thomas pynchon

Sangue, suor e páginas

8009922211_7480468a8d

Em maio de 1945, a Alemanha nazista era derrotada pelas potências aliadas. Encerrava-se assim o capítulo europeu da Segunda Guerra. Em setembro daquele ano, depois do bombardeio atômico (no mês anterior) de Hiroshima e Nagasaki, o Japão iria assinar os termos de sua rendição. Terminava completamente um dos conflitos mais sangrentos da história, com mais de 20 milhões de mortos, cidades e países arrasados, a conformação geopolítica do mundo bastante diferente daquela de 1939, quando Hitler invadiu a Polônia, dando início à refrega.

Nos últimos 70 anos, muito se escreveu sobre a Segunda Guerra. Testemunhos, ensaios pessoais e historiográficos, ficção, biografias, poesia, quadrinhos. Compreensível: alastrando-se a partir do coração da Europa, os conflitos fizeram terra-arrasada das pretensões iluministas que, até então, moldavam o continente. A guerra de 1939-1945 significou uma crise na civilização. A barbárie, o genocídio programado de populações inteiras, a extrema violência contra civis e a tecnologia a serviço do terror desconcertam até os dias de hoje. Daí a copiosa e necessária produção — criativa e intelectual —, que sempre se renova.

Preparamos uma seleção de livros, entre lançamentos e obras fundamentais do nosso catálogo, para você se aprofundar e entender um capítulo da história humana que, ainda hoje, 70 anos depois, reverbera na política, na cultura e na sociedade.

Lançamentos

Ano zero, Ian Buruma
A história do mundo que se formaria a partir dos escombros da Segunda Guerra.

Os compatriotas, Bo Lidegaard
A comovente extraordinária narrativa de como os judeus foram salvos do horror na Dinamarca.

O fim do Terceiro Reich, de Ian Kershaw
Do autor da melhor biografia de Hitler, um relato do crepúsculo do nazismo.

Seis meses em 1945, de Michael Dobbs
Como a Conferência de Ialta moldaria o futuro do Ocidente.

Central Europa, William T. Vollman (previsto para o segundo semestre)
Romance polifônico e fascinante sobre a violência e o autoritarismo da Alemanha nazista e da União Soviética.

Terra negra, Timoty Snyder (previsto para 2016)
Um palpitante ensaio sobre a insanidade que conduziu o mundo ao Holocausto.

Piloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry
A experiência do autor de O pequeno príncipe como aviador na Segunda Guerra.

Obras essenciais

A biblioteca esquecida de Hitler — Os livros que moldaram a vida do Führer, de Timothy W. Ryback

Alemanha, 1945, de Richard Bessel

Engenheiros da vitória — Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial, de Paul Kennedy

Eva Braun — A vida com Hitler, de Heike B. Görtemaker

Guerra aérea e literatura, de W. G. Sebald

Hitler, de Ian Kershaw

A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade

O imperialismo sedutor — A americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, de Antonio Pedro Tota

Maus — A história de um sobrevivente, de Art Spiegelman

Stálin — A corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore

Hora da guerra — A segunda Guerra Mundial vista da Bahia, de Jorge Amado

1940 — Do abismo à esperança, de Max Gallo

1941 — O mundo em chamas, de Max Gallo

Os colegas de Anne Frank, de Theo Coster

Fim de jogo, 1945, de David Stafford

Pós-Guerra — Uma história da Europa desde 1945, de Tony Judt

22 Dias — As decisões que mudaram o rumo da Segunda Guerra Mundialde David Downing

Nazismo e guerra, de Richard Bessel

Heinrich Himmler: uma biografiade Peter Longerich

Joseph Goebbels: uma biografia, de Peter Longerich

Caçando Eichmann, de Neal Bascomb

Éramos jovens na guerra, de Sarah Wallis e Svetlana Palmer

Livros para ler antes do filme (ou da série) em 2015

Reunimos uma lista com os principais filmes e séries baseados em livros publicados pela Companhia das Letras, Editora Objetiva e seus selos. Confira!

1) Vício inerente, de Thomas Pynchon

  • Filme: Vício inerente, dirigido por Paul Thomas Anderson e estrelado por Joaquim Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson, Benicio Del Toro, Catherine Waterston e Reese Whiterspoon.
  • Estreia: 19 de fevereiro
  • Sinopse: Doc Sportello é contratado por uma ex-namorada para investigar o sumiço de um poderoso barão do mercado imobiliário. Esse desaparecimento é parte de uma conspiração maior, que envolve surfistas, traficantes, contrabandistas, policiais corruptos e a temível entidade conhecida como Presa Dourada. O livro marca a volta de Pynchon ao cenário de outros dois romances, Vineland e O leilão do lote 49, ambientado na Califórnia no início dos anos 1970.

2) Dois irmãosde Milton Hatoum

  • Série: Dois irmãos, dirigida por Luiz Fernando de Carvalho e estrelada por Cauã Raymond, Juliana Paes, Antônio Fagundes e Eliane Giardini.
  • Estreia: Segundo semestre de 2015, pela Rede Globo.
  • Sinopse: O livro e a série se passam em Manaus e tem como centro a história de dois irmãos gêmeos — Yaqub e Omar — e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado em busca da identidade de seu pai entre os homens da casa. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança e à paixão desmesurada. Dois irmãos ganhou o Prêmio Jabuti de 2001 de Melhor Romance.

3) Livre, de Cheryl Strayed

  • Filme: Livre, dirigido por Jean-Marc Valleé e estrelado por Reese Whiterspoon, Laura Dern e Gaby Hoffmann. Roteiro de Nick Hornby.
  • Estreia: 15 de janeiro
  • Sinopse: Aos 22 anos, Cheryl Strayed achou que tivesse perdido tudo. Após a repentina morte da mãe, a família se distanciou e seu casamento desmoronou. Quatro anos depois, sem nada a perder, tomou a decisão mais impulsiva da vida: caminhar 1.770 quilômetros da chamada Pacific Crest Trail (PCT) — trilha que atravessa a costa oeste dos Estados Unidos — sem qualquer companhia. Cheryl não tinha experiência em caminhadas de longa distância e a trilha era bem mais que uma linha num mapa. O filme é apontado como um dos favoritos ao Oscar de 2015.

4) Invencível, de Laura Hillenbrand

  • Filme: Invencível, dirigido por Angelina Jolie e estrelado por Jack O’Connell, Domhnall Gleeson e Garrett Hedlund.
  • Estreia: 15 de janeiro
  • Sinopse: Em uma tarde de maio de 1943, um avião da Força Aérea americana caiu no meio do oceano Pacífico e desapareceu, deixando para trás alguns escombros e um rastro de óleo e sangue. Em seguida, na superfície do oceano, apareceu um rosto. Era de um jovem tenente, um dos artilheiros do avião, que se esforçava para chegar a um bote salva-vidas. Assim começou uma das mais impactantes odisseias da Segunda Guerra Mundial. O nome do tenente era Louis Zamperini. Quando criança, foi um rebelde incorrigível. Adolescente, canalizou a rebeldia no atletismo e descobriu um talento que o levou às Olimpíadas de Berlim e à perspectiva de ganhar uma medalha de ouro nos Jogos seguintes. Mas com o início da guerra, Zamperini foi obrigado a desistir de seu sonho.

5) Um holograma para o rei, de Dave Eggers

  • Filme: A hologram for the king, dirigido por Tom Twyker e estrelado por Tom Hanks, Tom Sekerritt e Sarita Choudhury.
  • Estreia: Setembro (EUA – sem previsão de estreia no Brasil)
  • Sinopse: Em uma cidade emergente da Arábia Saudita marcada por uma recente recessão na América, um persistente homem de negócios chamado Alan Clay possui um último recurso para evitar a falência, pagar a faculdade de sua filha e finalmente fazer algo grandioso. O livro será lançado em agosto pela Companhia das Letras.

6) O quarto azul, de Georges Simenon

  • Filme: O quarto azul, dirigido e estrelado por Mathieu Amalric, Léa Drucker e Stéphanie Cléau.
  • Estreia: Sem previsão de estreia no Brasil
  • Sinopse: Um dos “romances duros” de Simenon, que mergulham em atmosferas sombrias e personagens perturbados, O quarto azul conta a história de Tony Falcone e Andrée Despierre, que não se viam desde a infância. Numa noite de setembro, reencontram-se por acaso e tornam-se amantes. Durante onze meses marcam encontros no “Quarto Azul” de um hotel mantido pela irmã de Tony.
    No último encontro, porém, o marido de Andrée, Nicolas, é visto caminhando em direção ao hotel. Bem naquele dia, ela se declarara, sugerindo que abandonem os casamentos e fiquem juntos. Tony consegue fugir antes de ser flagrado — mas, pouco depois, a morte repentina de Nicolas o deixa em uma situação complicada.

7) Brooklyn, de Colm Tóibín

  • Filme: Brooklyn, dirigido por John Crowley e estrelado por Saoirse Ronan, Michael Zegen, Alisha Heng e Mary O’Driscoll. Roteiro de Nick Hornby.
  • Estreia: 26 de janeiro (EUA – sem previsão de estreia no Brasil)
  • Sinopse: No início dos anos 1950, a Irlanda não oferece futuro para jovens como Eilis Lacey. Sem encontrar emprego, ela vive na pequena Enniscorthy com a mãe viúva e a irmã Rose, até que o padre Flood lhe faz uma oferta de trabalho e moradia no Brooklyn, Estados Unidos. Triste e solitária em seu novo mundo, a tímida Eilis estabelece uma rotina de trabalho diurno e estudo noturno na faculdade de contabilidade. No baile semanal da paróquia, conhece um jovem de origem italiana que aos poucos entra em sua vida. Mas quando começa a se sentir mais livre e segura, Eilis é obrigada a voltar, por algumas semanas, para Enniscorthy. E ali ela se vê, mais uma vez, diante de uma escolha muito difícil.

8) No coração do marde Nathaniel Philbrick

  • Filme: No coração do mar, dirigido por Ron Howard e estrelado por Chris Hemsworth, Benjamin Walker e Cillian Murphy.
  • Estreia: 3 de dezembro
  • Sinopse: Livro e filme contam a história real inspirou Herman Melville a escrever Moby Dick. Em 1820, o baleeiro Essex foi atacado por um cachalote enfurecido e afundou rapidamente. Nunca se imaginara que uma baleia pudesse reagir aos pescadores que a perseguiam. O que se seguiu ao naufrágio foi uma longa provação pelas águas do Pacífico: amontoados em três botes, os marujos navegaram durante três meses, experimentando os horrores da inanição e da desidratação, da doença, da loucura e da morte, chegando à prática do canibalismo.

9) Samba, de Delphine Coulin

  • Filme: Dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache e estrelado por Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim e Izïa Higelin.
  • Estreia: 4 de junho
  • Sinopse: Samba é um imigrante do Senegal que vive há 10 anos na França e, desde então, tem se mantido no novo país às custas de empregos pequenos. Alice, por sua vez, é uma executiva experiente que tem sofrido com estafa devido ao seu trabalho estressante. Enquanto ele faz o possível para conseguir os documentos necessários para arrumar um emprego digno, ela tenta recolocar a saúde e a vida pessoal no trilho, cabendo ao destino determinar se eles estarão juntos nessa busca em comum. O livro será lançado em junho pela Editora Paralela.

 10) A humilhação, de Philip Roth

  • Filme: Dirigido por Barry Levinson e estrelado por Al Pacino, Greta Gerwig e Dianne Wiest.
  • Estreia: 26 de março
  • Sinopse: Aos 65 anos, Simon Axler, um renomado ator de teatro, sobe no palco e constata que não sabe mais atuar. A partir daí, sua vida entra numa espiral de perdas: a mulher vai embora, o público o abandona e seu agente não consegue convencê-lo a retomar o trabalho. Obcecado com a ideia do suicídio, Simon se interna numa clínica psiquiátrica. Simon se envolve numa relação passional com uma mulher mais jovem, homossexual, filha de um casal de atores que ele conheceu na juventude. Nasce daí um desejo erótico avassalador, um consolo para uma vida de privação, mas tão arriscado e aberrante que aponta não para o conforto e a gratificação, e sim para um desenlace ainda mais negro e chocante.

11) Jonathan Strange e Mr. Norrell, de Susanna Clarke

  • Série: Direção de Toby Haynes e estrelada por Eddie Marsan, Bertie Carvel e Vincent Franklin.
  • Estreia: Sem previsão de estreia, pela BBC.
  • Sinopse: Mr. Norrell é um senhor recluso que, em 1806, revela ser um mago poderoso. Com fama e poder, ele vai até Londres, onde colabora com o governo no combate a Napoleão Bonaparte. Começa então a colocar em prática seu plano secreto de controlar a magia na Inglaterra. Tudo corre bem até que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e a toda a Inglaterra.

12) Deep, down, dark, de Hector Tobar

  • Filme: The 33, dirigido por Patricia Riggen e estrelado por Cote de Pablo, Rodrigo Santoro e Antonio Banderas.
  • Estreia: Previsto para setembro
  • Sinopse: O filme e o livro narram a história dos 33 mineiros que, em 2010, ficaram 69 dias presos a 700 metros de profundidade após a explosão de uma mina de ouro e cobre no Chile. O livro será publicado pela Editora Objetiva em agosto.

 13) Madame Bovary, de Gustave Flaubert

  • Filme: Madame Bovary, dirigido por Sophie Barthes e estrelado por Mia Wasikowska, Rhys Ifans, Ezra Miller e Paul Giamatti.
  • Estreia: Sem previsão de estreia
  • Sinopse: Em um tempo em que as mulheres eram submissas, Emma Bovary encontra nos tolos romances dos livros o antídoto para o tédio conjugal e inaugura uma galeria de famosas esposas adúlteras atormentadas na literatura. Em busca de maiores emoções através de aventuras extraconjugais, Flaubert narra o gradual declínio da vida de Emma.

Editando seu autor favorito

Por André Conti

Para quem gosta de livros, há algumas vantagens inegáveis de se trabalhar numa editora: acesso a manuscritos inéditos, notícias direto do front, a possibilidade de dar pitaco no texto dos outros. Mas, como em qualquer trabalho, isso rapidamente se torna parte do dia a dia, e não estou dizendo que você fica insensível nem nada, apenas cria uma relação diferente com tudo que diz respeito ao livro.

Há uns três anos, quando eu acreditava que essa couraça estava mais que consolidada, a Ana Paula, nossa diretora de direitos estrangeiros, deixou um singelo presente em minha mesa. O tijolo, de mil e tantas páginas, era todo branco, com um detalhe em marrom na capa, e quando vi de longe bateu um temor. Fui até a mesa pensando que não queria editar o Corão, a Bíblia, nada disso, já tenho problemas demais. Todavia, era de fato um presente e tanto, a edição antecipada de Contra o dia, do Thomas Pynchon, que seria lançada no mês seguinte nos Estados Unidos.

O livro tinha sido anunciado pouco tempo antes, num release escrito pelo próprio Pynchon, onde ele prometia um elenco de “anarquistas, balonistas, apostadores, magnatas corporativos, entusiastas das drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiras e assassinos profissionais. Com participações especiais de Nikola Tesla, Bela Lugosi e Groucho Marx”.

Como tudo que diz respeito ao autor, o release veio coberto de mistério — primeiro subiu num site, depois foi tirado do ar, voltou, e só então confirmaram que havia sido escrito pelo próprio Pynchon. Terminava assim: “Enquanto isso, o autor faz o de sempre. Personagens param para cantar canções, em sua maioria estúpidas. Práticas sexuais estranhas acontecem. Idiomas obscuros são falados, nem sempre idiomaticamente. Ocorrências contrárias aos fatos ocorrem. Se não é o mundo, é o que o mundo seria depois de uns ajustes. Segundo algumas pessoas, esse é um dos maiores propósitos da ficção. Que o leitor decida, que o leitor tenha cuidado”. Recebi o release pelo mailing PYNCHON-L e entrei num processo imediato de autocombustão.

Cabe dizer que os fãs do homem são bastante organizados: há o mailing (que existe desde 1993), e também diversas enciclopédias e glossários, com listas de personagens, temas, referências, tudo. E tem o sujeito que fez uma ilustração para cada página do Arco-íris da gravidade (são quase oitocentas). Mais: os sete romances foram anotados à exaustão por uma rede de comentadores, e há índices, listas de discussão, não acaba nunca. Como os livros são coalhados de alusões históricas, fatos obscuros, conhecimentos arcanos, fórmulas matemáticas, princípios físicos e (inúmeras) canções obscenas, é preciso um exército de gente para esmiuçar as citações e referências. E a cada lançamento essa comunidade se mobiliza, troca notícias, mapeia as livrarias que vão abrir as vendas à meia-noite. Harry Potter para assinantes da Barsa.

O último livro dele, Mason & Dixon, tinha sido publicado onze anos antes, em 1997. Mas eu só fui saber da existência do Pynchon no ano seguinte, quando saiu a tradução do Paulo Henriques Britto para o Arco-íris da gravidade, romance de 1973. Li por conta de uma resenha, meio no escuro, e fiquei doente. O livro era tudo que o resenhista dizia: engraçado, enciclopédico, necessariamente longo, intricado (são mais de quatrocentos personagens, e sabe-se deus quantas vozes narrativas), profundamente estranho e incomum.

Mas havia algo a mais ali, para além do mar de referências e da bossa formal. O livro era acima de tudo comovente, e o humor e o absurdo e as conspirações e as músicas tolas serviam, no fim, para falar de Temas Grandes, de coisas comuns a todos nós — morte, vida e o que está no meio—, e de certas mudanças nas pessoas e no mundo que raramente percebemos, e que quase nunca os escritores conseguem registrar em prosa. Era o livro mais ambicioso que eu já tinha lido, no melhor dos sentidos, o mais bonito e, com certeza, o mais engraçado.

De modo que, entre o Mason & Dixon e o Contra o dia, eu já estava convertido. Tinha assinado o mailing, lido as anotações da comunidade e acossado estranhos na fila do quilo, com teorias sobre a procedência do frapê de banana. Ler o Contra o dia um mês antes não significava, portanto, vantagem sobre os outros fãs, apenas diminuía um bom tempo de espera e ajudava com as minhas questões de ansiedade. Que baita presente foi aquele. Resolvi guardar para quando chegasse em casa (era sexta), e dei só uma espiada na epígrafe: “É sempre noite, do contrário a gente não precisaria de luz — Thelonious Monk”. Foi o momento de um telefonema bastante emocionado e, em retrospecto, constrangedor, para a Ana Paula.

Mas foi só depois de ler e gostar demais do Contra o dia que caiu a ficha: eu ia editar o bicho. Mesmo sabendo que contaria com uma vasta rede de colaboradores (o meu alô ao bom povo da Pynchon Wiki), e com a tradução do Paulo Henriques, confesso que deu medinho. Não que você não vá caprichar nos seus outros livros, longe disso. Mas estávamos falando do meu autor favorito, e eu queria fazer direito. Pior que insisti para editar, numa clara alusão ao quarto provérbio dos paranoicos, do próprio Pynchon: “Paranoicos não são paranoicos porque são paranoicos, mas porque sempre se colocam, os imbecis, deliberadamente em situações paranoicas”.

Adiei a ansiedade durante a tradução. Depois, apareceu o Vício inerente, que acabou sendo lançado antes. Embora seja um livro excelente, não tinha o escopo do Contra o dia, e a edição correu com incidência mínima de lágrimas. Com a tradução do Paulo entregue, ainda foi-se um bom tempo nas mãos do preparador de texto, e mais o meu trabalho em outros livros que vinham antes na programação. Mas o Contra o dia está marcado para o segundo semestre, então precisei começar agora a leitura.

Entre ontem e hoje, passei pelos dois primeiros capítulos e lembrei exatamente por que gosto tanto do Pynchon. As tramas foram voltando e o fio condutor — uma saga familiar que, na falta de uma palavra melhor, é um bocado contundente — já começou a se insinuar. Como é um clássico moderno, ou pelo menos eu acho, não fico com muita vergonha de já roubar assim na segunda coluna. E vou passar um tempo nisso, então é provável que volte ao assunto. Não é sempre que a gente edita o livro favorito do autor predileto. Bivér.

* * * * *

André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

Surf music!

Por Tony Bellotto

Algumas crônicas atrás um leitor reclamou que eu só falava do 2666 e do meu No buraco. Pronto, virei o disco (ou o livro), descobri uma nova obsessão: Vício inerente. Ih, lá vem ele de novo. Calma, não vou falar de detetives nem de maconha. Apesar de meu cérebro continuar assim, pé na tábua a ponto de travar.

Falo de surf music. Uma das coisas interessantes a respeito da surf music é que ela tem pouquíssimo a ver com o esporte em si. É mais, tipo, uma projeção poética do surfe? Desculpe, não resisti, estou tentando escrever uma frase à la Thomas Pynchon e isso é um erro. Vamos lá: não é que a surf music não tenha a ver com surfe. O surfe, talvez, é que não tenha muito a ver com esporte. Aliás, não existe nenhum esporte que tenha um gênero de música específico associado a seu nome. Não existe tênis music, por exemplo. Nem volleyball music (também não existe asa delta music ou skate music). Apesar das belas tentativas de Benjor, com “Fio Maravilha”, “Camisa 10 da Gávea”, “Umbabarauma” e outras, também não se pode dizer que exista uma futebol music.

O que acontece com o surfe é que, antes de se tornar esporte, era uma prática mais associada à contemplação e ao prazer puro e simples de “deslizar” sobre as águas. Há um momento em Vício inerente em que um personagem disserta sobre Jesus ser o primeiro surfista da História, e cogita que “caminhar sobre as águas” nada mais é que gíria bíblica para surfe.

Mas voltemos ao ponto, a surf music. Surgida no final dos anos 50 na Califórnia, como uma das manifestações culturais da galera que praticava o “caminhar sobre as águas”, a característica principal da surf music eram as guitarras levemente saturadas e com muito eco. Um dos artífices do gênero é Dick Dale, o lendário guitarrista californiano, que trouxe referências de música cigana, mexicana e ibérica ao vocabulário tradicional do rock’n’roll americano, fruto da união impura da country music e do blues. Daí o “sotaque” musical da surf music ser diferente dos outros tipos e subgêneros do rock. Há uma riqueza harmônica e uma experimentação com sonoridades incomuns no rock tradicional. Um dos primeiros hits do gênero — e talvez a canção mais emblemática da surf music —, é “Misirlou”, famosa hoje em dia por ter sido usada por Tarantino na abertura de Pulp Fiction (essa mesma que você está pensando, escutando agora em seu cérebro: tum, tá tá, tum…). “Misirlou” (“garota egípcia” em grego) é uma canção tradicional grega dos anos 20 do século passado, adaptada por Dick Dale às guitarras saturadas e com muito reverb, ao baixo e à percussão marcantes da surf music.

Entre as inúmeras “curtições” de Vício inerente, estão as referências às bandas de surf music e o conhecimento enciclopédico que Thomas Pynchon tem do gênero. Ele cita artistas e bandas como Surfaris, The Ventures, The Shadows e Del Shannon, e algumas bandas sensacionais que devem existir — infelizmente — apenas em sua cabeça. Ou alguém aí já ouviu bandas como Boards, Spotted Dicks ou a Meatball Flag, única tentativa conhecida de surf music negra com o clássico “Soul Gidget”?

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

Ainda os detetives

Por Tony Bellotto

Unlawful

Sim, continuo mergulhado no Vício inerente, sem trocadilhos. Última semana viajamos juntos pra Campinas, Joinville e São Paulo. O livro já começa a dar mostras da dureza da vida de um livro viajante, um road book no sentido literal (Vício inerente NÃO se passa numa estrada, embora Los Angeles não deixe de ser uma espécie de): às 23h18 da noite de 05 de dezembro, recebeu sua primeira mancha de shoyu, ao pé da página 122, no exato momento em que Doc e Fritz compartilham um baseado e um diálogo tetraidrocanabinolado:

“Do bom, né?”, Fritz devolvendo uma bagana fumegante em uma marica, tudo que restava do que estavam fumando.

“Defina ‘bom’”, Doc resmungou. “O meu cérebro está, assim, pé na tábua a ponto de travar.”

Fritz deu uma risadinha prolongada. “É, detetive tinha mais é que ficar longe de drogas, esse negócio todo de universos alternativos só deixa o trabalho mais complicado.”

“Mas como é que fica o Sherlock Holmes, ele cheirava coca o tempo todo, bicho, ajudava a resolver os casos.”

Estávamos, eu e o livro, num enlevo romântico, jantando juntos no sushi bar do Kosuchi, um restaurante que me foi apresentado por Marta Garcia e Joana Fernandes, duas das mais simpáticas e melífluas funcionárias da Companhia das Letras. Como na vez em que lá almocei com Marta e Joana, pedi um vinho branco sul-africano, Porcupine, para acompanhar os sushis. A diferença é que como o Vício inerente — o livro — bebe bem menos que a Marta e a Joana, tive de entornar a garrafa praticamente sozinho (o livro acabou absorvendo algumas gotas involuntariamente, nada que o impedisse de passar com louvor por uma baforada no teste da Lei Seca). Algumas páginas adiante, Doc Sportello me sussurra ao cérebro, assim, pé na tábua a ponto de travar:

“Porque os detetives estão condenados, bicho, dava pra ter percebido há anos, nos filmes, na TV. Antes tinha todos esses grandes detetives das antigas — Philip Marlowe, Sam Spade, o investigador dos investigadores Johnny Staccato, sempre mais espertos e profissionais que os tiras, sempre acabam resolvendo o crime enquanto a polícia fica seguindo pistas erradas e se metendo no caminho deles. É, mas hoje em dia a gente só vê polícia, a TV está entupida dessas merdas de programas de polícia, só sendo gente normal, só tentando fazer o seu trabalho, amigo, tão ameaçadores pra liberdade de alguém quanto um paizão num sitcom. Pode crer. Deixar a população de espectadores tão policiotisfeita que eles vão começar a se deixar atropelar. Adeus, Johnny Staccato, bem-vindo, e por falar nisso, por favor, derrube a minha porta, Steve McGarret. Enquanto isso, aqui no mundo real, quase todos nós, os detetives particulares, não conseguimos nem pagar o aluguel.”

Johnny Staccato, pra quem não sabe, é um detetive particular e pianista de jazz, interpretado por John Cassavetes numa série da tv americana do final dos anos 50.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

12