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Leia um trecho inédito de A garota na teia de aranha

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Falta pouco para a volta de uma das personagens mais enigmáticas da literatura. Vinte e sete de agosto é o dia do lançamento mundial de mais um livro da série Millennium, A garota na teia de aranha, escrito por David Lagercrantz, que assumiu o desafio de continuar a aclamada série de Stieg Larsson. Enquanto o dia 27 não chega, apresentamos a vocês um trecho inédito liberado antecipadamente para quem já quer entrar no clima das histórias de Lisbeth e Mikael Blomkvist. A seguir, leia uma amostra de como será o quarto livro da série Millennium.

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9. MADRUGADA DE 21 DE NOVEMBRO

Lisbeth acordou atravessada na imensa cama de casal e lembrou que tinha sonhado com o pai. Um sentimento ameaçador a envolvia como um véu. Mas em seguida se lembrou da noite anterior e concluiu que devia ser uma reação química do corpo. Estava de ressaca e se levantou com as pernas ainda bambas para ir vomitar no enorme banheiro de mármore equipado com banheira de hidromassagem e todas essas idiotices dos ricos. Mas apenas se ajoelhou e começou a respirar fundo.

Depois de algum tempo se levantou e se olhou no espelho, o que não foi muito animador. Seus olhos estavam vermelhos. Mal passava da meia-noite. Não podia ter dormido só umas poucas horas. Ao sair do banheiro, pegou um copo e o encheu com água. No mesmo instante, as lembranças do sonho voltaram, e Lisbeth apertou com força o copo que segurava e se cortou nos estilhaços. O sangue pingou no assoalho e ela soltou um palavrão ao perceber que não iria mais conseguir dormir.

Será que devia tentar descriptografar o arquivo que havia baixado no dia anterior? Não, não valia a pena, pelo menos não naquele instante. Lisbeth enrolou um curativo na mão, foi até a estante de livros e pegou o mais recente estudo da pesquisadora de Princeton Julie Tammet no qual ela descrevia o colapso e a transformação das estrelas em buracos negros. Depois se deitou no sofá vermelho que ficava junto à janela com vista para Slussen e o lago de Riddarfjärden.

Lisbeth se sentiu um pouco melhor assim que começou a ler. O sangue da mão pingava nas páginas e sua cabeça não parava de latejar. Mesmo assim se deixou levar pela leitura e de vez em quando fazia uma anotação na margem. Sabia melhor do que a maioria das pessoas que uma estrela se mantém viva graças a duas forças opostas — as explosões nucleares em seu interior, que a levam a tentar se expandir, e a força da gravidade, que assegura sua integridade estrutural. Lisbeth via isso como um cabo de guerra que passa milhões de anos empatado e que apenas no fim, depois que o combustível nuclear acaba e as explosões perdem força, achega ao inevitável vencedor.

Continue a leitura do trecho aqui

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Sinopse: Uma muralha virtual impenetrável: é assim que se pode definir a rede da NSA, a temida agência de segurança americana. Quando a mensagem “Você foi invadido” piscou na tela de Ed Needham, responsável pelos computadores que guardam alguns dos maiores segredos do mundo, ele custou a acreditar. A tentativa de localizar o criminoso também não trazia frutos, as pistas não levavam a lugar nenhum, cada indício terminava num beco sem saída. Que hacker seria capaz de algo assim? Para o leitor que acompanha a série Millennium, criada por Stieg Larsson, só há uma resposta possível: a genial e atormentada justiceira Lisbeth Salander está de volta. Mas por que Lisbeth, uma hacker fria e calculista que nunca dá um passo sem pesar as consequências, teria cometido um crime gravíssimo e ainda provocado de forma quase infantil um dos maiores especialistas em segurança dos Estados Unidos? Depois de finalmente se livrar da polícia sueca e de todas as acusações que pesavam sobre si, que motivo ela teria para se atirar em outro lamaceiro político?

A garota na teia de aranha, de David Lagercrantz, chega às livrarias no dia 27 de agosto.

 

Stieg Larsson foi meu vizinho

Por Ana Paula Laux

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Morei na Suécia de 1996 a 2001. Pouco sabia sobre aquele país antes de mudar para lá. Fundamentalmente, que era o berço dos vikings, que é uma monarquia constitucional (com uma rainha “brasileira”) e que tem um inverno de matar. Conhecia também o ABBA (e quem não conhece?), quarteto tremendamente famoso nos anos 1970.

Das cinco primaveras lá vividas, uma passei em Estocolmo num apartamentinho no bairro de Solna. Naquele final de século, confesso que não lembro de ouvir falar de Stieg Larsson. Apesar do importante papel que ele já cumpria como ativista político e jornalista, não era necessariamente uma figura famosa. Como vivemos na mesma cidade e época, costumo imaginar que nos cruzamos em algum momento pela Drottninggatan, uma importante rua da capital, ou que já comemos um suculento kebab com molho de iogurte na mesma lanchonete, ou que pegamos a mesma fila de cinema numa sessão qualquer. Se passamos pelas mesmas calçadas, se enfrentamos os mesmos invernos, fomos de certa forma vizinhos! Mas ele sempre foi muito discreto, e eu é que nem percebi sua presença…

O fato é que os crimes da ficção de Larsson me chocaram profundamente. Isso porque não reconheci neles a Suécia que vi com meus olhos e absorvi em doses homeopáticas de espanto e admiração. Maldades de natureza tão sombria não eram comuns nos noticiários suecos, e quando aconteciam viravam manchete no jornal. Mas isso existe em qualquer sociedade, sabemos, pois faz parte da natureza humana. A ambição, a busca pelo poder e a inveja permeiam as atitudes das pessoas, independente das condições econômicas e sociais. As histórias de Stieg Larsson nos fazem ver que crimes hediondos e atos de extrema violência acontecem até mesmo em sociedades que consideramos perfeitas, equilibradas e frias.

Mesmo não estando mais entre nós há tanto tempo, esse discreto vizinho continua apresentando ao mundo uma realidade lúgubre que muitos gostariam de ocultar. Realidade violenta, racista, sexista, perversa. Muito disso já era denunciado pelo Stieg jornalista, mas foi o escritor que chamou a atenção do mundo de uma forma mais arrebatadora. Quem diria?! Uma trilogia policial com quase duas mil páginas vende mais de 80 milhões de exemplares no planeta, e volta nossas cabeças para aquela nação aparentemente tão pacata! É o Stieg escritor quem nos informa no comecinho de Os homens que não amavam as mulheres que quase um quinto das mulheres suecas foram ameaçadas por algum homem pelo menos uma vez na vida.

Qual o segredo do sucesso de Stieg Larsson? Foi sua morte precoce e repentina, antes mesmo de publicar a série Millennium? Foi a prosa rápida e fluente? Quem sabe a força literária ou os crimes violentos? Tudo isso e muito mais. Quem pode resistir a uma personagem como Lisbeth Salander, ao mesmo tempo tão problemática e valente? O que dizer de Mikael Blomkvist, o jornalista investigativo que atua numa revista de compromisso político, como fazia o próprio Stieg? Há quem enxergue sutis ironias em títulos como A rainha do castelo de ar e A menina que brincava com fogo, pitadas da inteligência e humor tipicamente suecos.

Curioso é que a coragem e a ousadia de Lisbeth Salander foram inspiradas numa clássica personagem infantil, a pequena Pippi Meialonga, criada pela excelente Astrid Lindgren. Só mesmo grandes autores fazem surgir criaturas que, apesar de seu visual inicialmente extravagante, atuam de forma tão magnética. Não são os piercings, as tatoos, o corte de cabelo rebelde que assustam aos leitores, mas os crimes sórdidos que podem ser cometidos por qualquer ser humano, sem distinções sociais. Stieg soube dosar ação, tensão psicológica, disputas de tribunal e indignação diante da hipocrisia. Isso também ajuda a explicar a tamanha repercussão da trilogia Millennium. Não é à toa que a saga foi parar nos cinemas, em versões sueca e norte-americana, e também seja retomada agora, dez anos depois de ter chegado às livrarias.

Em 27 de agosto, chegará às prateleiras A garota na teia de aranha. O quarto livro da série Millennium é assinado pelo também jornalista David Lagercrantz, coincidentemente nascido no bairro de Solna (será que já cruzei com ele em alguma esquina de Estocolmo?). A retomada de personagens por outros autores que não seus criadores originais têm se tornado cada vez mais comum na literatura. Foi assim com James Bond, Sherlock Holmes e Hercule Poirot, e agora também com a série de Larsson. Será que meu discreto vizinho imaginava um futuro tão popular para a série Millennium? Nunca saberemos, mas gosto de acreditar que sim. Torço para que Lisbeth continue povoando nossa imaginação e tomando atitudes necessárias e corajosas, num mundo que não me parece mais tão descolado dos romances policiais.

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Ana Paula Laux é jornalista e escritora. Produz conteúdos e faz curadoria de informações para o site e o Facebook do Clube do Crime, da Companhia das Letras. É editora do site www.literaturapolicial.com, e sob o pseudônimo Chris Laux lançou com Rogério Christofoletti o e-book Os Maiores Detetives do Mundo.

Por que Millennium continua

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Quando foi anunciado que seria lançado um novo volume da série Millennium, A garota na teia de aranha, muitos se perguntaram o motivo de continuar publicando, após a morte de Stieg Larsson, novas histórias de Lisbeth Salander. Joakim e Erland Larsson, pai e irmão de Stieg, escreveram uma carta para explicar aos fãs da série como será essa continuação. Leia a seguir na íntegra a carta da família de Stieg Larsson.

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Agosto marca o aniversário de dez anos da publicação de Os homens que não amavam as mulheres na Suécia. Foi o começo de uma das maiores histórias de sucesso literário sueco de todos os tempos. Até hoje, os três romances da série Millennium venderam em torno de 80 milhões de cópias em 48 idiomas ao redor do mundo. Todos os anos turistas de diversos países viajam a Estocolmo para seguir os passos de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Maior do que isso é a nossa tristeza por nosso filho e irmão Stieg Larsson não ter tido a chance de testemunhar este sucesso fenomenal. Menos de um ano antes da publicação do primeiro livro ele faleceu, rápida e inesperadamente. Foi, é claro, uma dor insuperável perder alguém querido tão de repente. Além disso, o fato de não termos conseguido chegar a um acordo amigável com a parceira de Stieg, Eva Gabrielsson, permanece como uma ferida aberta para todos os envolvidos.

Após a morte de Stieg, nós, seu pai e irmão, herdamos os direitos de seu espólio literário. Uma vez que Eva Gabrielsson se recusou a cooperar conosco em relação ao legado de Stieg, nós somos os únicos responsáveis por decidir como as obras dele podem ser usadas.

Concordamos que David Lagercrantz escrevesse sua própria sequência independente para a série Millennium. Em agosto, bem a tempo do décimo aniversário do primeiro romance, A garota na teia de aranha chegará às livrarias. O livro será traduzido e lançado simultaneamente em pelo menos 35 países. Leitores de todo o mundo poderão viver novas aventuras com os protagonistas Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Nós sabemos que muitos estão ansiosos por isso.

A decisão de publicar um quarto livro na série Millennium foi recebida com críticas por algumas pessoas. Uma das objeções é que seria antiético permitir que outro autor escreva uma sequência baseada nos personagens de um autor falecido. Também foi sugerido que o principal objetivo desta publicação fosse o lucro. Stieg teria se oposto se estivesse vivo, alguns afirmaram.

Nós respeitamos o fato de que outras pessoas têm suas opiniões sobre como escolhemos administrar o legado de Stieg. Mas em um ponto, porém, os críticos estão indiscutivelmente errados: no de que isto foi feito para ganhar um dinheiro rápido. Desde o princípio, deixamos claro que qualquer lucro que obtivermos com A garota na teia de aranha irá diretamente para a revista antirracista Expo, da qual Stieg foi cofundador.

Desde a morte de Stieg, a Expo recebeu 18 milhões de coroas suecas da renda gerada pelas vendas da trilogia Millennium. Ao longo dos últimos anos, o nível de apoio financeiro recebido tem ficado, em média, em torno de 2 milhões anuais. Graças à receita gerada por A garota na teia de aranha, a Expo vai se beneficiar com um capital adicional no valor de vários milhões de coroas suecas. Numa sociedade em que o racismo e a xenofobia estão em ascensão, sua causa parece mais urgente do que nunca.

Apesar disso, é verdade que as editoras poderão, naturalmente, ganhar dinheiro com A garota na teia de aranha. O que nos parece um bom negócio, já que a renda e a lucratividade geradas por publicações bem-sucedidas são essenciais para manter uma indústria editorial forte e dinâmica. Consideramos ainda que ainda Norstedts e as editoras internacionais de Stieg trataram suas obras e seu falecimento prematuro com grande dignidade. Caso contrário, nós jamais teríamos aprovado uma sequência independente para a série Millennium.

Nós nos orgulhamos do que Stieg criou com seus romances. Enxergamos uma oportunidade de permitir que seus personagens e histórias continuem vivos na sequência de David Lagercrantz. Sua maestria literária é célebre, e ele demonstrou perspicácia e empatia ao dar voz a pessoas como Göran Kropp, Alan Turing e Zlatan Ibrahimovic. Não conseguimos pensar em um autor melhor para esse projeto.

David Lagercrantz assinou o romance com seu nome, como ficará perfeitamente claro em todos os materiais de venda, incluindo a capa do livro. Afirmar que estamos tentando vender A garota na teia de aranha como se fosse uma obra de Stieg não faz o menor sentido.

Vale lembrar que a história da Literatura está repleta de exemplos de sequências escritas após a morte do criador original dos personagens, do James Bond de Ian Fleming à Agatha Christie de Sophie Hannah.

Nós esperamos e acreditamos, ainda, que a publicação de A garota na teia de aranha contribuirá para despertar um interesse renovado nos títulos da série Millennium escritos pelo próprio Stieg.

Como herdeiros, não podemos nos esquivar da responsabilidade associada à administração de seu legado. Nós sabemos que Stieg esperava — e sentia — que a trilogia Millennium estivesse destinada a um grande sucesso comercial, e agora tomamos a decisão de permitir que David Lagercrantz continue a esta missão.

Joakim Larsson

Erland Larsson

Publicado originalmente no Expressen no dia 21 de junho de 2015. 

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A garota na teia de aranha chega às livrarias no dia 27 de agosto. Assine nossa newsletter para receber novidades sobre a série Millennium.

O menino que amava os livros de Stieg Larsson

Por Raphael Montes

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Eu tinha dezoito anos quando Os homens que não amavam as mulheres, primeiro livro da série Millennium, chegou ao Brasil. Na época, eu já era apaixonado por literatura policial e escrevia os primeiros rascunhos de Suicidas. Ao encontrar Os homens que não amavam as mulheres na livraria, lembro-me com clareza que o elogio do Luiz Alfredo Garcia-Roza na contracapa me fez correr ao caixa e levar o livro para casa. Devorei as 522 páginas em um final de semana e, ao concluir a leitura, tive a certeza de que estava diante de algo grandioso.

Em seu romance de estreia, Stieg Larsson realiza literatura em sua plenitude. O volume permite várias camadas de leitura: na superfície, uma trama instigante que entretém o leitor desde o prólogo elegante até o final. Em observações mais atentas, o livro revela uma linguagem apurada, traz críticas sociais pertinentes e questões políticas contemporâneas pouco abordadas pela literatura. Sem dúvida, Stieg Larsson foi o primeiro autor a fazer um “romance policial do século XXI”, num estilo pop e vibrante, explorando todas as possibilidades tecnológicas que nosso tempo permite.

Ao mesmo tempo, Stieg Larsson se revelou um profundo conhecedor da tradição de crime fiction: em suas primeiras páginas, Os homens que não amavam as mulheres lembra um whodunit tradicional de Agatha Christie, com um desaparecimento misterioso, suspeitos em um local fechado e um detetive contratado para investigar o crime ocorrido anos antes. Partindo dessa premissa clássica, a obra ganha contorno e ritmo modernos, principalmente graças a seus dois protagonistas, o jornalista Mikael Blomqvist e a problemática hacker Lisbeth Salander.

Enquanto Os homens que não amavam as mulheres homenageia o romance policial clássico inglês, os dois livros seguintes da série Millennium abraçam outros subgêneros da literatura policial. Com trama ágil, A menina que brincava com fogo faz lembrar um thriller noir norte-americano, com ganchos em cada capítulo e um vilão implacável que ameaça a vida dos protagonistas ao longo das páginas. Neste segundo volume, Mikael e Lisbeth são levados ao submundo da sociedade sueca e precisam enfrentar seus inimigos não apenas com o cérebro, mas com os punhos. Já o terceiro livro, A rainha do castelo de ar, tem referências ao romance de espionagem e certas pitadas de livros de Ian Fleming, criador de James Bond, e de John Le Carré.

Merecidamente, a série Millennium vendeu mais de 80 milhões de exemplares no mundo e rendeu quatro filmes: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar, todos lançados em 2009 na Suécia, e o americano Millennium: Os homens que não amavam as mulheres, estrelado por Daniel Craig e com direção de David Fincher, de 2011.

Pelo que se diz, Stieg Larsson pretendia escrever dez livros protagonizados por Mikael e Lisbeth. A mim, parece claro que, em cada volume, Larsson pretendia homenagear um subgênero do romance policial. Infelizmente, o autor não teve tempo de ver todo o sucesso que seu trabalho alcançou: ele faleceu em 2004, aos cinquenta anos, vítima de um ataque cardíaco, antes que seu primeiro livro tivesse sido publicado.

A própria história de vida de Stieg Larsson parece uma trama policial: o autor foi um dos mais influentes jornalistas e ativistas políticos de seu país. Fundou a revista Expo, onde denunciou organizações neofascistas e racistas. Quando Larsson morreu, por questões jurídicas, Eva Gabrielsson, companheira do escritor por 32 anos, não teve direito a nenhum tostão da fortuna obtida com a série Millenium — isto porque ela e Larsson nunca se casaram oficialmente. O pai e o irmão do autor foram considerados os únicos herdeiros à luz da lei sueca, claramente obsoleta.

Ansiosos por continuar a série, os editores contrataram David Lagercrantz, coautor de Eu sou Zlatan Ibrahimovic, a biografia do atacante sueco, para a insana tarefa de escrever o quarto livro da série a partir do zero. De início, fiquei ressabiado com a ideia de alguém escrevendo um novo livro com base nos personagens de outro autor. A verdade é que só existe um único Stieg Larsson e isso não tem mais volta. No entanto, agora que se aproxima a publicação de A garota na teia de aranha (27 de agosto nas livrarias), mal posso conter minha expectativa para viver mais algumas aventuras ao lado de Mikael e Lisbeth Salander. Vou conferir.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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A carta de Stieg Larsson

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Foi numa quarta-feira, 18 de junho, que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se encontraram pela primeira vez. Os homens que não amavam as mulheres foi lançado originalmente em 2005, e Stieg Larsson nem viu o sucesso que os seus livros fizeram no mundo todo – o autor faleceu em 2004. Dez anos depois, David Lagercrantz dará continuação à série Millennium, levando adiante a ideia de Larsson de publicar mais livros protagonizados por Lisbeth e Mikael, e não só uma trilogia.

A seguir, leia a carta enviada por Stieg Larsson à sua editora pouco antes de entregar o manuscrito do terceiro livro, A rainha do castelo de ar. Para quem ainda não leu a série, atenção: a carta contém spoilers.

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Sexta, 30.04.04, 21:44

De: Stieg Larsson

Oi Eva,

Acabo de me dar conta de que hoje é Noite de Santa Valburga. Eu tinha me esquecido completamente. Estou ouvindo os jovens conversando, ansiosos para voltar pra casa ou sair para tomar uma cerveja, e prometi que ia liberá-los depois das nove. Coitado do Daniel Poohl – ele é o nosso editor-chefe assistente e faz umas duas semanas que vem dormindo no escritório. Eles estão conversando sobre abrir uma filial do sindicato. Hmm.

Você vai receber o livro III assim que eu amarrar umas pontas soltas.

Estou ansioso para me encontrar com Elin. Não confio totalmente na minha habilidade de transformar minhas ideias em palavras: meus textos geralmente ficam melhores depois que um editor os mutila, e estou acostumado tanto a editar quanto a ser editado. Com isso eu quero dizer que não costumo ficar melindrado com esse tipo de coisa. Vamos discordar de algumas coisas aqui e ali e, claro, assim como todo mundo, eu também tenho as minhas obsessões das quais não estou disposto a abrir mão. Acho que os primeiros capítulos estão um pouco prolixos, e demora até que a história comece a engrenar. Mas a ideia era criar uma galeria considerável de personagens e construir um cenário antes de começar a história. Etc.

Fico feliz de saber que você acha os livros bem escritos. Isso fez esta velha máquina incansável de produzir textos muito feliz.

Talvez você se interesse em saber algumas ideias que tenho sobre os livros:

Em muitos aspectos, me esforcei ao máximo para evitar a abordagem tradicional usada nos romances policiais. Fiz uso de algumas técnicas que normalmente são proibidas – a apresentação de Mikael Blomkvist, por exemplo, é baseada exclusivamente no estudo de caso feito pessoalmente por Lisbeth Salander.

Tentei criar protagonistas drasticamente diferentes dos tipos que costumam aparecer em romances policiais. Mikael Blomkvist, por exemplo, não tem úlceras, problemas com a bebida, ou um transtorno de ansiedade. Ele não gosta de óperas e nem tem um hobby excêntrico, como o aeromodelismo. Ele não tem nenhum problema real, e sua principal característica é o fato de agir como uma “vadia” estereotipada, como ele próprio admite. Eu também inverti deliberadamente os papéis sexuais: de muitas maneiras, Blomkvist age como uma típica “mulher-objeto”, enquanto Lisbeth Salander possui características e valores estereotipicamente “masculinas”.

Um princípio básico que adotei foi jamais romantizar o crime ou os criminosos, bem como não estereotipar as vítimas desses crimes. Criei meu serial killer do livro I me baseando numa mistura de três casos autênticos. Tudo que é descrito no livro pode ser encontrado em investigações policiais verdadeiras.

A descrição do estupro de Lisbeth Salander é baseada num incidente que realmente aconteceu há três anos no distrito de Ölstermalm, em Estocolmo. E assim por diante.

Tentei evitar que as vítimas fossem pessoas anônimas – portanto, por exemplo, passei um bom tempo apresentando Dag Svensson e Mia Johansson antes que seus assassinatos ocorressem.

Eu abomino romances policiais em que o protagonista se comporta como ele ou ela quer, ou faz coisas que pessoas normais não fazem sem que essas ações tenham consequências sociais. Se Mikael Blomkvist atira em alguém com uma pistola, mesmo que seja para se defender, ele vai acabar sendo preso.

Lisbeth Salander é uma exceção a essa regra basicamente porque é uma sociopata com traços de psicopatia, e não funciona da mesma forma que uma pessoa comum. Ela não compartilha com as pessoas comuns os mesmos conceitos de “certo” e “errado”, embora também tenha de lidar com as suas consequências.

Como você provavelmente deve ter notado, eu dediquei um espaço tremendo para personagens secundários que, em diversos aspectos, possuem um papel tão importante quanto os protagonistas. A intenção, é claro, é criar um universo realista em torno de Blomkvist/Salander.

No livro I, Dragan Armansky foi apresentado de forma bastante minuciosa: obviamente ele será um personagem secundário que fica aparecendo diversas vezes. No livro II, o grupo de policiais às voltas de Bublanski e Sonja Modig recebe papéis de destaque. E no livro III, Annika Giannini e Erika Berger ganham muito mais importância do que nos livros anteriores. No livro III, aparece uma outra pessoa que será um membro regular da galeria de personagens dos próximos livros. Isso é totalmente intencional de minha parte. Acredito que os personagens secundários frequentemente podem ser muito mais interessantes do que o protagonista.

O único personagem com quem eu tive dificuldades foi Christer Malm. Na minha ideia original, ele desempenharia mais ou menos o mesmo papel de Erika Berger, mas a trama não funcionou com ele no papel de editor-chefe. Então, eu fui obrigado a criar Erika Berger, que se tornou um personagem muito mais interessante.

Vou acabar tendo um problema com Miriam Wu mais para frente – eu realmente não sei o que fazer com ela. A dificuldade aqui, é claro, é que Lisbeth Salander não pode ganhar uma confidente e, ao mesmo tempo, permanecer isolada. Vamos ver o que acontece. Quanto a Paolo Roberto, vou ter uma conversa com ele muito em breve. Kurdo não é um problema. Ele é meu “irmãozinho”, afinal de contas. Nós nos conhecemos há muitos anos.

Tudo de bom,

Stieg

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A garota na teia de aranha, quarto livro da série Millennium, chega às livrarias no dia 27 de agosto.

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