susana de moraes

Nunca achei que Susana pudesse um dia morrer

Por Luiz Schwarcz

suzana

Por estes dias os leitores deste blog não deveriam estar me lendo. Minhas breves férias de uma semana começam hoje. Mas se me leem é por uma razão muito triste. Soube há algumas horas que minha querida e amada amiga Susana de Moraes acaba de falecer. Não conheci até hoje ninguém com a fibra de Susana. Agora penso que se nem ela foi capaz de vencer a morte, é porque somos uma espécie frágil e passageira. Pois acreditava mesmo que Susana venceria mais esta, como venceu tudo e todas as batalhas que enfrentou, por tantos anos, desde que o câncer a surpreendeu. Visitei-a nestes últimos tempos inúmeras vezes, duas em São Paulo onde veio se tratar, e muitas outras em sua casa, no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Para vê-la subia nas alturas, via a cidade maravilhosa quase do ponto mais alto, roçava as nuvens, a floresta e chegava até ela. Chegava e a encontrava no quarto, deitada ou sentada, mas sempre rindo do jogo com a doença. Mesmo quando falava “Luiz, uma merda essa doença, é uma merda” a frase soava mais como zombaria do que reclamação. Mas uma merda mesmo é Susana morrer, faz a gente se lembrar de quão fracos nós somos. Com ela, nas alturas, sempre eram feitos planos: as edições de Vinicius em outros países, a restauração de seu filme sobre o pai, a futura animação cinematográfica de Arca de Noé, a montagem de Orfeu na Broadway. Tudo era pensado por ela e sua família, mas sem imaginar que ela poderia não estar presente quando os planos virassem realidade. E ela não estará. Não irá para Nova York se Orfeu for montado na Broadway; não verá a Antologia poética de Vinicius sair em Portugal — ou quem sabe nos Estados Unidos —; não assistirá a Arca no cinema, se um dia o projeto se concretizar; não verá seu documentário sobre o pai restaurado.

Susana era a veterana guardiã das obras de Vinicius, do espírito do pai, que agora continuará sob os ótimos cuidados de Pedro, Georgiana, Maria Gurjão e Júlia. Susana queria ainda muita coisa da vida. Tudo o que citei acima e mais. Queria uma nova biografia de Vinicius, um Vinicius mais porreta do que o que aparece na boa biografia feita por José Castello. Pois, como o pai, Suzana ria da vida, ria do câncer, ria daqueles que não tinham a mesma energia que ela, ou seja, ria, respeitosamente, de todos nós.

Maria Gurjão me ligou hoje, há algumas horas, me encontrou na Europa — saindo de uma reunião  realizada em um Conselho cultural referente a um prêmio internacional —, e me contou a péssima notícia. Quando ouvi, me dei conta que não imaginava que Susana pudesse morrer. Mesmo com um malvadíssimo câncer.

Preciso ainda me acostumar com esta ideia. Preciso imaginar que Vinicius continuará a existir sem ela, pois, a obra do poeta chegou a mim, principalmente através de suas mãos. Sim, ele existirá, sem Luciana e Susana, ou junto com elas. Mas acho que nunca mais vou subir tão alto, chegar perto da vista chinesa, ver o Rio de Janeiro lá de cima, roçar as nuvens. Para quê?

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.