tradução

Je m’accuse!

Por Caetano Galindo

Oops! - Part II
(Foto por Kyle May)

Thomas Pynchon espaça bem seus lançamentos. Tem levado coisa de sete anos (mas já chegou a dezessete!) para entregar mercadoria nova. Também pudera. Os livros tendem a ser grandes. E complexos. E muito.

Daí a surpresa geral de mercado e leitores quando em agosto de 2009, menos de três anos depois de seu maior romance, o lindo Against the day [Contra o dia], ele solta obra nova. Ainda mais estranho: o tal do livro nem chega às quatrocentas páginas.

Fora isso, muito mais parecia estranho: o ritmo mais acelerado, que quase implora por uma adaptação para cinema (já antevejo os irmãos Coen, até já tenho meu elenco preferido); a retomada de temas e ambientes de Vineland (seu livro mais subestimado… e justo aquele, o dos dezessete anos); a reedição da ideia da cruzada de um homem (ou mulher) sozinho contra as conspirações mais e mais enredantes do “sistema”, que já dava o tom de O leilão do lote 49; a formação, assim, de uma espécie de família dos três menores livros do autor (juntos eles não têm o tamanho de Contra o dia)…

Pynchon light, disseram.

Pode ser. Mas pode ser que não…

Aí, para completar a estranha saga daquele Vício inerente (tinha dito que era esse o nome do livro misterioso?), ele se torna o primeiro Pynchon em muitos anos a não ser traduzido aqui entre nós por Paulo Henriques Britto, que, não é novidade para ninguém, é o tradutor que todo mundo quer ser quando crescer.

Bobeia daqui, vacila de lá: o livro cai na minha mão.

Traduzir Pynchon dá bem mais trabalho do que o normal. Mas, amigo, diverte como poucos outros trabalhos.

De um lado, o famoso autor recluso, inencontrável, com quem você não pode bater tranquilos papos sobre o livro. De outro,

(Bom, parênteses: entre os dois lados vem o mundo aloprado pynchoniano. Onde nosso Dom Quixote — Doc Sportello — se une a Sancho — Sauncho mesmo — para investigar um assassinato que acaba por revelar todo um mundo subterrâneo de dentistas mafiosos (eu sabia!), conspirações cósmicas, Jesus Cristo sobre as ondas, obsessões hippongas com os hábitos de higiene do Pato Donald, luz negra, Charlie Manson, maconha, zumbis, surf music, cassinos, chefões italianos que em seus momentos de maior fúria mandam as mammas ficarem paradas diante dos inimigos, fazendo cara de censura… mas é que isso não tem tanto como o tradutor estragar.)

De outro lado, então, o domínio absoluto da técnica narrativa que o cara sempre demonstrou, e só vem aprimorando; o fato de que vira e mexe alguém começa a cantar, ou a ouvir no rádio as músicas mais doidas, com as rimas mais insanas; a necessidade de não pôr a perder chaves que podem estar escondidas nos menores detalhes; e ainda a presença até numerosa de palavras portuguesas no original!

O fato, afinal, de que traduzir é sempre escrever.

E traduzir Pynchon é escrever Pynchon, é entender e adentrar seu mundo, de um humanismo doloroso, de piração, paranoia, piada, paródia e pungência, tudo, rigorosamente, ao mesmo tempo. E tudo, aqui, movido a canabinol, para dar aquela intensificada.

É entrar um pouco mais fundo do que o leitor comum na cabeça do cara que possivelmente melhor representa a America (sem acento), ou que a representa mais amplamente: ridícula, funda, viciada, poderosa, amedrontada, pateta. E ao mesmo tempo dar um jeito de fazer aquele mundo conversar com o nosso, com o teu.

O Brasilzão já presente naquele restaurante O Cangaceiro em que Doc toma cachaça com um homem morto.

O Brasil que me parece ter tanto que ver, que se ver, no espelho bagunçado de Thomas Pynchon; mas o Brasil em que ele ainda não encontrou a repercussão que merece.

Fui lá e fiz.

O melhor que pude, com mais amor que o normal, porque desejaria que esse livro, apesar de tudo (e dos sapatos imensos que eu estava tendo que temporariamente preencher), chegasse mesmo mais longe.

Porque agora, veja só, eu já não sei.

Aquele Pynchon light, pelo contrário, me parece mais um Pynchon destilado. Onde tudo se acumula em ponto menor.

Exatamente como o nosso Sportello, que é nanico (ele diz que o que lhe falta de altitude ele compensa em atitude). Mas acontece que aí, numa viagem psicotrópica, ele fica “sabendo” que vem de outro mundo, outro tempo, em que a expansão do universo estava apenas começando; logo, aqui na Terra, seu corpo parece mais compactado, mais denso, na verdade. E ele pode se ver como um super-homem de um metro e meio.

A única certeza é que, light ou destilado, sempre acabamos recorrendo a esse imaginário de vício para falar de Pynchon. De um jeito ou de outro, Pynchon cria dependência. Seus leitores tendem a se tornar seguidores apaixonados. E, pelo menos até chegar a minha mão, este livro só podia aliciar mais gente. Mais intensamente até.

Malhei o texto? Tomara que não demais. Tomara que o efeito tenha se mantido.

Aliás, veja lá o título.

Aquele vício nem é em drogas, mas um termo jurídico para uma fragilidade incontornável de certas mercadorias, não coberta em contrato. Você compra dez contêineres de lâmpadas, 113 chegam quebradas; nem reclame, faz parte.

Ao ler um livro traduzido, a metáfora cabe à perfeição. Nem tudo se salva, vício inerente.

Mas e algo se ganha?

Bom… depois você me avisa?

[Assista ao trailer do livro Vício inerente, narrado por Thomas Pynchon.]

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Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.

Os ensaios de Michel de Montaigne

Por Rosa Freire d’Aguiar

Um dos ensaios mais importantes de Montaigne chama-se “Dos canibais”, inspirado no encontro que ele teve, em 1562, com índios da tribo Tupinambá que foram levados das costas brasileiras para serem exibidos na corte francesa. O desenhista Tiago Judas usou um detalhe da gravura ‘Imagem dos brasileiros’, feita em 1551 por Ferdinand Denis, para compor a capa da edição brasileira.

Quando Matinas Suzuki me propôs traduzir Os ensaios – uma seleção para a coleção dos clássicos da Penguin que a Companhia das Letras ia lançar, não pestanejei, mas já no dia seguinte me flagrei matutando sobre o desafio de atrair o leitor de hoje para uma obra-monumento escrita no século XVI. Ler Montaigne (1533-1592) é prazeroso como uma aula de filosofia a cargo de um professor de vasta cultura, que enxerga nos mínimos gestos e pensamentos matéria para reflexão e indagação, mas que não pretende ser dono da verdade. O objetivo da tradução era levar o leitor a compartilhar o prazer de ler uma obra que permanece notavelmente moderna.

Primeira dúvida: qual texto traduzir? Não há uma edição definitiva de Os ensaios, que Montaigne foi modificando aqui e acolá, até morrer. Depois de alguns emails trocados com Matinas, nos fixamos na edição póstuma, de 1595, elaborada por Marie de Gournay. Essa jovem literata tinha 23 anos quando conheceu Montaigne, então com 55. Depois da morte dele, dedicou-se, a partir de um exemplar corrigido pelo autor, a um minuciosíssimo trabalho de revisão e incorporação das centenas de acréscimos feitos nas margens e entrelinhas ao fio das edições anteriores. É a primeira vez que se publica no Brasil a edição póstuma. É ela que leram os contemporâneos de Montaigne, e, mais tarde, Rousseau, Voltaire, Pascal e outros grandes intelectuais europeus. É também a edição que, desde 2007, se publica na prestigiosa coleção Pléiade da editora Gallimard.

Montaigne aprendeu a falar em latim, língua da elite culta, graças a um estratagema de seu pai, que só deixava perto do menino empregados versados, um mínimo que fosse, em latim, e um preceptor alemão que pouco falava francês. A influência do latim é visível na estrutura de Os ensaios, muito próxima da sintaxe latina. Há frases à primeira vista enigmáticas e que demandam ser decompostas e remontadas como peças de um quebra-cabeça. Montaigne escrevia ao correr da pena, sobre qualquer assunto, “até mesmo sobre uma mosca”. É considerado o inventor dos ensaios, esse gênero literário em prosa e sem regras fixas. Mas a soltura de seu pensamento o leva a inúmeras digressões, muito longas e nem sempre compreensíveis, dando a impressão de que faltou uma leitura final do conjunto da obra. Acrescentem-se às dificuldades da tradução os arcaísmos, os trocadilhos, e o fato de que as várias anotações feitas nas margens eram elípticas e provavelmente só eram claras para ele.

Montaigne usa e abusa dos dois-pontos, sinal a que se segue outra frase que, por sua vez, terminará em outro dois-pontos. Reconhecia ser “pouco especialista” em matéria de pontuação mas achava que a abundância de dois-pontos e pontos e vírgulas era uma forma de cadenciar o texto. Outra peculiaridade é a ausência de parágrafos: é como se cada ensaio fosse escrito de um só fôlego. Certas edições da obra abrem parágrafos, com critérios que parecem arbitrários e raramente coincidem. Decidimos manter a disposição original, e o mais possível a pontuação da edição de 1595, sem introduzir nenhum sinal gráfico desconhecido de Montaigne, como os travessões que aparecem em outras versões.

A aposta desta tradução foi encontrar o equilíbrio entre o respeito ao original e sua legibilidade para um leitor de hoje, sem sacrificar o entendimento do texto mas sem tampouco tomar muitas liberdades com ele. Foram sete meses de um convívio fascinante e permanente com Montaigne e com outros autores que escreveram sobre sua vida e obra. Agora é esperar que o leitor se embale no prazer da leitura desses Os ensaios tão atuais.

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Traduzindo Amós Oz

Por Paulo Geiger


Amós Oz (Foto por Bel Pedrosa)

Depois de traduzir para a Companhia quatro livros de Amós Oz, refiz meu conceito de que a boa tradução consiste em expressar num bom português aquilo que o autor expressara em sua própria língua. Aprendi que traduzir Amós Oz — e talvez isso valha para todo autor — é principalmente sintonizar com seus sentimentos, suas ideias e suas possíveis lembranças, entrar o mais possível em sua cabeça, seu coração e seu estômago, e escrever em português do mesmo jeito que ele escreveria se escrevesse em português.

Em Oz isso quer dizer, muitas vezes, relativizar “boas regras”, abrir mão de “textos redondos” para fazê-los ásperos e angulosos, nem sempre mantê-los fluentes porque são às vezes espasmódicos, não buscar coerência onde a incoerência é que prevalece.

Por exemplo:

Oz é repetitivo. Repete palavras, repete situações, insiste em certos termos, como uma nota em baixo contínuo; usa refrões, insiste em evocações recorrentes, porque assim acontece na vida e nas histórias que ele cria.

Oz mistura tempos verbais, o futuro como presente e até como passado, o presente como passado, às vezes num mesmo período, fazendo lembrar o estilo bíblico, mas sem a letra vav inversora da Bíblia, que faz o futuro valer como passado. O tempo gramatical em Oz é escravo, não senhor, do tempo literário. Um parágrafo pode começar tendo um sujeito como relator e terminar na voz de outro.

Oz nunca se refere a quantidades definidas, é sempre dois ou três, dez ou doze, porque a quantidade exata não é importante, os números só retratam conceitos, não quantidades.

Oz não dá importância a “continuísmos”, a trama não precisa ser coerente nos fatos, só na impressão que eles suscitam. Em Rimas da vida e da morte, um personagem é tio de um outro no início do livro, mas é primo no fim. Em Uma certa paz, uma mulher tem cabelos cortados curtos quando descrita pela primeira vez, mas os tem em bastas tranças que lhe coroam a cabeça “dois ou três” (à la Oz) dias depois. (Falei com o autor sobre o primeiro caso, ele respondeu que era proposital.)

Oz usa abundantemente a metáfora explícita, a comparação de situações com alternativas paralelas; as pessoas agem e as coisas acontecem “como que…”, “como se…”, ampliando a descrição do “real” com um substrato simbólico ou ilustrativo do “possível”.

As entrelinhas de Oz são quase tão poderosas quanto as linha escritas. Nelas habitam suas lembranças pessoais, os contextos históricos de Israel e do povo judeu, canções, poemas, lemas e slogans. Nelas se retrata a época, o lugar, o mood de uma geração.

Finalmente: em Oz, quem descreve a realidade (ou a máscara da realidade, como queria o teatro grego) não é o autor, mas seus personagens. São eles que dão o tom e a direção.

Por tudo isso, muitas vezes decidi comprometer a fluência, tão necessária na leitura de ficção, e acrescentar notas que permitissem ao leitor penetrar no mundo não visível mas tão presente na história, para usufruir do que é mais importante numa leitura, e fundamental em Oz: enxergar a totalidade do contexto, e nele ver um fragmento representativo do mundo e da humanidade.

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Paulo Geiger é fazedor de dicionários e enciclopédias há 45 anos, tradutor do hebraico há 55, mas recomeçando do zero com Amós Oz.

O homem que sabia albanês

Por Bernardo Joffily

Tinha eu 23 anos de idade quando iniciei, em 1974 — com a mulher e a filha de oito meses —, uma temporada de cinco anos na Albânia, como radialista na transmissão em ondas curtas da Rádio Tirana para o Brasil. Por aqui corriam os tempos do general Garrastazu Médici, e quero crer que a Rádio teve seu mérito ao falar aos brasileiros de temas proibidos como a Guerrilha do Araguaia.

Foi como tropecei no albanês.

Quase duas gerações mais tarde, as pessoas ainda se espantam ao dar com um tradutor — quero crer que o único na ativa — do albanês para o português. De vez em quando alguém não resiste à tentação de comparar-me ao personagem do delicioso conto de Lima Barreto. Respondo, com uma ponta de vaidade, que “o homem que sabia javanês” é café pequeno em matéria de línguas recônditas: ele aprendeu o idioma falado por 75 milhões de javaneses; enquanto meu albanês tem não mais que uns 3 milhões de falantes na Albânia, outros tantos em Kossova (que os brasileiros conhecem como Kosovo, na grafia meio arrevesada que nos chegou via sérviocroata e inglês), mais um milhão espalhado pelos Bálcãs e o mundo.

Pense nas línguas indoeuropeias como uma grande árvore. No meio dos numerosos galhos frondosos, há uma folhinha que sai diretamente do tronco, sem nenhum parente próximo. É o albanês: tão próxima do português como do persa, do russo ou do bengali. E ainda com declinações…

Gosto de supor alguma valia em meu trabalho de tradutor por servir de ponte, ainda que precária, entre dois pedaços de humanidade que se conhecem tão pouco.

A ponte só tem funcionado graças a Ismail Kadaré, o premiado romancista albanês que a Companhia das Letras publica no Brasil há duas décadas.

Foi de Kadaré o primeiro romance albanês que li, em francês, ainda a caminho de Tirana: O general do exército morto. Desde ali ele me cativou. Ainda pelejo para ver O general publicado no Brasil, pela primeira vez, não só por motivos sentimentais mas porque foi quem revelou aos ocidentais o talento kadareiano.

Kadaré costuma aparecer na “ala” literária que se poderia chamar de pós-Muro de Berlim, e teve seus 15 minutos de fama. Isso o coloca numa companhia que não merece: no século que vem duvido que alguém lembre dos outros da ala pós-Muro, se é que já não estão esquecidos, mas com certeza muita gente no mundo há de dar valor à obra tão albanesa e tão universal do autor do General.

É com gosto, portanto, que vou fazendo minha ponte, ou pinguela. A despeito de todas as distâncias e diferenças, temos em comum, brasileiros e albaneses, o fato de habitarmos de certa forma dois “cantos do mundo” — ainda que alguém possa se chocar com a noção de que o globo terrestre tem cantos. E um mundo sem cantos só terá a ganhar com traduções do albanês para o português. Ao nos aproximar e conhecer vamos sempre nos tornando mais… humanos…

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Bernardo Joffily é jornalista e fundador do portal www.vermelho.org.br. Traduz obras do inglês, francês, espanhol, italiano e em especial a obra do romancista Ismail Kadaré, do albanês.

Traduzindo Bolaño

Por Eduardo Brandão

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A construção da Torre de Babel, pintura em óleo por Hendrick van Cleve.

O tradutor, de certo modo, é um profissional das sombras. Não que se envolva nelas para, sorrateiramente, na primeira oportunidade, cravar um punhal traiçoeiro nas costas do autor, e de quebra ferir o coitado do leitor. Mas porque seu lugar, vamos dizer, funcional é à sombra do autor: é nesse que a luz incide, e deve incidir. É dele a obra. É ele o criador. É o nome dele que aparece na capa e na lombada. O do tradutor, geralmente, apenas na página de rosto, quando muito um editor mais generoso o põe na quarta capa.

Você talvez ache esquisito que, num mundo em que os holofotes parecem ser tudo, alguém opte por ficar à sombra. “Este cara — a esta altura você já percebeu que sou tradutor — deve morrer de medo de se expor!” Mas a gente se expõe sim. O que o tradutor leva de pancada você não imagina. Os italianos, com aquele seu veneno renascentista de que usaram e abusaram nas lutas pelo poder, pródigos nele foram os Bórgias, chegaram a cunhar um dito peçonhento: traduttori, traditori — tradutores, traidores. O autor comete uma passagem infeliz? O tradutor respira fundo e a reproduz: não cabe a ele corrigir o autor (salvo com o consentimento deste, se vivo: correção psicografada não vale). O leitor percebe a falha e não hesita: “este tradutor é um traidor!” Natural, depois de tantos séculos e tanta gente dizendo isso… Deve ter até quem ache que só existimos para atraiçoar o autor.

Mas não é essa nossa razão de ser, você sabe. Modéstia à parte: à sombra e tomando água fresca, o tradutor cumpre uma função imprescindível, a comunicação entre povos de fala diferente. A certa altura da Educação sentimental, Flaubert aponta que há homens que têm como missão servir de intermediários; você os atravessa como uma ponte, diz ele, e segue em frente. O tradutor é uma ponte assim, que leva o autor estrangeiro a seu leitor e vice-versa.

Voltando ao jogo de luzes e sombras. Faz uns anos, circulava com certa desenvoltura a ideia de que tradução é recriação, o que tornava de certo modo o tradutor um coautor. Isso pode ser verdade na poesia, onde o poeta que verte outro poeta cria um novo poema, de que o original é a matéria-prima. Para citar um pernambucano, é só ler as traduções do Bandeira. CQD.

Mas na prosa essa ideia é incabível, salvo em casos excepcionais. Nela, a tradução perfeita seria a que replicasse tal qual o texto original, criando como que um clone deste na língua do tradutor, feito aquela simpática ovelhinha, como se chamava mesmo, Dolly? Meta inalcançável, claro. Nessa impossibilidade, o tradutor, fixando sempre essa estrela guia, trata de se manter fiel a seu autor, à letra do seu texto, ao seu estilo.

Isso do estilo é uma questão muito séria. Outro dia mesmo foi levantada pelo Paulo Bezerra, esplêndido tradutor de Dostoiévski. Numa entrevista mostrava ele como as traduções antigas deformaram sua escrita: nossos tradutores verteram de segunda mão, geralmente das péssimas (isso o Bezerra não disse, digo eu) traduções francesas do XIX começo do XX, que edulcoravam a linguagem rude do russo genial. Bezerra a restitui, essa rudeza, como aliás as novas traduções que vêm sendo feitas na França. Às vezes, um autor de estilo enrolado, que o tradutor tem de respeitar, provoca novas lambadas no tradutor: “Eta tradução enrolada!” Nem passa pela cabeça do leitor que é uma característica do autor.

O tradutor, ao escrever sua tradução, se esforça por se anular como escritor. Pronto, lá vem você outra vez: “Não disse que este cara tem um problema? Acha o máximo se anular!” Acho mesmo, mas isso só mostra que o tradutor é um ser perfeito, além de sábio e inspirado. Não é pretensão minha, não, quem diz assim é uma máxima taoísta, e com taoísta não se discute, que eles sabem das coisas. Olhe só: “O homem perfeito não tem eu [o tradutor se anula], o homem inspirado não tem obra [ela é do autor], o homem sábio não deixa nome [quem deixa é o autor]”. Viu?

Bom, tudo isto vem à baila por causa de um autor que traduzo desde sua primeira obra publicada aqui (Noturno do Chile, em 2004): Roberto Bolaño. Só não verti uma, Estrela distante, que ficou aos cuidados do Bernardo Ajzenberg. Os refletores já tinham se acendido sobre Os detetives selvagens, a segunda a sair no Brasil, a qual demonstrava ser Bolaño um marco da literatura hispano-americana contemporânea. Este ano focaram-no a plena luz com o lançamento de 2666, que o confirma como um dos mais importantes autores do século XXI e que teve uma formidável repercussão, aqui e no mundo todo. Foi tanta luz, que até o tradutor saiu da sombra. (Fico imaginando como deve se sentir o bacurau quando o farol do carro bate em seus olhos.)

E tome telefonema e e-mails indagando sobre o mister de tradutor, sobre minhas traduções do Bolaño, sobre ele, sua obra, até artigo me pedem, como você está vendo.

Bem, já disse o que penso sobre meu ofício, como procuro exercê-lo e como é portanto o trabalho (prazer imenso) de traduzir Bolaño. Agora vou fazer que nem o bacurau: voar de volta pra sombra, vai que o carro me atropela…

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Eduardo Brandão traduz principalmente do francês e do espanhol, com predileção pelas literaturas espanhola e hispano-americana contemporâneas. Veja aqui as obras que ele traduziu pela Companhia das Letras.

[Este texto foi publicado originalmente no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco.]