thomas bernhard

Dar a real

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Por Emilio Fraia


(Crédito: Paul Jackson/Telegraph)

Na literatura (e na vida e nas redes sociais, que às vezes se embaralham), há narradores cuja principal característica é DAR A REAL sobre o mundo. Os de Thomas Bernhard, por exemplo.

Como se fossem cromos autocolantes do desprezo e da maledicência, é possível colecionar as passagens, de um mau humor cáustico (e cômico), em que os narradores de Bernhard esmagam e pisoteiam a Áustria, a Suíça & tudo que se move por ali, onde o “ar é irrespirável” e “as pessoas insuportáveis”. Para eles, Salzburgo é uma “estúpida cidadezinha provinciana, cheia de idiotas, onde com o tempo tudo se reduz à estupidez, sem exceção”. De Viena a Linz, a viagem é uma verdadeira “jornada pelo mau gosto”. E em Chur, basta dormir uma única noite para que “um homem se arruíne para toda a vida”. Isso sem falar nas apreciações sobre o ambiente artístico desses lugares. Diante de narradores tão simpáticos, podemos fazer aquela perguntinha assaz estimada pela sensibilidade do nosso tempo: O que há de Thomas Bernhard nestes narradores? É isso que Bernhard pensa de fato?

Conhecendo os relatos “não-ficcionais” de Bernhard (como o magnífico Origem), a resposta provavelmente seria (por e-mail): “sim, no geral penso exatamente como o narrador de O náufrago, abs”. O que, no fundo, claro, não faz diferença. Porque sendo as mesmas de seu autor ou não, as opiniões e vozes de personagens e narradores de um romance estão contidas na visão de mundo do autor. Assim, a complexidade moral de um romance é diretamente proporcional à complexidade moral de seu autor, cuja visão de mundo está difusa, sempre, por toda a obra (e uma visão de mundo pode ser cheia de nuances — caso de Bernhard, cujo narrador-assertivo-que-dá-a-real é complexo em seu exagero e intransigência — ou estreita, maniqueísta, baseada num episódio dos Ursinhos Carinhosos, que protegem a Terra do mal e do temido vilão Coração Gelado, que tenta a todo custo acabar com o amor no planeta — nada contra o desenho dos ursos, que entendo, admiro e respeito).

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Em textos que jogam declaradamente com a ideia de autoficção, esse movimento de DAR A REAL ganha especificidades. Um exemplo interessante é o de Diário de um ano ruim, de J. M. Coetzee. De forma esquemática, e pelo efeito dramático da frase, dá para dizer que neste romance Coetzee se propõe a dar a real sobre o narrador que dá a real. Na forma de uma impressionante reflexão sobre as “opiniões fortes” do personagem-assertivo-que-dá-a-real, Coetzee põe em perspectiva todo discurso panfletário e “combativo”, marcado por um “tom de sabe-tudo”, de alguém que tem “todas as respostas” e diz “é assim que é”.

O crítico Adriano Schwartz faz uma análise precisa do referido romance neste ótimo texto sobre certa “tendência autobiográfica no romance contemporâneo”. Diário de um ano ruim, cuja primeira parte chama-se, justamente, “Opiniões Fortes”, é a história de J.C., um escritor velho e cansado que passa a duvidar do impacto, da autoridade e da relevância da ficção no mundo contemporâneo — “não tenho mais paciência para escrever um romance”, diz. A convite de um editor alemão, passa então a redigir opiniões sobre os mais diversos assuntos (“quanto mais controverso melhor”). É nesse contexto que conhece a belíssima Anya, uma jovem filipina de vinte e nove anos, a quem propõe um trabalho: ajudá-lo a passar para o papel esses textos, essas opiniões. Ele dita, ela datilografa. As “opiniões fortes” de J.C. versam sobre tudo: Guantánamo, design inteligente, o apartheid, direitos dos animais etc. Muitas delas são ideias defendidas ou debatidas pelo próprio Coetzee, de quem o personagem fictício toma emprestado parte das iniciais, bem como uma série de outros dados biográficos (ambos escreveram um romance chamado À espera dos bárbaros, ambos possuem um volume de ensaios sobre a censura, ambos são sul-africanos radicados na Austrália).

Há, portanto, um jogo duplo. Coetzee faz uso de elementos não-ficcionais para escrever um romance que problematiza justamente a descrença na ficção — é a autoficção debruçando-se sobre si mesma. Num primeiro momento, o que Coetzee parece dizer é: num contexto em que “verdade” e “autenticidade” carregam um valor em si mesmo, a enunciação de afirmações reais e definitivas toca o leitor com muito mais eficácia. Para que então submeter o leitor aos artifícios do romance?

Só que Coetzee, através da jovem Anya, vai colocar isso tudo em questão. Para ela, as “opiniões fortes” do velho escritor não passam de textos chatos que causam bocejos e tédio profundo. Além disso, aponta Schwartz, esse “dar a real” é um grito que busca silenciar todo o resto. O que se assemelha à retórica política — e “política é berrar para calar a boca dos outros e conseguir o que você quer”, diz Anya.

No início, J.C. não concorda, os dois discutem, ela chega a dizer que não vai mais datilografar as tais opiniões. Mas, aos poucos, o romance avança, e a jovem filipina vai conseguindo modificar o velho homem. Então, em determinado ponto, numa demonstração plena do alcance da sensibilidade de Coetzee, J.C. comenta: “o que começou a mudar desde que eu entrei na órbita de Anya não são tanto as minhas opiniões em si, mas minha opinião sobre as minhas opiniões”.

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O ponto de partida de J.C. não está errado: para a nossa sensibilidade (criada à base de reality shows, imagens amadoras captadas por celular, redes sociais etc.), a autoficção parece mesmo levar vantagem em comparação ao romance. Nela, há um pacto com o leitor: a matéria-prima do relato são experiências “reais”, “vividas”. E, hoje, quando sabemos que estamos diante de uma narrativa “baseada em fatos reais”, nossa atenção parece ser capturada com mais facilidade. Mesmo que o texto de um romance e de uma autoficção sejam absolutamente os mesmos, a disposição do leitor será distinta em cada uma das experiências.

Todavia, para além deste proveito (maior autoridade do narrador), decidir embaralhar verdade e ficção, e apresentar uma narrativa como autoficcional, tem suas implicações. Ou, pelo menos, deveria ter; senão, de outra forma, bastaria escrever um romance tradicional.

No caso de Coetzee, um parâmetro ético de toda prosa que se pretende autoficção parece ser estabelecido: colocar em xeque as convicções de seu protagonista. A autoficção seria o lugar de pensar contra si mesmo. Não há espaço para autopiedade. Não há heroísmo. A autodilaceração não é feita com a faquinha do bolo Pullman. O que existe é tentar diagnosticar as próprias limitações, analisá-las mesmo que a contragosto; deixar que nossas certezas sejam ameaçadas.

Seja colocando em perspectiva as “opiniões fortes” de J.C. em Diário de um ano ruim, seja no dilacerante autoescrutínio que realiza o narrador frio e distante da “trilogia autobiográfica” Infância, Juventude e Verão, os personagens de Coetzee se expõem verdadeiramente. E há uma diferença cabal que deve ser notada aqui. Se alguém nos pergunta “qual o seu principal defeito?”, pode-se responder, de maneira hipócrita: “a sinceridade, sou muito sincero, sabe?”. No caso dos protagonistas da autoficção de Coetzee, a resposta nunca vai ser menos do que: sou um “mosca-morta”, um “tapado distante da realidade”, um homem “sem presença sexual nenhuma”. Além disso, há outro ponto a ser considerado: o da autoridade e complexidade de quem enuncia essas apreciações.

Em Verão, o escritor John Coetzee já está morto quando um biógrafo inglês decide escrever um livro sobre ele. Sem ter conhecido pessoalmente o biografado, o pesquisador consulta cadernos de anotações e decide falar com algumas fontes. Uma delas é Julia, vizinha de John Coetzee na Cidade do Cabo, com quem o escritor-personagem teve um caso. Coetzee, autor, constrói Julia de maneira complexa. O que significa dizer: alguém nem totalmente bom, nem totalmente ruim; nem esplêndido, nem convencional etc. Sentimos empatia por John, mas também sentimos por Julia. Dessa forma, se as opiniões de Julia sobre ele não são verdades absolutas (é um ponto de vista, afinal), estão longe de serem absurdas. Ao submeter John Coetzee a um exame desse tipo, o relato de Coetzee ganha força e se afasta de qualquer hipocrisia.

Em determinado momento da entrevista, por exemplo, Julia conta sobre a noite em que Coetzee chegou à sua casa com um pequeno toca-fitas e um K7, um quinteto para cordas de Schubert. “Não era o que se pudesse chamar de música sexy, nem eu estava muito no clima”, diz Julia, “mas ele queria fazer amor e, especificamente — perdoe se sou explícita —, queria que a gente coordenasse nossas atividades com a música, com o movimento lento. […] Não sei se lembra do movimento lento, mas tem uma longa ária de violino com a viola pulsando por baixo, e dava para sentir John tentando manter o mesmo ritmo. A coisa toda me parecia forçada, ridícula. […] ‘Esvazie a mente!’, ele sussurrou para mim. ‘Sinta através da música!’ Bom, não tem nada mais irritante do que dizerem o que você tem que sentir. Eu me afastei dele e esse pequeno experimento erótico desmoronou na hora. […] Eu nunca contei isso para ninguém antes do senhor. Por que não? Porque achei que ia lançar uma luz muito ridícula sobre John. Quem, senão um pateta total, mandaria a mulher por quem deveria estar apaixonado tomar lições de sexo com um compositor morto? […] Não dá para saber se é para rir ou chorar!”

Ao final do relato de Julia, o biógrafo-entrevistador comenta: “A senhora está sendo um pouco dura com ele, se me permite dizer”. Ao que Julia responde, fechando o capítulo: “Não, não estou. Só estou dizendo a verdade. Sem a verdade, por mais dura que seja, não pode haver cura.” Coetzee parece, assim, conferir à autoficção aquela que poderia ser sua norma de arte e ética: dar a real, sim, mas sobre si mesmo.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e editor de ficção contemporânea da editora Cosac Naify. Contribui com uma coluna mensal para o blog.
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Semana sessenta e nove

Os lançamentos da semana são:

Nêmesis, de Philip Roth (Tradução de Jorio Dauster)
Aos 23 anos, Eugene “Bucky” Cantor, professor de educação física e inspetor de pátio de uma escola judaica de Newark, vive uma vida pacata, porém é atormentado pelo fato de não poder lutar na guerra ao lado de seus contemporâneos, em razão de sua miopia fortíssima. No verão de 1944, ele vê sua vida ruir depois que grande parte de seus alunos contrai poliomielite. Apavorado com a possibilidade de ficar paralítico, ele entra em um dilema cruel: fugir e escapar da pólio ou ficar e proteger as crianças? Philip Roth apresenta, em seu mais novo romance, a radiografia do sofrimento de um homem quando posto em contato direto com a morte.

Herzog, de Saul Bellow (Tradução de José Geraldo Couto)
Moses Herzog, um dos personagens mais fascinantes da literatura de Saul Bellow, é “um homem dividido, um labirinto de contradições”, como aponta Philip Roth na introdução deste livro. Na meia-idade, esse intelectual refinado e professor universitário sente seu juízo vacilar depois que sua mulher o troca por seu melhor amigo. Sua vida é uma sucessão de desastres pessoais, para os quais ele busca um sentido. Enquanto tenta avançar na redação de um ambicioso livro de filosofia e briga pela guarda da filha pequena, ele escreve cartas — que nunca envia — a amigos, inimigos, e personalidades vivas ou mortas, como Nietzsche e Eisenhower. Com irresistível humor e extrema habilidade literária, Bellow entremeia o relato objetivo dos fatos com os pensamentos do protagonista e os esboços de suas cartas imaginárias. Cria assim um de seus livros mais complexos e envolventes, considerado unanimemente um clássico da literatura contemporânea.

A arqueologia passo a passo, de Raphaël de Filippo (Ilustrações de Roland Garrigue; Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)
Quem são os hominídeos? Quais são as idades da pré-história? Como é o dia de trabalho em um sítio arqueológico? O passado está por toda parte, mas em geral não nos damos conta disso. Rastros da vida humana guardados embaixo da terra e no fundo dos mares são descobertos em todos os cantos do mundo, revelando aspectos importantes da vida dos homens de antigamente e das mudanças climáticas que modificaram o planeta. Do terreno ao laboratório, os arqueólogos trabalham para encontrar rastros do que foi abandonado mas não deve ser esquecido. Ao acompanhar o seu trabalho passo a passo, neste guia sobre a arqueologia, aprendemos sobre a história do nosso planeta e de todos que o ocuparam, e podemos olhar para o nosso futuro de uma maneira diferente.

Inventores e suas ideias brilhantes, de Mike Goldsmith (Ilustrações de Clive Goddard; Tradução de Antônio Xerxenesky)
A vida hoje em dia é infinitamente diferente daquela dos homens da pré-história, e isso graças a pessoas curiosas e engenhosas que gastaram muito tempo estudando e criando coisas: os inventores. Neste livro, conhecemos a história de 10 homens e suas invencionices: Arquimedes, as roldanas e as máquinas de guerra; Leonardo da Vinci e os submarinos; James Watt e os motores a vapor; George Stephenson, os trens e lampiões; Thomas Edson, a lâmpada e o toca-discos; Alexander Graham Bell e o telefone; os irmãos Wright e o avião; Guglielmo Marconi e as transmissões de rádio; John Logie Baird e a televisão em cores e em 3D.

Zuckerman acorrentado, de Philip Roth (Tradução de Alexandre Hubner)
O volume reúne os três romances e a novela que serve de epílogo à trilogia em que Philip Roth dá vida a uma de suas criações mais geniais: Nathan Zuckerman, um escritor que não é de levar desaforo para casa. E não são poucos os desaforos e despropósitos que desde o início de sua carreira ele é obrigado a ouvir. Justo ele, que sempre pretendeu ser um escritor sério, com preocupações morais elevadas, na linha de Thomas Mann. Porém, como Zuckerman sabe, seu forte é a comédia — e, em especial, as piadas de judeu. E o establishment judaico não o perdoa por isso. Nem seu pai, nem seu irmão caçula e, em certa medida, nem ele próprio.

Meus prêmios, de Thomas Bernhard (Tradução de Sergio Tellaroli)
Em obra póstuma publicada em 2009, o austríaco Thomas Bernhard, um dos maiores escritores em língua alemã do século XX, comenta com sua acidez característica e fina ironia os prêmios literários que recebeu. São nove relatos, três discursos e a carta em que o autor explica seu desligamento da ilustre Academia de Língua e Literatura de Darmstadt, a instituição que concede o cobiçado prêmio Büchner. Bernhard relata a rotina muitas vezes hilária da concessão e da outorga de prêmios literários, muitos dos quais o escritor foi receber em companhia da tia septuagenária.

Jakob, o mentiroso, de Jurek Becker (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo)
Jakob, o mentiroso é tido como uma das obras-primas da literatura sobre o Holocausto. O narrador é um dos únicos sobreviventes que sabem a verdade sobre Jakob Heym, um homem que se tornou herói por acaso. E foi também o acaso que preservou a vida do narrador. O que fez Jakob, afinal? Mentiu: forjou notícias sobre a aproximação do Exército Vermelho, os possíveis redentores. Assim, Jakob suscita uma reviravolta surpreendente. Embora ele seja um mentiroso contrariado, sem dotes imaginativos, suas minguadas palavras são esperadas e ouvidas com avidez pelos judeus confinados. As palavras, arma impalpável, são como o pão que falta a essa gente esfaimada, e um grama delas, como diz Jakob, já lhe basta para fabricar uma tonelada de esperança.

De olho em Lampião, de Isabel Lustosa
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897-1938), foi o maior cangaceiro de todos os tempos. Iniciado no cangaço ainda adolescente, no começo da década de 1920 passou a liderar seu próprio bando, espalhando uma trilha de violência e terror por quase todo o Nordeste. A ousadia de suas ações, em que se destacava a selvageria no trato com inimigos — especialmente soldados e policiais —, tornou-o conhecido no país inteiro. Ao mesmo tempo, o companheiro de Maria Bonita adquiriu fama de Robin Hood sertanejo ao distribuir entre os pobres parte dos bens saqueados dos ricos. A pesquisadora Isabel Lustosa mostra como a vida de Lampião dividiu-se entre a crueldade e a justiça, a riqueza e a miséria, o poder e a paixão.