tradução

Sobre traduzir gibi

Por Érico Assis


Tira de Laerte.

Fui convidado a falar sobre tradução de quadrinhos na Jornada de Estudos sobre os Romances Gráficos — edição Porto Alegre. É um evento que vai acontecer na PUC-RS dias 19 e 20, segunda e terça-feira da semana que vem, sendo a minha participação na terça às 8h30. Mais aqui.

O convite foi para uma mesa redonda, o que costumo interpretar por “beleza, é só responder” ou “não traga powerpoint”. Mas aí o organizador disse que terei “20 a 25 minutos para a fala inicial”. Ih.

Preciso pensar em coisas para contribuir, então vou pensar em voz alta.

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Já escrevi dois textos sobre tradução de HQ aqui no blog: um sobre as palavras mais complicadinhas de Scott Pilgrim contra o mundo e outro sobre o método Yusa, que usei para a tradução de Wilson. Estava relendo agora e, modéstia à parte, ainda concordo com tudo. O que eu tenho de novidade é um pouco mais de prática. Nesse meio tempo, tive aprendizado forçado nas traduções de Superdeuses, Metamaus, Contos de lugares distantes, Casanova e outros bichinhos complicados (alguns são mais prosa, mas todos têm relação com quadrinhos). As dificuldades continuam as mesmas, as formas de buscar solução também. Só as aflições diminuíram um pouquinho.

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O engraçado na minha experiência profissional é que comecei pela tradução de quadrinhos, sem passar pela tradução de prosa. Os quadrinhos têm a unidade do balão e do recordatório. Só em casos extremíssimos você pode aumentar, suprimir ou acrescentar balões a um quadro para encaixar texto. De preferência, não passe esta tarefa ao letreirista. O autor também vai odiar.

A estética da página muitas vezes está atrelada à posição original dos balões e ao conteúdo deles. Por isso, toda fala traduzida tem que ficar quase do mesmo tamanho da original. Se for menos texto, você deixa uma mancha branca na página. Se for mais, os balões perdem área de respiro e/ou a letra diminui.

Quando descobri que a tradução de prosa permite que você corte, estique, puxe, explique, mescle, inverta, transforme três parágrafos em um ou um em cinco, e ainda assim mantenha intenções e estilo do original, foi como a primeira vez sem camisinha. Malditos balões.

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Em traduções de HQ mais recentes, tentei unir os dois mundos: usar a amplitude de ferramentas da tradução de prosa para fazer o texto soar melhor no português, respeitando a limitação formal de HQ.

Fui teorizando: o maior parte do texto de HQ é diálogo, e deve assemelhar-se ao que as pessoas falam, não a como escrevem. Por outro lado, ainda é texto escrito, que será lido e não ouvido.

Sabe quando você altera de legendado para dublado no DVD e estranha que o texto não é o mesmo? Não é para ser. Legenda é lida, dublagem é ouvida, mesmo que ambas sejam traduções de linguagem falada. Nos diálogos de quadrinhos, é preciso fazer o mesmo jogo das legendas: o texto não pode ser tão formal quanto a prosa, pois é fala, mas não pode ser tão informal quanto a fala, pois é escrito.

Se o balão diz “Taligádo quissaí vai sê uma di-fi-cul-dad, tá não?”, por mais que as características do personagem levem a crer que você o ouviria assim, a transcrição hiper-realista da fala chamaria mais atenção que o conteúdo e, na maioria dos casos, fugiria da intenção do texto original. “Mas você sabe que será algo complicado, não sabe?”, por outro lado, foge demais do que uma pessoa normal e não-empolada falaria (fora nas novelas das sete). “Cê sabe que não vai ser fácil, né?” é uma forma de resolver o balão “Ya know thiss gonna be difficul’, righ’?” do original.

(Os anglófonos conseguem ser mais liberais com a transcrição da fala por questões técnicas e culturais.)

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Encontrar essa jinga entre representação-da-imagem-falada e texto-para-ser-lido-não-ouvido (fora a jinga entre imagem e texto, e a limitação formal do balão) costuma tornar a produção de uma lauda de HQ traduzida mais demorada que produzir uma lauda de prosa traduzida. Não é uma regra, mas com frequência minha realidade.

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Não é todo tradutor que tem acesso à versão final do livro em que trabalhou depois de este passar por revisor, preparador, editor e diagramador — ou seja, logo antes de ir para a gráfica. Em prosa, isto não é tão problemático, pois as interferências desta cadeia são aceitas no processo e você, tradutor, pôde quase ver como o texto será lido em sua versão final quando entregou sua parte.

Em tradução de quadrinhos, porém, conferir a tradução letreirada/diagramada é (ou deveria ser) indispensável: o produto que o tradutor entrega consiste em laudas de Word que apenas seguem a ordem de leitura da página de HQ. Não se traduz sobre a página de HQ em si (embora eu deseje muito um software que faça isto). Há, portanto, esta revisão última do tradutor de sua tradução aplicada à página, para conferir todas as jingas. O que toma mais tempo.

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O triste é que nunca mais usei o método Yusa. Estamos em falta do ingrediente esposa grávida.

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A quem vai no evento de Porto Alegre: é bem provável que eu não tenha pensado em nada além destas anotações até o dia da mesa redonda. Portanto, faça como eu e vá ouvir o Augusto Paim (ele traduziu Baby’s in black, Cash e outras coisas do alemão) e a Maria Clara Carneiro (O gosto do cloro, Lucille e outros franceses), meus companheiros de mesa.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano W. Galindo

219 páginas traduzidas. Vamos indo.

Tem montes de coisas que eu queria pôr aqui. Mas, amigo, vai ter teeempo ainda.

Aí achei que era mais jogo começar dando aperitivo. Hors d’oeuvre. Então sempre com o caveat de que essa tradução está definitivamente em-curso e vai mudar muito antes de ser impressa, fica aí com uma seleção das transcrições das entrevistas que a diretora de uma Casa de Recuperação (um lugar central para o romance) faz com alguns residentes entre 13 e 15 horas do dia 4 de novembro do Ano da Fralda Geriátrica Depend (mais sobre isso em outras conversas).

Ah, isso é tipo c.pp.177-9.

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“Eu sinto muito mesmo incomodar. Eu posso voltar depois. Eu estava pensando se de repente não tem alguma oração especial do Programa pra quando você quer se enforcar.”

[…]

“Desculpa se eu estou incomodando você por uma coisa que não é um negócio assim direto de interface de tratamento e tal. Eu estou lá em cima tentando fazer a minha Tarefa Doméstica. Eu estou com o banheiro masculino do primeiro andar. Tem um negócio… Pat tem um negócio na privada lá em cima. Que não vai com a descarga. O negócio. Não vai embora. Fica voltando. Por mais que eu dê descarga. Eu só estou aqui pra saber o que fazer. De repente também um equipamentinho de proteção. Eu não consigo nem descrever esse negócio lá da privada. Eu só posso te dizer que se aquilo foi gerado por alguma coisa humana aí eu tenho que te dizer que eu estou é com medo. Nem me peça pra descrever. Se você quiser subir e dar uma olhada, eu tenho 100% de certeza que ainda está lá. O negócio deixou bem claro que não pretende sair dali.”

“Eu só sei é que eu pus um potinho de pudim da Hunt na geladeira dos residentes como manda o figurino às 1300 e tarará e às 1430 eu desço na maior animação atrás do meu pudim que eu que paguei e aí não está mais lá e o McDade aparece todo preocupado e se oferece pra me ajudar a procurar e tarará, só que se você olhar eu olho e olha o filho de uma vaca com uma puta mancha de pudim no queixo.”

‘Tá mas só que como é que eu posso responder só sim ou não se eu quero parar com a coca? Se eu acho que eu quero com certeza eu acho que eu quero. Eu não tenho mais septo. A coca tipo dissolveu a porra do meu septo. Ó. Dá pra ver algum septo quando eu ergo assim? Eu com certeza do fundo do coração eu achei que eu queria parar e tal e coisa. Desde isso do septo. Aí mas aí se eu queria parar esse tempo todo, por que é que eu não consegui parar? Está vendo o que eu estou dizendo? Não é tudo uma questão de querer e coisa e tal? E tal e coisa? Como é que pode isso de morar aqui e ir nas reuniões e tudo não me fazer querer parar? Mas eu acho que eu já quero parar. Como é que eu ia estar aqui se eu não quisesse parar? Eu estar aqui já não é prova que eu quero parar? Mas aí então como é que pode que eu não consigo parar, se eu quero parar, aí é que está.”

“Ótimo, ótimo. Ótimo. Perfeito. Sem nenhum problema. Feliz de estar aqui. Melhorzinho. Dormindo melhor. Adoro o rango. Numa palavra, não podia estar melhor. Os dentes? Isso de ranger os dentes? Tique. Deixa a mandíbula mais forte. Uma manifestação do meu bem-estar geral. A mesma coisa com isso da pálpebra.”

[…]

“Eu volto quando você estiver livre.”

“Voltou. Por um segundo eu tive esperança, até. Eu tive esperança. Aí voltou de novo.”

“Primeiro deixa eu te dizer uma coisa só.”

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

Bate-papo: Jane Austen e tradução

Assista ao bate-papo sobre Jane Austen e tradução, com a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza.

Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano W. Galindo


E aí mas então a ideia de fazer essa coluna aqui pro blog é ir falandinho do andamento da tradução do maior romance de David Foster Wallace.

Que se chama Infinite Jest (mais sobre isso nos próximos fascículos).

Que quem está traduzindo sou eu. (Neste momento: 151 páginas vencidas; 830 pela frente. Cinquenta e duas notas encaradas, 336 esperando [de novo, espere os próximos episódios].)

Sei lá eu se tem interesse pra vocês, mas o negócio é que não é um projeto comum, sabe? O livro, afinal, vem conquistando um espaço de ‘culto’ muito semelhante ao de um romance como o Ulysses. E eu estou cansado de saber que esses ‘cultos’ podem ser deletérios, então acaba que ir falando do livro pode ao mesmo tempo mostrar o que ele tem de encantador e diminuir certas auras de intangibilidade.

Ao mesmo tempo mostrar que yes we can e decantar os méritos de uma coisa preciosa.

Sabe, tem uma cena de um dos primeiros filmes do Nanni Moretti (lembro qual, não…? e no fim não é meio mais chique citar assim sem certeza? dá uma aura de erudição relaxada… [e reconhecer agora que eu queria atingir a tal aura não dá uma aura ainda mais sofisticada? {bem-vindos ao mundo de David Foster Wallace}]) em que a mulher do cara dá à luz e toma uma anestesia, e ele fica encantadíssimo com o fato de que se pode anestesiar um parto normal e sai gritando pelo hospital porque, na opinião dele, “o mundo precisa saber!”.

Eu, e uma caterva de leitores, há anos me sinto assim com Infinite Jest. O mundo precisa conhecer.

E agora ter a chance de traduzir o livro, portanto, é uma coisa realmente bacana. Dar o bichinho pra quem quiser ler.

E aí este espaço aqui é pra ser usado pra isso mesmo. Pra ir mantendo um ‘diário de tradução’, pra falar das maravilhas maravilhudas de um livro maravilhante, pra eventualmente pedir socorro aos universitários (e tenistas, e junkies, e engenheiros) em questões abstrusas de vocabulários específicos, pra falar da mega viagem que há de ser traduzir Infinite Jest.

Sob a égide de St. Diana de Passy, padroeira deste blog.

Com a efígie da famiglia de Don Andrea Conti, scefigno di tutti scefonni.

Com a colaboração de Mr. Mojo e d’El Rancho Carne.

Com a proteção da musa degli Stropari e a revisão de Mona Bice.

Prepare-se, portanto, pra ir sabendo de manadas de hamsters selvagens, de uma nova América do Norte fundida numa só nação de curioso nome ONAN, do mais curioso meio de matar baratas, de um travesti que rouba um coração, de um drogado que imola gatos, de um homem que recolhe no corpo imenso os pecados dos outros, da mulher mais linda de todos os tempos (que talvez tenha tido o rosto desfigurado por ácido).

De Hal, Gately, Joelle e do cara-que-nem-usava-o-primeiro-nome.

De TUDO.

O trajeto é calombudo mas a paisagem é bonita.

Dá a mão que eu tento te levar.

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E hoje é 12 de setembro.

Exatos quatro anos da morte de Wallace.

Hora, como sempre, como em todo broomsday (nome de um site-tributo que eu, o André, o Galera e o Pellizzari montamos às pressas em 2009), de desejar que a família dele encontre a paz possível e que nós, leitores, continuemos (subj.!) nos servindo da obra dele pra entender o mundo, as pessoas, e inclusive a pessoa que a escreveu, e o seu fim.

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[Esta quinta-feira transmitiremos ao vivo um bate-papo sobre Jane Austen e tradução entre a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza. Acompanhe e mande suas perguntas aqui pelo blog a partir das 17h.]

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

Traduzir o “Ulysses”

Por Caetano W. Galindo


Capa: Raul Loureiro e Claudia Warrak. Ilustração: Chico França.

Traduzir literatura por contrato é uma coisa.

Você nem sempre traduz o que gostaria de ler. Você nem sempre tem o prazo que desejaria ter. Vida, vida.

Mas traduzir é uma experiência tão necessariamente suja (mãos-na-massamente falando), tão enfronhadinha, tão, digamos, íntima, que acaba que esses senões terminam por se dissolver um pouco. E você tem sempre uma relação mais pessoal, direta, com os livros que traduziu. Você, afinal, teve de escrever todos eles. Linha a linha.

Traduzir por escolha é coisa bem outra no entanto.

Quando eu decidi que minha tese de doutorado incluiria uma tradução do Ulysses, quando decidi que dos quatro anos que eu teria para escrever a tese eu usaria dois, inteiros, para essa tarefa, foi unicamente escolha minha, desejo meu. Projeto.

E aí foram dois anos, diários, de leitura, escrita e releitura. (Uma noção simples da intensidade do trabalho de tradução vem do fato de que, na batata, traduzir é ler ao menos três vezes ao mesmo tempo: correr o olho pela frase original, redigir a sua e lê-la com as outras).

O livro foi traduzido quase inteiro na ordem. (Um trecho eu fiz antes, para dar de presente para aquela que viria a ser minha mulher, no dia dos professores.) E o Ulysses é um livro inquieto. Se mexe sem parar. Muda o tempo todo. E traduzir esse livro tinha de ser assim também.

Insisto sempre com os meus alunos que o próprio Ulysses te ensina a ler o Ulysses, gradativamente. Eu tive de ir aprendendo a escrever o Ulysses, passo a passo, cada vez encontrando dificuldades maiores, mais numerosas, como sabe qualquer leitor. Mas cada vez me divertindo mais.

Quando você acha a linguagem, o registro, aparecem os trocadilhos, as piadas, as referências cifradas (São Gifford, o Anotador, que me valha!); quando deu conta disso, são as canções; mais os poemas; e aí vêm as paródias, pastiches; e depois um longo episódio que narra o desenvolvimento da literatura inglesa (e toca a gente — ela já era minha mulher — sentar e montar uma lista de modelos de textos portugueses e brasileiros, do século XIII ao XIX, cobrindo tudo quanto é gênero: crônica, carta, teatro, prosa, poesia, mais ou menos como os que Joyce usou quando escreveu; e toca ler cada um desses modelos, fazer listas de expressões, palavras, construções saborosinhas e típicas e aí, e só aí, traduzir o fragmento correspondente do episódio).

E quando tudo isso passou, você tem que lidar com a oralidade desmedida e precisa de dona Molly naquele solilóquio.

E quando você acha que acabou, no Bloomsday centenário, 2004, um século exato depois das andanças do Senhor Bloom por Dublin, vêm já seis anos de espera, banho-maria, retoquinhos.

Outros trabalhos. Aulas. Outras traduções.

Eu hoje venho conseguindo juntar as coisas: traduzir por contrato textos de escolha. Melhor ainda, agora contrataram o meu Ulysses.

E toca revisar tudo para você, quem sabe, querer ler daqui a pouco.

Escolha minha.

Terão sido dez anos de convívio com o livro.

Escolha minha, circunstâncias.

Por mim, valeu.

Tomara que você não ache que foi à toa.

[A edição de Ulysses da Penguin-Companhia já está nas livrarias. No vídeo abaixo, o editor André Conti fala um pouco sobre o clássico de James Joyce:]

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Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.