Steven Naifeh

Um louco que se achava Van Gogh

Por Flávio Moura


Van Gogh pintando girassóis. Quadro de Paul Gauguin.

“Victor Hugo era um louco que se achava Victor Hugo.” A frase de Jean Cocteau sobre o escritor francês serve bem para compreender o personagem que emerge da biografia Van Gogh: a vida, a mais completa já escrita sobre o pintor dos girassóis.

O Van Gogh que aparece nesse livro não tem nada do lunático de almanaque retratado nas incontáveis versões idealizadas de sua trajetória. Era apenas um sujeito obstinado que acreditava na grandeza do que produzia. O que confere à crença ares de loucura é o fato de que ele era o único que parecia apostar nisso enquanto viveu.

Nenhuma biografia ou estudo pregresso foi tão fundo na pesquisa. Os capítulos se desenrolam quase mês a mês, da adolescência do artista até sua morte precoce, aos 37 anos, em 1890. São cinco mil notas sobre as referências consultadas — felizmente excluídas do livro e abrigadas no site http://vangoghbiography.com/.

As 1300 páginas do livro não devem ser vistas com reservas, mas como convite à leitura. Os autores, os jornalistas Steven Naifeh e Gregory White-Smith, são os mesmos da biografia de Jackson Pollock que deu origem ao filme homônimo de 2000, dirigido e estrelado por Ed Harris. Escrevem como se vissem a história projetada numa tela grande — o que é particularmente eficiente para descrever uma vida como a de Van Gogh.

O pai do pintor, pastor protestante, é severo como um personagem de Dickens. A mãe, intolerante e incapaz de afeto com o primogênito, passa os dias a lamentar a tragédia da família fraturada e morre com vergonha do filho fracassado. O protagonista, pouco talhado para a vida social, vive para as leituras, literárias e religiosas, e para uma atividade artística que os familiares toleram com condescendência. Acrescente-se ao enredo  a tese mais ousada do livro: a de que Van Gogh não se matou, mas foi assassinado.

Apesar dos elementos cinematográficos, o livro é pródigo em desfazer clichês e imagens idealizadas. Van Gogh não foi um gênio diletante. Sua formação técnica e em história da arte foi mais ampla do que se costuma divulgar.

O primeiro emprego foi na galeria de um tio, comerciante rico de reproduções de clássicos da pintura. Por seis anos, como vendedor da loja, Vincent teve contato diário com um repertório de imagens que copiava em cadernos, recortava e colecionava. Não concluía os cursos e era péssimo em se relacionar com os colegas, que viviam a tirar sarro do tipo excêntrico e ensimesmado, mas matriculou-se mais de uma vez em academias de arte onde teve o treinamento acadêmico que constituía o repertório erudito do século XIX.

Convivia, ainda que indiretamente, num círculo ligado ao centro mais dinâmico da pintura da época: aprendiz na mesma galeria do tio, o irmão Theo tornou-se marchand em Paris, com trânsito livre entre os impressionistas, cujas exposições ele organizava e muitos dos quais sustentou com pagamentos mensais. Van Gogh tinha, portanto, relações familiares e formação que o permitiam criar e dialogar com a produção de ponta da pintura de seu tempo.

Também sua loucura aparece de modo matizado no livro. Desde pequeno, gostava de ficar sozinho e assustava os que ficavam a seu lado de tanto que pedia atenção. Era carente e obsessivo, ainda que sua carência fosse facilmente explicável pela rigidez familiar, e a obsessão, na juventude ao menos, não ficava distante de um interesse extremo pelo mundo que o cercava.

Os surtos de Vincent se agravam mais tarde e em conexão com um motivo palpável: a sífilis, fruto de uma vida sexual desregrada, mas nada incomum na época. Não à toa, o irmão Theo, em todos os aspectos a figura bem-sucedida da família, padeceu do mesmo mal. O que tornou impossível para Vincent ser reconhecido pelos seus pares e obter sucesso em vida foi seu temperamento irascível, por um lado, e por outro uma técnica impetuosa que não tornava seu trabalho palatável para o público a quem seu irmão tentava vendê-lo.

Uma das frases que Theo mais repete nas cartas ao irmão é esta: “Economize tinta, Vincent, economize tinta”. Responsável até o fim pelo sustento do irmão, Theo considerava um desperdício as espessas camadas de tinta com que Vincent compunha suas telas. A reprimenda é sintomática da contradição encarnada no artista: o que com o tempo se tornou seu traço estilístico mais valorizado era tido pelo irmão como um capricho desnecessário.

Pôr em xeque a versão de suicídio do autor, aceita até hoje como verdadeira, é o lance mais ousado do livro e também uma forma de atenuar sua personalidade problemática. Os autores argumentam que o tiro na barriga que matou o artista foi disparado acidentalmente por René Secrétan, filho de um farmacêutico que passava os verões na região de Auvers sur Oise, onde o artista morreu.

A versão do suicídio teria sido consagrada em 1934, na biografia romanceada Sede de viver, de Irving Stone, vinte anos depois transformada em filme premiado com o Oscar. Mas os autores enxergam furos na versão. A arma do disparo nunca apareceu. Os equipamentos de pintura que estavam com Vincent também jamais foram vistos, assim como nunca se soube o local exato do disparo.

É uma tese polêmica, mas quem quiser contestá-la terá de enfrentar trinta páginas do apêndice dedicado exclusivamente a esse debate, com um conjunto de evidências difícil de ignorar.

Van Gogh: a vida é um livro sobre uma figura sofrida e fascinante, sob medida para ser relatada com requintes romanescos. Mas é também o retrato de um artista sério e determinado cuja maior loucura, como o Victor Hugo de Cocteau, foi acreditar que era ele mesmo.

[A biografia de Van Gogh chega às livrarias dia 5 de dezembro.]

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Flávio Moura, 34, é editor da Companhia das Letras. É doutor em Sociologia pela USP e foi diretor de programação da Flip (2008-2010).