valêncio xavier

Não há garantias

Por Joca Reiners Terron


Valêncio Xavier (Fonte: Gazeta do Povo)

Ontem à noite assisti ao documentário Procurando Sugar Man. É um filme surpreendente, que relata a vida de Sixto Rodríguez, obscuro compositor folk de Detroit, e a investigação promovida por um punhado de fãs sul-africanos para encontrá-lo. Como disse, a história é repleta de surpresas inestimáveis para a fruição do espectador que não pretendo contar aqui.

Enquanto acompanhava os depoimentos das pessoas envolvidas naquela busca, não pude deixar de relacionar alguns de seus aspectos à literatura. O primeiro, sem dúvida, é a contingência do fracasso inerente ao projeto literário, preponderante 99,9% na existência de todo desavisado que se arrisque a publicar. Rodríguez, que lançou apenas dois álbuns, diz uma frase lapidar no filme. Questionado se se surpreendera por seu primeiro disco não ter vendido nada, ele responde, conformado: “É o negócio da música, então não há garantias”.

Então não há garantias.

Até no bungee jumping há garantias.

Na criação literária não há, e muito menos em sua difusão. Assim como na música.

Mas agora falemos de esperança, dos 0,1% que movem todo criador. Essa merreca percentual equivale, no melhor dos mundos, aos cem leitores de Stendhal, e em casos extremos, ao papel que Max Brod cumpriu na carreira póstuma de Franz Kafka ao salvar seus escritos do fogo.

Esse é o segundo aspecto, portanto, a esperança de que o espírito daquilo criado se comunique com o espírito daquele que lê. Não estou falando de mesa branca aqui, mas quase. Na definição do uruguaio Mario Levrero, “a literatura é uma das formas possíveis de comunicar a outros seres uma experiência pessoal que caia fora das formas habituais de percepção”.

Fora das formas habituais de percepção.

O espírito de Kafka, portanto, comunicando-se com o espírito de Brod através do texto. O espírito de Sixto Rodríguez se comunicando através da música com o de Craig Bartholomew-Strydom, o jornalista musical que o procurou.

Reparem nas diferenças aí: Brod leu os originais de Kafka, que sem sua intervenção teriam desaparecido para sempre. Já Craig pôde ouvir as raríssimas gravações de Rodríguez, mas elas existiam, apesar de quase inencontráveis. Não fosse Brod, nada de Kafka existiria, a não ser o pouco que publicou em vida. E hoje existiríamos nós, sem Kafka?

Tive a breve felicidade de participar do resgate de um autor que afetou meu espírito, que me deu esperança e fé, quando publiquei em 1998 a novelinha Meu 7º Dia, de Valêncio Xavier, pela Ciência do Acidente, minha falecida editora nanica.

VX, vivo fosse, teria feito 80 anos no dia 21 de março. Conheci o seminal O Mez da Grippe por meio de outro espírito fiel, mais um 0,1%, professor da universidade que guardava a primeira edição do livro como se fosse a Clavícula de Salomão, o saudoso Zé Luiz Valero Figueiredo.

Tenho consciência, porém, que minha “procura de Valêncio Xavier” não teria resultado em nada se a Companhia das Letras, creio que na figura de Maria Emília Bender, não estivesse fazendo a mesma coisa. O lançamento de O Mez da Grippe e outros livros no mesmo ano permitiu que Cassiano Elek Machado — e pronto, a procissão aumentou — fizesse esta matéria na Folha, aumentando o buxixo.

Ao menos por um tempo.

Pois, como se sabe, fora das formas habituais de percepção não há garantias.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, será publicado dia 26 de abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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