em combinar ideias, arte e tecnologia de uma maneira que por várias vezes inventou o futuro. Ele projetou o Mac depois de apreciar o poder das interfaces gráficas de uma forma que a Xerox não foi capaz de fazer, e criou o iPod depois de compreender a alegria de ter mil músicas em seu bolso de uma forma que a Sony, que tinha todos os ativos e a herança, jamais conseguiu fazer. Alguns líderes promovem inovações porque têm uma boa visão de conjunto. Outros o fazem dominando os detalhes. Jobs fez ambas as coisas, incansavelmente.

Em consequência, revolucionou seis indústrias: computadores pessoais, filmes de animação, música, telefones, tablets e publicação digital. Pode-se até adicionar uma sétima: lojas de varejo, que Jobs não chegou a revolucionar, mas repensou. Ao longo do caminho, ele não só produziu produtos transformadores, mas também, em sua segunda tentativa, uma empresa duradoura, dotada de seu DNA, que está cheia de designers criativos e engenheiros ousados que podem levar adiante sua visão.

Jobs tornou-se assim o maior executivo de nossa época, aquele que com maior certeza será lembrado daqui a um século. A história vai colocá-lo no panteão, bem ao lado de Edison e Ford. Mais do que ninguém de seu tempo, ele fez produtos que eram completamente inovadores, combinando o poder da poesia com processadores. Com uma ferocidade que poderia tornar o trabalho com ele tão perturbador quanto inspirador, também construiu o que se tornou, ao menos por um período do mês passado, a empresa mais valiosa do mundo. E foi capaz de infundir nela a sensibilidade para o design, o perfeccionismo e a imaginação que fizeram da Apple, com toda probabilidade, mesmo em décadas futuras, a empresa que melhor prospera na intersecção entre arte e tecnologia.

No início do verão de 2004, recebi um telefonema de Jobs. Ele havia sido intermitentemente amigável comigo ao longo dos anos, com rajadas ocasionais de intensidade, em especial quando lançava um novo produto que queria na capa da Time ou em programa da CNN, lugares em que eu trabalhava. Mas agora que eu não estava mais em nenhum desses lugares, não tinha notícias frequentes dele. Conversamos um pouco sobre o Instituto Aspen, para o qual eu havia recentemente entrado, e o convidei para falar no nosso campus de verão no Colorado. Ele disse que ficaria feliz de ir, mas não para estar no palco. Na verdade, queria dar uma caminhada comigo para que pudéssemos conversar.

Isso me pareceu um pouco estranho. Eu ainda não sabia que dar uma longa caminhada era a sua forma preferida de ter uma conversa séria. No fim das contas, ele queria que eu escrevesse sua biografia. Eu havia publicado recentemente uma de Benjamin Franklin e estava escrevendo outra sobre Albert Einstein, e minha reação inicial foi perguntar, meio de brincadeira, se ele se considerava o sucessor natural naquela sequência. Supondo que ele estava no meio de uma carreira oscilante, que ainda tinha muitos altos e baixos pela frente, eu hesitei. Não agora, eu disse. Talvez em uma década ou duas, quando você se aposentar.

Mas depois me dei conta de que ele havia me chamado logo antes de ser operado de câncer pela primeira vez. Enquanto eu o observava lutar contra a doença, com uma intensidade incrível, combinada com um espantoso romantismo emocional, passei a achá-lo profundamente atraente, e percebi quão profundamente sua personalidade estava entranhada nos produtos que ele criava. Suas paixões, o perfeccionismo, os demônios, os desejos, o talento artístico, o talento diabólico e a obsessão pelo controle estavam integralmente ligados a sua abordagem do negócio, e decidi então tentar escrever sua história como estudo de caso de criatividade.

A teoria do campo unificado que une a personalidade de Jobs e os produtos começa com sua característica mais saliente, a intensidade. Ela era evidente já nos tempos de escola secundária. Naquela época, ele já começara com as experiências que faria ao longo de toda a sua vida com dietas compulsivas – em geral, somente de frutas e legumes – de tal modo que era tão magro e firme quanto um whippet. Ele aprendeu a olhar fixo para as pessoas e aperfeiçoou longos silêncios pontuados por rajadas em staccato de fala rápida.

Essa intensidade estimulou uma visão binária do mundo. Os colegas se referiam à dicotomia herói/cabeça de bagre; você era um ou o outro, às vezes no mesmo dia. O mesmo valia para produtos, ideias, até para a comida: As coisas ou eram “a melhor coisa do mundo” ou uma droga. Era capaz de provar dois abacates, indistinguíveis para os mortais comuns, e declarar que um deles era o melhor já colhido e o outro, intragável.

Julgava-se um artista, o que incutiu nele a paixão por design. No início da década de 1980, quando estava construindo o primeiro Macintosh, não parava de exigir que o projeto fosse mais “amigável”, um conceito estranho aos engenheiros de hardware da época. Sua solução foi fazer o Mac evocar um rosto humano, e chegou a manter a faixa acima da tela fina para que não fosse uma cara de Neanderthal.

Jobs compreendia intuitivamente os sinais que um projeto adequado emite. Quando ele e seu companheiro de projeto Jony Ive construíram o primeiro iMac, em 1998, Ive decidiu que o aparelho deveria ter uma alça situada na parte superior. Era uma coisa mais brincalhona e semiótica do que funcional. Tratava-se de um computador de mesa. Não muitas pessoas iriam carregá-lo para cima e para baixo. Mas a alça emitia um sinal de que você não precisava ter medo da máquina, que podia tocá-la e ela lhe obedeceria. Os engenheiros objetaram que aquilo aumentaria o custo, mas Jobs ordenou que fizessem daquele jeito.

Sua busca pela perfeição levou à compulsão de que a Apple tivesse um controle de ponta a ponta de todos os seus produtos. A maioria dos hackers e aficionados gostava de personalizar, modificar e conectar coisas diferentes em seus computadores. Para Jobs, tratava-se de uma ameaça para uma experiência de usuário inconsútil de ponta a ponta. Seu parceiro inicial Steve Wozniak, um hacker nato, discordava. Ele queria incluir oito slots no Apple II para que os usuários pudessem inserir as placas de circuito menores e os periféricos que quisessem. Jobs concordou com relutância. Mas, alguns anos mais tarde, quando construiu o Macintosh, ele o fez à sua maneira. Não havia slots extras ou portas, e chegou mesmo a usar parafusos especiais para que os aficionados não pudessem abri-lo e modificá-lo.

Seu instinto de controle significava que ele tinha urticária, ou algo pior, ao contemplar o excelente software da Apple rodando em hardwares ruins de outras empresas, e também era alérgico à ideia de aplicativos ou conteúdos não aprovados poluindo a perfeição de um dispositivo da Apple. Essa capacidade de integrar hardware, software e conteúdo em um sistema unificado lhe possibilitava impor a simplicidade. O astrônomo Johannes Kepler, declarou que “a natureza ama a simplicidade e a unidade”. O mesmo acontecia com Steve Jobs.

Isso o levou a decretar que o sistema operacional do Macintosh não estaria disponível para o hardware de qualquer outra empresa. A Microsoft seguiu a estratégia oposta, permitindo que seu sistema operacional Windows fosse promiscuamente licenciado. Isso não produziu os computadores mais elegantes, mas levou a Microsoft a dominar o mundo dos sistemas operacionais. Depois que a fatia de mercado da Apple caiu para menos de 5%, a estratégia da Microsoft foi declarada vencedora no reino do computador pessoal.

A longo prazo, no entanto, o modelo de Jobs mostrou ter algumas vantagens. Sua insistência na integração de ponta a ponta deu à Apple, no início do século XXI, uma vantagem no desenvolvimento de uma estratégia de hub digital, o que permitiu que seu computador de mesa se ligasse perfeitamente a uma variedade de dispositivos portáteis e gerenciasse seu conteúdo digital. O iPod, por exemplo, fazia parte de um sistema fechado e totalmente integrado. Para usá-lo, era preciso utilizar o software iTunes da Apple e baixar conteúdos da iTunes Store. Em consequência, o iPod, tal como o iPhone e o iPad que vieram depois, eram um deleite elegante, em contraste com os canhestros produtos rivais que não ofereciam uma experiência perfeita de ponta a ponta.

Para Jobs, a crença em uma abordagem integrada era uma questão de retidão. “Não fazemos essas coisas porque somos malucos por controle”, explicou. “Nós as fazemos porque queremos fazer grandes produtos, porque nos preocupamos com o usuário e porque gostamos de assumir a responsabilidade por toda a experiência, ao invés fabricar a porcaria que outros fazem.” Ele também acreditava que estava prestando um serviço às pessoas. “Elas estão ocupadas fazendo o que sabem fazer melhor e querem que façamos o que fazemos melhor. Suas vidas estão ocupadíssimas; elas têm mais coisas a fazer do que pensar em como integrar seus computadores e dispositivos.”.

Em um mundo cheio de dispositivos inúteis, software pesados, mensagens de erro inescrutáveis e interfaces irritantes, a insistência de Jobs em uma abordagem integrada levou à criação de produtos surpreendentes, caracterizados por uma experiência de usuário deliciosa. Usar um produto da Apple podia ser tão sublime quanto caminhar em um dos jardins zen de Quioto que Jobs amava, e nenhuma dessas experiências foi criada pela adoração no altar da abertura ou deixando mil flores florescem. Às vezes é bom estar nas mãos de um maníaco por controle.

Há algumas semanas, visitei Jobs pela última vez em sua casa de Palo Alto. Ele se mudara para um quarto no andar de baixo, porque estava fraco demais para subir e descer escadas, e estava encolhido com um pouco de dor, mas sua mente ainda estava afiada e seu humor vibrante. Conversamos sobre sua infância, e ele me deu algumas fotos de seu pai e da família para usar em minha biografia. Como escritor, estou acostumado a manter distanciamento, mas fui atingido por uma onda de tristeza quando tentei dizer adeus. A fim de disfarçar minha emoção, fiz a pergunta que ainda me deixava perplexo. Por que ele se mostrara tão disposto, durante quase cinquenta entrevistas e conversas ao longo de dois anos, a se abrir tanto para um livro, quando costumava ser geralmente tão discreto? “Eu queria que meus filhos me conhecessem”, disse ele. “Eu nem sempre estava presente, e queria que eles soubessem o porquê disso e entendessem o que fiz.”

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Walter Isaacson acabou de escrever uma biografia de Steve Jobs com a cooperação dele. O livro, Steve Jobs, será publicado dia 24 de outubro pela Companhia das Letras.

[Excepcionalmente, não haverá texto de Luiz Schwarcz hoje. A coluna Imprima-se retorna na próxima 5ª]

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