suketu mehta

Mesa 10: Cidade e democracia

20120707-115743.jpg

Convidados:

Mediação: Guilherme Wisnik

Ao mesmo tempo que mostram o potencial de mobilização dos meios digitais, protestos recentes no mundo árabe e nos países europeus reafirmam a força da rua (e da praça) como palco de manifestação da vontade popular. O espaço urbano pode ser um local de encontro e convivência das diferenças, mas também a expressão mais visível da desigualdade social. A partir dessa contradição, o indiano, radicado nos Estados Unidos, Suketu Mehta, e o brasileiro Roberto DaMatta discutem o papel das cidades na vida democrática contemporânea.

Horário de início: 10h

Antes da mesa, Eucanaã Ferraz lê o poema “Amar”, de Drummond.

Suketu: Me sinto honrado por dividir o palco com Roberto, de quem conheço muito bem o trabalho. Vou ler dois trechos do meu livro que mostram imagens diferentes de Bombaim, um lado religioso violento e outro político.

Suketu: A cidade mudou tremendamente entre minha saída em 77 e minha volta em 89, surgiu uma divisão entre gangues hindus e muçulmanas, e havia muita desigualdade. Mas se você está atrasado para um dos trens lotados, várias mãos surgem para te ajudar a subir, e não importa qual é sua religião. É por isso que a cidade sobrevive.

Roberto: A cidade é um lugar onde você pode praticar caridade e solidariedade o tempo todo, assim como podemos praticar o preconceito e o desprezo o tempo todo. Nós temos uma tendência a ignorar o caráter humano da cidade.

Roberto: Se o grande chefe de uma aldeia morre, a aldeia pode acabar. Isso não acontece numa cidade porque ela está muito acima de qualquer pessoa.

Roberto: Cada cidade tem sua personalidade. Fui procurar músicas que falassem sobre as cidades, e encontrei milhares.

[São tocados diversos trechos de músicas. Suketu trouxe o videoclipe de “This is Bombaim, my love”, música de Bollywood da década de 50.]

Suketu: Essa canção mostra a relação difícil do migrante com a cidade grande. Há muito movimento, ladrões, apostadores. Por trás de cada fortuna, há muita miséria. Mostro isso no meu livro, as pessoas que ficam às margens da metrópole. Fiquei impressionado com a correspondência entre as favelas do Rio e as de Bombaim.

Mediador: Fiquei com uma impressão forte da ruína nas suas descrições das ruas de Bombaim. Sebald mostra a ruína também, mas liga isso a uma questão histórica. No seu livro você fala de construções antigas que estão inteiras, enquanto os novos edifícios são feitos de material tão ruim que quase imediatamente já é ruína.

Suketu: Fui muito influenciado por Sebald quando escrevi meu livro, queria saber como escrever sobre minhas memórias de uma experiência. Minha civilização tem 5 mil anos de história, e eles têm uma ambição de virar a cidade do novo século muito rápido, dar um salto. Agora arquitetos vão lá e constroem prédios enormes iguais aos de outras cidades, inapropriados, no meio de bairros indianos. Eu escrevi esse livro porque queria saber se era possível voltar a Bombaim depois de 20 anos. E descobri que é impossível, porque quando saí de lá ela ainda era Mumbai.

Roberto: Eu nunca fui pra Bombaim mas visitei o extremo da Ásia, Coreia e Japão, que são outras formas de modernidade Fica claro que nós no Brasil temos várias formas de modernidade também. Não existe uma formula única de modernidade.

Roberto: A desigualdade não é o problema no Brasil, são as situações em que somos obrigados a viver em igualdade, são os momentos em que ocorre mais fúria, mais discriminação, como por exemplo em filas ou no trânsito.

Roberto: Quem falou que Shakespeare fundou a modernidade provavelmente estava certo, porque ele tinha consciência da diferença entre pessoas e seus papéis.

Mediador: O que vocês acham do papel da favela no futuro da cidade?

Suketu: Eu visitei uma favela no Rio e vi pessoas com fuzis, cocaína e músicas sobre matar policias. E fui numa favela pacificada em que havia um clube de jazz para as pessoas da cidade que querem dizer que vão à favela. Acho que esse é o futuro das favelas pacificadas.

Suketu: Os conjuntos habitacionais do mundo inteiro parece que foram construídos todos pelo mesmo arquiteto louco e surdo, que não ouve as necessidades das pessoas. Cada cidade tem sua cor, sua personalidade, não é uma coisa geométrica e cinza. As pessoas chamam de favela, mas pra eles é uma comunidade.

Roberto: Eu assino embaixo do que foi dito pelo meu companheiro. Nós precisamos das favelas porque somos uma sociedade múltipla, desigual. Não adianta tentar padronizar o espaço porque as comunidades simplesmente vão reproduzir essas relações.

Horário de término: 11h24

Semana cinquenta e seis

Os lançamentos da semana são:

O amor do soldado, de Jorge Amado
Escrita em 1944 por encomenda de Bibi Ferreira, o atormentado e trágico romance entre Castro Alves e a atriz portuguesa Eugênia Câmara é o tema desta única obra de teatro de Jorge Amado. A ação se concentra na última parte da breve vida de Castro Alves (1847-71), entre 1866 e 1870, em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Em cenas rápidas e diálogos inflamados, alternados com versos célebres de combate, vemos um poeta que divide sua energia e sua inspiração entre duas paixões exigentes: Eugênia Câmara e a luta pela libertação dos escravos e pela instauração da república. A edição inclui posfácio de Aderbal Freire-Filho.

Bafinhaca de volta aos trilhos, de Kaye Umansky (Ilustrações de Nick Price; Tradução de Ricardo Gouveia)
Nem tudo vai bem com Bafinhaca: ela percebeu que uma bruxa não pode viver só de doces e um mínimo de atividade física. É que a Floresta do Bruxedo acabou de ganhar uma confeitaria e os doces de lá são tão incríveis — verdes feito sapo, pretos em forma de morcego e com asas batendo na sua boca — que as filas na porta são sempre enormes. Mas essa nova mania está com os dias contados: Bafi está determinada a fazer alguma coisa não só pelas bruxas, mas por todos os habitantes da floresta. Junto com Tubararaca, sua melhor amiga, e Tukai, seu fiel companheiro, ela vai elaborar um saudável plano de ação que inclui muitos legumes e um dia inteiro dedicado aos esportes.

Obras completas, vol 15: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos, de Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza)
Este volume aborda o comportamento de grupos, partindo do fato de que as relações que moldam o indivíduo, desde a infância, são também fenômenos sociais. Assim, o irracionalismo dos movimentos políticos de massa — recorde-se que o fascismo e o comunismo estavam em ascensão na época — é explicado por conceitos psicanalíticos como libido e regressão. O ensaio “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” traz formulações sobre a sexualidade feminina e a homossexualidade em geral. Ainda, dois textos sobre a telepatia são testemunho do interesse de Freud pelo tema. Por sua vez, “Uma neurose do século XVIII envolvendo o Demônio” analisa o peculiar documento deixado por um pintor alemão, a história do pacto que ele fez com o Diabo a fim de livrar-se de sua neurose.

O silêncio da água, de José Saramago (Ilustrações de Manuel Estrada)
Em uma tarde silenciosa, um garoto vai pescar à beira do Tejo e é surpreendido por um peixe enorme que lhe puxa o anzol. Infelizmente, a linha arrebenta, deixando-o escapar. Ele corre até a casa dos avós, com a esperança de voltar, rearmar a vara e “ajustar as contas com o monstro”. Claro que, ao alcançar o mesmo ponto do rio, o menino não encontra mais nada, apenas o silêncio da água. Sua tristeza só não é completa pois o peixe, como ele diz, “com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha a minha marca, era meu”. Esse menino foi José Saramago, que narra neste livro uma aventura de infância que, para ele, culmina em um despertar da lucidez. Ilustrado pelo espanhol Manuel Estrada, este pequeno conto autobiográfico se torna uma fábula de extraordinária beleza e sabedoria.

Bombaim: cidade máxima, de Suketu Mehta (Tradução de Berilo Vargas)
Uma das cidades mais populosas do mundo, Bombaim permanece neste início de século XXI a principal porta de entrada do complexo multiculturalismo da Índia. Com uma mistura de memórias, reportagem e relato de viagem, Suketu Mehta investiga como as numerosas castas, etnias e religiões do gigante asiático coexistem no espetáculo de miséria e luxo da capital econômica do país. Educado nos Estados Unidos, o autor retorna à cidade da infância com um olhar ao mesmo tempo distanciado e afetivo, fascinado pela tragédia de suas favelas gigantescas e pela rotina sanguinária de pistoleiros, prostitutas e policiais. As produções milionárias de Bollywood, bem como os meandros do conflito entre indianos e paquistaneses, fornecem um agitado pano de fundo aos dramas dos protagonistas desse relato, que nos joga num vertiginoso labirinto de violência, sexo, religião, poder e dinheiro.