tradução

II. Dois mistérios

Por Cristian Clemente

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O post de hoje é complemento do texto de ontem escrito por Caetano Galindo.

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No dia 17 de abril de 2012, eu fui surpreendido. Nesse dia, recebi o meu primeiro livro de ficção para traduzir: A Seleção, que saiu em setembro daquele ano para se tornar um dos maiores sucessos da então recém-criada Seguinte, o selo jovem da Companhia. Eu já tinha traduzido um bocado de coisas — eu fiz as contas com o Caetano outro dia, oito livros, entre religião, psicologia e artes marciais (sim) —, mas nada de ficção. Zero.

Como os editores foram escolher um sujeito que jamais tinha traduzido ficção na vida para assinar um dos carros-chefes do novo selo? Eis aí um mistério que, como todo mistério, só posso aceitar. Feliz.

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Depois de A Seleção, vieram os outros títulos da série. Parece que os livros saíram bem (por favor, diga que sim, Nathália). Mas eu sempre ficava com uma porção de dúvidas. Queria saber como os outros tradutores trabalhavam, se faziam as mesmas escolhas do que eu e se tudo bem fazer essas escolhas. É que eu nunca tinha sido formado para traduzir literatura. Fui sempre fazendo as coisas segundo o ditado espanhol: A Dios rogando y con el mazo dando.

Então, no dia 16 de janeiro deste ano fui surpreendido novamente. Escolheram-me para participar do programa de mentoria do British Council. E o meu mentor seria o Caetano Galindo (!). Pouco tempo antes, eu tinha lido a entrevista dele no The Millions sobre o Graça Infinita. Também tinha ganhado de presente um exemplar do Ulysses que ele traduziu. O homem é um monstro. Por que eu fui escolhido para o programa? Eis outro mistério que aceitei feliz.

Foram seis meses de mentoria, seis meses de trabalhos e esforços, em que tive um retorno personalizado sobre o meu desempenho, para fazer andar o projeto com que me inscrevi: uma tradução do romance Helena, do Evelyn Waugh (inédito em português). E como aprendi nesse período.

A primeira coisa que aprendi foi a ter calma. Aliás, foi a mais fundamental. Digo calma por falta de um termo melhor. O que o Caetano me ensinou é trabalhar sem ficar pensando nas bobagens com que eu perdia tempo. Muitas vezes, eu me punha questões que nem o autor quis levantar ou resolver. O melhor é deixar o leitor decidir. E isso dá uma paz de espírito na hora de traduzir. Sério.

Essa calma é também uma espécie de humildade, que marca o trabalho do tradutor que respeita o autor e o leitor. No caso do Caetano, é também uma marca da personalidade dele. Vejam: o homem tem uma cabeça privilegiada, prêmios, cargo de professor numa universidade federal (e uma cachorra fofíssima). Ainda assim, foi a pessoa mais acessível do mundo para mim durante a mentoria, teve uma paciência inesgotável com as minhas neuras e demoras e não negou resposta a qualquer das minhas perguntas (até sobre criação de filhos). Thanks, dude!

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O historiador da arte Edgar Wind tem uma interpretação conhecida do quadro Primavera, de Botticelli, no seu livro Pagan Mysteries in the Renaissance (também inédito). Em bem poucas palavras — que correm o risco de deturpar uma coisa aqui e ali, pelo que me desculpo de antemão — o quadro representa um ciclo de fertilidade. Vênus, no centro, abençoa a alma juvenil e inexperiente, flechada pelo amor. Esta, guiada por Hermes (o intermediário entre os deuses, ou seja, quase um tradutor), vai atrás dos mistérios do alto, do conhecimento acima das nuvens. Mas esse conhecimento não pode ficar estéril. Deve retornar à terra como o vento fecundo que traz a primavera.

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A minha experiência de mentoria foi mais ou menos assim. Só que mais para menos, em certo sentido. Fui escolhido, aprendi muito e agora estou de volta, a fim de produzir. A diferença é que em vez de conhecer mistérios, desmistifiquei bastante coisa graças ao meu mentor. Thank goodness!

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Cristian Clemente tem 31 anos e vive de livros desde os 18. É graduado em Letras (Português/Inglês) pela USP e tem pós-graduação em Edição pela Universidade Complutense de Madri. Traduziu os títulos da série A Seleção (Seguinte) e mais umas coisas por aí.

O indiscreto charme da bruxaria

Por José Francisco Botelho

Richard Doyle (British, 1824-1883) - "In fairy land"
“A Inglaterra é um país que ama a magia e as tempestades”. Não lembro em qual ensaio de Borges li essa frase; mas sempre me identifiquei com os gostos atribuídos por ele à pátria de sua avó, Frances Anne. Me agradam tanto as tempestades que, de fato, tenho certa tendência a assisti-las como se fossem um espetáculo: um hobby eventualmente perigoso e pouco recomendável, confesso. Certa vez, observando uma dessas performances meteorológicas no interior do Rio Grande do Sul, quase fui estupidamente trespassado por um relâmpago. Mas, bem, isso não vem ao caso: as tempestades, neste texto, são circunstanciais. Meu assunto aqui é a fantasia em Chaucer – a começar por suas fantasias sombrias e perturbadoras. Ontem pela manhã, vi pela primeira vez a capa de minha tradução dos Contos da Cantuária: o desenho foi feito pelo espanhol Joan Cornellà, artista que tem a capacidade de sugerir profundezas perturbadoras sob a aparência dos mais coloridos sorrisos. Escolha perfeita para ilustrar essa obra em que se misturam o quotidiano e o prodigioso, o sublime e o perverso, a santidade e a barbárie.

Alguns afirmam que, ao compor o Paraíso Perdido, John Milton pretendia escrever um libelo a favor da obediência cristã; mas ao relê-lo, em uma noite de mau tempo no século XX, Harold Bloom se deparou com uma aventura fantástica cujo herói era o Diabo. A literatura de Rudyard Kipling talvez fosse originalmente uma defesa do Império; mas seu romance Kim sempre me pareceu cheio de desavisados colonialistas levando excelentes rasteiras. Não tentarei falar das intenções de Geoffrey Chaucer ao escrever seus contos, mas uma de minhas leituras (por enviesada que seja) é esta: o implacável realismo da obra-prima medieval parece um núcleo ameaçado pelas marés do horror e da fábula.

O livro que tive o prazer de traduzir começa com um tour de force de minúcia social: o Prólogo Geral, em que os contadores de contos são apresentados com um poder de observação que devassa até o tecido de suas vestes. As roupas, por sinal, estão entre os grupos de palavras mais divertidas e difíceis de traduzir na obra de Chaucer (as roupas, e os palavrões). Sabemos que o Cavaleiro usa uma bata de fustão manchada pelos elos da cota de malha – sinal de suas incansáveis andanças em prol do heroísmo e da cortesia; o Mercador tem a barba bifurcada e um chapéu extravagante, feito com pele de castor; a Mulher de Bath exibe meias vermelhas, usa um toucado de tamanho descomunal, e tem um pequeno espaço entre os dentes da frente (nas ciências fisionômicas da época, isso era sinal de um temperamento lascivo). A sensação de realidade gerada por essas páginas efetua de forma magistral a suspensão da descrença exigida por Coleridge: perdão pelo clichê, mas o fato é que a Inglaterra da época de Chaucer se transforma em nosso próprio mundo, na duração mágica da leitura.

E é graças a esse realismo quase epidérmico que o maravilhoso e o fantástico, quando surgem, nos acertam em cheio e nos deixam com a sensação de que universos incongruentes se aproximam e se subvertem. Existe um veio de perturbação cósmica percorrendo secretamente a obra de Chaucer. No relato do Cavaleiro, em que os temperamentais deuses pagãos decidem o destino dos mortais, um satânico Saturno domina o clímax da narrativa com estas palavras inesquecivelmente sinistras: “O meu olhar é o pai da pestilência”. (Sempre me pareceu que, nesse trecho, Saturno estava olhando para mim). No Conto do Vendedor de Indulgências, um homem decrépito, sofrendo de uma incômoda espécie de imortalidade, vaga pelo mundo sem conseguir dar fim à própria vida; ele bate com o cajado no solo e implora que a Terra o engula, mas é tudo em vão. (Por que o pobre sujeito não consegue morrer? Chaucer, sabiamente, não explica).  Nos bosques dessa Inglaterra tão verossímil, um demônio epigramático anda disfarçado em trajes que lembram os de um casual Robin Hood, e arcanjos cruéis ciceroneiam pecadores ainda vivos em um passeio obsceno nos porões do universo. Aliás, a sensação de horror é acentuada nos relatos mais próximos à esfera do cristianismo. Quanto mais pia a moral da história, mais escabrosas são suas circunstâncias: no Conto da Prioresa, por exemplo, um menino-mártir, após ser degolado e jogado em uma cloaca, passa dias entoando hosanas, apesar do buraco em sua garganta. Um milagre certamente edificante em sua época, mas que me rendeu pesadelos muito interessantes nos últimos meses.

Em outros momentos, contudo, a fantasia dos Contos da Cantuária torna-se límpida e hilariante. Uma das habilidades características de Chaucer é fazer com que seus personagens caiam no ridículo de forma milimetricamente orquestrada: Moira, a deusa do destino, tem um queda por trotes maneiristas. Meus contos favoritos são precisamente aqueles em que a farsa virulenta se mistura ao sabor feérico – é o caso do maravilhoso Conto do Mercador, em que deuses e duendes interferem em uma comédia de patetices e percalços demasiado humanos. A história fala sobre Januário, um cavaleiro velho, rico e cego, que se casa – insensatamente – com a jovem, bonita e hormonal Maia. Um silogismo cuja conclusão lógica é o adultério (a infidelidade conjugal, aliás, é tema que o humor desbragado de Chaucer leva a proporções épicas).  O local escolhido para os encontros entre Maia e seu amante, o escudeiro Damião, é um jardim no centro do castelo. A providencial cegueira de Januário permite que a necessária traição ocorra bem diante de seus olhos. No entanto, existem criaturas invisíveis naquele jardim, observando a cena patética. Lá está a rainha Perséfone ao lado de Plutão – fantasmas do paganismo que, nesse conto, são soberanos das fadas e dos gnomos medievais. Querendo defender a honra universal dos maridos, Plutão resolve curar a cegueira de Januário no momento exato em que a transação ilícita é consumada. Traduzi assim o momento-chave da narrativa:

Não sei ornamentar, sou grosseirão:
Num instante, esse afoito Damião
Levanta a saia dela – e mete o pau.
Plutão, vendo esse crime capital,
Devolve a vista ao velho num instante
– Januário enxerga até melhor que dantes.
Jamais homem algum foi tão contente
De tão mágico e súbito presente;
Ver sua esposa é tudo o que ele quer;
Mas quando os olhos ergue à sua mulher,
Vê que outro está engatando-a de tal jeito
Que, por pudor, nas regras do respeito,
Não posso descrever em termos finos.
Januário solta um retumbante grito
Qual mãe que vê seu filho massacrado.
“Por Deus! Que horror! Socorro!” – foi seu brado…

E, bem, o resto da história estará nas estantes na próxima semana – e assim encerro minha parceria com o velho Chaucer e sua barulhenta obra-prima. Da euforia ao horror, da divina sisudez à mais obscena felicidade, poucas criações humanas captaram de forma tão pungente a caótica coerência da vida.

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

 

Em tradução

Por Caetano Galindo
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Curiosidades. Trívia. Coisa assim.

Dia desses o cara postou uma história que achei que valia comentar aqui.

Nas palavras do caubói-cantor da sessão da tarde, ‘diz mais ou menos assim’:

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Ucrânia. 2004.

As eleições para o cargo de primeiro-ministro transcorreram sob pesadas suspeitas. O candidato à reeleição, segundo a boa e velha escola ranço-pós-comunista, aparentemente estava, digamos assim, dando um jeito para garantir um resultado favorável.

E resultado favorável foi o que veio mesmo. Claro.

Repórteres de todo o país, especialmente das duas redes de televisão que aparentemente dividiam a audiência, se viram diante da ingrata tarefa de anunciar um resultado oficial que todos sabiam (ou no mínimo suspeitavam) ser em algum grau ilegítimo.

Muitas foram as vozes que estrilaram, mas sempre com o devido cuidado e o devido respeito que se deve às suspeitas e aos suspeitos.

Mas uma não-voz falou mais alto que todo mundo. Uma tradutora. Uma intérprete, na verdade.

Nataliya Dmytruk era a reponsável por traduzir as notícias de uma das redes de televisão para a linguagem de sinais ucraniana*, e enquanto o âncora dava as notícias ela, calmamente, dizia a seu público que tinha vergonha de ser obrigada a traduzir mentiras, e que não ia compactuar com aquilo. E, só para garantir, já meio que se despedia por ali, sem saber se voltaria.

O desenlace da história é interessante. Quando a notícia da sua subversão vazou, vários colegas a apoiaram, outros se apoiaram no factoide para ganhar coragem e abrir a boca, uma série de manifestações de rua se seguiu, e acabou que houve nova eleição e derrota do candidato à reeleição.

Mas aqui, o que nos interessa é a posição do tradutor.

Porque sempre se cobra a tal da fidelidade.

Porque muito já se disse (aqui inclusive) que uma versão bobamente literal dessa ideia pode acarretar numa anulação de personalidade, estilo, de voz, que se coaduna muito pouco inclusive com noções de responsabilidade literária, por exemplo.

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O tradutor tem que ser fiel a quem?

Ao autor? Aos editores? A si próprio? Aos leitores?

E quando essas múltiplas responsabilidades se chocam?

Devo traduzir uma mentira?

(Já falei aqui de corrigir autores, né? Mesmo na ficção.)

Devo traduzir um texto que manifeste preconceito racial? De gênero? Eu sou só um transmissor de mensagens e tenho direito de gritar não matem o mensageiro!?

E um texto literário ruim?

Na minha vida pregressa, a.C.dasL., tive que encarar uns textos bem feinhos, sabe?

Se eu te disser que dei uma melhoradinha neles, você me perdoa?

Se eu te disser que pensei nisso quando ouvi a história da Dmytruk, você me acha muito leviano?

*Não. As línguas de sinais não são todas iguais. Os ucranianos usam uma versão da Língua Russa de Sinais. Aliás, até o estatuto da fronteira linguística Rússia-Ucrânia é coisa das mais interessantes… Mas outra hora, ok?

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

Chaucer e as metáforas da bebedeira

Por José Francisco Botelho

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A bebedeira é um dos temas nobres das letras universais. O vexante pileque de Noé em frente aos seus filhos, no Gênesis, inaugura a vasta antologia da ressaca literária. Foi graças a um odre de vinho especialmente forte que Odisseu conseguiu enganar Polifemo, o Ciclope — sempre achei comovente a cena em que o monstro, bêbado e subitamente amigável, tem a cortesia de postergar o esquartejamento de seu hóspede-prisioneiro: “Vou devorar você por último”. No mundo islâmico, existe uma rica tradição de poemas em louvor da intoxicação etílica — vista como uma metáfora do êxtase místico. O sufi persa Rumi, do século XIII, compara o coração de Deus a um recipiente cheio de algum licor delicioso e devastador: “No cântaro do Teu amor, o meu espírito flutua — e arruinada é a pobre Casa de meu corpo”.

Poderíamos falar sobre Falstaff, sobre Hemingway, sobre Malcolm Lowry — mas vamos nos ater ao Chaucer. A bebedeira é um dos temas favoritos e recorrentes nos Contos da Cantuária. Alguns peregrinos de Chaucer falam (e agem e bebem) como autênticos especialistas no assunto. Os efeitos do álcool sobre a fisiologia e o temperamento humano são descritos com verve e detalhismo. Há reflexões sobre a intensidade relativa dos vinhos franceses e espanhóis; onomatopeias naturalistas do ronco dos bêbados; tocantes elegias às bebedeiras da juventude; descrições minuciosas da expressão facial, entonação da voz e coloração da pele em indivíduos alcoolizados. (Vale lembrar que Chaucer nasceu em uma família de comerciantes de vinho e, portanto, tinha um conhecimento mais ou menos profissional sobre o assunto).

As metáforas da bebedeira também são responsáveis por um dos dilemas mais interessantes que encontrei na tradução dos Contos. O enigma surgiu no “Prólogo do Provedor”. Certa manhã, o Cozinheiro aparece tão bêbado que mal consegue se manter no lombo do cavalo. O Provedor, em tom de zombaria, comenta:

“Therto me thynketh ye been wel yshape.
I trowe that ye drunken han wyn ape,
And that is, whan men pleyen with a straw”.
And with this speche the Cook wax wroth and wraw.

Uma tradução circunspecta, palavra por palavra, daria algo como:  “Acho que você está em forma para esse tipo de exercício. Tenho a impressão de que andou bebendo o vinho do macaco, quando os homens brincam com uma palha.” Ouvindo isso, o Cozinheiro ficou furioso.

O que é o tal vinho do macaco? E o que significa “brincar com uma palha”? A misteriosa passagem só começou a fazer sentido quando mergulhei a cabeça nas rigorosas categorias da embriaguez medieval. A tradição judaica da época tinha uma deliciosa teoria zoológica quanto aos efeitos do álcool. Noé, ao plantar o primeiro vinhedo da história, regou o solo com o sangue de quatro animais, abatidos nesta ordem: uma ovelha, um leão, um macaco e um porco. Por isso — continua a tese, com humor rabínico — os quatro estágios da bebedeira humana equivalem até hoje ao temperamento daquelas quatro vítimas. O primeiro patamar da embriaguez é o “estágio da ovelha”, quando nos tornamos afáveis ou ingênuos em demasia (a bebedeira gentil de Polifemo na Odisseia é um excelente exemplo). Em seguida, o vinho transforma o ser humano em um leão — é o momento da fanfarronice, das mentiras mirabolantes, das confidências agressivas e das eventuais brigas de boteco. O terceiro estágio é o do macaco – mais desastroso que a alegria ovina inicial, ele nos leva à pantomima e a pronunciamentos saltitantes e sem fundamento. Por fim, o rabino nos ensina que o vinho acaba transformando o ser humano em um suíno — e sobre esse ponto em particular não é preciso explicar mais nada.

O “vinho do macaco”, portanto, simboliza o penúltimo estágio da bebedeira, quando o bêbado está prestes a chafurdar na lama — seja a lama real ou a metafórica. (Aqui, sempre me recordo dos macacos de Rudyard Kipling — notoriamente, os animais mais irritantes do Livro da Selva). Mas faltava ainda explicar a outra observação: quando os homens brincam com uma palha. A opinião tradicional é a seguinte: quando chega ao estágio do macaco, o bêbado fica como uma criança, brincando com palhas, ou gravetos, ou outras coisas sem importância. Sempre achei essa interpretação pouco convincente: brincar com uma palha não parece coisa de quem já passou pelo estágio do leão, e está prestes a cair no abismo do porco. Encontrei a solução em uma nota de rodapé de Nevil Coghill, autor da mais respeitada tradução de Chaucer para o inglês moderno. Coghill relata que alguns trabalhadores dos portos de Londres tinham o mau hábito de entrar nos depósitos de vinho, à noite, fazer buracos nos barris com a ajuda de uma verruma, e chupar o conteúdo por meio de um canudo. A gíria para essa prática antiga e engenhosa era to suck the monkey — “chupar o macaco”.

Não pretendo experimentar isso na prática, mas suponho que chupar vinho por um canudo, direto do barril, seja uma forma mais extrema de alcançar o êxtase sufi do que por meio de um copo ou taça. Portanto, aquela passagem no “Prólogo do Provedor” ficou assim:

“Te juro, estás prontinho e preparado,
Pois já chupaste o vinho do macaco
Por um canudo; a pipa está vazia!”
E o Cozinheiro, ouvindo, refervia.

Levei exatamente duas semanas e três dias para decidir que um canudo, nesse caso, valia bem mais do que uma palha.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano. Leia o post anterior, “Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução”.]

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução

Por José Francisco Botelho

Lancheria do Parque

Stanley Kubrick certa vez disse que dirigir um filme é como escrever Guerra e paz em uma montanha russa. Não tenho ideia de como seja dirigir um filme ou escrever Guerra e paz. Mas traduzir Os contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, foi como passar doze meses em uma montanha russa, no meio de um terremoto, tentando equilibrar nas mãos um glossário de inglês medieval. Vou sentir falta dos solavancos.

Mas antes de falar sobre o Chaucer, preciso falar sobre a Lancheria do Parque e sobre o Bom Fim. Mais que um bairro, o Bom Fim é o coração excêntrico de Porto Alegre — o lugar onde tocadores de gaita escocesa se topam com judeus hassídicos impecavelmente vestidos de preto, e onde um sujeito em puídas bombachas de gaucho platino há tempos tenta me vender sua coleção de gibis da Marvel. O ponto nevrálgico do Bom Fim é a Lancheria do Parque — o lugar que serve o melhor suco de laranja batido em todo o mundo sublunar; e onde os garçons gritam os pedidos dos fregueses, a plenos pulmões, para os funcionários do outro lado do balcão.

Quando o editor Leandro Sarmatz me lançou a proposta-desafio de traduzir Os contos da Cantuária em versos — isso foi por volta do início de 2012 — eu alugava um escritório no segundo andar de um casarão histórico, cor de rosa, a meia quadra da Lancheria. Não havendo ar condicionado ali, comecei a traduzir o Chaucer ao sabor das intempéries porto-alegrenses, cujo nome é legião. Completei os primeiros decassílabos em meio ao calvário do verão de Porto Alegre, com a ajuda de um honesto ventilador de canto — mas, quando vieram os meses do inverno, o halo avermelhado de minha estufa apenas acentuava o fato de que meus dedos estavam gelados demais para digitar. Algumas tardes, então, passei a me transferir com livros, papéis e canetas a uma das mesas da Lancheria, onde o ajuntamento de pessoas me proporcionava o necessário calor (humano, no caso) para seguir trabalhando.

Pelos meus cálculos, traduzi três contos inteiros em meio aos célebres brados de “laranja batido!” e “farroupilha de salaminho, prensado!”. Um outro frequentador contumaz do local, notando minha aplicação meio maníaca sobre aqueles papéis, certa vez me perguntou o que eu escrevia. Sofro de uma certa timidez de escritor, que me leva frequentemente a mentir (de forma irracional) sobre o que estou escrevendo. De forma que respondi: é um roteiro, para um filme sobre contrabandistas. (Eu realmente pretendo um dia escrever um roteiro sobre contrabandistas. Seja como for: algumas semanas atrás voltei à Lancheria, e o mesmo habitué me perguntou “como vai o roteiro”. Dei de ombros e respondi: “Larguei de mão”).

Mas antes de prosseguir, preciso falar de Bagé, e dos maçaricos — me refiro ao pássaro, não à ferramenta. Quando eu já havia chegado mais ou menos à metade dos Contos — lá pelo “Conto do Navegador”, eu acho — me mudei de cidade. Por motivos longos demais para este modesto relato, vim morar por algum tempo em minha cidade natal, Bagé, em uma das regiões mais isoladas do Brasil, na fronteira profunda com o Uruguai. Em sua solidão algo orgulhosa, a cidade gosta de recordar certos visitantes inusitados: Omar Shariff costumava jogar bridge no Clube Comercial (era amigo do dono de um haras, aqui perto); Richard Gere era visto tentando comprar pãezinhos em uma padaria local (ele namorou, por um tempo, uma pintora bajeense); e Yves Montand certa vez deu uma canja em um famoso restaurante de pescados (não tenho a menor ideia do que Yves Montand fazia por aqui).

Mas, bem,  o que interessa é que  passei a viver em uma casa antiga no centro histórico de Bagé, com um pátio enorme e decadente, frequentado regularmente por bandos de maçaricos:  eles são pássaros compridos, escuros, cujo canto é formado por piados distintos, sincopados e vagamente ominosos. A essas alturas, a tradução diária de decassílabos já havia se entranhado de tal forma em minha cabeça que eu tentava escandir e metrificar tudo a minha volta. O prazo final se aproximava, e o medo de falhar na empreitada me levou quase a duplicar as horas de trabalho. No supermercado, eu me flagrava contando as sílabas dos nomes dos produtos, na ponta dos dedos; outras vezes, lá estava eu a  escandir as primeiras palavras de minha filha, que na época completava uns dois anos de idade; em alguns momentos do dia, minha esposa era obrigada a me chamar de volta ao já quase esquecido mundo das frases sem métrica: “Chega de decassílabos, Chico”.

Mas, à noite, o ritmo surdo dos decassílabos continuava pulsando entre minha cabeça e o travesseiro.

O clímax dessa história ocorreu certa tarde, quando eu chegara ao nebuloso píncaro de um capítulo, e tudo ao meu redor parecia estranho e mudo; e foi então que um maçarico passou voando pela janela. A sombra bateu em meu rosto, fiquei atordoado por uns instantes, houve um movimento involuntário de meus dedos. E percebi: eu estava tentando escandir os piados do maçarico. Pensei, nitidamente: Agora, sim, estou virando o louco dos decassílabos. Cogitei o desespero por um instante, mas então fiz aquilo que sempre se deve fazer em momentos de espasmo existencial. Eu fui preparar um mate.

Enquanto tomava o chimarrão, a sensação de mau agouro se desfez e percebi que, na verdade, estava tudo acabando, para o bem ou para o mal: faltava pouco, muito pouco para o fim da montanha russa. O verão havia voltado e a loucura dos decassílabos em breve iria acabar. Desde que eu me sentara para escrever o primeiro verso do “Prólogo geral”, minha filha havia aprendido a andar e a dizer “Nabucodonosor”; dois fios brancos haviam surgido em minha barba. Eu havia passado doze meses na companhia de Harry Bailey, o Albergueiro, e sua trupe — em breve, muito em breve, iríamos nos separar. Nesse momento, senti algo semelhante ao que Rudyard Kipling descreve em um dos melhores contos do Livro da selva: “Uma grossa e morna lágrima caiu em seu joelho e, triste como se sentia, Mowgli sentiu-se feliz por estar tão triste — se é que vocês conseguem entender essa espécie de felicidade de ponta cabeça”.

Não chorei, claro — sou hiperbólico, mas não melodramático. Terminei o mate, enquanto minha felicidade de ponta cabeça era invadida por outra sensação igualmente imponderável. Eu sairia dos Contos, em breve, e para sempre — mas, graças aos meandros da vida e da literatura, minhas duas terras estranhas, o Bom Fim e Bagé, ficariam de alguma forma lá dentro, enfeitiçadas e escandidas, entre os loucos, os lordes, os santos e os depravados de meu querido Geoffrey Chaucer.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano.]

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.