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Dia do Tradutor

Hoje é Dia do Tradutor! Parabéns a todos estes profissionais, essenciais para a difusão da leitura pelo mundo.

Esta semana Ricardo Piglia veio ao Brasil justamente para falar sobre a relação histórica entre romance e tradução. Aproveite esta data comemorativa para ver a conferência na íntegra abaixo:

Aliás, as palestras comemorativas dos 25 anos da Companhia das Letras estão disponíveis na íntegra no nosso YouTube.

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Muito orgulho, nenhum preconceito

Por Alexandre Barbosa de Souza


Ilustração de Hugh Thomson para a edição de 1894 de Orgulho e preconceito.

Do outro lado do Canal da Mancha, em 1827, Stendhal escrevia no prefácio de seu primeiro romance, Armance:

“Em 1760, era preciso graça, espírito e não muito humor, nem muita honra para ganhar o favor do senhor e da senhora. É preciso economia, trabalho obstinado, firmeza e ausência de qualquer ilusão para tirar partido da máquina a vapor. Essa é a diferença entre o século que acabou em 1789 e o que começou por volta de 1815.”

De fato, como observou Antonio Candido em “O personagem de ficção”, se o romance do século XVIII eram basicamente histórias complexas sobre personagens simples, na virada para o século XIX, e depois para este que passou, o que veremos são histórias de enredo relativamente simples, com personagens complexas. Elizabeth Bennet, a heroína de Orgulho e preconceito, é talvez a primeira dessas personagens complexas. Também Mary McCarthy, na famosa entrevista à Paris Review, conta que dividia os romancistas modernos em duas colunas: “razão” e “sensibilidade” — e se incluía, ao lado de Jane Austen, na primeira coluna. Essa “ausência de ilusão” parece ser a clave de toda a prosa de ficção bem escrita desde então no Ocidente.

Do ponto de vista da fatura do texto, trata-se de uma muito bem dosada têmpera de três elementos: narrador onisciente, cartas e diálogos. O narrador não interfere, e apenas no último capítulo se declara nominalmente um “eu”, num longo período, ironizando a mãe das cinco Bennet girls. A julgar pelo tom cômico, epigramático, isso bem podia ter sido escrito hoje em dia:

“Eu gostaria de poder dizer, em benefício de sua família, que a realização de seu mais profundo desejo de casar tantas filhas tivera efeito tão feliz a ponto de torná-la uma mulher razoável, afável e bem informada pelo resto da vida; mas pode ter sido sorte do marido, que talvez não soubesse apreciar uma felicidade doméstica tão incomum, que ela ainda fosse eventualmente nervosa e invariavelmente fútil.”

Quando me propuseram traduzir Pride and prejudice, aceitei na mesma hora. Primeiro, porque o senhor Bennet — espirituoso e bonachão — me lembrava muito o meu falecido pai (Darcy se refere ao dele, também falecido, como “meu excelente pai”); segundo, porque minha única outra experiência de tradução de obra do século XIX havia sido o Moby Dick, o grande romance americano. Além do mais, era uma oportunidade de me colocar na estante ao lado do genial Lucio Cardoso, que havia traduzido, em 1940, o romance de Austen para a editora José Olympio: o primeiro volume da coleção Fogos Cruzados era a tradução que eu lera ainda adolescente, onde eu tinha tudo anotado a lápis. Mas meu principal motivo, no entanto, era a sensação de que Lucio Cardoso teria deixado de lado algumas especificidades dos personagens de Austen: no original, o senhor Collins era ainda mais ridículo e retórico; Lady Catherine devia soar mais solene e imperativa; a declaração de Darcy podia ser mais intempestiva, a carta, mais elevada — mas, sobretudo, a senhora e o senhor Bennet precisavam de mais humor no tratamento, e Lizzy era obrigatoriamente mais moderna, direta e sagaz.

O fato é que quando me perguntavam o que eu estava fazendo, naqueles três meses de trabalho em que praticamente não saí de casa, eu respondia com orgulho — “Traduzindo a Jane Austen” — e só recebia da parte dos meus amigos o preconceito que este livro enfrenta desde sua publicação em 1813. Só encontrei a devida admiração entre minhas amigas mulheres e amigos gays, que se dispuseram inclusive a ler as mais de quarenta cartas traduzidas, antes da entrega do serviço.

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Alexandre Barbosa de Souza é tradutor e autor dos livros Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro(Hedra, 2004) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003).

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No vídeo acima, Raquel Sallaberry, do JaneAusten.com.br, fala um pouco sobre Orgulho e preconceito, que a Penguin-Companhia acaba de lançar. O livro é super conhecido e elogiado, mas, junto com outros clássicos respeitados, às vezes entra para aquela lista de obras cuja leitura postergamos eternamente.

Dito isto, nós queremos saber: por que você não leu Orgulho e preconceito ainda?

Deixe sua resposta nos comentários até as 23h59 do dia 12 de julho. No dia 13 sortearemos 2 comentários, e seus autores ganharão um exemplar do clássico de Jane Austen pela Penguin-Companhia.

Orgulho e preconceito é uma história de amor das mais lindas já escritas.

Difere das obras românticas tradicionais porque não tem mocinho e bandido, dama indefesa ou herói galopante, na verdade o que mais envolve o leitor é justamente os personagens serem “gente como a gente”, vivem em outra época sim, mas simplesmente erram e acertam, amam e deixam de amar e amam de novo… como todos fazemos na “vida real”.

O mais interessante em O&P é, na minha opinião, a forma como Jane Austen descreve a sociedade de sua época com todas as suas particularidades, incorporando a essa história uma protagonista forte, de personalidade, certa de suas escolhas mesmo quando erradas, uma personagem feminina à frente de seu tempo.

A relação de Lizzie e Mr. Darcy é cheia de encontros e desencontros, mal entendidos e sentimentos conflitantes, é uma história extremamente real, plausível porém, como ficção que é (e onde cabem nossos mais loucos desejos), tem o final feliz que toda mocinha romântica poderia um dia desejar.

Jane certa vez disse que suas personagens têm sua cota de sofrimento mas que sempre daria a elas o final que merecem: repleto de felicidade.

— Gisele L. Cano de Oliveira, São Paulo/SP

Orgulho e preconceito é uma obra prima não somente por causa de Darcy, Elizabeth e suas constantes disputas. Jane Austen se preocupa com cada detalhe da trama, desde os cenários, os personagens secundários até os costumes sociais; o ambiente é tão bem construído que durante gerações leitores têm viajado para o século XVIII através das palavras e essas continuam vivas atualmente.

— Bárbara Garcia, São Paulo/SP

Como acontece com muita gente, Pride & prejudice (Orgulho e preconceito) foi o primeiro livro que eu li de Jane Austen.  Na minha adolescência, eu entrei para uma estatística que eu calculo que deve ser baixa: não apenas eu amava literatura, paixão transmitida pelo meu avô que havia sido educado em Coimbra, como adorava os clássicos e PRINCIPALMENTE Machado de Assis, que eu considero meu primeiro mestre na vida.  Foi por causa dele, por exemplo, que eu entrei um dia aos 19 anos em um sebo chamado Berinjela, no centro do Rio, e comprei um livro da coleção “Harvard Classics” que continha dois romances: A sentimental journey through France and Italy (Viagem sentimental através da França e da Itália) do Laurence Sterne, um dos autores favoritos de Machado, e… ele mesmo: Pride & prejudice, de Jane Austen.

Àquela altura, eu já tinha ouvido falar de Austen, mas como aqui no Brasil não se estuda muito literatura inglesa no segundo grau, ainda não tinha lido nenhum livro dela.  Pois bem: resolvi começar a leitura deste livro (que eu tenho até hoje) pelo segundo título.

É claro que assim que eu botei o olho na frase de abertura — “It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife” (É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro de posse de uma grande fortuna deve estar procurando uma esposa) — não consegui mais desgrudar do livro. Quando acabei a leitura, eu me lembro que fiquei tão triste — embora o final seja feliz — que eu tive que voltar para reler alguns passagens, rindo sozinha comigo mesma — minto: rindo junto com Jane. Depois, tive que ler as críticas e uma biografia xôxa que a minha edição trazia. Depois, nunca mais parei de ler Jane Austen, comprei outros romances, outras edições, li outras biografias. O fato é que não se sabe nem como nem por que Jane Austen tem o poder de escrever evidências. Verdades universalmente reconhecidas.  Só que parece que outros não viram ou não conseguiram expressar essas verdades da maneira como ela fez.

O que eu acho mais interessante de O&P é que mexe com o imaginário das mulheres até hoje.  Trata-se de um conto de fadas basicamente — a personagem principal, Elizabeth Bennet, é a própria Cinderella, as irmãs do Bingley são as irmãs malvadas da Cinderella e a sua família e sua casa são eternos ratinhos e sua abóbora, que nunca se encantam, hora nenhuma do dia. Ora, ocorre que assim como nós, mulheres emancipadas e modernas, Lizzy Bennet não tem fada madrinha, ela tem que improvisar e se virar sozinha. E não apenas ela vai ao baile e encontra um príncipe. Ela vai ao baile e encontra um ser que possivelmente é a pessoa mais arrogante, orgulhosa e preconceituosa do mundo. Ocorre que ESTA PESSOA vem a ser o tal príncipe, o que mostra que o mundo não é fácil, os relacionamentos não são fáceis e tudo o que parece ser não é. Esse é o mote principal do livro que, aliás, na sua primeira versão, quando Jane começou a escrevê-lo, chamava-se “First impressions” (Primeiras impressões). Acho sensacional o modo como ela transforma uma história basicamente simples em uma complicada comédia de costumes.

Li que Jane começou a escrever O&P (ou “First impressions”) alguns meses após a separação de um possível pretendente. No inverno de 1795-6, há registros de uma possível ligação amorosa entre Jane Austen e Tom Lefroy, sobrinho do Reverendo George Lefroy de Ashe, mas é possível que a família de Lefroy tenha visto nessa aproximação um perigo, já que ambos não tinham dinheiro, e o mandado de volta para Londres.  Essa breve ligação foi tema do filme Becoming Jane (2007), com Anne Hathaway e James McAvoy nos papéis principais.

Se essa história é verdadeira ou não, e se Jane de fato se apaixonou por Tom , é impossível dizer. Mas depois que eu li sobre isso fiquei pensando se O&P seria uma espécie de “resposta” de Jane a sua situação. E que resposta!

— Marcia Caetano, Rio de Janeiro/RJ

Aos 15 anos de idade, descobri Jane Austen. Minha mãe já tinha lido e apreciado tanto a obra-prima quanto o romance Razão e sensibilidade dessa autora e, por isso, incentivou-me a travar conhecimento com seus livros. Uma vez que tenho gostos literários muito parecidos com os de minha mãe, iniciei a leitura de Orgulho e preconceito, certa de que também gostaria muito de tal obra.

Apesar de já ser uma grande fã de costumes e histórias antigas, encantar-me com o mais famoso romance da mais renomada escritora britânica não me ocorreu de imediato. De fato, não senti qualquer entusiasmo em relação aos personagens, situações e acontecimentos apresentados nos primeiros capítulos; a partir de um dado ponto da trama, contudo, toda a minha percepção acerca do romance se alterou. Os diálogos estabelecidos entre os diferentes tipos humanos, as descrições de seus hábitos e sentimentos, bem como a divertida ironia de Austen, começaram a exercer um fascínio inexplicável sobre mim, levando-me a ler com imenso prazer cada página do livro. Ao terminar Orgulho e preconceito, decidi conhecer as demais obras da autora e, assim, li outros cinco romances seus.

Atualmente, digo com grande orgulho que Jane Austen é minha escritora favorita e que todo aquele preconceito que eu nutria em relação a ela foi convertido em um amor incondicional.

— Karen Monteiro de Lima, 21 anos, Campinas/SP

A outra volta da volta do parafuso

Por André Conti

Acho que não tem coisa pior do que saber que você vai perder um trocadilho ou uma informação quando se edita um livro estrangeiro. O jogo de palavras está lá, você reconhece o significado, mas não há maneira de dizer aquilo em português. E aí toca explicar tudo em nota de rodapé: você perde a graça mas não perde a piada. Para quem já contou uma piada e teve que explicá-la na sequência, a sensação é a mesma.

Pior é quando não se pode recorrer ao rodapé. Estou fechando agora o Asterios Polyp, quadrinho brilhante do David Mazzucchelli que publicaremos esse ano. É um livro com uma estrutura muito rígida, cheio de paralelismos ocultos, detalhes reveladores, um troço realmente extraordinário. O Mazzucchelli, que é um sujeito detalhista e obsessivo, passou anos trabalhando no Asterios. E nós demoramos mais de um ano para conseguir contratar o livro e convencê-lo de que faríamos uma edição de qualidade. Ele só topou quando viu o Jimmy Corrigan.

De modo que foi com certa dose de pânico que enviamos o PDF para aprovação do autor. Como o livro será impresso no exterior para garantir a fidelidade das cores, os prazos não podem ser prolongados. Se ele detestasse, só poderia fazer o que faço melhor: chorar.

Foi um dos e-mails de aprovação mais bacanas que já recebi. Ele gostou do resultado, felizmente, mas fez umas tantas observações. Palavras que precisam se repetir em determinados momentos, uma gravata do Asterios que saiu sem cor, uma cena em que a fonte precisa ir gradualmente do itálico para o redondo. O grau de atenção confirmou o que eu achava: Asterios Polyp é um trabalho sério, pensado em todos os detalhes, e não uma obra do acaso. Mesmo que o leitor não perceba o artifício, ele está lá.

O que eu não imaginava é que ele fosse dar falta de uns trocadilhos. Há três momentos intraduzíveis no livro, jogos de palavra e sentido que simplesmente não acontecem no português. Dois não são graves e passam despercebidos. Mas um deles penalizou demais a mim e ao tradutor, o Daniel Pellizzari, e acabou ficando em inglês. Quando o livro sair, vou escrever de novo sobre o assunto e entro em detalhes. Basta saber que o Mazzucchelli foi compreensivo. O que não diminui em nada a nossa dor.

No título é pior ainda. Eu não estava aqui quando publicamos o Mystic RiverSobre meninos e lobos, mas posso imaginar as discussões infinitas. O Gone, baby, gone ficou em inglês mesmo, mas o filme se chamou Medo da verdade. O próximo Javier Marías se chama Los enamoramientos. Boa sorte ao editor.

Esses dias peguei duas situações curiosas na Penguin. Vamos lançar agora A outra volta do parafuso, clássico de terror do Henry James. O livro se chama The turn of the screw, mas em português pode ficar ambíguo: a volta do parafuso? Para onde ele foi? Aqui, o livro sempre se chamou A outra volta do parafuso, mas queríamos resgatar o título original. Preparamos o material promocional, enviamos aos livreiros, imprimimos o folheto de divulgação.

Eis que minha chefe aparece com um livro de diálogos entre o Ernesto Sabato e o Borges, onde eles falam sobre Henry James. No meio da conversa, o Borges elogia a solução espanhola para o título: A outra volta do parafuso. Quem somos nós para discordar do homem? Voltei atrás, rabo entre as pernas, e o livro ficou com o nome aprovado pelo Borges. Mas o material de divulgação já tinha sido enviado. Minhas desculpas ao bom povo que vai ter de recadastrar o título nos sistemas das livrarias.

A outra foi com o Oscar Wilde. Vamos fazer um volume com três peças, entre elas a famosa The Importance of Being Earnest. O título em si é um trocadilho: Earnest é tanto o nome de um personagem da trama quanto um adjetivo, que significa alguém “sério, ativo, diligente, atento, cuidadoso, sincero, convicto etc”. Usamos uma solução mais ou menos consagrada no título: A importância de ser prudente. Mas, olhando a capa final, bateu a dúvida? Esse “prudente” entra como adjetivo (e, portanto, em minúsculas) ou nome?

O padrão inglês e americano deixa o título inteiro em maiúsculas, o que preserva a ambiguidade. Pensamos, pensamos, discutimos, consultamos: nada. E, como bem notou meu chefe, a solução estava na nossa cara. A peça vai se chamar A Importância de Ser Prudente, em maiúsculas e minúsculas, fora dos padrões da editora. Dói demais, eu sei. O que a gente não faz pelos leitores?

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

Liberdade à propinquidade

Por André Conti

A convivência com tradutores é muito importante para o dia a dia na editora. Conhecer os gostos, estilos, manias e defeitos de cada colaborador é a melhor maneira de saber com que tipo de livro ele vai se dar bem. Há tradutores com mão para livros teóricos, biografias, ensaios. Outros que se dão bem exclusivamente com ficção. E mesmo em cada gênero, há subdivisões: se for uma ficção labiríntica e enciclopédica, vai para um tradutor. Se for mais lírica e poética, outro. Se for urbana, carregada em gírias, de diálogos ágeis, um terceiro. Isso sem falar em poesia, divulgação científica etc.

Há tradutores especializados — que trabalham com apenas um autor, por exemplo —, e outros que transitam por diversos idiomas e gêneros. Ninguém vem com bula, infelizmente, e descobrir o estilo de cada tradutor é algo que leva tempo. E por mais que troquemos e-mails, telefonemas e nos encontremos, é só na leitura de uma tradução que essas características se tornam mais evidentes.

De modo que, quando passei o Liberdade, premiado romance de Jonathan Franzen, ao Sergio Flaksman, sabia que a tradução ia ficar boa. Trabalho com o Sergio há quase seis anos — todo meu tempo de editora —, e sei o quanto ele se dedica a cada livro. E o Sergio já encarou o As correções, romance anterior do Franzen, e conhece os cacoetes do autor, os parágrafos intermináveis, os trocadilhos intraduzíveis.

Mas eu já tinha lido o Liberdade no ano passado, e sabia que ia dar um trabalho imenso. A cada parágrafo, dezenas de orações coordenadas sem conectivos, caminhões de pronomes e advérbios, um fuzuê de nomes científicos de aves e plantas. Fora a trama, que avança e volta no tempo, muda de tom, o diabo. E o tradutor, além de se preocupar com tudo isso, ainda precisa traduzir o livro em si: acertar a voz do narrador, a cadência das frases, o jeito de falar de cada personagem, o senso de humor, o drama. E descobrir como diabos se chama um cerulean warbler em português. Pra mim, é tudo “passarinho”.

Quando recebi a primeira parte da tradução, alívio. O Sergio acertou a mão no livro, estava tudo lá. As várias armadilhas que me deixaram sofrendo por antecipação haviam sido resolvidas. Tanto que, nessa segunda leitura, passei a gostar ainda mais do livro, me envolvi com os personagens, enchi o saco de deus e o mundo falando da Connie Monaghan, minha coadjuvante favorita. O texto tinha passado pela preparadora, então li a tradução acompanhada das sugestões e dúvidas dela. É uma negociação tripla: a voz do autor, as opções do tradutor, a leitura da preparadora. Experimente acordar indeciso.

As pessoas costumam associar edição à correção de erros gramaticais e ortográficos, mas a verdade é que os tradutores derrapam muito pouco na gramática e na ortografia. Algumas coisas de sentido acabam passando — ainda mais num livro de seiscentas páginas —, mas o grosso do trabalho é adequar o texto ao original. Uma tentativa (eternamente frustrada) de recriar em português a experiência que o leitor do original teve. É necessário, portanto, adaptar o vocabulário e a sintaxe: as palavras precisam pertencer ao mesmo universo semântico, ou seja, a frequência de uso na língua e o significado precisam ser os mais próximos possíveis, e o registro do narrador tem de ser o mesmo.

É aí que as pessoas discordam, claro. São envolvimentos diferentes com o livro. O tradutor passa meses debruçado, faz pesquisas, consulta colegas e amigos, recorre centenas de vezes ao dicionário. O preparador tem três, quatro semanas para cotejar o original, ver se o tradutor não pulou alguma linha, checar nomes de pessoas, lugares, manter a coerência interna do texto, acertar pontuação, levantar dúvidas, descobrir o nome do cerulean warbler (é mariquita-azul). E o editor tem duas semanas para ler as duas versões (integradas num mesmo documento de Word), bater com o original, resolver e levantar dúvidas, importunar um monte de gente.

Mas a diferença de tempo não se traduz numa escala de propriedade sobre o texto (partindo do pressuposto que o texto é do autor). E todos esses leitores, e mais os dois revisores, apontam questões pertinentes, bolam soluções miraculosas, fazem essa e aquela frase funcionar direitinho. Mas também podem errar, se confundir e perder referências, portanto essas leituras precisam se complementar de alguma forma, atendendo ao original. É um processo quase sempre pacífico, mas aqui e ali as visões sobre o texto simplesmente não batem. Quantas amizades não foram ceifadas pelo mais antigo (e pertinente) dos argumentos: “Esse personagem nunca falaria assim.”

Terminei a leitura mas senti que tinha deixado passar alguma coisa, então pedi à Maria Emilia, diretora editorial e fã do Correções, que lesse também. Enquanto isso, o Sergio relia o texto com as minhas anotações e as da Lenny, a preparadora. No fim, incorporei as sugestões do Sergio e da Maria, repassei as emendas, e esse é o texto final. Gostei demais do resultado: todo mundo se envolveu e foi atrás de soluções que dessem conta de um original denso — a história se passa ao longo de quarenta anos — e intricado, já que as próprias vozes dos personagens vão sofrendo mudanças ao longo da narrativa.

Nesse meio tempo, continuei conversando com o Sergio, que além de colaborador de longa data da editora, é também meu amigo. Já fizemos altas caminhadas pelo Rio de Janeiro falando de ficção científica e edição de dicionários (ele foi da equipe original do Houaiss), mas também já tivemos vários arranca-rabos de trabalho. O Sergio é muito zeloso de suas traduções, um pouco territorial às vezes, e briga até o fim quando acha que está certo. Numa das trocas de e-mail, ele desconfiou que a Maria ia mudar uma palavra em específico, a temida “propinquidade”, que significa “proximidade”, e que gerou uma longa e aguerrida discussão por e-mail.

O argumento do Flaksman era que “propinquity” era tão obscura e pouco utilizada em inglês quanto “propinquidade” é em português. Isso é um problema comum: o inglês tem mais vocábulos, o que o torna uma língua bastante específica, e somos obrigados a recorrer a termos mais abrangentes. Nesse caso, não havia consenso. Caí na besteira de apontar que, no Google, havia apenas oito mil ocorrências para “propinquidade”, enquanto “propinquity” batia nos duzentos mil. Claro que não se decide uma coisa dessas pelo Google, estava só tentando apontar um dado, enfim, mas claramente escolhi a hora errada e sobrou pra mim também.

Nem sempre é fácil encarar tudo profissionalmente, então ainda trocamos uns tantos e-mails de paz — o meu era bem cafona —, sobretudo porque estávamos apenas fazendo nosso trabalho. No volume final, nada disso estará aparente. Para quem lê, espero, prevaleceu o Franzen, e o livro tem engenho o suficiente para obscurecer esse trabalho todo. Outros colegas da editora já estão lendo e gostando, e todos os comentários foram sobre os personagens (“Pobre Walter Berglund!”) e sobre a história — ninguém se importa com nosso sofrimento. E quem chegar mais ou menos na metade do livro vai se deparar com a inexorável propinquidade, claro. Às vezes você ganha, às vezes você perde.

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O Método Yusa Para Tradução de Quadrinhos

Por Érico Assis

Ingredientes necessários:

  • Cópia impressa da HQ; no caso, Wilson, do Dan Clowes;
  • Um personagem principal falastrão e nada a ver com você, tradutor;
  • Uma esposa entediada em licença-maternidade;
  • Um amigo com dose apropriada de cinismo para interpretar falas e personalidade do personagem principal.

Primeiro, traduza o livro. É fácil: é só transformar as palavrinhas em inglês em palavrinhas em português.

E tentar garantir que as frases soem bem em português. E mudar a ordem das frases, ou uní-las, para soarem melhor. E procurar sinônimos quando aquela sua primeira opção de palavrinha traduzida não parece equivaler à frequência de uso da palavrinha original. E entrar em desespero quando você sabe que existe uma palavrinha (ou expressão) melhor para aquilo em português, e você não sabe em que parte do seu cérebro está, mas sabe que está lá, e nenhum dicionário (de tradução, de inglês, de sinônimos, analógico) ajuda. E deixar essas palavrinhas difíceis para trás, com um highlight acusatório da sua memória deficiente, torcendo para que a opção mais apropriada surja depois de uma ou duas noites de sono, ou antes do deadline chegar. E, durante o processo, ler algum outro livro com personagens ou temas similares, preferencialmente original em português, para se inspirar.

Objetivo: ter uma versão em português dos diálogos, por mais esboçada que ainda seja. Tempo estimado: mais ou menos um mês, se estiver em meio a outros projetos de tradução.

Depois, aguarde momento máximo de tédio da esposa de licença e chegue com os apetrechos: o livro e um pacote de post-its. Esposa agradece oportunidade de parar de reler O que esperar enquanto você está esperando e de assistir novela. Faz relações entre a proposta do marido e arte contemporânea. Pensa em colar post-its somente sobre os balões de personagens femininas e levar o gibi para uma galeria, onde será interpretado como uma denúncia da sociedade machista. Marido diz arrã, mas que por favor ela coloque post-its sobre todos os balões do gibi, sejam de machos ou fêmeas. São apenas 80 páginas e menos de dez balões por página.

O resultado deve assemelhar-se à foto no topo do post. Tempo necessário: duas noites de tédio da esposa.

Convide o amigo com dose apropriada de cinismo. Explique que está traduzindo livro onde personagem principal é basicamente ele, seu amigo. Mas seja gentil: diga para o amigo que é porque ele tem um “vocabulário interessante”. Resista em dizer que o personagem do livro é este seu amigo, no futuro. Importante: seu amigo não deve ter lido o livro previamente.

Parênteses sobre meu amigo Yusanã Mignoni: quando eu e a Marcela estávamos no auge da gravidez, ele fez a gente ver esta foto. Também ronda os comentários aqui do blog, causando discórdia. É um cinismo divertido, assim como o do Wilson. Mas, diferente do Wilson, ele faz alguma coisa. Na verdade, algumas coisas: escreve, fotografa, compõe. E é uma das melhores pessoas para conversar sobre tudo aqui no reino de Chapecó. Fora ter esse nome sensacional. Em homenagem a ele, chamo este de Método Yusa Para Tradução de Quadrinhos. Fecha parênteses.

Com o livro post-it-zado nas mãos do amigo, comece a ler as frases em voz alta a partir do seu roteiro traduzido, enquanto ele acompanha os quadrinhos com os balões tapados. Leia a página uma vez para ele entender a piada ― Wilson é uma reunião de histórias de uma página, sempre com punchline, que formam uma história maior ―, e outra para ele avaliar se o personagem falaria mesmo daquele jeito. Repita o processo a cada página. Quando achar interessante, peça para ele interpretar o personagem a partir das suas falas traduzidas.

Rende várias alterações no texto. São três os objetivos: eliminar o terceiro código (aquelas traduções ruins, onde parece que você vê o texto original aportuguesado toscamente), fazer o texto fechar com as imagens e evitar que o editor mexa demais no seu trabalho, sob o pretexto de “você acaba percebendo um monte de problemas quando coloca o texto nos balões”. Tempo estimado: três madrugadas. Peça pizzas.

Resultado esperado: diálogos que façam jus, em português, aos criados por Dan Clowes. E ― até que se invente um software para tradução direto nos balões ― um experimento para descobrir a melhor forma de traduzir quadrinhos. Aguardar de seis a dez meses para retorno do editor. E de vocês, leitores.

[Wilson tem lançamento previsto para o começo de 2012.]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/